maio 2013 14

Foi em 2011 que tudo recomeçou. Vimos e participamos de ações globais inspiradas, primeiro de tudo, pelas imagens da Al-Jazeera, youtube e blogues, retratando grandes enxames de revoltados pelas ruas e praças da Tunísia, Egito e vários outros países árabes. A primavera árabe atravessou o Mediterrâneo na direção norte, refazendo o percurso da “nova ciência” na Idade Média, contagiando o verão europeu com o 15 de Maio e, a seguir, no outono do Occupy em centenas de cidades da América do Norte. Com revoltas em Londres, Portugal, Grécia, Israel, da Praça Tahrir à Puerta del Sol à Zuccotti Park, foi um ano em que o medo passou pro lado de lá. Pessoas no mundo inteiro, do Brasil à China, voltaram a acreditar na transformação do sistema estatal-capitalista, para o horror das classes dominantes.

Hoje, mais de dois anos depois, é preciso reconhecer que esse movimento perdeu o ímpeto, reduzindo-se muitas vezes a grupelhos autocentrados, incapazes de olhar além do próprio umbigo. Apaixonaram-se por si mesmos, formalizaram-se, como se os protestos tivessem nascido do nada, de sua própria lâmpada pessoal, sem memória, em vez de perceber a transmissão de impulso de e para outros tumultos, movimentos e agitações. Em muitos casos, descontextualizaram-se.

Uma das causas dessa lenta, porém nítida exaustão, estava embrionária na continuação europeia das revoluções árabes. Estas rejeitavam a modernidade colonial, uma tecnologia de poder eminentemente eurocêntrica. Revoltavam-se contra ditaduras bancadas pelas potências ocidentais, apoiadas sobre uma ordem biopolítica racista. Essa ordem encabeçada por Mubarak, Ben Ali e outros ditadores desqualificava os próprios cidadãos, especialmente os pobres, segundo diversos graus de “atraso”, ao passo que se exibia internacionalmente como governos modernizantes e plenamente integradas ao mercado mundial. As famílias dirigentes vestiam grifes e estudavam na mais vetusta academia europeia, importando a mais avançada política econômica.

Diante dessa modernidade, os insurrectos do norte da África exprimiam, sobretudo, um caráter de luta anticolonial. Sua luta também foi contra uma modernização que não passa da nacionalização da classe dominante, sob o velho pacto de um capital apátrido, na esteira de um progresso que perpetua o trabalho subordinado e precário, enquanto a maioria permanece na mesma condição subalterna, discriminada e sistematicamente violentada. Se, por um lado, isso trouxe a carga de uma recusa radical, de uma ação direta que nada aceitava senão a deposição dos governantes; por outro, carreou para dentro do incêndio revolucionário todos os paradoxos e contradições históricas da luta anticolonial. Isto é, trouxeram no bojo um componente tendencialmente teocrático coabitando com a esquerda de matiz islâmico, ativistas liberais com comunistas, patriarcalismo com feminismo, além do que sindicalistas tradicionais e ligas camponesas junto do mais antenado ativismo de internet. Em consequência, essas revoluções ainda estão em aberto.

Na vertente europeia, de maio em diante, a pauta anticolonial foi para segundo plano. Os imigrantes não foram os protagonistas dos movimentos, ainda que estivessem presentes em algum grau. Talvez por serem mais vulneráveis, por viverem constrangidos pela condição de deportabilidade. Mas, talvez, ou talvez as duas coisas, porque a “nova política” anunciada e praticada pelo 15-M não se deixara atravessar o suficiente pela contestação do racismo, da islamofobia, do fato que o regime de trabalho no velho continente se modula ao redor da raça. Direita e esquerda se unem num consenso que não representa, antes de qualquer outro, o imigrante. Ora, o precariado europeu não tem só idade, mas também gênero, raça, nacionalidade e religião. O sujeito das lutas está encarnado, ou não é. Esse déficit prático-discursivo do 15-M deu um tom ambíguo à bandeira “apartidária” e “sem líderes” que os manifestantes se obcecaram em brandir, e à verdadeira obsessão pelas formas pelas formas. Com esse foco, o conjunto de mobilizações não pôde fazer frente, na corrida mais longa, à tentativa francamente direitosa de reunificação de valores da Europa, centrada no racismo anti-imigrante, seja ele abertamente odiento, ouy quando camuflado de protecionismo. Por isso, ainda, é possível que as principais forças organizadas deste período pós-15M, seus parentes próximos, – como o Partido do Futuro na Espanha, ou o “Cinco Estrelas” na Itália – tampouco alcancem a radicalização da recusa das revoluções árabes, com o risco de flertar com o velho e anódino discurso da coalizão nacional contra os corruptos, os “maus políticos” e os especuladores malignos (geralmente judeus). Esses movimentos também estão em aberto, ainda que haja razões para maior ceticismo.

Nas Américas, a seu turno, o ano de 2011 parece encerrado. O movimento Occupy se dispersou em pequenos núcleos, incapazes de conectar-se ao movimento real de revoltas e recusas. Falhou, acima de tudo, em representar, ainda que de alguma maneira nova e impensada, os 99%. Não conseguiu colher a insatisfação difusa ante o biopoder capitalista, para afirmar uma alternativa à altura dos desafios. O que era difuso não condensou em nenhum movimento constituinte. Isto não aconteceu, como os detratores insistem, por causa da falta de pautas concretas de reivindicação — mas por causa de deficiências na composição dos sujeitos de luta, para conjugar esforços e energias de muitas pautas encarnadas além das acampadas. Perdeu força. Como consequência, a crise econômica dos subprimes vai ficando para trás, numa reacomodação geral segundo uma ordem ainda mais desigual e injusta do que antes. O trabalho de fechamento do ciclo de lutas prossegue com a reposição de um capitalismo baseado na guerra patriótica, na lógica do inimigo (interno e externo) e na precarização generalizada dos serviços, direitos e bens comuns para a maior parte da população.

Finalmente, no Brasil, a maior limitação das pequenas, porém audíveis explosões de autonomia, alegria e revolta, — igualmente brotadas na esteira das revoluções árabes, do 15-M e do Occupy, — consistiu na incapacidade de conjugar-se com a memória de lutas do subcontinente. O descontexto aqui foi maior. E sem revisionismo, sem negar a força daquela vibração. Apesar da incompreensão, da rápida desqualificação pela esquerda mais tradicional, os acampamentos urbanos resgataram um clima de otimismo revolucionário, num arejamento necessário às lutas e à militância. Mas não proliferaram enquanto prática e discurso alternativos, ficando numa crítica negativa do capitalismo, o que é insuficiente. Nesse sentido, a versão paulista das ocupas se destaca positivamente, tendo galgado duração a ponto de integrar algumas mobilizações nos anos seguintes. Em geral, o grande problema, arrisco, esteve na dificuldade de as ocupas comporem com forças políticas organizadas, além da ideia da ação direta e enfrentamentos mais prementes (e absolutamente importantes). Não reuniram as energias necessárias para participar de um levante transversal, uma composição realmente inovadora dentro de nossa realidade social e racial. Talvez por uma deficiência de copesquisa generosa com movimentos, nunca de “teoria”, que aliás não faltou. Essas energias antes são organizadas diretamente nas bases materiais, no interior da composição social e racial, num país atravessado pelo colonialismo de seus processos e elites – e não a partir da mera democratização procedimental ou inovação de formas.

Nos últimos 10 ou 15 anos no Brasil, ocorreram profundas transformações na sociedade. Menos que abolir a desigualdade, o racismo e o intolerável do noticiário, essas transformações deslocaram os conflitos e as contradições, mudaram as coordenadas de tempo e espaço não só da exploração e do racismo, mas também das lutas e organizações políticas. O país finalmente se integrou, a pleno emprego, no capitalismo mundial, ao mesmo tempo em que pôde conscrever, em massa, a população ao mercado de trabalho e de consumo. Se a tarefa materialista exige um mergulho no presente para daí, de suas dinâmicas reais de luta e criação, antecipar as potencialidades de ruptura – e nesse sentido, antecipar um futuro que rompa com o “tempo homogêneo e linear” (Walter Benjamin), isto é, com o progresso e o desenvolvimentismo da estrutura de poder, da estrutura da história do poder – essa tarefa demanda também copesquisar onde já se engendram novas recusas moleculares, insatisfações coletivas, êxodos e alternativas latentes. Antecipar a ruptura pode significar, então, aperceber-se das tendências de crise, sondá-las onde rangem mais, onde doem mais, onde as forças vivas são espremidas, se debatem, se combinam e se miscigenam, para coagular culturas de resistências e frentes de criação: digamos, na crise dos transportes, da saúde, da cultura, da universidade, do partido, na crise do modelo de cidade, em tudo isso que não acabou nem vai acabar tão cedo, mas no interior do que pulsam tendências conflitivas, franjas de recomposição e criatividade insurgente. Essas tendências, – se é possível agrupá-las, mediante um laborioso trabalho de organização e pesquisa, para fins de potenciação da luta, – passam pela raça, pela classe, pelo gênero, pela sexualidade, enfim, por todas as minorias que, em sua condição de devir minoritário, são escolhidas como alvo preferencial da violência da normalidade. É onde dói mais, e da dor também se produz o conhecimento, e se gera um amor na luta e pela luta.

O caso é que, apesar de alguns “novistas” do 15-M ou Occupy, não basta propor mais um discurso do fim: fim da política velha, das ideologias, das formas obsoletas de representação. Isso converge num “novismo” que morre antes de respirar, e que no fundo muitas vezes serve para conferir um ar radical-chic, uma vontade-de-diferenciação, em vez de diferença transformadora. Um vício talvez muito recorrente nos “novos movimentos”. O “novo” não é premissa de um processo político, mas sua conclusão, o resultado de um conflito, um estado de luta. Como escreveu Giuseppe Cocco, em recente artigo ao Le Monde Diplomatique, o discurso do fim corre o risco de decair em mais um apelo pós-moderno, quando as verdades apaixonadas e produtivas da crise, o seu cerne classista, sexista e racista, acabam sendo jogados de escanteio, em nome de alguma acomodação de síntese, de um “amor maior”: outra ideologia escamoteadora para propiciar novos negócios, empreendedorismo, sustentabilidade, terapia de grupo com pretensão emancipadora, ecologia sem conflito, circuitos de parasitismo cultural etc.

Um desafio para a repetição potente do 15-M, para uma reiteração revolucionária da revolução, passa pela retomada de linhas minoritárias do ciclo de luta. Passa por ativar o que de potente ficou silenciado, não foi aproveitado, — por uma diferenciação em relação ao próprio 15-M, o Occupy e as expressões locais das ocupas. Isso pode ser retomado desde o caráter anticolonial e antirracista das revoluções árabes — que, por sinal, incide sobre o momento de modernização colonial-capitalista do Brasil atual (e sem passar pela mediação do 15-M ou do Occupy, num eixo Sul-Sul). Mas também, pela ancoragem dos processos junto às transformações brasileiras dos últimos 10 ou 15 anos, que não foram só negativas. Se, por um lado, sofisticou a dominação e se ampliou o alcance e a profundidade do capitalismo por aqui; por outro, multiplicaram-se as crises internas a esse processo necessariamente contraditório (como ensina Marx). Se os apologetas do Brasil Maior celebram que a formação nacional finalmente se concluiu, devemos reformular a pergunta, em vez de assumir uma pauta exclusivamente negativa. Os neo-nacionalistas concluíram que o Brasil deu certo. Nós não deveríamos insistir em perguntar por que não deu certo. Melhor problema seria perguntar: onde está o erro do Brasil certo? Como esse erro pode ser desenvolvido, como pode ser retransformado, na prática, até que o certo e o errado não tenham mais vez? Até que o “Brasil errado” tenha vez?

Como também escreveu Cocco, a verdadeira inovação do último período foi a “mobilização produtiva dos pobres”. Quer dizer, a emergência avassaladora de redes, núcleos e coletivos altamente produtivos, com uma autonomia crescente, um círculo virtuoso imediatamente pensante, cultural, político e social, exprimindo a subversão e a recusa radical da raça, do gênero, da sexualidade, de todos aqueles que se apropriam das estruturas e mediações do “novo Brasil” para fazer diferente à matriz colonial-capitalista. Essa emergência remodela a própria ideia de esquerda, luta e política – não é ainda outro “novismo”, mas uma antecipação crítica em meio ao intolerável do presente. E é aí que a insatisfação difusa contra o sistema capitalista e estatal pode ganhar corpo. E, no final das contas, é o corpo aquilo que rompe, aquilo que resiste contra a polícia. E é com corpos — e não formas, e não discursos e não estruturas, e não “redes sociais”, — que se faz uma revolução.

 

 

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PS. Usei aqui o insight de Cristiano Fagundes sobre a necessidade de uma crítica pós-colonialista do 15-M e dos “novos movimentos” europeus, norte-americanos e brasileiros.

Imagem: Gravura da Cabanagem (1840, Belém)

maio 2013 12

Não tenho como compartilhar o sentimento de que o planeta deva ser salvo. Essa angústia nunca me afetou. Já costumo torcer o nariz quando ouço apelos por salvação, tão rapidamente condutor a escatologias várias e suas indigestões características, mas nesse caso me parece mais grave. Quem é o planeta, essa entidade quase mística? E quem disse que o Planeta quer ser salvo? E quem disse que estaria condenado, em primeiro lugar? Expressões consternadas e declarações sentenciosas, com o que se apresentam os juízes dessa corte, apenas me convencem de uma moral deprimida pelo terror e a paralisia. Teríamos de parar tudo e nos concentrarmos na “big picture”, no grande quadro do fim termodinâmico. Impõem com o selo da mais alta ciência para que deixemos de nos envolver com assuntos menores e os sigamos, como primeira prioridade. Manejam a culpa, e a distribuem em função do quão distante estaríamos, nós negacionistas em distintos graus, em relação à verdade por eles encontrada, revelada e promovida.

A Terra contudo não me assusta, nem seus ciclos, intempéries, ou eras do gelo. Não me assusta como não me assustam as manchas solares, os buracos negros, nem qualquer asteróide que, um dia, à semelhança do que acontecera com os dinossauros, a alta ciência possa concluir com razões matemáticas irá chocar-se por aqui. Não me comove esse pálido ponto azul na escuridão de espaços infinitos… em clima de romantismo siderado. Como tampouco tenho carinho especial pela Terra. Vivo aqui porque outros antes de mim escavaram este nicho onde pude fincar a existência e me alimentar do mundo. Num esforço inglório de lutas, desejos e revoltas, transfiguraram-se as comunidades e civilizações, com todos os seus problemas, até eu aqui poder usufruir de alguma forma de viver a liberdade. Sei que, tirando alguns mitologemas fundadores do ocidente, ninguém veio de algum paraíso, e nada aqui foi conquistado por benção. Não há razão para decadentismo, quando jamais houve idade de ouro. Não nascemos da pureza e da candidez de Gaia, outro nome para um renovado paraíso de tons mais pagãos. O problema é mais embaixo. É mais terreno, mais terra do que Terra. As pessoas é que estão ferradas. Os pobres, os sem-terra, os precários, os sem-renda, os discriminados por N motivos, em N condições de luta e resistência. Todos esses contingentes de deserdados pelo mundo afora, eles é que estão ferrados. Se reconheço uma urgência realmente inapelável, que me atinge graças à mínima sensibilidade com a qual fui dotado, ela reside na urgência de suas lutas. Persegue-me o fato bruto e incontornável de que, para muitos, o amanhã já é tarde.

O prazer gera o conhecimento, mas também a dor. Daí que essa experiência e essa sensibilidade sejam riquíssimas, porque imediatamente apaixonadas, uma inquieta paixão pelo real, um desejo de implicação e de engendramento coletivo de luta. Clamores para salvar o planeta, verdismos de neopagãos, ou indies decalcados de agenda política, estetizados ou terapeutizados, nostalgias da “essência perdida”: tudo isso não faz sentido para quem a pauta já está encarnada. Não admira causar em quem luta a mais rochosa indiferença. Pouco importa profetizar a destruição do futuro a quem mal se equilibra no presente, soluça para dar o próximo passo, para quem qualquer ideia de perspectiva universal excede o desafio cotidiano de se virar e seguir adiante, na lei da sobrevivência. Vivem na pele o mundo, não como alta ciência, mas como superfície.

Minha cumplicidade prefere estar com estes, meus desejados conterrâneos, a render o tempo à hipótese descansada de Gaia. Afinal, Gaia pode ser mais um nome para a Alma do Mundo, outra transcendência nascida quer do misticismo mais vulgar, quer de torneios especulativos filosofantes. É filosofia de laboratório, ideia sem força, sem passione. Gaia não acolhe. O planeta não provê. A “natureza selvagem” nunca foi mãe de ninguém. Dizer-se seu filho é de uma imensa ingratidão. Gaia, a Natureza, o Verde, o Planeta Terra costumam ser invocados apenas por quem os experimentam como turismo, atrás de alguma vibração na vidinha ‘clean’ e confortavelmente monótona. Apartado da alegria da construção coletiva das alternativas e lutas, chega um momento quando precisa depositar as expectativas para sair de uma existência banal e sem sentido. Mas sempre com riscos controlados, a emoção calculada, sem deixar de manter-se limpíssimo (moral e fisicamente), com plena consciência e autossatisfação de uma vivência reconfortadora. Incorre muitas vezes em nostalgia de “bom selvagem”.

Como ensina a melhor antropologia no Brasil, os índios das Américas não experimentam a “natureza selvagem”, alguma comunhão esplêndida antes da Queda, mas a sociedade na floresta (e a selva d/na sociedade). Superabundante de relações e pontos de vista constituintes, numa riqueza amazônica onde são bons e maus, perigosos e aventureiros. Saturadíssima de relações sociais com todos os entes que existam, nenhum dos quais além de sua própria existência, nenhuma Terra, nenhum planeta da humanidade unificando-os. E, talvez, eles não vivam o fim do mundo, mas o mundo como findo. Experimentam já o pós-holocausto: são os judeus da terra, como os palestinos o são, os presidiários, os negros americanos, a mulher que apanha do marido alcoólatra, o gay espancado na Avenida Paulista, o despedido que deve tudo e mal tem coragem de voltar para casa, o pobre homem humilhado cotidianamente pelo patrão, a menina estuprada pelo pai, a adúltera queimada com ácido, clitóris extirpado, qualquer criança largada na rua de uma cidade, a barriga com vermes e sem escola, numa cidade ou terra brutalizada pelo mercado mundial, como tantas. Eu posso compreender quando dizem que o mundo já acabou. Jamais deveríamos transcender a condição vívida de todas essas pessoas, implicadas numa “consciência” que é imediatamente enfrentamento, recriação e, apesar de tudo, mais vida. Pessoas que não se suicidam e seguem em frente. Seguiram em frente, até construir o pouco de liberdade e poderes de existir que hoje exercemos. Somos feitos dessa carne, dessas dores e cansaços acumulados e sobrepujados pela vontade maior de reexistir. Foi assim, insurgindo-se, construindo uma ciência de baixo a cima, que escavaram o terreno improvável de nossos direitos.

É preciso existir nesta terra sem nenhuma entidade superior à experiência, nenhum Grande Plano promovido por sacerdotes; andar sobre ela, cavá-la, a terra em que pisamos e onde somos defrontados com o sofrimento, a degradação e a morte, e onde também amamos, temos amigos, amantes, filhos, cantamos, criamos mais vida muitas vezes das coisas menores, de um besouro que caminhe pela parede. Não precisamos do planeta. Siderar-se no além-mundo, caçar desesperadamente elos perdidos e essências fugitivas, não é uma opção para todos. Não vamos salvar-nos no final, mas e daí, faz diferença? Só sei que podemos continuar lutando pelo mundo a que temos direito, e morrer tentando. É preciso cantar e dançar sobre essa terra. A única ecologia que importa começa na experiência dos pobres, deserdados e sem-terra, com a riqueza vívida desses mundos conflagrados. Daí, sim, se podem fiar a nossa revolta e o nosso amor.

 

Foto: Patrick Morgan

maio 2013 10

Texto coletivo da Redes e ruas, com o que este blogue forma matilha, e está organizando uma atividade do 15-M no Rio de Janeiro.

A elite carioca está em festa. O projeto de cidade global, feito de megaeventos, megaobras e um gigantesco aparato midiático, festejado em palanques e coquetéis, regado a banquetes e intermináveis celebrações, avança a pleno vapor. BOPE, UPP, Choque de Ordem, Recolhimento Forçado e Remoções, a velha receita contra pobre, preto, índio e qualquer um que ouse resistir. Pobre daquele que ouse ser diferente ao que se espera do trabalhador brasileiro para o século 21, constrangido a tudo e sem real direito a nada, senão à degradação da vida na iniquidade cotidiana dos  transportes, hospitais, escolas, na precariedade no trabalho, renda insuficiente, sem direito sequer a manifestar-se livremente pelas ruas. Tem de se submeter a tudo e não reclamar de nada, permanecer competitivo num mercado inclemente, surfando na onda do desenvolvimento.

Em nome do Rio novo-rico, pintado pelo mais modernoso paisagismo, terra de ávidos empreendedores e sagazes investidores, desse Rio dourado e suas grandes parcerias público-privadas, em mais uma expressão da histórica camaradagem de elites nacionais e internacionais. Reúnem-se no projeto e modelo “de cima a baixo” de uma imagem do Rio, por meio da qual se continua a explorar, oprimir, expulsar, criminalizar, internar, prender e matar. Sim, e matar, na guerra sem quartel dirigida ao pobre, especialmente o jovem negro.

O Rio é laboratório metropolitano do Brasil Maior e do capitalismo mundial. Está dando certo; recuperamos o glamour perdido para Brasília, somos o point da década, vitrine da superação do atraso. Nada será como antes. Está dando certo; anunciam todos os jornais, revistas e a TV, que repetem a mesma coisa: a roupa, a pose, o rosto, a voz, a seriedade profissional do colonizador e seu sorriso de orelha a orelha. Nenhuma elite mundial persegue com mais fanatismo a mais caricata identificação com os colonizadores. Nesta década, o abismo que separa os altos dirigentes do grosso da gente se fez tão descarado, concrecionado à estética de governo e empresarial. Uma empresa rigorosamente colonial com ares pós-modernos e discurso radical-chiquê, uma superfetação do Brasil nacional-desenvolvido prestes a nascer.

Do urbanismo de amplos espaços da Zona Oeste à superexploração intensiva da Zona Sul, da higienizada Área Portuária às militarmente pacificadas favelas e áreas pobres, em estádios imponentes erigidos sobre o despejo e a destruição, em internatos, hospícios e abrigos; a pilhagem das riquezas da população é garantida e prospera. E multiplica o lucro, sob novas direções, oportunidades e negócios: mais publicitária, mais plastificada, mais “criativa”, mas nem por isso menos brutal. Seu maior sucesso foi tornar-se palatável à esquerda e à direita, justificável pelo interesse coletivo ou individual, pelo empreendedorismo ou pela sustentabilidade, por qualquer desses bordões que aparecem, aos cachos, nos eventos oficiais. Antigas violências assumem novas formas com o bando imobiliário, assumido abertamente, sem pudor, com a empáfia de saqueador orgulhoso.

Enquanto parte do que se define como esquerda patina sobre a miséria de seus trabalhos de base, suas estratégias, formulações e alianças, com uma consciência política que se mostra exímia em capitular diante das primeiras e míseras ofertas; a cidade dos pobres insiste em resistir, na fusão impossível de suas raças inferiorizadas. Essa cidade não é representada em nenhuma dimensão imaginável: cultural, estética, política ou juridicamente. Ela não existe para o novo Rio, não pode existir. Então se recria na luta cotidiana por outra cidade. Outra cidade que já existe, um presente prenhe de potencialidades, uma cidade pulsante e insubmissa, no Horto, na Providência, nos Prazeres, na Vila Autódromo, em tantas e tantas pessoas, grupos, coletivos e redes, informais, precárias, batalhadoras, com o que a vida da metrópole se reinventa em mil outras maneiras de organização, produção colaborativa e afirmação minoritária. Um desejo de viver diferente, desejo que é imediatamente imaginação, e que se movimenta na realidade, que é suplemento de democracia, o viver mesmo: insurgindo-se contra o medo, interrompendo o passo do colonizador, recusando a propaganda, cuspindo na mão esperta que, sob a promessa do progresso, continua roubando, ferindo e humilhando.

A luta avança por caminhos inimaginados e faz do sofrimento uma reafirmação firme de propósito. A condição de luta não cala. Sem a indignação, a persistência em existir e a alegria construtiva, sequer haveria favelas, funk, samba, ritmos, festas, letras, teatros, danças: não haveria a energia de um inconsciente cultural a plena extravazão, rio caudaloso e subterrâneo, inestancável, de onde se extraíram e continuam se extraindo todas as dignidades e saberes vivos desta cidade, esses tão cobiçados por quem agora se apresenta como dono do pedaço.

Neste 15M, venha tramar redes e ocupar as ruas com a gente, porque o tempo e o lugar da resistência não cessaram de existir. Venha conectar-se às redes da cidade viva e seus índios metropolitanos. Pela reorganização do espaço e reocupação do tempo que propiciem forças para continuar lutando por tudo isso, por direitos, renda, condições de fazer cultura e mundo, por outra distribuição da moradia e outro paradigma urbano de transporte e ciruclação; por uma paz verdadeira que só pode ser a da alegria compartilhada, sem medo, sem receio de ser livre.

Pela cidade que queremos e que fazemos, das menores coisas às decisões sobre o que afeta a todos, e sem projetos mirabolantes para um futuro de vidas arrasadas, mas aqui e agora, pelos muitos, nunca depois, agora.

maio 2013 03

1. No Brasil, não existe diferença entre negar a existência de raças e negar o racismo. A negação da existência de raças, — uma atitude inconsolavelmente racista, — se desdobra em várias linhas. Apesar de, na maioria das vezes, as linhas de negação se apresentarem emaranhadas, — mediante argumentos, discursos e práticas mistos, — é possível sistematizar alguns grandes planos.

Em primeiro lugar, a invocada posição da Ciência. A rigor, raça é algo que não pode ser comprovado. A insistência na ideia vulgar de que existam raças reproduz a falsa ciência na base do racismo. Triste convicção anacrônica, em relação a uma geração mais evoluída, que deixou esses barbarismos para trás. É verdade que, no passado, da antropologia à biologia, se tentou fundamentar a existência da raça. Mas foram tentativas malfadadas. Historicamente, buscavam legitimar a divisão da “humanidade” em raças, uma ciência que não passou de ideologia a serviço de políticas de guetificação. A existência das raças jamais se elevou, genuinamente, a estatuto científico. Portanto, continuar falando em raça, em pleno século 21, consiste numa impostura, um atraso dos intelectuais, e acaba embutindo a pseudo-ciência do racismo. Não sejamos racistas por linhas tortas. É preciso mover-se para frente. A discussão está obsoleta.

Em segundo lugar, a posição do positivismo, para quem raça consiste numa “construção social”. A raça até pode ser reconhecida como existente. Mas o pode apenas como ser pertencente ao mundo social, em sua historicidade e contingência. E não na realidade concreta. É uma versão mitigada da anterior, mais própria das humanidades. Dessa maneira, basta desconstruir os preconceitos e representações em que se baseia essa “construção social”, para salvar a realidade da ação dos racistas. Portanto, a realidade revestida pelas construções sociais pode ser depurada das raças. Pode ser recomposta chegando-se, finalmente, ao substrato que nos une todos. Por debaixo das raças, afinal, somos todos indivíduos humanos vivendo em sociedade.

Em terceiro, a posição pragmática. Embora admita a existência de raças, em termos práticos conclama para que vivêssemos como se elas não existissem. Quer dizer, apesar de persistirem as raças, melhor que consigamos tocar as nossas vidas e organizar a sociedade fingindo que o negro não é negro, o índio não é índio, e assim por diante. A raça não deve importar no nosso dia a dia, na relação com o outro. Devemos nos relacionar com o próximo independentemente de sua condição racial. O que vale é a pessoa, além da cor, origem, raça. A melhor estratégia contra o racismo, desse modo, está em erradicar o preconceito na cabeça das pessoas. O foco são políticas de pedagogia, desmistificando a balela do racismo. Este tem um conteúdo de irracionalidade, um afeto incivilizado, o que não condiz com o humanismo das pessoas com consciência social, com o civismo da igualdade. Quando todos se conscientizarem de que a raça verdadeiramente não importa, quando ninguém mais cultivar os preconceitos, o racismo deixará de existir. Como num passe de mágica.

Em quarto, talvez a linha mais arraigada no senso comum, num abrasileiramento das teorias negacionistas, estão os ideólogos da democracia racial. Em seus vários graus de negação. Reconhece-se a realidade histórica das três raças na formação do Brasil: o índio, o branco e o negro. Três grupos sociais bem definidos, na reunião fundadora da colonização. Três ingredientes cuja mistura improvável nos trópicos viria a gerar o tipo brasileiro por excelência: o mestiço. Hoje no Brasil, todavia, não faz mais sentido falar em raças. Vitória da miscigenação. O índio enfim foi catequizado, elevou-se sobre os últimos traços de natureza e animalidade— e então se misturou ao branco. Virou caboclo. O negro foi desenraizado, submetido à cultura europeia, — e então se misturou ao branco. Virou mulato. O encontro com o branco em qualquer caso disparou o ritual de passagem à condição de povo e cidadão brasileiros — uma obra do século 20. Fator de unidade, cabeça da autoridade estatal, o poder branco fez convergir sobre si as três raças, integradas de norte a sul do país numa única nação. Brancos, negros e índios, mulatos, caboclos e cafuzos se misturaram continuamente por gerações a fio, em variação incessante de tonalidades, até atingir a composição atual onde as raças estão dissolvidas. É inútil insistir em distingui-las, e hipócrita regressar ao passado quando os traços eram delineados. Não somos os Estados Unidos cindidos entre o branco e o negro. Não sejamos divisionistas, nem abasteçamos um ódio racial que os nossos antepassados superaram a duras penas. Na uniformidade proteiforme do mestiço, se concretizaram as promessas de brasilidade, a derradeira unidade nacional forjada pela miscigenação das três raças formadoras. Um etos da acomodação das diferenças, uma democracia no nível de sua formação histórica e política, exemplo para o mundo de tolerância e pluralidade. As raças, portanto, estão na origem e no passado da civilização brasileira, nunca no presente histórico.

2. A primeira linha, dos cientificistas, contorna a singela constatação que o negro existe. A distinção entre branco e negro gera efeitos na realidade. É uma força estruturante do modo como se vive e se organiza a vida comum. É uma condição bastante vívida, imediata, para aqueles que convivem com ela. Porque a polícia enxerga o negro com grande sutileza nos contrastes. A justiça criminal idem. Também os juízes, o júri, os promotores. E as empresas quando selecionam empregados, e a televisão, e a publicidade, e as bancas universitárias, ou quando se fazem amigos, ou relacionamentos amorosos. O negro também é visível quando se pega um metrô, trem ou ônibus qualquer. Ao transitar de uma zona a outra da cidade, vê-se claramente o degradê cromático por que passa o conjunto de passageiros, em função da pobreza ou riqueza dos bairros. Não é difícil tampouco identificar o negro quando se destacam pelo pequeno número, cercados por numerosos brancos que ocasionalmente lhes desferem olhares de desprezo ou condescendência: nas escolas particulares, em cursos concorridos da universidade, nas direções de empresas, de bancos, no controle da imprensa, de instituições públicas, nas câmaras parlamentares, na rua mesmo. O índio também é facilmente identificável por garimpeiros, fazendeiros, madeireiros, pistoleiros, arrozeiros e burocratas do estado, todos interessados em desqualificá-los politicamente e confiná-los em territórios cada vez mais exíguos, em negar-lhes as terras e direitos e exterminá-los sistematicamente como política pública.

Os negros e índios, por sua vez, aprenderam a reconhecer o branco, seus signos e trejeitos, ensinados desde cedo por instinto de sobrevivência ou imposição educacional. Aprenderam a emulá-los, em maior ou menor grau de adesão, e fazer de sua condição paradoxal um terreno de luta e estratégia. Menos por traírem a raça, do que por saberem que, no final das contas, é o branco quem acaba trabalhando menos, que ascende a patrão, e é o branco o menos violentado pela sociedade de estado pós-colonial. Cada um se arranja como pode.

Além disso, o branco também consegue reconhecer outro branco, na absoluta naturalidade e boa consciência de gestos, protocolos de convivência e signos característicos da branqueza. Ovaciona-se a si mesmo como a medida da sociedade ilustrada, monopolista do mérito e esforço individual, cuja moral superior permite o tempo todo clamar por menos corrupção e impostos, mais educação e punição, mais honestidade de propósito pelos moralmente inferiores. O negro e o índio estão fora dessa medida, a menos que se embranqueçam com os valores de mármore do colonizador.

Qualquer teoria que se arvore status científico desconsiderando o fato enorme que o negro existe só pode ser uma teoria ignorante. O estatuto científico que barre acesso ao racismo só pode ser uma ciência inútil. Ou em verdade útil, como ideologia: travestida de neutralidade com a meta de mascarar as divisões internas da sociedade, mediante uma miscelânea de comportamentos que as suporta.

A segunda linha, dos construtivistas sociais, falha em não perceber como o racismo é parte indissociável da realidade. Não se trata de um fator de revestimento, um acessório. Não fosse a raça, a sociedade seria outra, desde as estruturas sociais e rituais mais cotidianos. Talvez nem pudéssemos chamá-la de sociedade. Se a raça é uma “construção social”, só o é se admitirmos que quaisquer entes da realidade também o sejam, a começar pelo “indivíduo”, uma construção social relativamente recente na história. A continuar, com muito mais razão, com a “humanidade”, essa sim, recentíssima construção do universalismo europeu e europeizante. Ou qualquer outra figura de síntese elaborada pelo estado, unidades abstratas que aspiram à concreteza histórica, também construídas e reais à sua maneira: o país, a nação, o povo, a alma nacional.

Daí que a maioria dos construtivistas, à semelhança de parte dos pragmáticos raciais (terceira linha) e dos racialdemocratas (quarta), possa aceitar as cotas raciais a título de política compensatória. Uma mero ajuste emergencial, uma medida de menor dignidade do que a verdadeira reforma da universidade e do estado como um todo. Como se negros e índios estivessem sendo compensados diante da violência histórica e política do racismo! E alguém… e o poder constituído tivesse concedido a política de cotas de cima a baixo para compensá-los das perdas. A cota nunca foi uma colher de chá. Chega a ser insulto. Nem alocando todas as vagas para eles, seria possível rascunhar uma compensação, à altura da imensidade fundacional do racismo no Brasil.

Ora, dentre outras, as cotas raciais são um estado de luta conquistado pelo movimento negro e indigenista. Por esse movimento, — quer orgânico, quer molecular, — graças à própria ação direta, as suas alianças e composições, num país em que mal começou a recuperar terreno. A política de cotas raciais, ou melhor, a essência das ações afirmativas pode ser considerada uma política incipiente somente no sentido que precisem ser massificadas. Para que, num crescendo de fortalecimento dos movimentos de luta de minorias (que são maioria), dos elementos de autonomia e autovalorização, eles possam explodir o formidável arcabouço da máquina racista no Brasil, um país culturalmente economicamente politicamente juridicamente racista, que não só tritura diariamente os corpos negros e índios, como também é perpassado por um racismo civil, institucional, estruturado, como se queira batizar: um racismo “a frio” igualmente violento na conjunção de seus efeitos difusos.

Já os pragmáticos acreditam que poderiam eliminar o racismo combatendo o preconceito. Singelamente. Promovendo um comportamento social em que as raças sejam indiferentes. São os negacionistas “de facto”. Querem matar a cobra, mas não o veneno inoculado. É a importação para a questão racial da lógica terapêutica a 100 reais/hora, a pedagogia do conformismo. Mas o racismo não é um problema educacional. Muito menos psicológico. Não está na cabeça dos racistas. É político, é material enquanto dispositivo de organização e conservação das relações de poder, posicionando os sujeitos em lugares de confinamento, interdição e conversão, fazendo a sociedade funcionar a fórceps, mediante múltiplas táticas de controle social e violência burocratizada, e a partir daí, como efeito reflexo, enraizando-se na cabeça de todos, racistas a quente ou a frio.

Essa linha, no fundo no fundo, pretende naturalizar a própria condição de classe média branca, progressista, como humanismo suprarracial a perseguir-se. Ela não à toa se coloca como medida de todas as esquerdas, e é a mesma amiúde capaz de se comprazer ao sentar-se à mesa com a empregada, declarar orgulhosamente que tem amigos negros, que admira os índios, que pega ônibus como qualquer mortal, ou que nunca nutriu preconceito contra lésbicas e gays. Não se sentem interpelados pela escravidão, afinal, nada teriam a ver com o que seus antepassados fizeram, mas são os primeiros a pular sobre a primeira herança que pintar em suas vidas. Para eles, em última instância, no máximo, o índio é o bom selvagem, o negro tem físico avantajado, emoção e potência sexual, uma cultura linda, vibrante. É por isso que a invejam. O último limiar da raça, a favela não aparece senão como a negação do progresso — isso quando por ela não sentem um horror inconfesso. Questionam os valores brancos, nunca o valor branco dos valores. Olham o negro, mas não vêem. Quando vêem, não enxergam. Tudo seria caso de melhorar as condições sociais, sem distinção de raça, no melhor pragmatismo de jantar de família.

Por último, a quarta linha, a dos racialdemocratas, é a mais indigente. Típica de uma classe média de mente colonizada cuja educação serve perfeitamente à brutalidade das elites, de quem aufere migalhas em troca da ocupação de cargos no estado e no mercado. Bem representada por intelectuais postiços para quem agora é a vez do Brasil, nada hesitantes em desafinar teoricamente o mitologema chamado Brasil, elogiando a ordem, o progresso e a Copa do Mundo no país. Uma classe média cuja impotência em mudar o mundo a leva a fiar-se culturalmente mais evoluída, só porque assim é sugerido no telejornal que abre o dia. A maior artimanha dos racialdemocratas foi a invenção do mestiço como solo da brasilidade. Ocorre que nessa raça alegadamente amorfa, panela das pressões colonizatórias, se comprimem todas as violências da civilização brasileira, jusante das matanças, extermínios, guerras biológicas, cassação de direitos e tentativa de bloqueio do acesso à produção de mundo. Ela suporta a sobrecarga intelectual e moral da enormidade de violência e miséria a que foram submetidos os negros e índios, e todos aqueles restos indesejáveis para a esteira da modernização do Brasil: a história do branco, sua polícia, sua justiça, sua ciência, sua antropologia bugreira. Não admira o desequilíbrio e a inconstância de uma sociedade de mestiços sempre prestes a explodir, terceiromundo irreconciliado, tensionado entre modernização e resistência, entre a unidade do povo e a multiplicidade das raças, entre economia do progresso e potência insurrecta. O desequilíbrio fica inevitável e o retorno do racalcado sempre à espreita. O mestiço zanza entre os polos da dupla consciência do oprimido, raça submetida e raça insubmissa, e não deixará de exprimir a sua irresignação.

3. Por que o negro e o índio diluíram-se no branco? Por que não o inverso? Por que o caboclo não pode ser a travessia do branco ao índio; o mulato do branco ao negro? Porque isso está acontecendo. O negro se afirma. Há séculos a população de indígenas nunca foi tão grande e, apesar de tudo, continua crescendo. Existe outra realidade, mais forte, menos domesticada pelas linhas negacionistas, nas raças. Uma realidade positiva, uma miscigenação de resistências, de criação de alteridade e luta biopolítica. Essa positividade racial insiste em anunciar o retorno dos brasis bárbaros contra a utopia do Brasil Maior, não só contra ele, mas além e mais pleno de qualidades, ganas e alternativas. Ultimi barbarorum do Brasil do século 21. Desmascara-se a democracia racial do etos nacional à condição de ideologia da sociedade de estado. Desbaratam-se o progressismo de domingo, o cientificismo pós-racial, o construtivismo negativamente idealista, o racialdemocratismo da TV.

Não somos racistas, mas acreditamos e apostamos na raça. É pela força da raça que a sociedade colonizadora se torna instável, seu outro inaceitável e inapropriável, e o discurso universalista do povo e do estado cessa os efeitos de medo, tristeza e vitimização (racismo soft). Como a raça não poderia importar na relação com o outro, se ela é o próprio outro com o que podemos nos relacionar, transformando-se a todos no processo? Se o discurso da raça é inaugurado pelo índio, o “negro da terra”, é também pelo índio e sua alta filosofia canibal, que ele vacila, numa diáspora para dentro do pensamento. Se a favela está na fronteira do tolerável, o teste final do bom gosto do burguês-boêmio, é igualmente pela favela que a raça vai além, deslocando a modernidade dos eixos, explodindo o terceiro mundo. Quem tiver de sapato não sobra!

O caboclo pode ser mais índio que o próprio índio. E o mulato, mais negro. O índio que sai da floresta pode ser mais índio. Eles podem. Querem. Fazem. O negro ou o índio que assimila cultura branca, e não o contrário, pode torcê-la a seu favor, descatequizando-se, e assim enriquecer plenitudes mundanas inteiras. Não foi assim com boa parte da música vibrante inventada no Ocidente desde o século 19, música negra? Se o branco reproduz a si mesmo, eterno retorno do colonizador, por que não há-de existir outro movimento possível?

Uma ressurgência de uma ancestralidade nunca perdida, reposta como aqui e agora, futuro em construção. Assumem-se as contradições menos por ansiar a sínteses superiores, do que para abrir diferenciações conflitivas. Acessíveis à sensibilidade de quem transita entre mundos. Ativar internamente essas diferenças constituintes, afiá-las contra o poder constituído quando for preciso resistir, sem reduzir as raças a “essências perdidas” a que pudéssemos recorrer como depósito de esperanças. Abandone-se o discurso de tribuno. Agora é o devir de raças.

abr 2013 18

Poucas ações podem ser mais democráticas do que a ocupação ontem do plenário da Câmara por centenas de indígenas. Numa democracia, as lutas assumem a tarefa de regenerar as instituições. Especialmente em tempos em que estejam engessadas. Democracia sem conflito e dissenso não prospera. É o que Thomas Jefferson chamava de “rebeliãozinhas de vez em quando”, indispensáveis ao regime democrático, para continuamente lembrar aos representantes quem manda. Na concepção do presidente americano, os governantes e autoridades é que devem temer o povo. O inverso seria um regime tendente ao despotismo, em que o poder do estado inflaciona e termina por bloquear o exercício dos direitos.

A democracia dos índios não é essa que se organiza em bancadas ultraconservadoras, corrompendo o poder constituído “desde cima”, num emaranhado de interesses de latifundiários, velhos coronéis, agronegociantes e empreiteiras. Com cerca de cem parlamentares, a bancada ruralista manobra as peças para transferir a competência de demarcar terras indígenas do governo para o parlamento. Daí não pode vir coisa boa, como perceberam há muito os índios. No Brasil hoje, vivemos uma situação curiosa, onde o bloqueio dos direitos pelo congresso é tão acintoso que é preferível manter as fichas no poder executivo federal. Isto é, no governo Dilma (!).

A grande imprensa destilou o racismo usual, em nome dos altos valores da República. Os opinólogos mais à direita acusaram-nos de invasão, agressão à lei e ordem, de servirem a interesses alienígenas. Um jornalista lamentou que os índios teriam manchado uma obra de Di Cavalcanti com urucum. Os mais à esquerda pontuaram que houve excesso, como sempre, concordariam no conteúdo, não na forma do protesto. Para os primeiros, abertamente conservadores, movimento social igual baderna e deve ser criminalizado quando toca o poder, tratando-se de uma das maiores barreiras para o desenvolvimento nacional. Para os últimos, liberais e veladamente conservadores, o movimento social deve se limitar a reunir grupos de interesse para formular demandas aos “legítimos representantes”, sob a sua liderança, jamais partir para organizações autônomas e ações diretas. Os movimentos devem assumir um caráter, no máximo, reivindicatório, dirigindo-se a quem de direito, nunca um caráter constituinte. Imagine se isso se alastra? seria o fim da base de qualquer democracia: a ordem pública e as instituições representativas.

Este vídeo particularmente vale a pena: um deputado fala ao microfone que está com medo, logo antes da alegre chegança indígena. Até Jefferson, que não era nenhum comunista, aprovaria a situação. Para mim, a ocupação de ontem foi de lavar a alma. Levando em conta que, há menos de um mês, a Aldeia Maracanã fora arrastada na onda de remoções, higienizações e supervalorizações, sustentada pelo “urbanismo de choque” no Rio. Essas ocupações indígenas afastam qualquer nostalgia de um bom selvagem que nunca existiu. Afasta qualquer culturalismo enviesadamente racista, em que os índios seriam como crianças: inocentes, saudáveis, harmônicos, pré-pecado originário, “incapazes” de maldade. O que no final das contas acaba sobrando é justamente o “incapazes”; e não foi outra a justificativa para, sob a tutela da FUNAI, serem conduzidos a precárias instalações a 50 km do Maracanã, para uma área mais “verde”. Ora, lugar de índio não é na floresta? Incapazes também para lutar por si próprios, e não por acaso acusam os índios de ser manipulados por ONG e países estrangeiros com olho gordo na Amazônia. O procedimento não muda muito: quando não dá certo simplesmente descaracterizá-los como índios (porque falam no celular seriam vagabundos quaisquer), tratam-nos como crianças, política e juridicamente. É a velha antropologia made in Brazil, em que o índio, reduzido a objeto, não tem escapatória nas garras da unidade nacional que o estado impõe.

É preciso contrapor os canibais ao “bom selvagem”, no alto canibalismo que transforma não só os índios, mas a sociedade, o poder e a esquerda. Indigeniza-as. Na aldeia Maracanã, algumas vezes tive a sensação de que alguns índios eram cínicos ao usar cocar, dançar, falar dialeto ou cultuar os deuses. Claro que essa conversa era tabu entre militantes e ativistas. Não era fácil sequer esboçá-la. O fato é que alguns estavam ansiosos, e até redimidos, em rapidamente atribuir ao índio a função de herói da resistência, os únicos que poderiam purificar as lutas das impurezas da esquerda, seus interesses e alianças, sua maldição de classe. Outros, mais “verdes”, viam no indígena a chance de restaurar alguma “essência perdida” e não por acaso valorizavam o que de mais folclórico se poderia pensar sobre os índios. Ambas as posições solicitavam um povo utópico, — seja o herói digno do realismo socialista, seja o comportado neopagão ecológico, — enquanto os índios reais sorriam marotamente. Disfarçavam-se, mudavam de tática, de postura, de sentimento — um arsenal infinito de modulações e tonalidades. Os índios se relacionavam com todos, tirando o máximo que podiam de cada relação. Uma lição de como atuar politicamente sem dogmatismo. Eles não vieram afinal para limpar nada, mas para sujar com as tintas da realidade.

Depois pensei, cínicos não seríamos todos ao vestir máscaras diante do estado? Diante da onça, não tenho o direito de usar o que está à mão, e enganar, e fugir, e guerrear? Por que o branco ocidental estaria no plano da estratégia e da encenação, enquanto os índios seriam mais sinceros, outro adjetivo para mais ingênuos?

Hoje eu acho o contrário: o que qualifica essa luta e essa transformação, — a única coisa que tem permitido que sobreviva à expropriação e ao extermínio que nunca terminam — só pode ser a esperteza, a manha, um cinismo de resistência. A capacidade de transmutar-se a partir da alteridade, uma alteridade generosa e constituinte: potente.