out 2011 15

No Rio, será na Cinelândia, a partir das 13 h

Amanhã, vou comparecer à Cinelândia. Acontecerá a versão carioca do 15 de outubro (15-O). Movimento global na esteira da primavera árabe, do 15-M europeu, do Occupy Wall Street, exige uma democracia real já. Isto é, além da lógica da representação, — seja da parte dos partidos, eleições e órgãos do estado, seja da parte da opinião pública, do jornalismo e dos meios de comunicação. Se há uma característica imediatamente reconhecível está em não aceitar ser representado. Assim, numa expressão que não se separa do movimento mesmo e não admite instâncias acima e exteriores, evita ser reconduzido aos marcos e coações da política normal, da ‘vida real’ do imaginário político.

Inspirado pela Praça Tahrir, a Acampada do Sol e Nova Iorque rebelde, entre outras condensações dos desejos da geração, se propõe a ocupar intensivamente o espaço. Desfuncionalizá-lo, arrancar-lhe as funções espaciais tidas por naturais: como se as ruas e praças servissem apenas para as pessoas transitarem da casa ao trabalho, da casa ao shopping. A partir das zonas autônomas, procriar discurso e mídia, compartilhar e socializar saberes e afetos, construir métodos horizontais de debate e decisão, desafiar a ordem constituída, seus discursos e seus jornalistas. Polinizar um território social, um espaço diferenciado e diferencial que, mais do que público, torna-se comum, — no sentido de comunista mesmo. Comum enquanto cooperação participativa, como cultura e política como processo social que não se separa dos sujeitos em atividade, de um imaginário da revolução permanente, que começa por si mesmo, pelas formas de organização, circulação, comunicação e trabalho social e socializado.

Tenho curiosidade em saber quantos somos. Falo no plural, nós, atravessados pela proliferação global de afetos ativos e crenças no novo. Que vibramos com as multidões em Madrid e Barcelona, que nos comprazemos de ver as pessoas afirmativas e otimistas nas ruas de Atenas, Roma ou Londres, cujos olhos brilharam com as imagens da Praça Tahrir. Queremos poder partilhar a paixão incandescente de jovens e nem tão jovens, como mostram as referências de Darcus Dowe ou Eduardo Galeano ou Antonio Negri, tão vivos e joviais em meio ao turbilhão de inesperados acontecimentos. Quantos somos aqui, no Rio de Janeiro? Talvez muitos retuitem e poluam visualmente o facebook, mas nem tantos, efetivamente, saiam de casa num sábado para fazer o real da democracia já. E quem somos? E haverá pobres? Negros? Haverá algum, unzinho que seja, pobre e negro? Espero, verdadeiramente, não encontrar traços de um Cansei 2.0, — mistura de velhas elites racistas, ressentidas com as conquistas do governo Lula, e os verdes-indies, apolíticos, descafeinados e contra tudo-o-que-está-aí. Essa paçoca pseudomilitante. Pois não irei tolerá-los, muito menos a título de pluralismo.

Afinal, a ecologia não é um problema de desenvolvimento sustentável ou de preservação da vida e sua diversidade; a propriedade intelectual não é uma questão jurídica complexa; e a biogenética não se esgota numa ética da humanidade. Por outro lado, formular uma luta antissistêmica não pode se resumir a espalhar slogans alternando as palavras “anticapitalista” ou “(preencha como quiser) não é mercadoria”. A crítica e a contestação à economia política global não se formulam, não circulam e não vingam contra o Sistema (em maiúscula). Mas, em análises teóricas e movimentos sociais específicos, localizados geográfica e historicamente, — embora sem perder a dimensão global e sistêmica que os acompanha.

A força do 15-M na Espanha veio de uma articulação de longa data, que foi adquirindo massa crítica a partir de várias mobilizações. Nada de espontaneísmos das massas. Do nada nada se cria. Havia o movimento da juventude precarizada, dos devedores de hipotecas impossíveis, dos midialivristas e hackers e produtores de cultura contra a Lei Sinde, — e também a esquerda extrapartidária, o anonymous, o nolesvote, os imigrantes depauperados.

A primavera árabe tampouco foi voluntarista, não brotou no deserto por acaso. O movimento rompeu um dique e liberou energias acumuladas há anos. Lá, houve um fortíssimo movimento sindical, um enxame de militantes virtuais, grupos islamistas e articulações com as elites ilustradas liberais (nas forças armadas, por exemplo), inclusive lutas pelos direitos civis das mulheres.

Em Wall Street, o movimento derivou de um acúmulo das ocupações do começo do ano em Madison (Wisconsin), de uma oposição crescente a políticas do governo Obama por dentro da própria esquerda organizada, da resistência militante ao populismo de direita do Tea Party, — mas também de uma generalizada e ambígua reação ao capitalismo financeiro, que enfileira inclusive setores do Partido Republicano. Esse acúmulo, mais que quantitativo, é qualitativo e é um processo complexo. Por isso talvez melhor seja chamá-lo outra coisa, quem sabe fazer multidão, como prefere Negri. Ao se auto-organizar e se miscigenar, o movimento intensifica, qualifica a sua produção, diferencia-se internamente, aprofunda novas dimensões e texturas e colorações. Abre-se para mais gente, e abre essa gente e a mais socialidade e compartilhamento, num ciclo virtuoso. Assim, pode deslizar das armadilhas, dicotomias e engessamentos da política normal, das tentativas de enquadrá-lo e anulá-lo — tarefas que imediatamente a lógica desmobilizadora de partidos e jornais passa a operar. No processo, em vez de esfumar e dissolver o sujeito e o antagonismo, este se torna real, — vai além da negação abstrata e possibilita as condições para uma mudança concreta. Tudo isso, por óbvio, não exclui a força do evento em si mesmo: o momento em que a represa não consegue mais conter a força vital da multidão e extravasa — amiúde espetacularmente, como no Cairo ou na Praça Catalunha. Aí, atua como poder constituinte e deflagra novas verdades políticas.

Por isso, ao menos no Rio de Janeiro, o 15-O só tem alguma chance se se construir a partir da rede de movimentos que já acontecem, ao redor do direito à cidade. Acontecem há anos, décadas. Falo das lutas, organizadas transversalmente, por outro modelo de metrópole. Outra maneira de pensar e viver e fabricar a cidade. Todas as técnicas e saberes do poder têm sido investidos para submeter e ordenar a cidade do Rio de Janeiro, segundo a divisão social entre ricos e pobres, brancos e negros. O consenso dos três governos — municipal, estadual e federal — passa a régua olimpicamente, em nome dos mega-eventos, em estado de exceção permanente. E apesar de, por má consciência, o PT-RJ propagandear que humaniza o processo e minimiza os abusos, que atua por um mistificado interesse coletivo, ele dirige o trator na frente da opressão aos pobres da cidade. É a esquerda no crime do poder. Laboratório de políticas públicas para o Brasil, o consenso carioca coordena UPP, populismo miliciano (a nossa máfia napolitana) e cobertura midiática. É o esquemão representativo de um amontoado de interesses corporativos, imobiliários, jornalísticos, político-eleitorais e empresarial-esportivos.

Isto se projeta com as inúmeras remoções, sempre arbitrárias, de favelas e comunidades, removendo os pobres como se fossem lixo, para áreas menos valorizadas. Com a repressão policial e criminal, sempre arbitrária, às ocupações de territórios urbanos, aos sem tetos em geral, aos camelôs, aos moradores de rua e às crianças abandonadas pela sociedade. Com os processos de gentrificação e higienização: alarga vias, ortogonaliza os bairros, formaliza as relações sociais pelo território. Tudo para constituir uma cidade-global, integrada aos fluxos do capitalismo global, uma cidade de vitrines e paisagens, purgatório plastificado para aparecer na novela e nos folders das agências turísticas. A vida metropolitana como um todo foi investida nos dispositivos de controle social, geograficamente referenciados.

Contudo, se o Rio é um paradigma político para o biopoder, — um modelo exemplar de desenvolvimento de cidade, — que se pretende nacionalizar no Brasil, isso também vale sob a espécie da resistência. Onde o poder esquadrinha e se exerce, habemus resistência. Daí a virtualidade de a cidade do Rio, insubmissa por excelência histórica, também poder coordenar a rede de movimentos e organizações de um modo singular, sistemático, potente. E é o que já está acontecendo, nessa convergência das militâncias da moradia, do trabalho informal, do passe livre, antidesenvolvimentistas, pela cultura e compartilhamento livres e em rede, de cartografia insurgente, contra a política de segurança pública, pelas ações afirmativas — tudo isso num endereçamento mais focado e qualificado sobre a metrópole, o direito à cidade, a sociedade urbana. Sem falar nas produções imediatamente políticas dos coletivos, oficinas e redes culturais, da primavera periférica do hip-hop, da poesia das vielas, do novo rap, do cinema pós-industrial, do funk de resistência e dos pontos de cultura. Eis o fazer multidão molecular, micro-político.

Quem não quiser provar a intensidade misteriosa deste 2011, tão mágico em revoltas e poder constituinte, não está vivendo a sua geração. Escancarou os dentes na poltrona, isso sim, rendido à Grande Máquina.

Se existe um futuro presente para o 15-O, pode ser tomar por ponto de partida essa matriz de forças sociais, essas demandas tão locais e tão prementes, — e conseguir impingir-lhes criativamente a dimensão global da revolução em curso. Isso demanda uma nova poética das lutas, um devir generacional. Um trabalho social de articulação e incremento de potência, intensivo e diferencial. Isto significa assumir-se global na difusão de afetos e potências, mas local no choque de forças e resistências ao poder. Aí está a materialidade de lutas radicalmente democráticas. Só assim, penso eu, se pode elucubrar uma mobilização carioca à altura do que tem sido a primavera árabe, o 15-M e Occupy Wall Street.

out 2011 17

Primeiro eles ignoram você

depois eles riem de você

depois eles reprimem você

e então você vence.” (Gandhi)

 

Formou-se uma assembléia. Umas duzentas pessoas. No chão, cartazes derramados. As pessoas vinham ao centro e falavam. Qualquer pessoa. Falavam de descontentamento, indignação, impulso de fazer diferente, mudar o mundo, elas brincavam, erravam, dançavam, batucavam, alguns desinibidos, outros sem graça. Ali falaram gente-da-internet, gente-das-artes, gente-da-zona-sul, gente-da-militância, moradores dos morros do Chapéu-Mangueira e Babilônia, ativistas de squats, professores, estudantes, midialivristas, de tudo um pouco, inclassificáveis no conjunto e nas relações desenvolvidas. Havia vários negros, havia pobres que falavam a linguagem assim materialista, que chama as coisas pelo nome, uma outra relação pessoal com os objetos, as mãos, o espaço. As pessoas falavam e as pessoas escutavam, sem muita disciplina. Jamais anarquistas: auto-organizadas.

E assim foi a dinâmica naquela tarde de muito frio e chuva na Cinelândia, último sábado no 15-O carioca. Aclamou-se por acampar na semana seguinte. Foram divididos grupos de trabalho para as questões práticas. Definiu-se o slogan: A casa caiu, levanta o barraco — polissêmico, ressonante à política pública de submissão da cidade e remoção de pobre. O frio piorou, a chuva insuportável. Entre Festival do Rio e tão atraente agenda cultural, quem estava ali realmente queria estar. Esses voltarão. E trarão mais gente.

Sim, era vago. Mas tinha de ser. Quem anseia por um programa, não verá tão cedo. Chegar pautado seria repetir a fórmula de partidos e jornalistas. Primeiro, é caso de produzir o espaço em que se criará. A ocupação se trata disso: lançar um espaço social, uma forma, para que os conteúdos sejam criados, compartilhados e difundidos.

No começo, havia um grupo do PSTU. Uniformizado, bandeiras, slogans do udenismo esquerdista anticorrupção. Grotesco. Ofereceu megafone e se pretendeu conscientizar. Mas algumas pessoas foram lá e pediram pra que saíssem. A forma não estava condizente. Aí o movimento em estado fetal já deu o primeiro recado. As formas da representação não são toleradas. Gente-de-partido pode, mas não venha com fidelidade partidária ou palanque eleitoral, para se apropriar com mídia. Tampouco é caso de partidofobia. O movimento não se pauta por isso e não é pluralista para aceitar tudo. Não há relativismo nem chapa-branca. Quase toda a diversidade de conteúdos bem-vinda, mas dentro de certa forma do emergente ciclo de lutas. Isso ficou ainda mais claro nas falas e debates. Se o desejo é reprogramar o sistema, não pode começar adotando seus próprios algoritmos: a forma-partido, as eleições, a fidelidade aos mandatos, a grande imprensa. Todo o ímpeto das acampadas e mobilizações globais está em inventar a democracia real como resposta à democracia formal.

É ingênuo querer mudar o mundo? Não querer mudá-lo é que me parece criminoso. Quem nada faz para nada e se acha inocente é o mais culpado. As formulações são vagas? Sim, mas há uma convergência no desejo de uma forma diferente de produzir e fazer política. Ocupar o espaço e fazê-lo território produtivo. Estabelecer essa zona autônoma, de onde se poderá recombinar e circular os conteúdos. Porque a forma não é a-histórica e não cessa de se relacionar com o conteúdo. A forma afirma-se no conteúdo e, ao mesmo tempo, afirma o conteúdo. Mais do que dizer algo novo, quer-se uma nova forma de dizê-lo, e assim novos conteúdos se tornarão possíveis. Forma como matriz histórica de geração de sentidos, menos que chave universal de interpretação. Uma que seja capaz de dizer não o que não tem sido dito, mas o que não pode ser dito nem visto, dentro da forma atual. É desarranjar as ciladas e cabrestos da esquerda e reestruturar o campo do visível e do dizível. Uma outra mídia e uma outra prática.

Partidos e mandatários criticam que este ou aquele grupo é corrupto, que são traidores dos pobres, hipócritas e interesseiros, mas não podem reconhecer que eles mesmos, enquanto momentos do jogo político representativo, do processo eleitoral e do toma-lá-dá-cá dos parlamentos e meios de comunicação, eles também estão mergulhados nessa corrupção, hipocrisia e interesse privado, e a reproduzem no ato mesmo em que a combatem. A corrupção não é um conteúdo, acidental e contingente, mas a forma mesma em que funciona a política representativa. Quando não simplesmente golpista e hipócrita, a pauta anticorrupção pretende enxugar gelo, quando perde de vista a dimensão global e sistêmica do problema.

A forma através dos mecanismos existentes neutraliza a crítica e a torna interna ao próprio sistema político, anquilosada. Em nenhuma cidade isso fica mais claro do que no Rio de Janeiro, onde o principal partido de esquerda sucumbiu às políticas autoritárias de controle da pobreza. No mundo, a internalização da esquerda se agravou com a intensificação da crise político-econômica de 2008 em diante. Rendeu-se ao dogma que não há saída para a crise pela democracia senão salvar os bancos, fazer o que os sábios de olhos azuis de Davos mandam e pôr a culpa nos pobres, pretos, muçulmanos e imigrantes, e exigir que todos façam concessões, que se resignem a disciplinadamente tornar-se ainda mais austeros e mais pobres. Daí o beco sem saída em que se encontra a esquerda partidária na Europa e na América do Norte. Está rendida ao receituário das elites econômicas e financeiras.

Na América do Sul, por sua vez, a resposta à crise está em aproveitar a oportunidade, como na década de 1930 fez o governo Vargas (a seu modo). Mais desenvolvimento desigual, mais capitalismo de estado-partido, mais controle social e racial, mais agenciamento entre o empresariado nacional e os fluxos financeiros que evadem a crise no hemisfério norte. É o outro lado do beco: o esgotamento do sentido do público, convertido em mera superestrutura do privado. Democracia de fantoches. Para onde, por engessamento, estão rumando governos sul-americanos de Dilma, Chávez e Evo Morales, cada vez menos fiéis às políticas transformadoras da década passada. Alguns políticos de carreira da esquerda parecem frustrados de não ter conseguido ser executivos de bancos e grandes empresas, então se contentam em ser banqueiros e empresários através do estado (BNDES, Petrobrás…). Por isso, o aspecto conservador das críticas às empresas multinacionais estrangeiras, ao capitalismo financeiro e à globalização predatória. Não é porque a Petrobrás é nacional que seja mais justa, basta perguntar aos bolivianos. Nem que o BNDES seja menos concentrador de riqueza, por ser um banco público. Não seria a mobilização mundial do 15-M, — na esteira dos movimentos antineoliberais do final dos 1990 e dos dias de Ação Global, antiguerra do Iraque, — uma resistência propiciada pela globalização? Movimentos como wikileaks, anonymous, fóruns sociais mundiais, wikipídia, o software livre em geral demonstram que a resistência está além das fronteiras e tem de estar. Índios do Xingu tem mais a compartilhar com os quéchuas ou os sioux, do que com a nobreza neo-escravocrata do Leblon. Demais, criticar o capitalismo financeiro em si esquece que não há processo do capital sem crédito, que isso vem desde a sua formação histórica na Alta Idade Média, quando os monges templários inventaram os bancos, no esforço da guerra racista contra os árabes.

Se a representação é a presença da falta, a tarefa passa por preencher esse vazio. Inundá-lo até que transborde de tanto excesso em relação às formas limitadas e amortecidas da democracia vigente. A acampada, ponto nevrálgico das redes no real, condensa o desejo da geração em realmente viver o seu tempo, isto é, um outro mais além do que está. Em produzir seus sentidos e valores, menos do que seguir a carreira formatada da política normal e do mundo por ela estruturado. Quem aposta na acampada não acredita em fidelizar-se a pautas e programas insuficientemente transformadores na prática. Não se contenta em fazer-se presente nos eventos partidários e aguardar a sua vez na fila de espera por cargos e boquinhas. O problema não é que sejam radicais de menos, mas que a sua radicalidade não vai além do slogan e da palavra-de-ordem, amiúde como modo de autoafirmar uma identidade narcísica. Como em pequenos partidos supostamente mais à esquerda, por exemplo, que estão num beco ainda mais desolado que os governos. O problema é que estão maceteados e presos numa forma de produção, a representação e a lógica eleitoral de publicidade e financiamento (público ou privado, não muda quase nada), que não permite realizar, sequer enxergar os conteúdos que defendem e promovem no mundo real. Não é caso de ser anticapitalista de mais ou de menos, de regurgitar mais ou menos o esquerdismo de almanaque, mas apresentar-se numa outra forma de fazer, diferente, não-mistificada pela política de sempre. Diferente sobretudo.

Por isso, só podem ser cínicos ao questionar, com um sorriso sarcástico, ao movimento 15-M ou 15-O que alternativa tem para oferecer ao capitalismo. Retruco a pergunta aos apparatchiks: o que vocês têm a oferecer como alternativa ao 15-O?

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Sites do movimento:

http://www.democraciarealbrasil.org/

https://www.facebook.com/DRYBrasil (FB)

https://www.facebook.com/event.php?eid=117904894971979 (FB)

http://ocupasalvador.wordpress.com/ (Salvador)

http://15osp.org/ (São Paulo)

Textos recomendados:

Occupy Wall Street as a fight for real democracy (Antonio Negri e Michael Hardt)

As revoltas globais e o panorama brasileiro (Pedro Laureano, no Observatório de levantes)

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No topo, desenho por Andy Warhol, 1973.

 

out 2011 23

Estou saindo da acampada do 15-0 na Cinelândia e uma jovem jornalista, de um velho jornal carioca, me aborda. Depois de perguntar nome, idade, ocupação, vai direto ao ponto:

— O que vocês propõem, qual é a pauta de reivindicações do movimento?

— Acho que mais importante é perguntar o que o movimento faz, o que ele produz e, mais importante ainda, como ele faz e produz. A forma é diferente.

— Tá, mas, pode dar um exemplo…

— Por exemplo, aqui se está experimentando fazer uma mídia de maneira que não precisemos mais de jornalistas e jornalismo. — respondo sem tom de provocação, mas ela reage com uma atitude de condescendência, que é o pior tipo de arrogância.

— Sei, porque a mídia é golpista e tal, e vocês não, são os revolucionários. O jornalismo vai continuar existindo de um jeito ou de outro.

— Se o jornalismo surgiu há alguns poucos séculos, ele pode acabar também, as coisas mudam. E não entraria no mérito se é golpista, acho que seja mais simples e menos conspiratório: é porque você não é livre enquanto jornalista, a sua reportagem não será livre, esse movimento no fundo também é pra você.

— Claro que não. Por quê?

— Você tem um chefe, uma pauta, uma carreira, uma edição centralizada dos textos, você não escreve o que deseja e sobre o que deseja e, mais importante, como deseja; tem uma linha editorial, tem que respeitar certa forma de escrever, de construir e selecionar os fatos, tem truques e convenções impostos de fora pela profissão do jornalismo, do jornalismo sério. Por isso que a nova mídia tem que ser pós-jornalista e quando o jornalista vem pra nova mídia, ele precisa largar essa identidade e esses macetes. Se a nova mídia reproduz o mesmo jornalismo no formato 2.0, não é nova. — e ela vai anotando, condescendente.

— Então o melhor é deixar tudo para o estado, estatizar?

— Se fosse isso, a gente não estaria aqui acampado, teria procurado os partidos pra disputar o estado. Acho que a mídia não será livre quando toda ela for estado, mas quando todos formos mídia. Todo mundo pode colaborar numa narrativa em comum. A gente tá cansando de ouvir que no mundo socialista não tinha imprensa livre e é verdade. Mas não é muito diferente daqui. Lá na Romênia do Ceausescu o controle era mistificado pelo interesse público e o estado, e aqui ele é mistificado pela livre iniciativa, que qualquer um é livre pra montar uma empresa jornalística ou mudar de emprego, mas no fundo, aqui e na Romênia, é o mesmo jornalismo, ou seja, a falta de liberdade pra falar e de criatividade em comum. Se você for a favor da linha dos seus chefes, está bem, é livre, mas experimenta colocar opiniões verdadeiramente contrárias e que incomodam, ou então a fazer diferente, aí te censuram na certa. Claro que eles vão falar que no texto você perdeu a objetividade dos fatos, que está muito carregado de opiniões e achismos, que está político, ou horror, que está ideológico. Como se o fato e o jeito de montar esse fato que eles querem, e o modo como ensinam e pautam seus jornalistas, como prometem a carreira profissional, já não fosse a ideologia em primeiro lugar. E aí se você tem a opção de aceitar ou mudar pra outro jornal no mesmo formato controlado por outra família de poderosos, então não vai mudar muito. Você está num ciclo vicioso que se chama liberdade de imprensa, mas essa democracia não é real. Por isso quando a Acampada toma a palavra e faz diferente, essa é uma proposta importante. — nessa hora, a jornalista mudou a expressão, talvez tenha se dado conta que não ia me pegar no contrapé tão fácil, então tentou uma última.

—- Então você quer extinguir o jornalismo, isso não é complicado, não é totalitário?

— É tão totalitário quanto o fato que esta entrevista não vai aparecer no seu jornal amanhã.

E não apareceu mesmo.

 

 

 

out 2011 25

Foto: Rodrigo Torres, do grupo Direito do Comum

 

Depois de três dias intensos de ocupação na Cinelândia, mais uns tantos de articulação prévia, e labirínticos debates online, vale pensar a partir da Acampada do 15-0 no Rio de Janeiro.

Antes de tudo: pra mim, está sendo a coisa mais sensacional do mundo. É um evento constituinte que deflagra novas verdades políticas, novas formas de viver a liberdade e agenciá-las. O salto qualitativo em relação às redes no facebook é estar ao mesmo tempo na praça e na internet.

Hoje à noite, coloquei-me à parte do circuito oficial de assembléias e grupos de trabalho (os GT). É incrível como o tempo das assembléias consome totalmente. Mas hoje, juntei-me a um grupo heterogêneo, que se encontrou para compartilhar experiências e inquietações. Foi uma espécie de pós-GT. Nele, pude presenciar em ação na praça figuras singulares, como o dérmico Patrick Sampaio, e Maurício Rocha, com seu charme deleuziano, entre outros.

Percebo que tenho em comum com outras pessoas certa insatisfação, que está no ar. Certo sentimento de insuficiência ante a forma predominante de organização e produção da acampada. Não falo do endereçamento de questões práticas, mas da questão política, que é tão essencial quanto.

Em primeira formulação, diria que é um desconforto crescente diante da obsessão em construir o consenso. Perante a importância conferida a coletivizar todo o processo. Essa afirmação quase dogmática que é necessário discutir tudo em assembléia, para que todos participem, que assim todos poderão tomar parte na decisão coletiva. Que somente a assembléia delibera em nome do todo. A discordância aqui não está no pode deliberar, mas nessa fixação no todo. É o fetiche do todo, como se o coletivo fosse a oposição ao indivíduo, seu ego, seus interesses privados e potencialmente antissociais. Como se o coletivo não fosse a própria condição de existência do indivíduo.

Essa insatisfação não significa uma dissidência, iniciar uma disputa intestina pelo poder. Não se trata (certamente não agora, tão cedo) de bombardear o quartel-general. Nem de tensionar ou nada disso que os mais apressados correm em tachar. Mas de compor outros modos de cooperar, criar e assim fortalecer o movimento. Esses modos já existem desde o início, minoritários, pouco pensados e debatidos. Está em habitar as margens, em devorar amorosamente a organicidade em construção.

A assembléia jamais se livrará do “quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?” Parece presa a essa necessidade de recomeçar a todo momento o modo de se identificar como algo razoavelmente bem definido. Na necessidade de constituir-se. Uma pulsão de identidade. Uma necessidade de pertencimento, de fazer parte de algo maior (o todo), — e destarte se definir refletivamente, como parte do todo. A solução para os dilemas, até agora, se resolve na assembléia dita soberana, alfa e ômega da acampada no Rio. Algumas pessoas sentem que é isso que qualifica o movimento em Wall Street e do 15-M, o assembleísmo. Ontem, por exemplo, saí moído de um dia inteiro em debates e discussões atrás de consensos e pautas mínimas, para depois ser novamente moído em assembléia, para ampliar e passar tais consensos. Isso não tem como ser o esqueleto de uma democracia real, baseada no comum produtivo, mas meramente formal-deliberativa, fundada num método regrado e minucioso de discussão e decisão. Dissocia forma e conteúdo e, nessa manobra mesma, a questão política não pode emergir.

O fato é que não há consenso nem nunca haverá e nada de produtivo pode sair dessa busca. Não existe uma pauta consensual. Existem pontos em comum, mas não um consenso. Tentar formular esse comum por meio das assembléias apenas o exaure em palavras de ordem e slogans, como “anticapitalismo” ou “autogestão”. Essas palavras nada significam sem as lutas reais que as preenchem de sentido e potência de vida. E aí só o dissenso produz. O dissenso no sentido daquilo que nos distancia. Ser generoso com essa distância, amar o distante, cria o que não éramos e que não seremos.

Essa tentativa de responder à fixação de pertencimento — e, de certa forma, à grande imprensa que representa a sociedade na opinião pública, que pauta alguns mesmo que seja como negação — engessa o que o movimento tem de movimento. Fica estático: estatiza-se.  Assim, no futuro, pode começar a enrijecer estruturas de comando, que se mistificam em nome do consenso e do todo.E aí pode acontecer de a acampada fechar-se sobre si, refletir sobre si, como se houvesse um dentro, como se primeiro fosse necessário se definir (o dentro) para então se relacionar com as questões políticas do global e do local (o fora).

E aí acontece de exaltar a segurança do nosso espaço. Nosso cantinho querido. E também a abstrusa proposta, porém bem recebida, de reprimir práticas que a ordem estatal reprime. Justamente porque ela reprime, diga-se o que se quiser sobre estratégia e tática. E pretendem que as pessoas se policiem umas às outras, em nome do coletivo. Mas se pensarmos e agirmos como a polícia, nos tornamos polícia. Ipso facto. E uma onipresente, de vigilância e delação mútuas. Não existe alternativa à ordem que seja mais fascista do que a que propor uma sociedade em que todos somos polícia coletiva uns dos outros, em vez de um mundo em que não precisemos de algo como o policiamento.

Essas limitações ainda são muito incipientes e chega a ser injusto criticar a acampada, de dentro. Mas dá pra identificar tendências e riscos bastante reais. E que, portanto, precisam ser criticadas, precisamente para o movimento movimentar-se ainda mais. Essa crítica não é destrutiva. É propor a algumas pessoas, que estejam já com a inquietação, que deslizem das assembléias e dos GT, para produzir também noutro plano. E evitar ser consumido ao ecoar disciplinadamente falas atrás de consensos. Sim, é uma oficina para os que nunca saíram do condomínio, mas como exercício de democracia é quase nada.

Mas é claro que a acampada é muito mais, que corre em paralelo e mais além disso tudo, que é preciso identificar os agenciamentos e os excessos além das estruturas decisórias e pulsões de identidade, embora muitos dos mais ativos talvez não confiram tanta importância a essa margem. Penso que o caso é aproveitar e aguçar aquele excedente que transborda das dinâmicas, das muitas pessoas se encontrando e vivendo nas brechas e interlúdios da assembléia. Esse excedente, no fundo, é a própria acampada como acontecimento. Logo, é preciso fortalecer essas dinâmicas.

Por isso, o movimento não precisa se constituir. Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora. Ele já é constituinte nessa pele de cobra. Ele é rede (de afetos, de informações, de narrativas, de singularidades) em fermentação. Global enquanto repercute os afetos proliferados pelo que está acontecendo no mundo. Local enquanto atravessado pelas lutas reais e movimentos sociais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil, da América Latina. Por isso, ele já acontece, às escâncaras, antissistêmico, repensa por si mesmo as categorias políticas e contesta por si mesmo as políticas públicas, na dupla dimensão global e local. Quando nega isso, porque não há consenso, apenas nega que seja o acontecimento global e local que o dá vida. E assim se mortifica num assembleísmo do consenso.

Até as pedras do calçamento já sentem que se está querendo além da representação e da ordem político-econômica do modo capitalista, — na prosopopéia hiperbólica do Maurício, o militante dândi. Disse bem: o caso agora é como colocar os problemas, numa política sem vergonha de ser política. E isso passa, eu penso, pela própria forma de organizar e produzir , aliás, é isso mesmo o problema mais candente agora. Colocar bem um problema, colocá-lo politicamente, não só vence a dialética irresolúvel entre teoria e prática, bem como as armadilhas da dialética entre estratégia e tática, entre fins e meios. E colocar bem um problema passa pelo dissenso. E desse dissenso, a reconfiguração daquilo que deu a partida às acampadas em primeiro lugar. Portanto, sem dissenso, não se produz nada: será uma terapêutica e eterna discussão sobre o mesmo, o que somos, de onde viemos e pra onde vamos. Perda de tempo vivo, de trabalho vivo.

Repensar continuamente a acampada, também para deconstruí-la, para ir mais além, e sobretudo participar produtivamente, estar lá no excedente, na dimensão simultaneamente global e local da coisa, e focado na colocação de problemas políticos para um outro mundo, uma política nova e um direito novo, — eis aí o grande desafio.

nov 2011 03

Nascimento de Macunaíma, interpretado por Grande Otelo

 

A acampada da Cinelândia completou 10 dias e continua gerando perplexidade. A grande imprensa, os meios de esquerda, os transeuntes, todos repetem as perguntas: do que se trata? quem participa? o que pretendem? até quando?

Aqui, como nas milhares de ocupações do 15-O pelo mundo, se exasperam ao não obter respostas. E não é porque não existam respostas. É que as questões estão sendo mal formuladas. Se o OcupaRio é um movimento, não é do tipo orgânico, não tem líderes ou bandeiras, nem assume uma pauta fechada e definitiva. Não consiste num movimento no sentido de um grupo reivindicatório, cuja dinâmica culminará num bombardeio de demandas ante o estado e a sociedade. As ocupações pelo mundo coordenam um movimento simplesmente porque colocam em marcha outra forma de fazer política e outra organização das relações sociais de produção. Ajudam a recompor outro sujeito político, à altura de nossa geração.

Daí o slogan anticapitalismo ser pouco e até dê cartaz demais ao capitalismo. As acampadas já são um esboço da alternativa, já são um evento constituinte de outro mundo, além do mercado e do estado.

No fundo, o OcupaRio não precisa se explicar para existir. Precisa, sim, se processar para que se explique na medida que uma nova realidade seja mais discernível. Uma nova política, um novo direito e uma nova mídia se tornem mais visíveis e vivenciáveis, à luz dos novos pensamentos e práticas, que esse tipo de movimento produz por si mesmo. A gramática da esquerda partidária e no governo é incapaz sequer de enxergar a sua potência. Daí continuar demandando, junto com a grande imprensa, por uma resposta inequívoca e sem delongas. Assim, como escreveu Slavoj Zizek, exercem o papel da autoridade masculina, que interroga a mulher histérica para lhe dizer o que, afinal, ela quer. “Você só sabe reclamar!” É o chefe que exige uma resposta objetiva: “Responda em língua que eu entenda, ou cale a boca!” O senso comum opera conservador e moralista. E é fácil se aliar a ele para ridicularizar o diferente, o que inova ante o previsível.

Mas quem são os indignados acampados por um outro mundo?

No centro do Rio, com 10 dias, o movimento vem conseguindo se amalgamar com a experiência das ruas, embora o tema seja polêmico. De qualquer forma, definitivamente, não se resume a (mais) uma manifestação da classe-média branca ilustrada da Zona Sul. Não se compõe simplesmente de estudantes, internautas e acadêmicos. Nem somente de jovens militantes, artistas ou  trabalhadores da cultura. Também isso, mas muito mais.

Com 10 dias, o OcupaRio foi atravessado pelo cotidiano urbano no seu nível mais molecular, no nível do habitar. Agora, a praça ocupada não vive apenas relações superficiais e passageiras. Tornou-se um teatro espontâneo, onde as pessoas são atores e espectadores. Foram montadas tendas fixas para reuniões, música e artesanato, um centro de mídia independente, uma casbá que lembra cada vez mais, guardadas as proporções, a Praça Tahrir. Aos poucos, muitos elementos da metrópole convergem no espaço produtivo e se misturam e se intensificam. As pessoas tomam desordenadamente a palavra e ela se inscreve nos concretos, nos cartazes, nas tendas, no centro das rodas.

Essa desordem vive. Macunaímica. Isso também é a acampada da Cinelândia.

É a moradora de rua que se esparrama no meio das rodas e regurgita a opressão cotidiana, com raiva e irresignação. É o mendicante que quer rasgar os cartazes de 1968. São as brigas de hippies furiosos, esses que viajaram o Brasil inteiro três vezes, com notícias de Altamira, de Jirau, do Jalapão, do Rio Xapuri. São as ameaças, as rixas, os sururus à ponta de faca, momentos essenciais, que põem à prova o desejo de autonomia e produção em comum. São as discussões ríspidas e os desgastes na fila da comida. São os desconhecidos pretos de tão pobres, que se aconchegam em barracas vazias à noite, e conversam, e brincam, e furtam, e arrumam confusão, e simpatizam. É o punk estradeiro que não respeita convenções de assembléia e grita porque veio pra gritar. São os udigrúdis funkeiros do Alto Lapa nas noitadas molhadas. São os secundaristas que matam a aula da tarde e se iniciam na milenar arte, entre lonas clandestinas.

São os guardas municipais, quase todos pretos, mas brancos de cassetete na mão, caras feias e fixação fálica. São os saltimbancos, os palhaços fardados em performance, a milícia dos Anonymous, o comitê dos babalorixás, o alegre argentino que megafone à mão chama “compañeros! compañeros!”, o monge filipino zen-budista, as umbandistas e seus pontos de Iansã. São os pures et dures, esses fanáticos morais do Teatro de Operações, e os anarco-queers, e os roqueiros de preto do Rio Grande do Sul, e os intelectuais de praça e de pirraça, e os deleuzianos psis, e os exércitos de um homem só. São os loucos de toda espécie multiplamente classificáveis por uma psiquiatria repressora, os drogaditos e bêbados que passam e resolvem dar algum recado ou sinceramente espezinhar. É só chegar!

São indignados, inadaptados, enjeitados, rebeldes vermelhos e pretos e coloridos, malucos beleza ou treteiros, hippies e punks e beatniks e hip hops, — loucos o suficiente para ousar saber e ousar mudar o mundo e que, eventualmente, mudam o mundo. São os únicos que mudam. Tão ingênuos quanto, de fato, o mundo realmente muda de tempos em tempos.

E é também a menina de rua, em trapos, suja e semianalfabeta, prostituída, cuja salvação ela encontra na cola, no loló, no crack. Que o capitalismo fracassou salta aos olhos, mas as meninas de rua mostram como esse fracasso se naturalizou, — não escandaliza mais.

O OcupaRio não é bonitinho, não é harmônico, não é um acampamento de verão, não é um desfile de cansados e recalcados. E é bom que não seja. Porque a sociedade não é. Saturado de determinações e qualidades, da potência da cultura das margens, ele vai se construindo como mais um quilombo insubmisso, da insubmissa cidade do Rio de Janeiro. É zona autônoma de confluência das redes e os fluxos sociais antagonistas, da divisão de classe, da segregação racial, onde os preconceitos, apartheids e intolerâncias emergem e oprimem e são problematizados e enfrentados. O Um se faz Dois.

Afinal, o OcupaRio assume a sua estética da fome, a vergonha nacional sem romantizações. Seu caldeirão profundamente diferencial e mutante comunica a verdadeira miséria ao “civilizado” e não como mero dado antropológico para a academia. Convoca à recomposição da esquerda, do sujeito político, do discurso e da práxis.

É preciso resistir e é preciso cantar. Como dizia o baiano Gláuber Rocha em tempos de tropicalismo cangaceiro, eis aqui uma experimentação radical para os novos e os velhos: “um titânico e autodevastador esforço de superar a própria impotência“.

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