maio 2010 01

— Senhores passageiros, o nosso vôo até Porto Alegre tem a duração de uma hora e meia. Permaneçam sentados nos seus lugares com os cintos afivelados até que os avisos luminosos de apertar os cintos sejam desligados. Obrigado por voarem na nossa companhia .— disse maquinalmente no alto-falante a aerovelha.
Havíamos passado a agitação da fase crítica da decolagem, onde ocorrem 40% dos acidentes aeronáuticos, e então pude me acomodar com mais tranqüilidade, e peguei o meu livrinho de capa preta.
Só agora, mais relaxado, percebi que uma garota de mesma faixa etária, aí pelos vinte anos, sentava-se ao meu lado no assento do corredor, separada pela cadeira vazia do meio.
Puxou um livro também, um volume que estimei umas 200 páginas, capa marrom dividida em quadradinhos.
A presença feminina, e de uma leitora, obviamente capturou a minha atenção.
Todo o ambiente mudara, meus instintos insuflavam-me curiosidade e inquietude.
Que livro ela lia? Pergunta da mais fundamental relevância.
Fingi reparar na passagem da aerovelha, espichei os olhos, e de soslaio li o título: “O Privilégio de Ser Evangélico”, de um tal Rodrigo Godinho.
Puta que pariu. Sempre me fudi em avião. Não teve uma vez que eu conheci uma pessoa legal. Não estou falando de encontrar um romance selvagem, ou alguém extraordinário de gosto inteligente, refinado e com bom humor. Me refiro a achar, de vez em quando, um ser humano minimamente interessante, com quem se pode travar uma conversa produtiva. Nunca. E olha que viajo bastante. Mas sempre do lado de arrivistas engravatados, turistas ignaros, peruas gordas, adolescentes imbecis, quando não fedidos, espaçosos, folgados, barulhentos ou mijões ignóbeis que vão quatro vezes ao banheiro numa viagem de duas horas.
É uma merda, você fica amontoado na abjeção da humanidade, e agora, do lado de uma teísta, uma religiosa, uma crente.
Ela notou que eu a notara. É incrível como a percepção humana é dotada de mil e um sensores. Como existe uma força inata, um sexto sentido que detecta o olhar alheio sobre nós. Quando pousamos as vistas sobre alguém, é possível que essa pessoa perceba-nos mesmo de costas.
Interessou-se. Até que era bonitinha, apesar do defeito mortal.
Puxou assunto, perguntou o nome, se eu era de Porto Alegre, se estava de férias, essas coisas. Dei a atenção que a polidez instilada na infância me exige, até que ela perguntou:
— E você está lendo o quê?
— Ensaios de Montaigne. Quem é? Um filósofo muito honesto, inventor da prosa francesa. — exibi-me em tom professoral.
— Ele fala sobre o quê?
— A vida. Assim em geral. De tudo um pouco, um pouco de tudo, vale muito a pena.
— Mas e… Deus? o que ele fala? — sem juízo, perguntou-me.
— Acreditava no Deus católico. Tinha fé. Mas racionalmente punha um ponto de interrogação em muitos dogmas. O respeito por parte da religião era uma forma dele reafirmar a humildade do homem diante do Universo. Mas nem um sábio como ele poderia acertar todas. Afinal, ele viveu há mais de quatrocentos anos. Naquela época, ou você era cristão, ou você era cristão, de um jeito ou de outro mas ainda cristão.
— Acho que todo filósofo, todo pensador, todo cientista, no fim das contas acredita. Tem tanta beleza, tanta coisa sublime, você não acha que tem a mão de Deus? quando a gente ama…
— Olha, o jardim da minha casa pode ser maravilhoso, mas nem por isso eu preciso acreditar que existam fadas e duendes escondidos na folhagem.
— Ah, mas é totalmente diferente! e quem criou o mundo senão Ele? e quem está lá olhando por nós, cuidando de nós?
— Calma, uma coisa por vez. Se você fala que ele criou, então quem criou Deus?
— Ele sempre existiu!
— E por que não posso dizer que o universo sempre existiu?
— Porque o universo não é Deus, não é uma pessoa consciente, não pode pensar em se criar.
— E se você diz que foi Deus, por que eu não posso dizer que foi o Espaguete Cósmico ou então a Mãe Ganso? sei lá, se ALGO criou, pode ter sido qualquer coisa. Prefiro ser econômico com entidades desnecessárias.
— Hahahaha, tá bom, eu sei que você não acredita nisso, Mãe Ganso, você no fundo é uma pessoa boa, vai pro Céu sim, vai ver só na hora certa.
Santa paciência. Ante o sofisma, sorri, enquanto aceitava o amendoim vagabundo da companhia aérea. E coca-light, por favor.
Ela insistiu:
— Além do mais, pra onde você vai depois de morto? não creio que você ache que tudo acabe… não iria conseguir nem levantar da cama.
— Eu tenho a coragem de acreditar na realidade. Após a morte é que nem antes de nascer. Inexistência absoluta. A nossa consciência se desfaz junto da carne.
— Claro que não. A alma não acaba. A gente tem uma essência, tem uma energia que dá vida, que é a gente mesmo. A alma continua.
— E onde está essa alma?
— Ao redor da gente, tem até quem a veja, a nossa aura, e tem quem saia do corpo, isso são experiências reais. Eu mesma, muito nova, já saí do meu corpo dormindo, e vi eu mesma ali embaixo.
— Você sonhou isso. A mente é capaz de deformar a realidade, pregamos peça na gente o tempo todo.
— Mas e quem está lá olhando por nós. Eu SEI que Ele está lá, porque Ele responde as minhas preces. Muitas vezes… blablabla — contou uma fastidiosa história sobre um parente doente, sobre um momento difícil de sua vida, sobre uma amiga que saiu do buraco graças à religião, em suma, essas lorotas pra boi dormir, com as quais você pode provar tudo, da abdução alienígena à cura do câncer pelo santo daime.
— Veja bem, do fato de a sua crença ajudar você, consolar você, te dar um sentido na vida e tal e qual, nada disso implica que a crença seja verdade, mas só que ela é útil. Ser útil não quer dizer que seja verdadeiro.
Por incrível que pareça, ela não se sentia contrariada. Parecia ser dessas pessoas carentes que gostam de qualquer tipo de conversa. Ou então morre de medo de avião e estava se distraindo com o trouxa aqui. Mas até que era bonitinha. Dizem que as crentes são fogosas. E realmente havia entrelinhas de flerte, que eu incitava por donjuanismo barato, porque não tinha nada a ver. Ela sorria.
— Um momentinho só, vou fazer xixi.
— Isso é mais informação do que eu preciso. — só pensei, minha polidez de novo forçou-me a assentir calado.
Terminado o embuste de refeição, a vizinha no banheiro, o avião começou a chacoalhar.
— Aqui é o comandante. Vamos passar por uma área de instabilidade. Favor manter os cintos afivelados enquanto os avisos luminosos estiverem acesos.
Instabilidade é eufemismo pra mau tempo e turbulência.
Na minha lista das piores coisas da vida, turbulência vem em quinto lugar, atrás de 1) consulta ao dentista, 2) fila, 3) semáforo vermelho e 4) telenovela. Nessa ordem. Alguém poderia questionar como algo que pode matar de forma horrenda, um acidente aéreo em potencial, pode estar atrás de fatos prosaicos da vida, como fila e sinal de trânsito. Porque o primeiro da lista, ida ao dentista, ninguém estranha e é tão razoável que a maioria concorda comigo. Telenovela (quarto lugar) por sua vez é uma ojeriza particular minha, uma abominação pessoal, e desgosto assim como gosto não se discute. Por conseguinte, explico só 2) fila e 3) semáforo. Vamos analisar os casos filosoficamente, isto é, sub specie aeternitatis. Imagine a eternidade de uma fila pra outra, esperando esperando esperando. E ao chegar ao final, eis que o balconista remete-o para outra fila. Como se uma fila fosse para pegar a senha para outra fila, ad infinitum. Imagine agora a eternidade de sinal fechado em sinal fechado, esperando esperando esperando. o sinal abre e, logo adiante, outro sinal. E outro, e outro. Não levam a lugar algum, só a mais ruas com sinais vermelhos. Percebeu o drama?

Mas por outro lado, o leitor poderia contestar, imagine a eternidade morrendo em acidentes de avião, um depois do outro. De fato, os dois ou três primeiros seriam pavorosos, terríveis, mas depois, eu acho, acostumaria. Aposto que, uma hora, ia acabar achando até divertido e emocionante, você sabe, sentir a adrenalina, embriagar-se com a catástrofe, explorar possibilidades, tipo: sacanear os outros passageiros, gargalhar, invadir a cabine dos pilotos, dançar, abrir a porta de emergência pra despressurizar tudo, agarrar uma aeromoça, ou então simplesmente ficar calmo e declamar poemas de Mário Faustino (que morreu num desastre aéreo, numa “carátula celeste”), sei lá, inventar várias doideiras entre o início da pane e a queda fatal. E o momento da morte, no frigir dos ovos, não é doloroso. É plá, você nem percebe. Do que se conclui, quod erat demonstrandum, a classificação da 2) fila e do 3) sinal fechado como piores do que a experiência da 5) turbulência. Com ainda mais razão o dentista (primeiro lugar), porque você ainda passa antes por uma fila e possivelmente por diversos semáforos vermelhos.

Ela voltou do banheiro, assustadérrima. É estranho, afinal, não tem Deus pra protegê-la? e se morrer, morrerá com Deus e irá se encontrar com Ele. Nada a temer. Eu que sou um ateu convicto que estaria ferrado: ou na escuridão silenciosa da não-existência, ou no inferno das filas e dentistas, ou em qualquer limbo inominável.
— Nossa, não gosto de turbulência. — disse-me por dizer.
— Ninguém gosta. Mas fica tranqüila, é só uma área de instabilidade. — e então a situação piorou, a aeronave começou a dar guinadas e fazer barulhos nada animadores. A turbina parecia acelerar e reduzir. Da janela, viam-se só relâmpagos e nuvens carregadas.
— Imagine você, que não acredita em Deus.
— O que tem? — de mau-humor respondi.
— Nada…
Virei o rosto pro outro lado. Aquilo não estava melhorando, uma tempestade. E eu nem bebera nada antes de embarcar e agora não serviam mais alcóolicos nessa companhia de merda. O interior da aeronave ficou tão tenso que se podia cortar o medo com uma faca. Algumas pessoas suavam, um bebê (sempre tem um bebê nos meus vôos) chorava (urrava). O comandante de novo, mas nem deu pra ouvir direito, tamanha a azáfama.
De repente, ela pegou na minha mão, meio tímida.
— Qualquer coisa a gente tá junto, e Jesus me protege, ele não me abandonará, então você também estará a salvo. Vamos chegar bem, você vai ver.
Tirei a mão novamente com (periclitante) polidez.
— O que vai acontecer independe da gente. Avião é assim mesmo, somos passageiros que mal sabemos o que está acontecendo. Uma sensação de impotência né. — disse-lhe para provocá-la.
— Ai, amigo, não diga isso, aiiiiiiiiiii!
E eu: — Ca-ra-lho!
Um frio rascante na barriga, agarrei o braço da poltrona como se estivesse caindo. E de fato estava. A aeronave despencou por intermináveis dez (provavelmente três ou quatro) segundos. Que porra era aquela? ciclone? pane elétrica? porque as luzes começaram a piscar.
O coração à boca, lembrei-me do ensaio de Montaigne sobre o medo da morte.
Concentrei-me mesmo com mais de cem batidas por minuto.
As discussões sobre a imortalidade da alma, a reencarnação e outras frivolidades espíritas sempre me pareceram infantis, bizantinas, mas não a questão do medo da morte. Montaigne também se preocupava, e não incidia na esperança religiosa (o asilo dos ignorantes) em sua digressão acerca do tema.
Abri na página e, vista trepidante, li:
Ora, nunca morri antes, ou se tiver morrido e reencarnado, não me recordo de como foi. Desconheço não apenas se há vida pós-morte, como ainda o sabor, as sensações do ponto infinitesimal de saída deste mundo; e igualmente ignoro as circunstâncias do processo de morrer: quando? como? onde? Eis aí minha ignorância fundamental. Morrer, que é a maior tarefa que temos de executar, o exercício não pode nos ajudar. Podemos, por uso e por experiência, fortalecer-nos contra as dores, a vergonha, a indigência e outros infortúnios semelhantes, mas, quanto à morte, só a podemos experimentar uma vez, somos todos aprendizes quando a ela chegamos.
E então por raciocínios cabais de sua prosa elegante, ele demonstra que o problema não é a morte, mas o medo dela, e que é o medo dela que devemos combater e dissipar, e não a morte em si, porque esta é inevitável. Como disse Sócrates morbidamente no Fédon, não podemos deixar de pensar na morte, todos os dias, como um hábito, porque ela é imprevisível e inevitável e devemos estar sempre preparados para ela. E Spinoza, dois mil anos depois, retrucou ao filho da parteira que o pensamento da morte era a coisa mais imunda. Spinoza que me perdoe, mas naquela hora eu precisava mesmo de uma ficção macabra pra me guiar naquele terror.
Continuei lendo… não, de repente, me percebi lendo sem ler, quero dizer, o pavor me tomava por completo e eu estava a enganar-me continuar lendo. Era como se patinasse sobre as linhas, sem compreender o que se passava, embora de fora, parecia mesmo que eu estava lendo, porque virava as páginas (apesar de amiúde eu retornar três vezes ao começo de um parágrafo, ao perceber que o lera sem ler).
A garota do lado obstinou-se a ler também, como para provar-me que seu livro era forte, que Deus ali nela inspiraria uma coragem fervorosa, uma força do além.
Santa paciência.
Mas a situação era tão aterrorizadora (o avião parecia um cavalo chucro), que ela também não conseguia mais acompanhar as mensagens evangélicas.
Então se pôs a rezar, fechou os olhos, entrou em um estado primitivo entre o transe e o chororô.
Ao redor, uma massa informe de seres humanos contorcia-se no seu inferno particular de más expectativas.
E eu, numa garra hercúlea, tentei achar as páginas imortais em que Montaigne fala da necessidade, diante de um perigo terrível, simular a morte. Ao invés de buscar a todo custo evitar o pensamento da morte, afastá-lo mediante a ocupação intensiva noutros pensamentos, em vez disso investir na idéia de morte. Porque quanto mais se tenta recalcar e expelir o medo, mais ele retorna fortalecido. O negócio então é simular a própria morte. Dizer: ok, eu morro aqui, acabou.
Eu não achei a página, não tinha como naquele pandemônio aeronáutico, mas de memória lembrei-me dos ensinamentos do filósofo, e então comecei a mentalizar, com todas as energias da imaginação, a aeronave se espatifando e eu me desfazendo em pedaços sangrentos, meus órgãos mutilados espalhando-se por centenas de metros, meus familiares tendo de enterrar (ou cremar) uns nacos irreconhecíveis de ossos enegrecidos e tecidos desnaturados.
Quando a estratégia começava a funcionar, o batimento esboçava amansar, puta que pariu, perdi o foco, eis que me lancinou uma dor no antebraço direito.
A filha da puta cravou as unhas em mim, e berrou-me desvairada:
— É agora! se converte! TÁ AMARRADO! (com todos os pulmões)
Me tirou sangue e tudo.
— Se converte! Jesus te ama! é só aceitar o mistério!
— Me larga megera! sua putana! vai pregar pros teus fanáticos!
Mas não, ela apertava ainda mais, pânico chamejava dos olhos esbugalhados. E eu tentando remover o braço. Puxa pra cá, puxa pra lá, um vaivém errático e violento enquanto o caos reinava por todos os cantos do avião.
— Larga! larga porra! — empurrei a cara dela com a outra mão, e ela começou a me estapear, e o avião pulando pra cima e pra baixo, bagagens caindo dos compartimentos, as luzes piscando, caíram máscaras.
Foi aí, nesse frenesi, que eu surtei, desafivelei o cinto e tentei de todas as maneiras sair dali, mas antes tinha que passar por cima dela, e aos trancos e barrancos, pé aqui, braço ali, a turbulência me joga pra um lado, bato a cabeça no teto, e quando estou passando por cima de sua poltrona, ela me agarra, mas me agarra assim na perna, na bunda, agarra com força, fica passando a mão, cara toda vermelha de pavor e tesão, uma loucura indescritível, dá gemidos, a maldita histérica ainda tentando me bolinar, e dizendo “benção de deus! benção de deus!”, pior que morrer no avião é morrer no avião sendo bolinado por uma crente maluca, mas eu sou fisicamente mais forte, dou um chega-pra-lá, um safanão, luto com as mãos e pernas alguns momentos, uma zorra, e finalmente me arranco dali, ela ainda me agarra, me segura, mas eu dou outro safanão, e sem conseguir ficar em pé, vou quicando pelo corredor, tomo altos tombos, pessoas chorando, gritando, urrando, carrinhos desgovernados, e eu trombando com todo mundo, batendo no teto, aerovelhas fingindo manter um resquício de calma e dignidade, uma me ameaça dar injeção, mando ela à merda, vem outra, dou-lhe um empurrão, ela cai de peito, a outra tropeça numa bagagem esvoaçante, tem passageiro com a máscara no rosto, caralho, tento num último esforço chegar numa poltrona isolada, mas não, fudeu tudo, um solavanco brutal, voo pelo corredor, caio com tudo, de cabeça pra baixo, dentro do banheiro, desacordado.
Cinco minutos mais tarde (fiquei sabendo depois), a aerovelha me acorda.
Tudo calmo. Barulho normal de avião nivelado. A aeronave passara da área de instabilidade, vírgula, da área de ciclone intertropical (fiquei sabendo depois), que seria notícia em todos os telejornais horas mais tarde, um vôo turbulento que entraria pra história da aviação nacional.
Pedi licença, tranquei-me no banheiro, arrumei o cabelo, pus a camisa pra dentro, lavei o rosto. A cabeça doía um pouco, mas nada que uma dose (ou três) de uísque não resolvesse na chegada. Voltei calmamente pro meu assento, sem reparar nas pessoas ao redor, anestesiadas pelos recentes acontecimentos.
Polido como sempre, pedi licença, passei pela garota, e sentei-me em minha poltrona da janela. O comandante pediu desculpas pelos transtornos e foi aplaudido mas sem entusiasmo.
Não troquei mais uma palavra ou olhar com ela até o final da viagem, que transcorreu sem novos incidentes.
Na livraria do aeroporto, comprei um novo exemplar do livro perdido.
maio 2010 23

Acordei invocado porque me lembrara do pesadelo.
Tinha morrido e reaparecido num limbo azulado imerso em nuvens espessas. Pensei: então existe um pós-morte? Pequepê… Mas de repente a neblina se dispersou em uma região e, ali, surgiu a cara de um velhinho de barba. Gigante e severo:
— Shhhhhhhhh… sabe quem eu sou? — disse com voz retumbante e ameaçadora.
— O Deus do Velho Testamento, eu presumo. — respondi, sincero.
— SIM. E por que não acreditaste em mim?
Abri os braços:
— Ausência de evidências, Senhor, ausência de evidências…
E foi então que fiquei sabendo, diretamente da Boca Divina que, na verdade, a mudez metafísica do universo infinito nada mais é do que um teste. Um plano divino elaborado para os seres humanos, para separar o joio do trigo, para Deus poder selecionar os seus.
É tudo um estrategema para analisar o quão crédulo e estúpido pode ser o homem. Desta forma, os supersticiosos, os espíritas, os crentes, os beatos e demais almas carneiras terminam a passagem da vida reprovados, pois optaram pelo caminho diabólico do consolo, da esperança, da preguiça mental e da submissão. Já os infiéis, apóstatas, hereges, ateus —, mesmo alguns ateus que se proclamam agnósticos por falta de personalidade — esses cumpriram a vocação humana da dúvida e assim ascenderam ao estado de graça, realizando o projeto ultraterreno.
E Deus mesmo, Ele me contou, não deseja que os ímpios inaugurem uma Igreja em seu nome. Pelo contrário, tem horror a isso. Explicou-me que os espíritos livres, em geral, tendem a não obedecer a sistemas de autoridade moral, e pensam por si mesmos sobre os mistérios e desafios do universo.

— Como Eu queria que fosse! imaginar um rebanho de ateus é tão absurdo quanto tentar formar um rebanho de gatos — animais independentes e de personalidade, que não costumam ir pra onde os mandam.

E então as portas do Céu se abriram e eu entrei, franqueado por São Pedro.
maio 2010 29

continuação dos episódios I, II e III. (clique para ler)

Fomos para uma sala de estudos, conectada ao saguão principal do antigo edifício. Livros empilhavam-se pelas mesas e cortinas  pesadas e beges cobriam as janelas, que davam para o matagal que um dia fora o jardim da biblioteca. Zazá havia chegado antes. Com sua namorada e mais um ajudante, montara uma mesa apropriada para a sessão, com castiçal, vela e toalha branca. Aliás, todos vestíamos roupas claras, e eu havia sido orientado previamente para não trajar tons mais frios.
Confesso que o ambiente intoxicava. O cheiro de mofo das cortinas, o pó onipresente, a imagem dos livros antigos de capa dura, tudo isso confabulava silenciosamente para a atmosfera lúgubre. Passava das dez horas e o campus já estava vazio, de maneira que não havia mais funcionários. O subreitor havia deixado a chave com Zakowics, que, como noutras ocasiões, responsabilizava-se.
É curioso como, antes da sessão propriamente dita, os presentes calavam sobre o Boa Noite. Falava-se de tudo, menos do protagonista. Estranhei a demora em começar os tão esperados trabalhos, mas o veterano da física me explicou que deveríamos aguardar a uma hora da madrugada. Avaliavam que tinham mais chances de chamar o Boa Noite no horário em que ele geralmente aparecia. Falou-me que, freqüentemente, invocavam espíritos errados e mesmo entidades zombeteiras, que atrapalhavam os serviços. Não é por acaso, disse-me, que a namorada de Zazá, a médium, primeiro fazia contato com um espírito conhecido do grupo, o tal Júlio Borges, e a partir dele contactava os demais. Esse constituía o procedimento padrão de centros mais experientes e estudados, na medida em que a ponte entre o lado de cá e o de lá freqüentemente não é confiável e pode, em casos extremos, acabar sendo insegura e perigosa. Há segredos na passagem entre os planos que mesmo os maiores grandes mestres do espiritismo não chegam a consenso, logo se recomendam cautela e prudência.
Com efeito, nessas conversas preliminares da sessão, cheguei à conclusão, que de qualquer forma eu já imaginava, de que existem diversas vertentes do espiritismo. Como nas milhares de seitas protestantes. Como no catolicismo — embora nessa religião haja uma instituição milenar, rigorosamente hierárquica e disciplinada, para manter os dogmas e liturgias coesos. É curioso como as religiões tendem a fragmentar-se, num movimento centrífugo que sempre e sempre culmina em facções, lutas intestinas, perseguições e, afinal, depurações violentas. Quanto mais o homem empreende esforços para se unir sob o estandarte da verdade última, mais se multiplicam as bandeiras e, com elas, os exércitos de fanáticos.
Enquanto não chegava a hora, comemos sanduíches e bolachas. e nos agrupamos em rodinhas. Éramos vinte. Abrimos três garrafões de quatro litros de um vinho barato, “Sangue de Boi“, que era a única bebida alcóolica “autorizada” para a ocasião. Peguei uma e  servi os colegas com a jarra por cima do ombro, como fazíamos naqueles tempos de estudante. O papo animou-se e, por um tempo, abstraí do clima de filme de terror, da mesma forma que nos acalmamos quando começa o serviço de bordo num vôo agitado. Resolvi tomar vários copos para ficar bem tranqüilinho. Contrariava assim preceitos da observação científica, mas é preciso entender que, com 20 anos, o ímpeto faz com que pulemos precauções essenciais.
Lá fora, começou a relampejar e chover.
No colóquio pré-sessão, me contaram que, graças à profunda erudição de Zazá, o centro espírita tinha adotado uma linha teosófica. Fiquei sabendo que a teosofia remontaria ao século XIX na Rússia, e implicava uma doutrina de igualdade e solidariedade universal, voltada para a busca da perfeição do ser humano. Essa perfeição estaria na pureza e transcendência do espírito, encapsulado, ou melhor, aprisionado no corpo, como uma ostra em sua concha. Libertar o espírito imortal das amarras corporais significava ascender ao plano das essências perfeitas, na subida da montanha do conhecimento. Nada mais próximo da doutrina de Agostinho, refleti.
Zazá passava a maior parte do tempo cochichando com a sua namorada-médium. Falava-lhe ao pé do ouvido, com gravidade. A menina de proporções generosas vestia jeans e camiseta branca, que lhe marcavam especialmente os contornos, então não pude deixar de reparar em sua sensualidade naquela noite. Outro colega, em tom professoral, explicou-me que a mediunidade demanda intensa preparação, seja exercitando a concentração, seja o autodomínio. Pois o envolvimento com o além pode ser extenuante, a ponto de causar desmaios e ataques.
Já amaciado pelo vinho, deixei vazar sem prudência algumas de minhas descrenças, no meio das conversas. Tinha dificuldades em dar crédito ao ocultismo, quando os próprios círculos ocultistas fazem de tudo para gerar uma aura de mistério e enigma ao redor de si. É o contrário daqueles que se propõe a investigar a verdade com clareza e transparência, expliquei-me. Os ocultistas mais famosos cultivaram sociedades maçônicas, cuja principal propaganda é seu hermetismo teórico e prático. E quando aparecem em público, o ocultismo vem na forma de personalidades altamente duvidosas e oportunistas, que o consenso científico tem por charlatões talentosos, como Uri Geller ou mesmo o nosso Zé Bonitinho do espiritismo, o Chico Xavier. Devo ter acionado algum sinal de alerta, visto que Zazá, que nesse momento estava do outro lado da sala, virou-se surpreso. Como me escutara de tão longe eu não sei. Logo ele se juntou ao grupinho em que eu estava.
O líder de facto do centro foi logo metendo o pau no Uri Geller. Aproveitador, mentiroso, midiático, desvirtuador da paranormalidade e, por último, tachou-o de “merda ambulante que só quer aparecer”, anátema costumeiro a quem ele considerava impostor. Esclareceu que, assim que eu participasse de mais sessões, iria conhecer um panteão de médiuns, paranormais e estudiosos “dignos” e “comprovados”, que descartavam exibições públicas e fanfarronices, porque a sua arte oculta falava por si própria. Uma pena que não estávamos na Polônia ou na Ucrânia, pois no Brasil no mais das vezes os médiuns e estudiosos são farsantes descarados. Pedi, como resposta, e talvez sem o tato devido, um exemplo de personalidade do metiê que ele admirava, além da Petrovna e da Stanislawa, que eu já ouvira ele falar no grupo de estudos.
Então ele ficou muito sério, pôs as mãos na cabeça e, ante o silêncio imediatamente decorrente, murmurou: Grigo…ri Efimo…vich… sim, Rasputin! seus olhos brilharam.
Controlei-me para não esboçar nenhum sorriso. O místico dos Romanov? por quê? Zazá focou o infinito, como um crente falando de seu santo preferido, e recontou com riqueza de detalhes uma boa parte dos bastidores da Rússia czarista. Uma narrativa apaixonada. Narrou como os Romanov eram somente marionetes nas mãos de uma sociedade secreta praticante da teosofia, que ele todavia não podia nomear. Como a monarquia russa, em verdade, representava os interesses desse grupo de sábios e visionários. Elencou nomes, contou anedotas, relatou episódios históricos, sempre sob o ponto de vista dessa teoria que, pra mim, cético até segunda ordem, sôou conspiratória demais. E continuou a preleção, em tom seguro, até a Revolução Bolchevique, que pra ele significou o lamentável triunfo do obscurantismo, da ignorância e das falácias da utopia e da salvação. E nenhuma ideologia era mais abominável para Zazá do que o comunismo: “religião vulgar de burocratas e sobretudo professores, todos ultimamente medíocres”. Inclusive, membros da mencionada sociedade secreta ofereceram ajuda, um grande erro aliás, a Hitler, justamente pra combater o utopismo soviético. Isso explica claramente o largo envolvimento do nazi-fascismo com o ocultismo, quando se organizaram expedições ao Tibete e ao Reino do Preste João. Mas isso é outra história.
Eu não queria contestar nada naquela hora, apesar do rompante de vontade. Por mais que ali estivesse para a sessão, nada impedia de voltarem atrás e não permitirem a minha participação. E eu estava maluco pra testemunhar o que eles iriam fazer do caso “Boa Noite”. Nunca tinha chegado tão perto de um acontecimento supostamente sobrenatural e não ia por tudo a perder por ninharias. Todas as outras vezes recolhia testemunhos de terceiros e faltavam-me recursos para verificar ou refutar os argumentos. Sempre me refugiara, quiçá por comodidade, no célebre argumento de David Hume: um único evento curioso e antinatural não pode ser capaz de refutar, sozinho, a enorme massa de eventos verificados que se sedimentaram como a nossa realidade ordinária. Em outras palavras, uma ocorrência paranormal não pode ter o condão de contradizer mil ocorrências normais, na mesma circunstância. Ainda mais quando não vemos com os próprios olhos, ou quando essa ocorrência não passa por uma conferência criteriosa, por grupos independentes de pesquisadores, chegando aos mesmos resultados. Muito pelo contrário, no mundo real, tais “milagres” ou fatos paranormais restam irrepetíveis, irreprodutíveis, de toda forma realizados em circunstâncias não controladas e sujeitas a deformações, sugestões mentais, ilusões, erros e sobretudo má fé. Pensei tudo isso, decidi  não criar um cavalo-de-batalha com Zazá, o guia. Por outro lado, como o vinho realmente fazia efeito, resolvi simplesmente ser sacana.
Introduzi na roda a história do pênis de Rasputin.
Como se sabe, o conselheiro místico dos Romanov foi assassinado brutalmente por palacianos. Esse crime deu-se em vários atos. Primeiro, uma garota de programa esfaqueou-o com tamanha violência que as tripas pularam da barriga. “Eu matei o anticristo”, gritava a prima. Mas o Monge Louco não morreu e, naquela mesma noite, recuperou-se do ferimento aparentemente mortal. Então , antes dele sair do hospital, envenenaram-no, com uma dose capaz de derrubar um touro. Porém o veneno simplesmente não fez efeito no corpo de Rasputin. Deram-lhe então um tiro na nuca e ele silenciou. Mas na hora de carregar o corpo, ele acordou e mordeu um dos assassinos, chamando-o de “menino mau”. Aí, horrorizados, espancaram-no violentamente, dispararam a pistola mais três vezes à queima-roupa e, não satisfeitos, fora de si, cortaram o seu pênis fora (e já retornarei a essa peça inusitada). Aí, por vias das dúvidas que o sujeito era mesmo porreta, o amarraram, embrulharam-no num tapete e lançaram-no Rio Neva, que estava congelado. Na manhã seguinte, o corpo foi achado na beira do rio, completamente livre das cordas e do tapete! a autópsia demonstrou que ele morrera por afogamento. E só se afogou porque não conseguiu romper a camada de gelo, já que estava livre e consciente.
O fim de Rasputin, mas seu pênis ainda teria um futuro próprio descolado do corpo. Porque os algozes confirmaram que realmente era um membro de dimensões formidáveis, como já corria o boato por toda a capital. Como se sabe, além de ocultista, Rasputín era um garanhão, um Dom Juan do Mal, e usava de sua persuasão por assim dizer sobrenatural para seduzir não só as beldades da corte, mas também ninfetas da cidade. Damas e princesas, mas também amantes homens, porque ele era panssexual, provaram de suas qualidades desproporcionais. Um fenômeno narrado em dezenas de diários de boudoir, como a história comprova. Depois da castração, atribuíram ao pênis, de inacreditáveis 30 centímetros, poderes paranormais: era capaz de curar a impotência e fechava o corpo de seu portador aos inimigos. Dizem, inclusive, que Stálin mandou guardar o membro conservado em seu acervo particular. Parece, a queda da União Soviética coincide com o sumiço da peça durante o governo de Gorbatchóv, na década de 80.
É evidente que a minha história, regada a vinho barato, divertira os companheiros do centro espírita. A menina da biologia deu um risinho e falou bem baixo: “que caralho mágico hein”. Mas não agradou, em definitivo, a Zakowics, cujo olhar parecia um punhal dirigido a mim. Petrificado, ele não acreditara no que eu falara com tanta sem-vergonhice. Justo naquele dia. Me preparei para o pior: a expulsão sumária. Sempre tive dificuldades em ficar quieto em momentos-chave, mas de qualquer modo,  depois jamais me arrependo das estripulias. Se não for pra fazer isso, ponderei, eu nem vinha. Porém, por intervenção da sorte, a namorada dele anunciou que virava uma hora da madrugada. Ou seja, era hora de começar a sessão. A euforia da maioria rapidamente os fez esquecer Rasputin e concentrarem-se na principal atração. Era hora de convocar o Boa Noite.
Enquanto todos arrumavam a bagunça do lanche e tomavam os seus lugares, Zazá continuou sentado ali, como uma serpente ameaçadora, encarando-me. Já autoconfiante graças não só ao vinho, mas a meu firme ceticismo, não desviei o olhar, aceitando o desafio. Foi quando Zazá relaxou a expressão, ofereceu-me um sorriso de canto de boca, quase imperceptível, levantou-se e, ao passar a meu lado, sussurrou ao ouvido:
— Jamais perdoarei a sua atitude.
Acenderam a vela, apagaram as luzes e a tempestade acirrou, golpeando as janelas. Era hora do show, eu pensei, completamente imune, àquela altura, ao ambiente assustador. E como eu estava enganado, leitor…

continua…

jul 2010 11

Nunca acreditei em entidade sobrenatural. Desde as lembranças mais remotas, com cinco ou seis anos, recordo-me de um menino absolutamente cético diante do sobrenatural. O sobrenatural não existe. O menino jamais teve medo de espíritos, demônios, assombrações, monstros, mulas-sem-cabeça. Nunca anteviu um pós-vida: quando o homem morre, é como antes de nascer, um nada. Já intuía que o temor embutido nessas crenças fundamentava a submissão a arautos da verdade, e a renúncia a pensar e experimentar por si mesmo. Criança, tinha orgulho de proclamar-se ateu, menos por autoafirmação, do que por uma incompreensão do que levava as pessoas a prostrar-se, humilhadas, diante dos deuses da tribo. Um Deus pessoal, imagem e semelhança do homem, não me convenceu em qualquer instante da vida. Passei incólume por catequismos e proselitismos. Nem a leitura dos livros sagrados nem ninguém conseguiu tirar lasca que fosse do firme ateísmo. Nenhuma situação vivida pôs em dúvida a ausência de fé no transcendente, ausência que traduzo como  crença conseqüente na realidade concreta.
Guardo viva a lembrança da vez em que, no recreio da pré-escola, um coleguinha falou em “papai-do-céu”. Agarrei-o pela gola: quem é esse tal “papai-do-céu”? apontou para cima e disse-me que era um pai bondoso e misericordioso, habitante do céu, que tudo vê e tudo pode, a quem se pode pedir proteção e favorecimento, se a pessoa for merecedora. Foi também a primeira vez em que o escárnio ateu me assaltou, e conclui como aquilo era ridículo, como era inacreditável que tantas pessoas mais ou menos inteligentes levassem a sério, e como era necessário insurgir-se contra aquela farsa coletiva, estruturada por sacerdotes e igrejas.
Aos doze anos, inquirido certa ocasião por uma crente sobre a minha escolha religiosa, trocei, mas como se estivesse falando sério, que era o “anticristo”. A atitude do pequeno ateu alternava entre a ironia , quando estava de bom humor, e o escárnio, direto e seco, quando sem paciência. Ria na cara dos crentes e ridicularizava sem freios as igrejas. De zoação, chutava macumbas, cuspia na cruz, rasgava a bíblia. É que, desde cedo, descobrira que não havia sentido em argumentar, em gastar o latim com fanáticos e iludidos, e que mais eficiente era tentar, pela via do sarcasmo e da paródia, demonstrar o ridículo implicado na fé e na crença num Deus-juiz onisciente e onipotente. Afinal, a provocação deixa mais marcas que a retórica. Podia em ocasião alegre reconhecer um ateu, mas sabia ser inglório tentar “ateizar” um crente. E se podia, num esforço ciclópico, desencaminhar uma ovelha das religiões, não conseguia demovê-la da crença num ser pessoal supremo.
O fato é que o menino era irrequieto com explicações e porquês e, por causa disso, um cético. Mas um cético curioso, preparado para aumentar o seu conhecimento do real, quando defrontado com evidência, lógica e sistema. Na realidade, o ateísmo não foi ponto de partida, mas linha de chegada de certo clima existencial presente desde a infância. O ateísmo resultou do ceticismo, este sim, uma ética completa, um modus vivendi, uma atmosfera existencial.  Bom ceticismo não é aquele que cerra a percepção e encastela o mundo conhecido. O bom ceticismo é o prospectivo que, insaciável, faz da dúvida a técnica para investigar e interrogar. A boa dúvida amplia os horizontes da mente e perscruta a vida atrás do desconhecido. Pautado pelo ceticismo, não há risco de o ateísmo enjaular-se em disfarçado dogmatismo, numa descrença igualmente fanática. O ateísmo do cético não se fecha sobre si, não se submete à heteronomia de pastores ou igrejas “atéias”, como sói ocorrer com o religioso nas instituições de fé, verdade e moral.
Naturalmente, ao amadurecer, a civilização foi domando a fera irascível. Ao vestir calças compridas, o pequeno ateu passou a apresentar-se pudicamente como agnóstico. Evitou indispor-se com os asilados na ignorância, por estratégia, já que assumia outras agendas como mais prioritárias do que a militância atéia. Assim, tive em Carl Sagan a maior referência da adolescência,  na sua promoção de um saudável, moderado e humanista ceticismo. O Mundo Assombrado pelos Demônios deveria ser leitura recomendada de todas as escolas. Instigado por Sagan, substituí o escárnio anti-social pela construção de um edifício de métodos e explicações, capazes de sustentar o ateísmo em debates mais civilizados. Foi nessa altura que prestei o vestibular, quando minhas redações, bem mais dóceis, incorporavam a sábia tolerância diante da infinita credulidade (ignorância) humana.
Richard Dawkins quase destruiu essa capa cultural. Em seus livros, o autor de Deus, um Delírio (“The God Delusion”, 2006) tem o poder de despertar o menino luciferiano em mim. Com ele, concluo que, ao me vestir agnóstico, não passo de ateu sem personalidade. Dawkins escreve tão bem e com tanta cólera, e eu concordo tanto mas tanto com ele, que me dá vontade de sair pelas ruas berrando contra a sociedade teísta, de me assumir a criança que nunca deixamos de ser. Ressurge mil vezes vingativo o enfant terrible. Dawkins me faz lembrar como é importante não perder a faculdade de odiar assim como a de amar — faculdades irmãs. É um dos poucos autores que apela ao coração de menino, na sua imprudência e seu excesso, nas suas lágrimas ingênuas e no seu prazer destrutivo. Dawkins quase me faz esquecer o bom-tom e a medida, me torna novamente puro, e uma vez mais converte o agnóstico em ateu praticante. Renasço intacto.
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Construí o meu sistema-mundo com a leitura paulatina da literatura científica e da filosofia da ciência. Não fiz das ciências um dogma às avessas. Com Karl Popper, nelas encontrei precisamente uma forma não-dogmática de pensamento, cuja essência de suas verdades reside na refutabilidade mesma. Aprendi como o conhecimento científico não somente procede por refutações sucessivas, mas também por saltos qualitativos, por rupturas paradigmáticas, como Thomas Kuhn descreveu em livro clássico. O que se alinhava à minha percepção de um mundo-fluxo, em mutação profunda. O  antidogmatismo e a visão aberta do mundo culminaram na entusiasmada adesão no anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, radicalmente averso a cânones, metanarrativas e esquematismos.
Atribuo as religiões a dezenas de causas. Politicamente, por servir como peça importante da dominação de classe, exercida com base no temor e na ignorância. Moralmente, por ajudar no controle social/sexual pelo poder constituído contra as minorias políticas, a mulher, o jovem. Culturalmente, ao comodismo do hábito, à preguiça intelectual, ao zelo bovino pelas tradições familiares. Individualmente, à fraqueza de caráter, que anseia por consolo metafísico, diante do sofrimento e da morte; ou então como reação igualmente impotente perante a culpa, a baixa autoestima, o desespero. Esteticamente, à aspiração pela perfeição, pureza e sublime, num amor transcendente. Genealogicamente, como ressentimento dos fracos contra os fortes, como inversão da lógica do bom x ruim (potência), pela do bom x mau (moral), como vingança abstrata contra um mundo insatisfatório. Racionalmente, à ingenuidade de pretender uma explicação totalizante e definitiva, num sistema fechado e reconfortador, capaz de apaziguar a dúvida angustiante que move o homem.
Nessa recusa esclarecida da religião, não fujo da tradição do pensamento anticlerical, ainda que eu também abomine os teísmos e deísmos que os iluministas (traidores), em geral, incorriam. Daquela época, o único ateu lídimo que eu li foi o Marquês de Sade, no seu furioso materialismo. Antes dele, Spinoza: teórico do Deus filosófico, imanente, amoral e impessoal, adotado também por Einstein, que por sinal nada tem do Deus dos monoteísmos.
No século 20, por sua vez, abundam os ateus assumidos entre escritores e intelectuais. Poderia citar mais de cem, mas destaco o mais irônico: Woody Allen. No século 21, o aumento da população atéia contrasta com a onda de fundamentalismos cristãos, islâmicos e sionistas. Estes se espalham como epidemia sobretudo nos Estados Unidos, nos países árabes, em Israel, acuando os seus muitos cidadãos livres e inteligentes. É preciso resistir e é preciso ceticismo.

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Leituras recomendadas:
ALLEN, WOODY, God: A comedy in one act (peça de teatro), 1975.
DAWKINS, RICHARD, Deus, um Delírio, Cia. das Letras: 2007 [2006].
FEYERABEND, PAUL, Contra o Método, UNESP: 2007 [1975].

KUHN, THOMAS, A Estrutura das Revoluções Científicas, Perspectiva, 2003 [1962].
POPPER, KARL, A Lógica da Pesquisa Científica, Cultrix: 2000 [1934].

SADE, MARQUÊS DE, Diálogo entre um padre e um moribundo, Iluminuras: 2009 [1782].
SAGAN, CARL, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Cia. das Letras: 1996 [1995].
SPINOZA, BARUCH DE, Ética, Autêntica: 2007 [1677].
jul 2010 15

O artigo Meu ateísmo: Sagan, Dawkins, Woody, publicado no blogue coletivo Amálgama.

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