nov 2011 24

Belo Monte não é apenas uma usina. Se Brasília sintetizou o imaginário progressista do Brasil dos 1950, Belo Monte faz isso para o século 21. Nele, condensam as forças políticas, as esperanças, as perspectivas e as cosmovisões. Saturado de argumentos, estudos, relatórios, mitos, panfletos, manifestos e imposturas, Belo Monte é palco para todos os personagens da ópera brasileira. É onde se disputa a nova ordem, o Brasil do passado e do futuro. É onde coalha o Brasil Maior dos megaventos e do Pré-Sal: a nação-potência, enfim alavancada ao porvir que seus orgulhosos filhos desfrutarão. É a forja do novo homem brasileiro . Como em Idade da Terra (1980), último filme de Gláuber Rocha, os vários Cristos (Negro, Índio, Militar e Guerrilheiro) e o  Diabo (Brahms) se debatem entre liturgias e orgias pela revolução brasileira. Tudo aí está em jogo: tensiona, range, dói, estala e borbulha.

Do Estado Novo ao 2º Plano Nacional de Desenvolvimento da ditadura cívico-militar, até o Brasil Maior no século 21, os governos brasileiros têm respondido à crise global com saltos de desenvolvimento. Em 1929, 1973 e 2008, ocorreu debaixo da bandeira do nacionalismo, num consenso entre esquerda e direita. Nas três ocasiões, a nação do futuro não poderia ficar para trás em seus grandes inadiáveis projetos de modernização. Todas as vezes, isso significou converter o mito no plano . Executar esse grande Plano exigiu comando forte e centralizado (Vargas, Geisel, Dilma). Um que consiga fabricar consenso, reunir esquerda e direita, a grande imprensa e o capital nacional-internacional e a governança financeira. E a partir desse esforço de engenharia política investir maciçamente, propagandear a esperança e equacionar sacrifícios (aos pobres) e dividendos (aos ricos).

De passagem, é preciso tomar distância de homens-mediadores que tentam se acoplar a projetos de poder. Mais problemático do que o governo Dilma estar construindo Belo Monte, é Belo Monte estar construindo o governo Dilma. Se, com toda a consequência, participo de alguma força menor agenciada ao evento Lula-Dilma, por que teria de me sentir compelido a subsumir-me à Dilma Maior? Não me refiro a ser a favor ou contra, mas à tendência, à predisposição quase moral de apoio e lealdade.

Desta vez, o governo promete minimizar a perda e democratizar o ganho: remover a pobreza e socializar o trabalho. Nesse sentido, Belo Monte só pode ser mesmo a última grande obra socialista, como escreveu o sociólogo Giuseppe Cocco. Isto à medida que o projeto socialista se realiza na transformação do mercado de livres capitais individuais em capital coletivizado pela planificação estatal. Com mão invisível e pulso firme, chega-se ao socialismo do capital que permite crescer a taxas chinesas — eis o nosso horizonte.

A síntese mística do futuro, portanto, não é discutida. Prevalece uma poética épica* grandiloquentemente wagneriana nas propagandas e discursos. Demais, impõe-se a dupla dialética: o curto e o longo prazos, problemas menores e maiores. E, com ela, certa métrica do desenvolvimento: como medir o valor, como quantificar perdas e ganhos, como produzir o homem.

Daí a pergunta não pode ser levianamente você é a favor ou contra a construção da usina?, nesse binarismo de vagas indignações e discussões de almoço de domingo. O caso é dramatizar: colocar o conflito e desenvolvê-lo em suas múltiplas vozes, sem deixar jamais de tomar partido.

Uma estratégia está em exasperar a indignação. Denunciar os abusos aos direitos humanos e ao meio ambiente. Provar por A + B dos malefícios incompensáveis. Listar opressões e convocar os yntelektuais para esgotar intelectualmente as perversidades cometidas. Desnudar as intenções verdadeiras do governo e seus aglomerados empresariais-financeiros, sua traição aos ideais de esquerda, sua impudente retórica de cartilha. Realçar como os povos da Amazônia, índios, caboclos, sertanejos e ribeirinhos são os coitados da história, literalmente tratorados de seu ecossistema e sem direitos. Ainda outra vez erigir o altar humanista e acusar esse mesmo homem por sua indústria desumana, contra as outras humanidades e a alma do mundo. Em parte, pequenos partidos e outros ainda sequer oficializados vêem aí oportunidade para desgastar a imagem do governo e capitalizar eleitoralmente as suas candidatas.

Outra estratégia, mais potente, consiste em construir a indignação. Elaborar uma cartografia das lutas reais. Orientar o carnaval, articular os movimentos sociais. Reelaborar uma antropologia natural, no perspectivismo do Brasil menor. É coordenar narrativas de outros mundos, outras humanidades, outros Brasis, multiplicando a resistência. Unidos menos pela natureza humana do que pelo homem como naturezas (no plural).

Mais do que isso, elaborar uma outra métrica, outro modo de medir, quantificar e valorar as relações sociais. Isto significa desprogramar o olhar, desmacetear a análise e passar a enxergar Belo Monte não só como produção de energia a partir da “natureza”, mas como a produção do próprio ser humano. Como se governa o acesso, a propriedade, a produção, a distribuição e a circulação dessa energia, como ela circula e se estrutura como força produtiva? Como se produz o comum artificial a partir do comum natural, quero dizer, o homem como naturezas? Aí, contra todas as utopias e progressismos, a diferença entre um ambientalismo fortemente commonista e os ecologismos metafísicos ou ecossocialismos exasperantes. Entre mortificar a indignação com apelos à má consciência e sacerdócios esquerdistas, — e alegremente construir a indignação, construir o comum, rir do poder e trabalhar na rede social de relações, ocupações, mídias, perspectivas e novos modos de viver e sentir e se relacionar. Em suma, constituir Brasis menores, minoritários, constituir o comum.

Belo Monte é nosso maior problema, seja na sua violência civilizatória como obra concreta aqui e agora, seja como prancheta messiânica, como alegoria e drama políticos. Mas o problema principal talvez não esteja propriamente na inocência do sofrimento, na violação da ecologia ou nas incongruências da matriz energética, — como insiste a maioria de seus opositores, com sólida argumentação, mas perspectiva desfocada.

Como escreveu Marx nos Grundrisse: “No ato da reprodução [da vida social] não se alteram apenas as condições objetivas, mas os próprios produtores se modificam, extraindo de si mesmos novas qualidades, desenvolvendo a si mesmos por meio da produção, se remodelando, formando novas forças e novas concepções, novos meios de comunicação, novas necessidades e uma nova linguagem” (p. 405 da ed. brasileira).

Talvez o problema principal esteja em como, — na afirmação de um outro Belo Monte, outra forma de governar e produzir, noutras palavras, na produção resistente de Brasis menores ou minoritários, — possamos reinventar o brasileiro, a nós mesmos em nossas infinitas naturezas humanas.

 

—————————

Recomendados:

Os paradoxos do desenvolvimentismo nos governos Lula-Dilma, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Discurso às nações indígenas, por Cléber Lambert, na Revista Fórum

Belo Monte e Jirau, por Rodrigo Nunes, na Revista Global Brasil

Belo Monte sob o signo dos direitos humanos, por Fabiano Camilo, no Coletivo Amálgama

A recriação anacrônica do imaginário desenvolvimentista, por Raúl Prada, em Horizontes Nómadas

50 Leituras sobre Belo Monte, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

Krysto Redentor, crítica de Idade da Terra, por Luís Alberto Rocha Melo, na Revista Contracampo

“Transformação” na antropologia, transformação da “antropologia”, conferência de Eduardo Viveiros de Castro, na revista Sopro 58

Dilma Rousseff e a encruzilhada do desenvolvimentismo, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

Comentários sobre Belo Monte, por Miguel do Rosário, no Óleo do Diabo

O faraó e a represa, ensaio neste Quadrado dos loucos

—————————

PS.

Substituí poética por épica em 25/11, 16:30, acolhendo comentário de uma leitora atenta: “(…) Se,para salvar a lírica deslumbrante, de Tristão e Isolda, fosse preciso ficar cem anos ouvindo só a Cavalgada das Walquírias, qquer pessoa que não fosse PERFEITAMENTE metida a besta, teria de aguentar cem anos de CW, só pra ter “Tristão e Isolda”. Então, meus amiguinhos, “uma poética grandiloquentemente wagneriana” é bullshit. Ainda se podia aproveitar alguma coisa se fosse “uma épica grandiloquentemente wagneriana”. Mas uma poética, isso, acordem, é outro departamento. (…)

 

nov 2011 28

Verbete elaborado para o dicionário político da Universidade Nômade, a ser lançado em breve. Sintetiza de maneira muito apertada (e dorida, para 6.000 toques) os dois artigos recentes sobre o tema: O comum organiza o direito e Recomeçar o direito no comum. No final, links e referências livrescas para começar nesse campo de estudos e intervenções.


Neste artigo, abordo o direito do comum de uma perspectiva nova. Aqui, novo menos como fetiche do absolutamente moderno do que como desejo de recomeçar. Estamos sempre recomeçando, afinal. O novo não vem do nada. O novo não substitui o velho, o reorganiza. O problema de um novo direito ou uma nova política consiste em como reorganizar as relações sociais. Reorganizar para tornar visível e dizível uma experiência do comum na sua imanência mesma.

O campo que se constitui sob a perspectiva do direito do comum participa da tentativa de formular e disseminar uma resposta à crise do capitalismo global e de seus mecanismos de governança, sua forma-estado e sua forma jurídica. A crise é campo de batalha. O direito do comum só faz sentido como recusa. Uma recusa ontológica à subjetividade do poder constituído, que responde à crise superdimensionando o estado. Seja no norte, com o warfare e a socialização dos rombos deixados pelas bolhas financeiras. Seja no sul, com a “democratização” dos custos sociais-ambientais do desenvolvimentismo.

Mas por que o direito? Por que disputar nesse campo? Não é somente porque a linguagem dos direitos, reivindicatória ou constituinte, seja onipresente nos movimentos sociais e lutas reais com as quais tentamos nos agenciar.

Eugênio Pachukanis, bolchevique revolucionário, respondeu brilhantemente essa questão, em 1925. Muitos marxistas imputam ao direito um papel secundário, no sentido vulgar de superestrutura, mero reflexo do que verdadeiramente importaria: a economia, a política, a sociologia, ou qualquer outro nome que dão a seu deus epistemológico. Mas Pachukanis, leitor rigoroso de Marx, pergunta: por que, afinal, a classe dominante precisa de algo como o direito para exercer a dominação? Por que precisa mistificar as operações do capital com a dialética entre público e privado, entre direito e moral, com o direito penal, o estado e seu interesse geral? Por que não exerce diretamente a dominação de fato, a servidão ou a escravidão? A crítica da economia política e da lei do valor não pode prescindir de uma crítica ao direito.

O direito do comum não se pauta pela dialética entre público e privado. Como se fosse preciso combater a privatização das relações em nome do estado. Ou atacar a estatização em nome dos indivíduos, dos direitos individuais e do privado. Na perspectiva do comum, ambas as posições constituem erros simétricos e se complementam para o funcionamento do sistema. As categorias público e privado participam da mesma forma jurídica, que mistifica a vida social, para a expropriação da produção comum e do comum produzido.
Se essa conclusão foi atingida pelos pensadores malditos da Europa, de Pachukanis a Antonio Negri, que diríamos então imersos na realidade colonizada da América do Sul? Aqui, um biopoder racista e cordialmente violento sempre se exerceu cabeça-à-cabeça com um estado patrimonialista e desenvolvimentista, mais à direita ou à esquerda. O público como superestrutura do privado, como dizia o jurista russo.

O direito do comum não se coloca somente além do estado. É preciso rejeitar também a sociedade civil e não misturar instituições do comum com instituições da sociedade civil. Abolir o estado e a sociedade civil juntos. As instituições da sociedade civil também constituem o outro especular do estado, na medida em que existem para formular-lhe demandas e buscar nele ver-se representadas. Daí o direito do comum não se construa com reivindicações diante do estado. Quando muito, a multidão ocupa-o para formular políticas anti-estatais.

Não reduzir direito do comum ao direito ao comum ou aos comuns [commons]. O direito ao comum é um momento, uma expressão. Não se pode reduzir o direito do comum a uma preocupação com a propriedade sobre as coisas, sejam materiais ou imateriais. Não se resume à tradição que vem da Roma de Ulpiano e do Alto Medievo, da res communis, do ius commune, dos bens e terras comuns. Direito do comum requalifica tudo isso, como instituinte de um tempo e um espaço intensivos de produção e cooperação, mas também como o resultado desse processo social libertador, desse trabalho vivo. Não se atém só à propriedade sobre as coisas e os produtos, ainda que se referindo aos novos cercamentos [enclosures] da propriedade sobre o imaterial. Porém, acima de tudo, ajuda a instituir alternativas ao comando expropriador sobre o processo produtivo, quer dizer, preocupa-se com a sua libertação do trabalho vivo, dentro e contra. Está em jogo mais que os direitos de propriedade: as condições concretas de criação e exercício de todos os direitos.

O direito do comum não se reduz a consensos básicos, a denominadores mínimos. Na perspectiva do comum, as teorias que conferem centralidade ao mínimo existencial ou bens primários ou consensos racionais fundamentais operam de modo conservador. Se o comum se desenvolve com a potência produtiva da vida, no desejo de poder e querer e fazer mais, o direito do comum só pode ser pelo máximo existencial, por um sempre mais como incessante atividade afirmativa de direitos, inclusive novos. Instituir o comum com o direito não pode significar interromper o movimento para constituir-se. Trata-se, na realidade, de um direito que mantenha em aberto o processo constituinte e as virtudes revolucionárias, que sustente a produtividade e os ciclos virtuosos do comum, ajudando a combater a decomposição das relações por forças exógenas ou endógenas. Profundamente materialista, o direito do comum não pode acolher reducionismos lógicos ou formal-deliberativos, tópicas ou teorias argumentativas à moda belga.

Direito do comum também é direito de resistência. Sob o ponto de vista do comum e da produção de direitos, o direito de resistência anima todo o edifício constitucional e jurídico, da mesma forma que o poder constituinte não cessa de pulsar por dentro e contra o poder constituído.

Por último, sem ser exaustivo, é preciso afirmar o direito do comum como potência e não como norma. Busca reafirmar e desenvolver um processo de autovalorização e autoconstituição de subjetividade, pelo podemos e queremos. É o direito de criar direitos. Não é compatível com neokantismos que separem fato e norma, social e valor, realidade factual e jurídica. Que se vêem em monografias de 500 páginas para enunciar as normas/valores/princípios maiores, e então cinco magras páginas para dizer que, doravante, basta aplicar o princípio da efetividade, uma incumbência da política, que os problemas sociais se resolverão gradualmente, com rigor e parcimônia. Ora, efetivar era precisamente o problema inicial, aliás, o problema desde sempre para os pobres e precários.

O direito do comum é um campo ainda incipiente, inovador e radical. Espero ter destacado alguns fios soltos que outros na imanência do movimento real da vida possam pegar e trançar redes. É uma aposta para tentar colocar-se à altura dos tempos, de seus problemas e desafios. Isto implica uma crença excessiva, ou senão é a impotência da esperança. Menos que panacéia, o direito do comum pode servir como ferramenta prática e teórica, na construção paulatina de uma alternativa potente ao capitalismo e o estado capitalista. Uma para afirmar o desejo e resistir e constituir um outro mundo.

========================

Referências básicas:

Online:

O direito do comum: o que existe na fronteira entre o público e o privado, NEGRI, Antonio; trad. por Sérgio Rauber em seu blogue

Direito do comum, vários autores, seminário em Turim, junho de 2011

Direitos emergentes, direito à cidade e políticas públicas, vários autores, seminário em Barcelona, abril de 2011

Do Welfare ao Commonfare, vários autores, seminário em Milão, dezembro de 2011 (material preliminar)

Do público ao comum, vários autores, seminário em Paris, 2010-11

Comum e composição de classe, vários autores, seminário em Gênova, junho de 2011

Livros:

CURCIO, Anna. Comunità, comune, comunismo. 2011, Ombre Corte.

DE PETRA, Fausto.Comunità, comunicazione, comune: da Georges Bataille a Jean-Luc Nancy. 2011, DeriveApprodi.

DEL RE, Alisa (e outros). Lessico Marxiano. 1ª ed. Roma: 2008, manifestolibri.

FLORES, Joaquín Herrera. Teoria crítica dos direitos humanos: os direitos humanos como produtos culturais. Trad. Luciana Caplan e outros. 1ª ed. Rio de Janeiro: 2009 [2009],     Lumen Iuris.

FUMAGALLI, Andrea; MEZZADRA, Sandro (orgs.). A crise da economia global: mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos. 1a ed. Rio de Janeiro: 2011, Record.

GROSSI, Paolo. Mitología jurídica de la modernidad. Trad. de Manuel Martínez Neira.     Madrid: 2003, Trotta.
____________. História da propriedade e outros ensaios. Trad. Luiz Ernani Fritoli e     Rocardo Marcelo Fonseca. 1ª ed. Rio de Janeiro: 2006, Renovar.

GUIMARAENS, Francisco de. Direito, ética e política em Spinoza: uma cartografia da imanência. 2ª ed. Rio de Janeiro: 2011, Lumen Iuris.

HARDT, Michael. The Common in Communism. in DOUZINAS, Costas (org.), The Idea of Communism, Londres: Verso, 2010. p. 131-144.

MARAZZI, Christian. Il comunismo del capitale. Biocapitalismo, finanziarizzazione dell’economia e appropriazioni del comune. 2010, Ombre Corte.

MATTEI, Ugo; NADER, Laura. Plunder: when the rule of law is illegal. 1a ed. Malden: Blackwell, 2008.

NAVES, Márcio Bilharinho. Marxismo e direito: um estudo sobre Pachukanis. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

NEGRI, Antonio; HARDT, Michael. Commonwealth. 1ª ed. Cambridge: 2009, Harvard Press.

NEGRI, Antonio. O Trabalho de Dioniso: para a crítica ao Estado pós-moderno. Trad.     Marcello Lino. 1ª ed. Juiz de Fora: 2004 [1994], Pazulin.
_____________.Poder Constituinte: ensaio sobre as alternativas da modernidade. Trad. de     Adriano Pilatti. 1ª ed. Rio de Janeiro: 2002 [1998], DP&A.

______________.Spinoza. 2ª ed. Roma: 2006 [1998], DeriveApprodi.
______________.La Fábrica de Porcelana: uma nueva gramática de la política. Trad. de     Susana Lauro. 1ed. Madrid: 2008 [2006], Paidós.
_____________.Dentro/contro il diritto sovrano: Dallo Stato dei partiti ai movimenti della governance. 1ª ed. Verona: 2009, ombre corte.

PACHUKANIS, Eugênio. A Teoria Geral do Direito e o Marxismo. Trad. Paulo Bessa. 1ª ed.     Rio de Janeiro: 1989 [1925], Renovar.
_____________________. Selected writings on Marxism and Law. Trad. Peter B. Maggs. 1a     ed. Nova Iorque: 1980,     Connecticut Press.

PENACCHI, Laura. Pubblico, privato, comune. Lezioni dalla crisi globale. 2010.

 

dez 2011 13

 

Houve época em que a blogosfera era um território bárbaro. Na década de 90, começando com os BBS (Bulletin Board System), as newsletters (principalmente do UOL) e os chats do mIrc, tudo era novo. Vigia uma liberdade radical. As pessoas se encontravam e no caos debatiam, brigavam, se abraçavam e se amavam. O acesso, ainda limitado às subculturas geek e hacker, começava a ampliar para a classe média. Tempos em que as redes sociais participavam de um processo contracivilizatório, — embora minúsculo, quase guetificado. Como tudo de bom na vida, éramos felizes e não sabíamos.

Então veio o bum da new economy e tudo mudou. Como acontece com qualquer força produtiva, as redes foram tomadas de assalto. Mercantilizadas, formatadas, uma avalanche de publicidade. A Nasdaq bombou com o mercado dotcom. Os hackers passaram a prestar consultoria de segurança. Os geeks se converteram em yuppies na crista do sistema. Até a bolha estourar, cada ex-geek talentoso sonhava em ser milionário. E alguns conseguiram. Grandes pequenas empresas pipocaram overnight para privatizar as redes, gerir marcas e capitalizar nas finanças. Perceberam o manancial de produtividade circulante e precipitaram os seus tentáculos e ventosas.

Nos anos 2000, o número de pessoas enredadas multiplicou muitas vezes. As redes se ramificaram, se enraizaram na economia política, se miscigenaram: rede de redes. Muito mais do que ferramenta ou meio instrumental, a rede é ela própria um espaço social construtivo, um conjunto de relações sociais que organiza, articula, comunica, potencializa e enriquece a vida. Constitui-se um campo comum na confluência de culturas, éticas, políticas e socialidades, uma cauda longa multifacetada e atravessada das forças vivas. A internet não é mais um mundo, é a própria mundivivência na sua modulação mais intensiva. As redes se tornaram o terreno por excelência das articulações produtivas, da antropogênese: a criação do homem pelo homem. Logo, das tentativas de expropriar o trabalho social e a potência de vida que todos (se) investem nessa realidade tão real.

Com o mínimo de estrutura, geralmente um petit comité de gestores, advogados e publicitários, se erigiu o paraíso para capitalistas 2.0, como Bill Gates e Steve Jobs. Externalizam as internalidades negativas/onerosas e internalizam as externalidades positivas/gratuitas. Gerenciam o lado de fora, que está dentro. Exploram os fluxos criativos, difusos, capilares, amiúde anônimos, multitudinários. Mestres do copyright, outsourcing, marketing, brand management, networking, crowdsourcing e quejandos. Nasceu a economia criativa, a indústria do copyright, — a vampirização da produção social por empresas, marcas e governos.

Chegou-se então à era de Mark Zuckerberg, o homem do ano. As redes sociais estão inteiramente colonizadas. Outro ser humano vive, com outra percepção socioambiental [ambiental awareness], outro modo de sentir e relacionar-se. Agora, não há mais fora ao processo de capitalização das relações sociais. Não dá mais para sair. Fazem o Facebook ser o Facebook as 800 milhões de pessoas pelo mundo, e contando. Dessas, 400 milhões o utilizam todos os dias sem falta. 350 milhões pelo celular ou ipad que carregam consigo o tempo todo. 250 milhões de fotos são subidas diariamente. A partir do Facebook, a atividade de cada um é organizada e integrada, num gigantesco ecossistema.

Todo o valor do Facebook nasce do tempo de vida, da atenção e das relações investidas por esse quase um bilhão de pessoas. Se não houvesse ninguém conectado, por melhor que fosse o algoritmo, o Facebook não valeria nada. Mas quanto desse imenso valor retorna? Onde está a remuneração pela nossa construção do Facebook? E quanto é capturado como mais-valor para forjar dezenas de milionários e o bilionário Zuckerberg?

Do Descurvo: “A Internet, aliás, nunca esteve tão ‘social’ quanto agora. As redes sociais engoliram a velha rede baseada na navegação livre e anônima, nos prendendo a uma territorialidade, que é o nosso próprio ‘perfil real’, isto é, à nossa identidade fora da rede, o que traz junto, por tabela, chefes, contatos, amigos, colegas de trabalho e escola/faculdade, além dos parentes – é a partir desse perfil que as pessoas passam a navegar, compartilhando links e fotos (suas vidas..), de tal modo que a navegação torna-se ancorada e identificada por definição.” (toda a postagem vale muito a leitura).

Hugo Albuquerque não está contestando o realismo das redes de redes, o fato de elas trocarem energia com o que de mais real existe: a dor, a resistência, a ternura, a loucura. Não defende o aspecto lúdico, como se as redes transcendessem a vida, noutro plano de existência. Não é isso. Refere-se, na verdade, ao processo de codificação e disciplinamento que sofremos. Esse o social entre aspas, como na expressão fazer uma “social”. Gentrificaram a internet. Mais do que outros mecanismos, o Facebook vem conseguindo sedimentar a identidade de cada um. E assim participa de um ritual que busca converter bárbaros em usuários comportados, hackers em criminosos sexuais e revolucionários em blogosfera progressista. E tenta assumir o controle sobre a intensificada antropogênese, a autoprodução de sujeitos e formas de vida, que as redes fermentam. A gênese social é mais uma vez capturada pelas instituições clássicas de expropriação: a empresa, o estado, a família.

A empresa ao ocupar o território cognitivo de cada um e o próprio cada um como processo e produto da cognição. Não apenas assaltar o campo visual e auditivo e semiótico pela publicidade, mas dirigir a atenção, formatar estéticas, homogeneizar mundos e vendê-los como estilos de vida. O tempo de vida é milimetricamente colonizado, até o nível subliminar do subconsciente, dos impulsos e sonhos.

O estado ao garantir o espaço social em que as empresas atuam e lucram, na velha dialética do público e do privado. Integrado globalmente, o estado controla as redes para assegurar o copyright, o direito autoral, a identificação individual, a propriedade sobre o trabalho social (crowdsourcing) e a financeirização dos lucros (rentismo). Movimentos contestatórios — wikileaks, anonymous, cultura livre, novas mídias antijornalísticas — passam a ser sistematicamente desacreditados e criminalizados. Em tempos de redes sociais, nenhum estado precisa mais interrogar/torturar os cidadãos: basta extrair seus dados da internet.

A família ao enquadrar a pessoa nas múltiplas normatividades de convívio social e consumo, servindo como polícia próxima nas várias dimensões: moral, ideológica, sexual, cosmética e estética.

Apesar disso tudo, o antagonismo persiste, dentro e contra. É preciso resistir e é preciso ocupar.

Não é hora para saudosismos. A luta central está em imergir na ecologia das redes sociais e, do interior, transbordar dos aparelhos de captura e expropriação. Daí que, talvez, a melhor tática não seja sair do Facebook para a N-1 ou Anillosur, numa nostalgia de bom selvagem, mas ocupar maciçamente e democratizar o próprio Facebook. É preciso assumir o tempo que se vive no conjunto de seus paradoxos, contradições e perplexidades. Ao capitalismo cognitivo, corresponde um movimento social em enxame, que aparece no software livre, na cultura digital, na blogosfera não-progressista, em diversos grupos e coletivos altamente politizados e produtivos, que cooperam e convivem fora da lógica da captura. São as múltiplas corrosões e resistências por dentro do império, os índios da metrópole que já estão dentro. Eles sabem que não é possível voltar atrás, então resolvem ir ainda mais fundo na sua guerra antropofágica contra a civilização.

fev 2012 08


abr 2012 09

Nos tempos de Lula, se ouvia que a tônica do governo era a mudança. Veio Dilma e essa deixou de ser a palavra que melhor define. Agora é crescimento. Ouve-se o tempo todo a palavra crescimento. Continuar crescendo se tornou quase uma obsessão  nas falas da presidenta, ministros e apoiadores.

A impressão é que o governo Dilma se guia por uma prancheta, alimentada de dados pelo Banco Central, IBGE e IPEA, e a partir dela aplica uma equação de primeiro grau. Basicamente: a gente aumenta o PIB em x % ao ano, paga as contas, sustenta alguma agenda social e administra, com eficiência, o que sobrar. Assim, a gente vai tirando o país do atraso e leva os milhões que faltam à classe média. E vai se reelegendo com os indicadores, pois o projeto é de longo prazo. Em 20 anos, seremos um país de primeiro mundo, respeitado lá fora e digno de orgulho aqui dentro. Eis o caminho. E conhecido o caminho, o caso é acabar com a corrupção, a ineficiência e o amadorismo, os nossos maiores problemas. Ou seja, problemas técnicos. Nada que uma gestão honesta e trabalhadora, determinada a superar o passado, não possa resolver. A política está resolvida no principal. Este é um governo sério, firme, tem uma boa equipe, e vai se aliar com quem for preciso contanto mantenha o controle global sobre o navio. Não somos intransigentes,  e sabemos fazer política como tem de ser feito, na correlação de forças. Não há alternativa à esquerda.

O discurso mais arcaico se conjugou com o mais futurista. O milenarismo do Brasil Eldorado, — utópico como Brasília e tão antigo quanto os portugueses da Ordem de Cristo, — caminha de mãos dadas com o ímpeto modernizante do velho positivismo, seja ele medioclassista-udenista, economicista-cepalino ou socialista-estatista. Dentro da fórmula mestre, tem espaço para a diversidade, a sustentabilidade, para o politicamente correto e a cultura como perfumaria, — desde que não se conteste o principal. Fora da fórmula, se é classificado como fora do tom, amador, fantasioso, anacrônico, pífio — ou simplesmente criminoso e, no limite, terrorista. Sucede um tom com conotações morais e moralizantes que define o discurso, a prática e a postura do governo e do que o governo espera dos cidadãos. É a antropologia do brasileiro piccolo-piccolo-borghese, que acorda cedo e paga os impostos e deseja o melhor para os filhos e acha o suprassumo do engajamento ético indignar-se com os políticos que roubam (e isto é o máximo que consegue elaborar no escasso tempo de vida livre). Aos novos brasileiros em suas breves ascensões sociais, deve-se confiar no governo, e trabalhar, trabalhar, trabalhar. Um republicanismo cívico cujo progressismo se limita a cidadãos que votam, têm emprego e gozam de direitos reconhecidos. E basta de abstrações! Primo mangiare, dopo filosofare!

É como se não estivesse em curso a maior crise mundial desde a quebra da bolsa de 1929. Como se a crise fosse um problema dos outros. Estaríamos imunes, ou melhor, seríamos os grandes beneficiários da crise. O espaço nacional como o nosso lugar oculta o fato que não pode existir um capitalismo nacional, brasileiro. O nacional-brasileirismo elude a posição contingente que ocupamos. A economia do globo é uma só, atravessada por tendências e contratendências, que buscam se compensar. A crise global se instaura quando os lucros astronômicos da classe rentista não podem mais ser sustentados. Cessado o butim, essa classe se reestrutura sob a direção superior de seus gênios e think tanks. Os grande financistas passam a sondar, como salvação da lavoura, outros mercados, em extensão e intensivamente. E nessa atividade de prospecção, identificam as enormes jazidas humanas da América do Sal e do Sol. Onde o homem é barato, a polícia é militar e governos firmes fabricam o consenso, o orgulho e o medo, — necessários para organizar e garantir a exploração do trabalho. Jazida humana e governo firme, o binômio que confere confiança aos mercados, isto é, garantias que o butim pode continuar e se aprofundar, sem grandes comoções. O estado sempre foi o método mais privado do ganho. Os fluxos de dinheiro-poder escoam do norte para o sul, para fortalecer a governabilidade mesma de que precisam para voltar a lucrar suas fábulas. E assim são mobilizadas as populações ao trabalho, e assim é forjada a antropologia ao homem nacional: cidadão honesto e trabalhador que assiste à TV, sem devir de raças. As elites internacionalistas e os governos nacionalistas impõem desenhos globais a histórias locais, numa subjetividade bombardeada de breve ascensões, delgadas autoestimas e muita comunicação de massa.

Não é verdade que os fluxos de dinheiro-poder determinam fluxos de subjetividade e não há saída da sinuca. As pessoas não são ratos de Pavlov movidas por percepções e necessidades imediatas. Quanto melhor, não é pior, como resmunga o esquerdismo, que quer mais é ver o terceiro mundo explodir. Não. Quanto melhor, melhor e quanto pior, pior. Se é conferida a chance de a pessoa querer, ela vai querer mais e sempre mais. Em contextos de crescimento econômico, proliferam dissidências, insatisfações, indignações, desejos que ficam pelo caminho, sintetizados em projeto de Brasil e brasileiro. Nesse contexto, a generalizada crítica ao desenvolvimentismo tem de ir muito mais além. Essa ficou fácil demais. Está sendo reabsorvida pelo papo malthuseano da sustentabilidade, do decrescimentismo, da catástrofe. As muitas economias verdes prometem redimir a desigualdade social. Nada mais conservador. Destruir o nacional-desenvolvimentismo não significa deixar as coisas como estão. Não se pode ceder a ideia da superabundância, de um regime amazônico-tautegórico de produção, saturado de socialidade e virtualidades de ser, que é a única força capaz de devastar a economia e abrir o agora ao comunismo.

A construção da alternativa ao Brasil Maior, este Brasil de Dilma, depende de uma remodelação muito mais profunda que trocar o governo, criticar o desenvolvimentismo ou mesmo assumir as opressões e minorias como operadores de uma política dos excluídos. O jogo pode ser mais alto, e os desejos reais da geração nos concedem as bases para ousar mais alto. Não há que se falar em mais esquerda, com seus projetos incapazes. É voltar à prancheta na imanência dos movimentos. É questão de métrica, de como des-medir a abundância e des-travar o excesso, des-quantificar e re-qualificar: o reenvolvimentismo aprofundado e a esquizoanálise altermundista. Isso já está aí, debaixo de nossas pupilas. É reatualizar a própria noção de viver bem, como fazem os indigenistas sul-americanos e ameríndios, na experiência do comum. A boa vida qualitativa e o boa-vida que recusa o trabalho explorado. É rearticular a relação entre governo e movimento, que vem sendo sucessivamente rompida no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Equador, — onde podíamos, até pouco tempo atrás, depositar o nosso otimismo. Se os tijolos completam a parede da burrice mais convencional e de toda a mediocridade circundante, este é um tempo-chave para poetas, filósofos e cineastas. Para a húbris de quem não se adapta. E que saibam atirar pedras, pois a fantasia também veste botas.

12