nov 2015 20

ISIS Network

Reduzir o Estado Islâmico à encarnação do mal absoluto ou a uma horda bárbara de fanáticos, perde de vista a extensão e a profundidade do jihadismo pós-moderno. Mesmo os pesquisadores do fenômeno hoje mal têm ideia da dimensão desse movimento transnacional baseado na Eurásia, englobando direta e indiretamente milhões de pessoas e continua expandindo.

O ISIS está nadando de braçada porque conseguiu responder à crise do capitalismo global, no que outros movimentos falharam. O grupo consegue escutar ativamente os jovens que se sentem oprimidos, isolados, discriminados. A eles, os recrutadores oferecem um projeto de pertencimento. Gastam horas em chats, falando sobre a sua condição de muçulmano num mundo injusto. Mas fazem isso de maneira convidativa: ei você, tá rolando uma grande festa aqui, não vem? Some a isso uma estética de videogame que funciona com a geração Playstation e um erotismo gore que, à dissolução dos vínculos sociais na crise, repõe o thrill de uma corporalidade cheia de fúria, adrenalina e terror, um aqui e agora nostálgico, em pura paixão pelo real.

O ISIS não faz “trabalho de base”, noção anacrônica, mas “trabalho de rede”, operando múltiplos centros de mídia que produzem vídeos, sites, chats em várias línguas e mujatweets. Tem uma estratégia de mídia invejável a qualquer empresa da Califórnia, a ponto de roubarem em dois anos o protagonismo da Alcaida, a concorrente no “ramo” do superterrorismo. Não são o retorno do recalcado civilizatório nem o subproduto do imperialismo, e todas teorias do bumerangue são insuficientes diante de um grupo tão sintonizado com a cultura global. Diferentemente de Sendero ou Pol Pot, não veem problema em invocar a sharia arcaica, enquanto ostentam Ray-Ban e Nike, posam pra selfies de smartphone e cortam cabeças no youtube.

Não basta perseguir os financiamentos na Arábia, Emirados ou Turquia, porque o financiamento da rede é desterritorializado. Um dossiê do jornal Handelsblatt desenvolveu como o ISIS funciona imerso nas finanças globais, por meio de hedge funds, derivativos, shadow banking. O problemão não tem como ser resolvido no plano militar. Do contrário, os EUA teriam resolvido depois de uma década a situação no Iraque, onde se gastaram trilhões de dólares e milhões de vidas em vão.

O problema não é militar, mas político. Mais que geo, é micropolítico. “Micro” não quer dizer pequeno, mas molecular, propagatório, epidêmico. Temos que reler mesmo o Anti-Édipo, em que Deleuze e Guattari falam do desejo de fascismo que se insinua pela crise capitalista. As respostas das revoluções árabes, do Occupy, de Gezi e outros levantes do século 21 parecem girar em falso, enquanto as esquerdas assistem a tudo ainda presas ao 20 (ou 19). Mas sem uma resposta no plano da subjetividade, não há como escapar das espirais paranoicas que desfiguram o desejo a tal ponto e de tal maneira, que a própria repressão passa a ser desejada.

 

nov 2015 16

PARIS, FRANCE - NOVEMBER 15:  A rose is placed beside a bullet hole at La Belle Equipe restaraunt on Rue de Charonne following Fridays terrorist attack on November 15, 2015 in Paris, France. As France observes three days of national mourning members of the public continue to pay tribute to the victims of Friday's deadly attacks. A special service for the families of the victims and survivors is to be held at Paris's Notre Dame Cathedral later on Sunday.  (Photo by Jeff J Mitchell/Getty Images)

Quem está lendo os atentados em Paris como uma resposta de guerra do ISIS contra a França está caindo na ratoeira. Essa é exatamente a interpretação do governo francês para instaurar uma política de medo patriótico, como aquela pós-11/9 nos Estados Unidos. Só pra começar, diferentemente dos atentados de 2001, desta vez o alvo não foi o World Trade Center ou o Pentágono. Os ataques se distribuíram entre a Gare du Nord e a praça da Bastille, ponto de encontro de jovens de vários países e vários bairros da cidade, com muitos imigrantes e turistas.

Talvez o mais próximo disso, no Brasil, seria a Lapa carioca (antes e depois dos Arcos) ou a Rua Augusta paulistana (alta e baixa), onde as pessoas se encontram pra se divertir, dançar, ficar doidão, pra viver um pouquinho a potência da ilusão de não ter patrões, pais, guardas, sacerdotes, apenas por uma noite. Ali, naquelas boates, bares e cafés, todas as noites se encontra a juventude cristã e islâmica, agnóstica e budista, universitários, músicos, boêmios de toda praça. A programação do Bataclan inclui rap argelino, raggamuffin caribenho, eletrônico escandinavo, rock americano, hip hop das banlieues… no dia do atentado, rolava garage rock californiano. Imediatamente depois, quando os senhores da guerra já começavam a montar os tabuleiros, os moradores de Paris abriram as portas e fizeram uma campanha “Portes Ouvertes” — gesto mais que simbólico, de enfrentamento das sobrecargas paranoicas de que se alimentam o terrorismo e a guerra.O ataque do Estádio também foi pegar a diversidade que pulsa no futebol, esporte bárbaro e de multidão.

Então calma nessa hora de fechar a análise na guerra da Síria e na geopolítica ocidental no Oriente Médio. O alvo não foi a França, ou melhor, foi essa outra que não está contida nas fronteiras e que não se submete às geopolíticas. As vanguardas tóxicas do Daesh não atacaram um símbolo sagrado da França, não bombardearam o Louvre, a Sorbonne, o Túmulo de Napoleão ou algum Palácio, como faz crer o presidente Hollande ao fechar o discurso com “Vive la France”.

Pra usar um textinho de Agamben que virou Ersatz, os atentados não tinham propósito de profanação do Ocidente, da cultura hegemônica, do Capitalismo com C maiúsculo. Foi o contrário, os agressores é que se sentiam profanados pela “abominação e perversidade”. Quão achatada seria uma análise de um neocolonialismo prêt-à-porter, tão medíocre quanto desfocado. A França atacada foi a da diversidade, da miscigenação, da vibrante cultura mundializada, com todas suas contradições, polivalências e impasses, com mil problemas. A França jovem, o devir-mundo da França.

Nesses atentados, tem um quê de pureza, de aplainamento raivoso contra a diferença e o amor da diferenciação, em nome da purificação cultural, racial, ideológica. Então não sejamos ratinhos atrás do queijo fácil das grandes narrativas. Isto apenas como primeiro cuidado diante do intolerável que nos interpela.

nov 2015 08

Spinoza

O dispositivo do voto/apoio crítico se baseia na ideia que a oposição, o congresso e a sociedade são mais conservadores do que o governo. Em consequência, embora o governo não precise cumprir os requisitos para ser de esquerda, a invocação da dualidade esquerda/direita sempre termina por conduzir a sua defesa. Porque ele não precisa ser de esquerda como se pense ou deseje, mas apenas esquerda o suficiente para estar à esquerda da oposição, do congresso e da sociedade. Por isso que a crítica ao governo por ele não ser de esquerda o suficiente é inócua.

Daí também a estratégia da mídia governista e todas as suas correias de transmissão nas redes pautarem o noticiário com o PSDB/Aécio maligno, a Marina fundamentalista, o “Fora Cunha” e o desprezo ou ridicularização de manifestações não autorizadas pelo próprio governismo, geralmente com farto uso do reductio ad coxinha e da reaçaexploitation. É uma estratégia velha, a da política como utopia negativa (evitar o mal maior, o katechon) que, com a eleição de 2014, ganhou um enorme fôlego. Política soberana, como diria Spinoza, consiste em preencher a multidão de medo e uma vaga esperança, de modo que as pessoas lutem intensamente pela sua própria submissão ao poder. Passam a acreditar nas superstições (a estrelinha, as bandeiras, as frentes, as guinadas à esquerda) não por serem enganadas, mas porque se constituem afetivamente pelo engano, porque precisam dele, precisam torná-lo verdade.

Então, entre outras coisas, para escapar da máquina governista, urge: 1) suspender temporariamente a distinção esquerda/direita da crítica, para evitar a manobra que, afirmando as próprias contradições, sustenta o voto crítico; 2) problematizar o que tem sido apresentado como anticristo, especialmente, a própria sociedade brasileira: o que realmente querem esconder de nós?; 3) acima de tudo, preencher a política de uma “utopia” positiva, de práticas, desejos, alternativas que não passem pela perpetuação do mal menor, que é apenas a expressão de impotência, o vigor da superstição e um medo mais ou menos pessoal.

out 2015 16

trecho do prefácio de La multitud se fue al desierto, edição argentina de A multidão foi ao deserto (Bruno Cava, ed. AnnaBlume, nov. 2013), no prelo.

 

gongo

Este livro é criatura de um acontecimento. Henry Miller certa vez começou um livro com um uivo[1], mas este deveria começar com um grito. Um longo grito acompanhado do toque do gongo chinês. O anúncio de uma mixórdia sonora, entrecortada e dissonante, como num filme de José Mojica Marins[2]. Só assim, ao exacerbar o desconcerto e a estridência de uma voz estranha, se pode dar conta da emergência que, em meio a pressões sociais extremas e resilientes confinamentos históricos, explodiu em ruas, redes e praças no Brasil de 2013.

Passados dois anos daquela experiência, prevaleceu o esquecimento. Não só enquanto esquecimento voluntário, sob a judiciosidade dos inspetores da história, concentrados na tarefa de tampar brechas, neutralizar devires e restaurar consensos: nada a ver por aqui, em frente. Vândalos, românticos, black blocs. A postos ao lado do consenso, a polícia.

Também, enquanto esquecimento involuntário, do tipo que é bom mesmo que tenhamos esquecido e que indicia que o acontecimento percolou outro estrato da existência, onde coabitam forças obscuras e pré-conscientes. Um esquecimento de outra natureza do que aquele desejado pelas instâncias da ordem, limitadas ao plano do discursivo e das narrativas.

Porque acontecimentos de acontecimentos, como foi em 2013, condensam para os pósteros uma memória noturna, cuja incandescência age no forro da lembrança, atrás da cortiça da história, no limiar do perceptível. Não é jamais possível recordá-la em sua posição imediata de desejo. E não se poderia estar-lhe à altura por meio da simples recordação, de uma vulgarizada “disputa de narrativas”, tanto mais na moda quanto mais vazia a disputa real. Tempos drásticos afinal não podem ser relembrados. Mas podem ser revividos. Sua reviviscência, no entanto, exige que aconteça com outras coordenadas, noutras conjunturas, noutros usos e funcionamentos. Só se pode reatualizar junho de 2013 diferente daquilo que foi e qualquer outra expectativa não passa da nostalgia dos impotentes. Junho de 2013 pode ser muita coisa, mas é triste quando é reduzido à categoria de desqualificação do real realmente existente, em nome da lembrança. Recordações não podem se arrastar como sacos de entulho. Fazer isso é não prestar a atenção ao acontecimento.

É por isso tudo que, neste livro, longe de mim definir um tempo, estabelecer as suas características ou preenchê-lo de forma narrativa. Não se pode medir, delimitar o tempo, mas senti-lo, sentir a força do tempo. Levantes assim acontecem de noite, quando nos perdemos e, correndo o risco de andar em círculos, somos consumidos pela febre que nos possui. Aceitar correr este risco implica a coragem do erro, o ziguezaguear, a arte da deambulação.

O leitor logo vai perceber que a ação do livro se desenrola ao redor do Rio de Janeiro. É porque, no levante de 2013, o Rio de Janeiro serviu de sinédoque para o bloco inteiro de mobilizações que sucederam em mais de 400 cidades de todos os tamanhos e em todas as regiões do país, em variadas tendências e culminâncias. O Rio foi a metrópole brasileira em que a ocupação de ruas e redes atingiu não apenas o maior número e a maior duração temporal, como também a maior intensidade. Não foi acidente.

O Rio de Janeiro é uma cidade tumultuária[3]. Espremido entre a rocha e o oceano, perpassado por mata agressiva que parece reivindicar o espaço de volta para si, a história do Rio é a história de fluxos turbilhonantes de corpos, riquezas, migrações, violências, sublevações e artimanhas. O Rio do carnaval veneziano, do tropicalismo baiano, do purgatório da beleza e do caos. Já no século 16, foi um dos palcos para a maior resistência armada levantada pelos indígenas contra a invasão portuguesa. Os tamoios liderados por Cunhambebe lutaram por décadas. O enclave na Baía da Guanabara também foi disputado por aventureiros, piratas e corsários de vários países, chegando a sediar, por curto período, o primeiro projeto da França Antártica. Portal para a escravidão no Brasil por três séculos, onde desembarcaram milhões de escravos, até hoje o Rio é a maior cidade africana fora da África. Reagrupados em quilombos e irmandades religiosas, os negros se apropriaram das ferramentas do colonizador e retomaram a cidade de diversos modos. Dos tambores do quilombo do Catumbi às práticas do candomblé, hoje vivem no funk e no hip hop, num artifício de resistência que se debate entre a brutalidade e a criatividade, entre a tonificação da luta e a captura pelos mercados.

A partir do século 19, nas concentrações malditas nos bairros portuários, a força quilombista se mesclou com as tradições dos recém-aportados operários europeus, o anarquismo e o comunismo. Em 1880, os cariocas se insurgiram contra o ajuste da passagem dos bondes em um vintém. Uma taxa relativamente pequena, mas suficiente para deflagrar a grande revolta. As ruas foram tomadas por barricadas durante uma semana de manifestações em que bondes foram destruídos, trilhos arrancados e lojas saqueadas. Cinco mil manifestantes se juntaram às portas do palácio imperial aos gritos de “Fora o Vintém!”. Apesar de um número desconhecido de mortos entre os manifestantes, a estimativa varia entre 3 e 15, o aumento foi cancelado. Roteiro parecido voltaria a acontecer em 1904, numa sublevação geral contra a campanha de vacinação obrigatória promovida pela jovem República e seu positivismo científico. A Revolta da Vacina levou à declaração do estado de sítio em todo o Rio de Janeiro e à intervenção do exército, com um saldo final de 30 mortos em duríssima repressão. No século 20, a exploração dos fluxos de vida pela cidade foi novamente a causa imediata de mais outros dois levantes de grande porte[4].

Em 1959, os protestos miraram no serviço das barcas que fazem a travessia entre o Rio e a cidade vizinha Niterói. A pilhagem e depredação não atingiram apenas os terminais marítimos e as embarcações, mas também as casas da família que monopolizava o serviço. Finalmente, em 1987, já no período da “redemocratização”, mais de 120 ônibus foram depredados e incendiados numa revolta que se apossou do centro da cidade. Ela só viria a amainar com o anúncio pelo governo da revogação do aumento das tarifas. Como havia acontecido há mais de cem anos no Vintém e como viria a acontecer em 19 de junho de 2013, quando o prefeito do Rio de Janeiro cancelou o aumento da passagem em 20 centavos.

Indígenas, degredados, aventureiros europeus, jesuítas, negros fugidos, anarquistas de Módena, marinheiros insubmissos, operários nordestinos, baianos tropicalistas são apenas algumas figuras de uma cidade que se constituiu em constante relação com seu exterior. O Rio se engendrou nesse fora de si próprio, cidade aberta. Uma exterioridade que não se deixa interiorizar pela ordem urbana, ansiosa por medir, quantificar e reduzir a multiplicidade nas métricas de poder e dinheiro. Uma metrópole cuja vitalidade vem de habitar continuamente a tensão com o seu próprio fora. Nem tanto como “o peixe que habita o oceano em que nada, mas sim como o oceano que nada dentro do peixe, penetrando-o e constituindo-o como figura do oceano”[5]. Um fora imanente, um mundo e um mar dentro da cidade, “um mesmo Oceano para todas as gotas”[6]. Por isso, se em cada gota nada um peixe virtual, em cada pedro do calçamento pulsa a inteira insurreição dos escravos. A história das lutas do Rio de Janeiro, dos tamoios aos mascarados de 2013, consiste nessa incessante antitotalização que se recompõe mesmo quando cercada por políticas de higienismo urbanista, cultural turn, caveirões e “choque de ordem”. Durante os séculos de formação do Brasil, os bandeirantes e missionários se esforçaram por interiorizar o devir-mundo dos brasis[7], – seja interiorizando os sertões pela acumulação primitiva, seja o domínio da subjetividade na moral obediente e hierárquica do catolicismo. “Pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização!”[8]

Engendrado nos fluxos do Atlântico[9], era preciso riscar as fronteiras pelo continente inóspito, submeter os elementos e esculpir o mestiço útil. As elites coloniais, imperiais e republicanas tiveram de lidar, infernalmente, com esse Fora quimérico que, tal qual a floresta circundante e a imanência do mar, a todo o momento ameaçava tragar a cidade na desordem. Diferentes regimes de dominação se sobrepuseram: soberano, disciplinar e controle, ante o que as resistências se viram na contingência de enfrentar e o os levantes transbordar. A gestão dessa multidão tumultuária não poderia ser senão violenta. Um biopoder racialmente modulado [10] que até hoje cobra o preço por quilo de carne, mediante os milhares de mortos a cada ano e outros tantos abandonados ao cárcere, em renitente estatística. A configuração sincrética das tecnologias de poder responde, no Rio de Janeiro, à multiplicidade de focos de afirmação biopolítica, culturas de resistência e poder constituinte, em contínuo antagonismo interno.

Este, o contrapelo da história repetido em junho de 2013.

(soa o gongo).

(…)

NOTAS

[1] “Au! Au au! Au! Au! Latindo na noite. Latindo, latindo. Eu berro mas ninguém responde. Eu grito mas não produzo um eco.” MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras.

[2] Conforme abertura de Esta noite encarnarei no teu cadáver (José Mojica Marins, Brasil, 1967). No Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=lOSiNKSAJcU

Ver também AGRA, Lucio. Monstrutivismo: reta e curva das vanguardas. São Paulo: Perspectiva, 2010.

[3] ASSUMPÇÃO, E. A.; FRANCO, T. B.. Por uma cidade menor: hegemonia e resistência na cidade do Rio de Janeiro. Lugar Comum (UFRJ), n. 39, p. 145-155, junho de 2013.

[4] LOPES, Roberto. 1959, 1987, 2013… e tudo por causa do transporte, de novo. Site Universidade Nômade, março de 2014. http://uninomade.net/tenda/1959-1987-2013-e-tudo-por-causa-do-transporte-de-novo/

[5] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Atualização e contra-efetuação do virtual: o processo do parentesco. In A inconstância da alma selvagem; e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naif, 2002. p. 430.

[6] “Uma mesma voz para todo o múltiplo de mil vias, um mesmo Oceano para todas as gotas, um só clamor do Ser para todos os entes.” DELEUZE, Giles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi, Roberto Machado. 2ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 2006. p. 417.

[7] COCCO, Giuseppe. Mundobraz. O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

[8] Porfírio Diáz interpretado por Paulo Autran, no filme “Terra em Transe” (Brasil, 1967), de Glauber Rocha.

[9] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes; formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

[10] NEGRI, Antonio; COCCO, Giuseppe. Glob(AL); biopoder e luta em uma América Latina globalizada. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2005.

out 2015 04

publicado na revista Recibo n.º 56


ticket_that_exploded.calder.front

 

               

Para William Burroughs, o controle precisa do tempo como o drogado precisa da droga. O controlato é compulsivo em quadricular a atenção e colonizar cada segundo. Giramos num carrossel de simulacros, agarrados por olhos, ouvidos, estômago e sexo. É tecnologia mais biologia. O controle penetra nos corpos e provoca mutações. Memes e implantes maquínicos descentram a consciência e hibridizam o aparato perceptivo e a experiência do tempo. Estamos fora dos corpos, maquinados na supermídia do opinionato universal. O cativeiro de sonhos se sedimenta como realidade e o trabalho a sua maior alucinação. O capitalismo é uma intoxicação. Na trilogia Nova, Burroughs testemunha o estado da arte do controle social: o indivíduo é granada e explode em cem pedaços de rotinas, códigos e subconjuntos protoindividuais que nos compelem por linhas tortas, segmentos descontínuos, limiares.

Para Gilles Deleuze, os modos de dominação sofrem uma mudança qualitativa na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle. O poder disciplinar se baseava no confinamento: a escola, a fábrica, a prisão, o manicômio. No controlato, o discreto é derramado num contínuo, a seguir inteiramente investido nas malhas do controle. A reta segmentada da disciplina é substituída pelo campo diferencial do controle. Controla-se no aberto, na ultraconectividade das redes, nas acelerações e bombardeios semióticos ou a-significantes. O tempo de formação cede a vez à formação permanente, o emprego à empregabilidade, a fábrica à metrópole como usina biopolítica difusa, a prisão à polícia generalizada nas mentes (a Nova Police), o manicômio à psicanálise a serviço do controle policial, o capitalismo fabril ao maquínico. Não apenas imprensa: ilimitada conurbação comunicacional em que a opinião se moleculariza, dos satélites às rotinas mentais do ciclo 7/24 das redes.

Nem tudo está perdido, pace os profetas da totalidade, Debord, Adorno, neo-humanistas. Pelo contrário: habemus, sim, resistência de novo tipo. Mas cuidado: o controle engendra suas oposições e explora no desejo de emancipação. Somos livres para abençoar o controle e para sonhar o sonho de outras pessoas: a ficção da megamáquina. Não adianta apenas sonhar o sonho sonhado, nem repetir a esquerdologia já axiomatizada, perfeitamente conformada às identidades da sujeição social. Outras linhas de fuga, campos de imanência, desertos. Talvez recombinando em cut-up para assaltar o estúdio da realidade, como queria Burroughs, ou talvez intervindo na sintaxe do mundo, como desejava Deleuze. Ambos autores apontam para a interferência e o vírus como antídotos aos memes biossociais e à supermidiatização das maiorias. A máquina revolucionária é dentro e contra: maquinada com as artes, as ciências e uma esquizoanálise capaz de saltar do intolerável as linhas de fuga, irromper do tecido do tempo, precipitar o Controle ao colapso esquizofrênico, seu limite absoluto, seu comunismo tantas vezes conjurado.