maio 2014 15

Resenha de POCHMANN, Márcio. O mito da grande classe média; Capitalismo e estrutura social. São Paulo: Boitempo, 2014.

MarcioPochman

Fazer de um país fraco com miseráveis um país forte de classe média, este é o projeto declarado do governo. Seu slogan “país rico é país sem pobreza” se realiza publicitariamente na figura da “nova classe média”. Dezenas de milhões de brasileiros que, graças às políticas de inclusão social dos governos Lula/Dilma, “ascenderam” socialmente. São milhões de brasileiros incluídos no mercado de trabalho e consumo. Formou-se uma nova composição social. O mito da grande classe média, do economista Márcio Pochmann, se insere nessa discussão vívida sobre os projetos de desenvolvimento e suas bases sociais, políticas e econômicas.

O autor coloca em xeque que o Brasil esteja se tornando um país de classe média. O termo de comparação é a classe média surgida na Europa ocidental e nos Estados Unidos, no período seguinte à segunda guerra mundial. Naquele período, as economias centrais do capitalismo global se industrializaram densamente, segundo o modelo fordista. No fordismo, a construção da cidadania se dá pela inclusão no mercado de trabalho e consumo da grande indústria, e pela generalização do consumo de bens duráveis, como casa, carro e utensílios domésticos, que uma indústria nacional diversificada produz. Nesse contexto fordista, a esquerda europeia adotou a linha do reformismo gradual, de inspiração keynesiana, fundada na defesa de um estado forte, planificador e investidor da produção nacional, e garantidor direto dos direitos sociais como saúde, educação e transportes. Apoiada nas relações de produção do fordismo, essa esquerda se organizou em sujeitos e instâncias políticas típicas desse período: o sindicato, o partido operário, os movimentos sociais tradicionais, que pressionaram o capital e dele arrancaram direitos. Márcio explica que, como resultado dessa específica correlação de força entre capital e trabalho, operante no panorama fordista, foi possível formar no primeiro mundo uma “classe média densa e estruturada”, até então inédita.

O fordismo foi um fenômeno de regulação do capital bastante localizado histórica (1945-75) e geograficamente. Suas características simplesmente não aconteceram na América Latina em nenhum período. Hoje, em especial, a formação da “grande classe média” no Brasil não está condicionada pelas coordenadas próprias da luta de classe no fordismo. Não existem mais as condições históricas que propiciaram aqueles sujeitos políticos, suas formas de organização e atuação. O momento do capitalismo é de pós-industrialização da economia, com primazia do setor de serviços, globalização das cadeias produtivas e deslocalização financeira dos centros de comando. Na ausência da centralidade da grande indústria, desaparece também o operariado de massa, outrora estruturado politicamente em sindicatos e no partido operário.

Para Márcio, a restruturação do capitalismo, na passagem do fordismo para o pós-fordismo, dissolveu as instâncias e sujeitos políticos daquela esquerda, que tanto serve de referência à boa fração da brasileira. Seguindo sua narrativa, com o derretimento das formas “clássicas” de lutas do trabalho, se desarticularam as formas de pressão e mediação ante o capital, o que por sua vez serviu de sésamo para a regressão das conquistas e direitos sociais. Nesse momento, o welfare state vira uma quimera política, já que a margem de lucratividade do capital se torna cada vez mais inacessível, rapidamente fluidificada e abstraída dos lugares da produção. A dinâmica do valor pulveriza-se mundialmente, movendo-se com liberdade por sobre as fronteiras, numa era de desregulamentação e privatização. Representado pelo neoliberalismo, o capitalismo no pós-fordismo se torna hegemônico a partir dos anos 1990, com a derrocada final do socialismo real e o desmantelamento do estado de bem estar social, nos países de primeiro mundo. O resultado disso é que a classe trabalhadora vira suco. É nesse cenário que se forma a “grande classe média”, consumidora sim de bens duráveis e inserida a seu modo no mercado de trabalho, porém desestruturada e inorgânica, enquanto classe. Impossibilitada de organizar-se, pressionar o capital e formular projetos alternativos em termos próprios, a nova classe trabalhadora termina por tendencialmente aderir aos valores do próprio capitalismo: despolitização, moralmente conservadora e consumista, atravessada inclusive por pulsões fascistas. Eis aí o diagnóstico pessimista de boa parte da esquerda brasileira, para quem a ascensão da “grande classe média” acelera o fim da história.

Então, o que fazer quando tudo está escoando? É aí que, segundo o quadro pintado por Márcio, só apareça um único sujeito com nitidez para disputar hegemonia com a dissolução final da pauta de classe e a consequente vitória derradeira do neoliberalismo. É o governo do PT e seu projeto de desenvolvimento, o único sujeito forte para formular e realizar uma estratégia vantajosa aos novos trabalhadores brasileiros. Diante de uma globalização que reserva ao Brasil um papel coadjuvante, faz-se necessário forjar um pacto abrangente entre o que sobrou da esquerda e a burguesia nacional mais esclarecida, a fim de inserir a economia do país nas cadeias produtivas globais em condições minimamente vantajosas. Isto significa, por um lado, enfrentar o “capital financeiro” e promover uma industrialização que diversifique o “setor produtivo”; por outro lado, dinamizar o mercado interno, combatendo as ineficiências e arcaísmos crônicos, incluindo todos nos circuitos de trabalho e consumo. Para o autor, não há alternativa à esquerda ao projeto do governo do PT, já que, afinal, não existem bases materiais para radicar outros sujeitos políticos ou tensionar uma “correlação de forças” muito desfavorável. Deveríamos nos unir, portanto, em estratégica coalizão pelos interesses industrial-nacionais.

***

Ao criticar o “mito” da “grande classe média”, Márcio no entanto tampouco enxerga o outro lado da inclusão social, patrocinando seus próprios mitos de esquerda desenvolvimentista. A estrutura social aparece como reflexo objetivo das transformações do capitalismo, como se o capital estivesse em épica jornada. No livro, a passagem do fordismo ao pós-fordismo é apresentada apenas como uma estratégia vitoriosa do capital, achatando a ambivalência do processo. Não aparece o lado da produção de subjetividade, a formação de novos sujeitos. Isto significa que só aparecem na análise os momentos de reorganização do capital, mas não da classe trabalhadora, suas transformações políticas e antropológicas. Porque ela muda, junto das mutações do próprio conceito de trabalho, que nunca foi a-histórico.

A cegueira da análise compromete as conclusões políticas. Márcio não lembra que o fordismo das economias centrais e também o socialismo real foram destruídos não por iniciativa do capital, mas antes pelas próprias lutas operárias. A passagem para o pós-fordismo foi uma imposição de uma luta de classe ampliada, ao que o capitalismo teve de reestruturar-se, reflexamente. As lutas operárias, anticoloniais, estudantis e feministas dos anos 1960 e 70 bombardearam a ordem fordista/socialista a tal ponto que o modelo se tornou produtiva e politicamente insustentável, em Paris, Nova Iorque, Budapeste ou Praga. A globalização do capital nunca avançou independente da globalização das lutas. Uma produção de subjetividade em disseminação mundial que explica não só o surgimento da cultura pop dos Beatles, como também a possibilidade de um movimento black power global ou de transformar a cultura em trincheira para a luta de classe. A classe trabalhadora quis virar suco. Seu projeto histórico não se limitava ao welfare state, este foi um projeto mediador e arbitral de uma esquerda dirigista aliada à parcela nacionalista da burguesia. O projeto era deixar o macacão em casa e organizar sua vida e seu tempo. Na base do fordismo ainda estava o pequeno patrão pai de família homem branco ocidental, governando com os jugos da família nuclear, do colonialismo e do racismo, da heteronorma — tudo isso que a esquerda clássica não fez autocrítica. Por isso, é mais correto politicamente enxergar que a classe não virou suco, ela se liquefez para escoar dos muros da sociedade disciplinar, nomadizou-se, derramando-se pela cidade, para produzir mais viva e liberta. Nada disso aparece na narrativa extremamente ortodoxa do autor. O livro traz argumentos ilustrados com tabelas e gráficos, como se estivesse reunindo dados empíricos, embora só consiga com isso reforçar o próprio economicismo, já abundante na narrativa.

A ortodoxia da análise repercute a ortodoxia de certa esquerda no governo, mas também fora dele. A “grande classe média” até agora falhou porque não reproduz a bitola da esquerda fordista/keynesiana. É um mito porque não se parece à “densa e estruturada” classe média fordista do segundo pós-guerra europeu e norte-americano, a Meca dos sonhos branco-esquerdistas. Já a nossa não passaria de um suco Tang: desestruturada e inorgânica, tendencialmente conservadora, manipulável, negativamente liquefeita a ponto de balouçar ao sabor das flutuações econômicas, correntes consumistas ou derivas midiáticas. Uma análise muito próxima de André Singer (Os sentidos do lulismo, 2012), que fala em “subproletariado”, realçando o caráter de “subclasse” da nova composição social. Estamos novamente na literatura de formação do Brasil, que diagnostica o fracasso congênito do projeto de desenvolvimento devido a suas heranças malditas: os ibéricos pessimistas, os índios preguiçosos e atrasados, os negros malandros e sentimentais, as mulheres promíscuas… e por aí vai, cabendo à esquerda aliar-se com a burguesia mais esclarecida para modernizar e emancipar o país, seguindo o exemplo da modernidade colonizadora e São Paulo.

Tanto Márcio quanto André no fundo fazem a mesma coisa: uma história da luta de classe do ponto de vista do capital, uma ciência do capitalismo perfeitamente acomodável na ideologia do governo. Apesar de colocarem-se como críticos dos rumos do PT e vocalizadores de uma guinada à esquerda, seus livros estranhamente acabam parecendo justificativas lógicas para os pactos e mediações em que os governos Lula/Dilma, paulatinamente, se atolaram. É que, se a “nova classe média” que serve de base social ao governo é um suco manipulável facilmente pela direita, então é preciso apegar-se quase paranoicamente às últimas instâncias de organização da “boa e velha” classe, ao PT. E tentar realizar algum tipo de nacional-industrialismo e welfare dentro das tenebrosas condições pós-fordistas de hegemonia neoliberal.

Trata-se de um livro que reproduz a incapacidade crônica da esquerda, e não só no poder federal, em reconhecer culturas dissidentes e lutas heterodoxas na condição subdesenvolvida, além do marco da modernidade estatal e capitalista. Um livro estritamente ideológico, no sentido que sua narrativa passa a borracha nas resistências e desmerece sistematicamente as subjetividades. Não à toa, o levante de junho de 2013 seja um não-fato na narrativa de Márcio, enquanto Singer restringe-se a reconhecer-lhe um amorfo caráter reivindicativo. Os ideólogos não percebem que, — não fossem tão nostálgicos, nem acomodados nas pranchetas maceteadas de sua zona de conforto intelectual e política, — poderiam pesquisar e identificar outras bases materiais e sujeitos sociais, que atuam no pós-fordismo, dentro do suco, tensionando-lhe sem saudosismos.

Não seriam os termos pós-fordistas da luta, os mesmos termos em que, fora das economias centrais da Europa, se formaram as culturas diaspóricas, como os fluxos e redes afroatlânticas, em permanente reorganização e luta? Não poderíamos simplesmente pular a miragem da sociedade disciplinar fordista onde algo como o keynesianismo ainda poderia fazer sentido, e encontrar as nossas próprias tendências e coordenadas da luta de classe, além da fixidez e das estruturas “clássicas”? Nonsense, dirão! Para eles, não passa de pós-modernismo sofisticado, a serviço do avanço dissolvente da nêmese neoliberal. Com essa “nova classe média”, pelo jeito, precisaríamos mesmo era continuar fazendo o jogo da direita.

 

maio 2014 09

aaaagreve-rodoviario

Os rodoviários do Rio conseguiram organizar uma das mais bem sucedidas greves dos últimos tempos. Usando redes sociais e tecendo um arco diversificado de alianças políticas, os rodoviários conseguiram contornar o peleguismo sindical e, de maneira autônoma, ganharam o apoio da maioria dos trabalhadores. O motivo é óbvio. Está na cara que têm convergido na cidade grandes afluxos do capital, mas as pessoas que vivem e fazem o Rio funcionar não veem a cor do dinheiro. Enquanto isso, os preços explodem, especialmente os aluguéis. O banquete não chega na população, espremida por todos os lados em nome dos megaeventos. Como nas greves dos garis (março) e dos petroleiros (ainda em curso), a greve dos rodoviários tensiona um pacto essencialmente desigual, que só consegue ser mantido graças a um consenso cada vez mais autoritário e policialesco, que inclui a coalizão de governo, as principais instituições e os grandes meios de comunicação.

Precisa ficar claro que essa greve não é só contra as empresas de ônibus. É também contra a coalizão de governo. Essas empresas também participam do estado, como parceiros orgânicos e permanentes. A greve é também contra uma forma de governar a cidade, — uma esfera da representação que não representa mais ninguém. Hoje, não faz mais nenhum sentido separar setor público (grupo político que comanda a prefeitura) e setor privado (financiadores das campanhas e projetos, parceiros preferenciais, padrinhos), como se fossem duas dimensões de natureza político-jurídica distinta. A dita “parceria público-privada” não é nenhuma modalidade específica de governança, mas a própria base operativa com que funciona o estado, em 2014. Uma base concreta, por sinal, mafiosa e respaldada pela brutalidade dos agentes da ordem, “legais” e “extralegais”.

O capital chega a ser burro. Desde pelo menos o começo do século passado, o capitalismo aprendeu não somente a conviver com os sindicatos, mas a usá-los para seus próprios fins, incorporá-los como etapa de integração do trabalho e cooptação de suas lutas. Depois de um período inicial de conquistas do trabalhador, geralmente os donos do capital se adaptam, a fim de recuperar as conquistas dentro do sistema. Foi assim que historicamente o sindicato se tornou indispensável para a reprodução das relações capitalistas, ajudando inclusive na maior produtividade (veja, por exemplo, o toiotismo). Quando o sindicato, no entanto, se torna total e abertamente pelego, agindo como mera correia de transmissão do governo, o efeito é o mesmo que se tivessem fechado o sindicato. E um sindicato fechado ao trabalhador significa destruir qualquer instância de mediação para o conflito entre capital e trabalho. O sindicato perde a sua função de amortecer a luta, e de “despolitizá-la” como se fosse uma questão meramente técnico-econômica de definir algum místico “preço justo” da exploração.

O resultado é, como se viu ontem, a ação direta e imediata dos trabalhadores. Uma ação tão mais potente quanto mais capacidade de auto-organização o movimento conseguir construir. Tão mais potente quanto mais souber relacionar-se com outras lutas igualmente autônomas e imediatas por direitos. Se o sindicato deveria servir para mediar o conflito entre capital e trabalho, enquadrando a insatisfação e o desejo como “demandas de categoria”, supostamente “apolíticas”; a luta direta e autônoma liberta as demandas da categoria e, abrindo-se ao movimento mais geral de lutas da cidade, politiza a manifestação. Não por acaso, os meios de comunicação — que também participam do estado, sobretudo no poder punitivo — corram para acusar a greve de ter “fundo político” ou ser “organizada”, querendo com isso dizer que ela seria perigosa. Sabe muito bem como a maior força da greve está na organização autônoma que assumiu, na força de conversão do “espontaneísmo” das insatisfações e desejos em ação coletiva e com escala. E não à toa, também, deprecie sistematicamente as ligações entre o movimento e outros grupos políticos já existentes. Porque é aí mesmo, nessa miscigenação selvagem, que as demandas acabam escapando das “categorias”, e a governança é ameaçada em seus esquemas público-privados.

Desde as jornadas de junho de 2013, formou-se um “Partido da Ordem”. À semelhança do que ocorrera nas revoluções de 1848, na França, esse partido representa uma coalizão contrarrevolucionária que mobiliza as instituições da república e os principais meios de comunicação para desqualificar, criminalizar e eliminar todas as formas de movimento social, autonomia e luta políticas. Marx, no 18 brumário de Luís Bonaparte, via-o como expressão do “pavor burguês pelo fim do mundo”. Essencialmente moldado como reação à crescente mobilização popular no período pós-revolucionário, o Partido da Ordem “concretiza-se em brutais intervenções policialescas da burocracia, da polícia e dos tribunais.” Uma depois da outra, vão sendo caçadas e destruídas as organizações. O que os membros do Partido — pequeno-burgueses, elite burocrática, empresários da cidade — não se dão conta, contudo, é que na esteira da repressão se dissolvem também todas as conexões entre as redes e movimentos sociais e o próprio partido, que termina por se alienar da população. Se em cada greve e em cada protesto, os participantes são tachados de vândalos, chega uma hora que os “vândalos” vão ser maioria. O resultado histórico foi um golpe da direita monárquica, encabeçada pelo sobrinho de Napoleão Bonaparte que, mediante pautas populistas, se aliou diretamente às bases. O Partido da Ordem estava impotente e dispensável, tendo preparado as condições políticas para sua derrocada por um grupo medíocre. Acabou dissolvido e seus líderes exilados, enquanto Luís Bonaparte dava por encerrada a segunda república francesa para ser coroado, no ano seguinte, imperador.

Nada mais preocupante para o Partido da Ordem, e nada mais propriamente político, do que a organização da crise, com a conexão de diferentes lutas autônomas — unidas ao redor das muitas pautas do direito à cidade, por um Rio de Janeiro melhor, mais democrático e menos mafioso. O medo tem que mudar de lado. Não podemos deixar que preparem o caminho para a volta da direita, com a mobilização dos medos e a criminalização das greves, lutas e da auto-organização das forças vivas de nosso tempo.

 

PS. Para uma leitura do PT, depois de junho de 2013, como se comportando igual ao Partido da Ordem, ver editorial da Revista Lugar Comum, n.º 40.

maio 2014 03

RussiaG20

Em 2011, Obama comparou o movimento Occupy Wall Street ao Tea Party. Segundo Obama, ambos os movimentos exprimiriam grandes insatisfações durante a crise. Ambos contestariam os donos de Wall Street, questionando um governo refém do sistema financeiro. Para Obama, tanto o Occupy quanto o Tea Party não se definiram como esquerda nem direita. Obviamente interessado em desqualificar o primeiro, que à época promovia mais de 300 ocupações pelo país e pelo menos uma greve geral (em Oakland), o presidente americano achatou diferenças essenciais. Realmente, tanto OWS quanto Tea Party canalizaram as insatisfações durante a pior crise do capitalismo, desde o quebra-quebra de 1929. Mas a semelhança termina aí, no contexto.

O Tea Party invoca os founding fathers e seu nome remonta ao século 18, quando colonos brancos americanos se insurgiram contra a taxação da Coroa britânica. É um movimento tradicionalista, que prega o resgate dos valores originários americanos do trabalho e da nação. O Occupy, diferentemente, brotou de uma nova rede de produção de subjetividade que, no começo daquele ano, havia protagonizado manifestações e ocupações na casa dos 100 mil em Madison, Wisconsin. O Occupy nutriu-se, também, de um ciclo global de lutas: os ventos da primavera árabe atravessaram o Mediterrâneo para povoar a Europa das acampadas do 15-M, soprando-as a seguir pelo mundo todo numa miríade de ocupas, inclusive no Brasil.

O Tea Party condena Wall Street porque é o signo imoral do declínio do império americano. É a Babilônia onde se corrompem os valores fundamentais. O Tea Party quer o fim dos especuladores e yuppies degenerados de Nova Iorque, prezando pela volta do bom patrão e do bom trabalhador dos good old times. É um defensor do “trabalho produtivo”, contra a contaminação rentista pelo sistema financeiro. Já o Occupy não faz nenhuma crítica baseada em valores originais e nem se fundamenta nos founding fathers brancos e proprietários. Para o Occupy, o problema sempre foi estrutural: é o próprio valor do trabalho no capitalismo que está no coração da crise, uma sociedade partida entre o 1% e os 99%. O cerne do discurso do Occupy é a desigualdade sistêmica, em que a corrupção, mais do que problema moral, é o próprio sistema de exploração, racismo e concentração de renda e direitos nos mais ricos.

Se as redes mobilizadas ao redor do estilo-Occupy não se converteram em nenhuma campanha eleitoral, e tampouco foram capitalizadas pelo Partido Democrata, que seria supostamente a “esquerda” no pingue-pongue bipartidário americano, o Tea Party apoiou nada menos do que 132 candidatos nas eleições de 2010 nos EUA. O leitor não precisa adivinhar que todos eram republicanos, o partido à direita.

No ano passado, o Tea Party conferiu a Putin o prêmio de “defensor da paz”. Segundo o cofundador do movimento, o presidente russo fez jus à premiação devido a seus esforços de prevenir a guerra na Síria e pela “brava resistência contra as políticas socialistas do presidente Obama”. Para a direita americana, Putin está à direita de Obama, cujas políticas “socialistas” já eram consideradas de direita pelo Occupy. Em pronunciamento enfático, em dezembro de 2012, Putin se colocou como defensor da fé cristã, crente na moral e razão contra a decadência da civilização ocidental. As políticas ultraconservadoras do presidente russo, — por exemplo, a respeito dos direitos LGBT ou o direito ao aborto, — têm sido incensadas a ponto dele ser alçado a popstar da direita americana.

Em dezembro daquele mesmo ano agitado, explodiu o ciclo global de lutas também na Rússia. Os protestos mobilizaram marchas de até 120 mil manifestantes, fora de qualquer rede partidária, centrais sindicais ou movimentos organizados tradicionais. A causa imediata fora a fraude nas eleições parlamentares. O muito autorizado Hugo Albuquerque, do Descurvo, escreveu na época sobre como a revoltas russas baseavam-se em três temas principais: a questão nacional (o racismo contra minorias), a desigualdade (na transição pós-soviética) e a falta de liberdade (censura, criminalização etc) — todas elas cujo vértice continua sendo a oligarquia encabeçada por Vladimir Putin, uma máfia capitalista que herdou os lugares de poder do antigo império estalinista. Diante dos protestos, Putin reagiu grosseiramente. Ele não hesitou em aplicar táticas repressivas e tramoias policialescas dignas da antiga KGB, com a prisão política de líderes, a vigilância intrusiva e a intimidação massiva de ativistas em toda a Rússia, além de aprovar novas leis antiprotesto e instalar uma virtual polícia secreta.

A agitação continuou na Rússia até 2013. Nesse ano, o ciclo global também explodiu na vizinha Ucrânia. Reeditando a Praça Tahrir, os manifestantes ucranianos criaram um acampamento de resistência na capital Kiev, para exercer diretamente a democracia. A EuroMaidan enucleou um movimento forte de ação direta, repleto de contradições. Sua causa imediata foi a reação a um acordo entre o governo ucraniano, encabeçado pelo presidente Yanukovich, e a União Europeia, aliada de Obama.

Diferentemente da Rússia, a Ucrânia passou a década de 2000 relativamente protegida contra o desmonte derradeiro dos sistemas de bem estar e a capitalização selvagem das estruturas econômicas, no período da transição pós-socialismo. Segundo Denis, ativista e pesquisador do grupo Autonomia, em Kiev, essa relativa manutenção se deveu a um complexo equilíbrio de forças que mantinha os governantes sempre na corda bamba. Em 2013, no entanto, a crise econômico-financeira pegou a Ucrânia de jeito, e forçou o governo a tomar uma decisão. Num primeiro momento, Yanukovich esboçou o alinhamento com a UE, mas acabou torcido para a vizinha Rússia, com quem o país tem acordos de fornecimento de gás.

A opção pró-Putin de Yanukovich foi encarada por muitos como uma capitulação diante dos oligarcas no poder na Rússia, e os ucranianos não precisaram olhar muito longe para ver a penúria de seus vizinhos. Em meio ao acúmulo sucessivo de indignações, durante um governo especialmente contestado pela corrupção sistêmica e um perfil mafioso de reação à oposição, e nutrindo-se também a “Revolução Laranja” (2004), o caldo da panela entornou.

A partir de novembro de 2013, centenas de milhares de manifestantes foram às ruas e, diante da brutalidade da polícia de Yanukovich, enfrentaram uma repressão diária, com espancamentos, prisões políticas e tiros letais, além de temperaturas abaixo de zero. Os manifestantes levantaram barricadas, atacaram prédios do governo e sustentaram a EuroMaidan mesmo sob o fogo cerrado de atiradores. Milhares se feriram e algumas dezenas foram mortas dos dois lados. Desde o começo, a “esquerda” partidária ucraniana desqualificou os protestos, como irresponsáveis. Depois de um acirramento em fevereiro deste ano, a magnitude e determinação dos protestos acabaram por tornar o governo de Yanukovich politicamente insustentável. O presidente foi destituído pelo parlamento e se exilou, ao mesmo tempo que eram convocadas novas eleições. À semelhança do que ocorrera com os governos oligárquico-dinásticos de Ben Ali e Hosni Mubarak, no norte da África, três anos antes.

Hugo inscreve a EuroMaidan no ciclo global de lutas, junto de Turquia e Brasil em 2013, porque “reflete uma tendência global e local: a conjunção de uma população fortalecida pelo absurdo acesso à informação promovido pela Internet — e a cultura que isso envolve — contrastada com um cenário de incertezas para o futuro — sobretudo os mais jovens — e, de tal forma, forçada a agir dentro de cada contexto social e local. Essa revolta não poupou dos Estados Unidos à Rússia, do Brasil de Lula e Dilma ao Chile de Piñera.”

Quando a multidão mobilizada na Ucrânia mostrou a capacidade de destituir um governo e contagiar a região como um todo, símbolos neonazistas inundaram as notícias de portais, blogues e sites de “esquerda”. Com o apelo da imagem, as suásticas, uniformes e saudações fascistas facilitaram um mapa cognitivo confortável: a  revolução teria sido sequestrada pelos neonazistas. E isso muda tudo. O risco da recrudescência do nazifascismo justificaria, portanto, uma condenação imediata do processo como um todo, nivelado pelos extremistas.

Por incrível que pareça, a tábua de salvação para a “esquerda” escandalizada com os nazis foi… Vladimir Putin, o ex-agente da KGB, cabeça de um governo ultracorrupto e triturador de minorias e oposições, com traços fundamentalistas.

A ausência de pensamento crítico levou vários analistas de “esquerda” a agarrar-se ao argumento do mal menor. Incapaz de enxergar bases materiais e formular conceitos à altura dos conflitos e contradições de nosso tempo, essa “esquerda” prefere aderir o mais rápido possível àquilo que confirme sua própria identidade, reconfortando-se na velha zona de certezas e convicções com que analisa o mundo e age. Em alguns casos, um prato de lentilhas ajuda nessas certezas e convicções. Mas o esquema de leitura está velho em 60 anos. Remonta à Guerra Fria de antes da insurreição húngara de 1956, quando ainda poderia ser admissível autoenganar-se com a antiga União Soviética. Seria preciso apoiar Putin contra os “neonazistas da Maidan”, que por sua vez estariam financiados e apoiados pela UE e Obama, através da OTAN e, máximo alerta, da CIA.

Da mesma forma que Obama, em 2011, tinha achatado diferenças entre Occupy e Tea Party; agora, em 2014, desta vez supostamente contra Obama, a “esquerda” achata as diferenças entre a EuroMaidan e os neonazis. De fato, existem pequenos — porém disciplinados e espalhafatosos — grupos de extrema-direita diretamente envolvidos nas manifestações ucranianas, em especial, nas ações diretas e ataques ao governo. O que é falso é que as centenas de milhares de pessoas mobilizadas estejam trabalhando, ainda que sem saber, para os neonazis. Estariam manipuladas, “hegemonizadas”. A atuação sem dúvida nefasta da extrema-direita na Ucrânia — aliás, uma variável em toda a Europa, o leitor veja as últimas eleições na França — está sendo não apenas superdimensionada, no que contribuem as imagens apelativas exaustivamente repetidas, como também usada para nivelar as manifestações dentro do rótulo dos vândalos-violentos-que-abrem-o-caminho-para-a-direita. Nessa leitura, o governo mafioso dos oligarcas sob Yanukovich, que não difere muito no conteúdo de Putin, seria o mal menor.

Eu não costumo concordar com Zizek, mas ele, que conhece o Leste Europeu, acertou em cheio quando escreveu “O que a Europa deveria aprender com a Ucrânia“. No artigo, Zizek explica como a afinidade com a UE não nasce de nenhuma ilusão a respeito da benevolência e modernidade dos europeus ocidentais. Os ucranianos estão cansados de saber da crise aguda de desmonte do welfare, das revoltas sucessivas na Grécia, Espanha, Reino Unido. Os ucranianos lutam antes por um sonho europeu de direitos, do que pela realidade atual daqueles países. Um sonho que, para o filósofo esloveno, serve para revitalizar não só uma Ucrânia sucessivamente entregue à dilapidação pelo capitalismo mafioso, mas a própria Europa. Ele não cita o caso, mas é mais ou menos como os negros haitianos marchando ao som da Marselhesa para pelejar com os franceses que, perplexos, se julgavam o país da revolução.

Nesse imbróglio, o governo da presidenta Dilma adotou uma linha simpática a Putin, mesmo quando o estado russo anexou a Crimeia, em março. As tropas de blogueiros, comentadores e cabos ideológicos do governo, em pronta resposta, começaram uma campanha aberta de 1) difamação da EuroMaidan e, 2) promoção de Putin à “guerreiro da liberdade”.

Pepe Escobar, por exemplo, não se sente envergonhado em comparar a estratégia de Putin a Sun Tzu, colocando aspas na palavra “invadir” e adotando o eufemismo clássico “reunificação”, e por “razões étnicas”, para a ação militar. O único ponto de interrogação do articulista está na pergunta: será que Putin exagerou? Já o portal Outras palavras, que apesar de tudo ainda é uma referência razoável, tem sistematicamente reproduzido matérias, colunas e reportagens estritamente na agenda de Putin. A linha editorial requenta sem parar o Hitler´s argument: o título de um dos textos é “Dossiê Ucrânia: os neonazistas a um passo do poder”, outro tem na orelha: “Como milhares de ativistas, democráticos porém atomizados, foram dirigidos pela ultra-direita”, e um terceiro começa assim: “Diante de governo corrupto e mafioso, ruas de Kiev falavam numa delirante ‘transformação apolítica’. Então, neonazistas deram um passo adiante…”.

Se o caso da Crimeia fosse um processo legítimo de reunificação, — o que não seria impossível noutro cenário — não se daria mediante um ato unilateral manu militari, num “convencimento” realizado pelas forças armadas russas, e em velocidade relâmpago (neste ponto, eu divirjo do Hugo, aqui). Se — vamos adotar a mesma gramática — se a Ucrânia tem uma soberania imperfeita, carente de grande coesão nacional, isto é uma constante no Velho Mundo. Como escreveu Denis, do Autonomia, a Ucrânia pode não ser coesa como a Mãe Rússia, — onde a URSS e agora Putin tão despudoradamente reprime e segrega as minorias, — mas é mais coesa do que a Bélgica. E, seguindo o raciocínio, como ficam zonas orientais dos estados bálticos com maiorias “étnicas” russas? E a Transnistria, na Moldova oriental?

O problema grave, no entanto, não está em comemorar a invasão russa da Crimeia, mas em enxergar em Putin um contrapoder ao “imperialismo” dos UE/EUA, aparelhando a imagem dos neonazis para desqualificar o movimento da EuroMaidan. A “esquerda” cumpre uma cartilha antiamericana tosca, com um prazo de validade vencido há 60 anos. E começa a sair do armário. O Tea Party foi na mesma linha. Da mesma maneira que esquerdistas pró-Dilma não escondem a admiração pelo estadista e estrategista da KGB, numa nostalgia inexplicável da velha URSS; no seio do Tea Party, Putin foi considerado “mais líder” do que o governo americano. O movimento populista de direita puxou inclusive uma enquete pela internet, em que perguntava qual dos presidentes seria mais mão firme, Obama ou Putin. Putin venceu.

Mas o que isso tem a ver com a situação no Brasil? Respondo com o Hugo: “nada e tudo”. “Nada” porque, provavelmente, não teremos qualquer influência nos desdobramentos do que está acontecendo em Kiev. “Tudo”, porque no fundo estamos falando de nós próprios.

Em certa medida, o bombardeio dos portais, comentadores e sites da “esquerda” conseguiu colar a propaganda que os protestos na Ucrânia são hegemonizados ou, pelo menos, estão decisivamente comprometidos, pela interferência da extrema-direita, apesar de minoritária. Também conseguiu forjar uma imagem benévola e estranhamente admirável de Putin, o herói da resistência antiamericana e antiocidental. Essa imagem, além de fruto da desinformação, revela antes de tudo o descaminho político-ideológico completo dessa mesma “esquerda”.

Primeiro, porque ao considerar que as centenas de milhares de manifestantes foram hegemonizadas pela extrema-direita, simplesmente desqualifica essas centenas de milhares de manifestantes, considerando-os alienados, “apolíticos” e conservadores eles próprios. Para quem anseia por condenar o ciclo de protestos disparado em 2011, na primavera árabe, a Ucrânia veio bem a calhar. Ajudou a reforçar o argumento de que nada há para ver aí: sigamos adiante. Esse ciclo não seria capaz de construir alternativas de esquerda, a sua composição não passaria de um mingau ideológico, tremendamente desorganizado, e a consequência lógica será inexoravelmente a captura pela direita, usufruindo do clima de instabilidade. Seriam protestos “perigosos”, “manipuláveis”, “voluntaristas”. Quem viveu os protestos de centenas de milhares no Brasil sabe como não estamos distantes da base discursiva para a criminalização à “esquerda”. Não à toa, os mesmos portais dilmistas, ainda que discretos, estejam agora difamando a EuroMaidan e achatando a complexidade do processo revolucionário na Ucrânia.

Segundo, existe uma estranhíssima linha conectando as falas moralistas do Tea Party, de Putin e, tendencialmente, de Dilma. Os três adotam um discurso back to basics, quer dizer, colocam o “homem médio” e a “família vitoriana” no centro de suas estratégias políticas, valorizando o bom trabalhador e, reflexamente, o bom patrão. Todos propõem um projeto positivo de comunidade nacional. Leem como “homem médio” aquele desejoso de ordem e progresso, sem rebeldias, com uma linguagem simples e objetivos diretos. Todos elogiam o trabalho produtivo e a necessidade de ordem. São enfáticos em condenar a corrupção em si, o crime organizado e a baderna, como comprometedores dos verdadeiros valores nacionais, que eles representam. E mais: todos se colocam como uma liderança firme, capaz de manter a ordem. Diante de protestos como o Occupy americano, as jornadas de junho no Brasil, ou a “primavera de neve”, na Rússia (2011-13), os três se apressaram em condenar a violência (acionando violentas forças policiais e/ou se calando diante delas) e afirmar que nada justifica o vandalismo (no que reúnem a figura do manifestante).

Obama não vai estar na Copa do Mundo. Putin já anunciou que virá. A próxima Copa, em 2018, vai ser na Rússia.

 

Foto: Ichiro Guerra/PR. São Petersburgo – Rússia, 05/09/2013

maio 2014 01

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Lênin, numa passagem muito incompreendida, afirmava que, como os operários têm chefes nas fábricas, eles também vão precisar de chefes no partido. Contudo, ao contrário da primeira impressão, o ativista bolchevique não está defendendo a subordinação do trabalhador e o vanguardismo por si mesmo. É que Lênin não acreditava numa revolução que não estivesse baseada solidamente na realidade vivida pelas pessoas de seu tempo. O ponto de partida para a organização revolucionária precisa ser o cotidiano produtivo. Não pode haver eficácia na luta, se não estiver calcada sobre relações de produção já experimentadas, sobre a organização do dia a dia. O processo de luta se desenrola, exatamente, partindo dessas relações mais cotidianas, para subvertê-las, para extrapolar as tendências internas de libertação. A política é a arte da reorganização do existente, e não algum projeto idealista a partir de cabeças iluminadas ou esclarecidas.

 

Embora a Rússia no começo do século 20 fosse predominantemente agrária e subdesenvolvida, Lênin via na instalação das fábricas uma tendência, uma mudança qualitativa nas formas de organização social. Na época, a fábrica era a unidade mais produtiva da sociedade moderna. Era o motor do desenvolvimento capitalista. Desprezada por anarquistas pequeno-burgueses, que só viam mecanização e despolitização no rude meio operário, Lênin via na fábrica elementos potentes de cooperação e articulação, que poderiam ser reorganizados. O lado negativo da fábrica estaria antes no controle exercido pelos patrões, no esmagamento sistemático da auto-organização operária, mas não em sua mera existência. O objetivo é aumentar a produtividade do modelo da fábrica, ao libertar o trabalho do capital. Contra quem desviava, com nojo ou elitismo, o olhar da vida nas fábricas e ao redor delas, considerando-as um inferno corruptor do homem e da natureza; Lênin insistia em apontar focos de subjetividade, arranjos produtivos inovadores no interior do meio operário.

 

Daí que, em franca contraposição aos populistas russos (os narodniks), Lênin preferisse centrar a teoria da organização nas fábricas, e não na propriedade comunal pré-capitalista (a obš?ina).  Se os “puros e duros” narodniks elogiam o pobre em seu “habitat natural”, quase com nostalgia, como sacralidade a defender-se; para Lênin a virtude da pobreza já está desde sempre no artifício, na capacidade de reinventar relações solidárias e criar vida em condições de privação e sofrimento, como na fábrica. A potência do pobre está na ficção, numa imaginação real e em movimento, e que transfigura o sofrimento em mais vida e luta.

 

Com isso, Lênin vai participar de uma organização que se molda à semelhança do modelo da fábrica, assumido pelo lado da produção de subjetividade. Um partido-fábrica, que vai propor a tomada do poder dos meios de produção, para conferir-lhes outro sentido, o comunismo, liberto das coações e violências de classe. O capitalista representado pelo estado é visto como um entrave para a expansão das forças produtivas. A extinção do estado deve ser concomitante à tomada do poder. A organização bolchevique, portanto, tenta repetir e potenciar a forma fabril como um ponto de partida, organizando os operários nos sovietes e no partido revolucionário. Eis aí o leninismo de Lênin: uma teoria da revolução imediatamente imbricada numa teoria da organização (o partido-fábrica, a partir da leitura da tendência) e numa teoria da subjetividade (relações de produção que são subvertidas, potenciadas no comunismo). Essa teoria se enredou com a prática do partido bolchevique em circunstâncias extremamente favoráveis. Como se sabe, isso deflagrou um devir revolucionário que acelerou dramaticamente a luta de classe na Rússia. Os descaminhos posteriores, seja por razões exógenas ou endógenas, ou por uma combinação de ambas, não eliminam a força comprovada do leninismo.

 

***

 

Obviamente, a teoria de Lênin elaborada no começo do século 20 não vale mais em tempos de capitalismo tardio, globalizado e integrado. A revolução russa determinou as formas de luta em seu desdobramento histórico por todo o século passado, porém, suas premissas devem ser repensadas radicalmente. O próprio leninismo, atualmente, chega a ser uma palavra maldita, um xibolete associado a grupúsculos obscuros e vanguardas impotentes, completamente descoladas da vida do trabalhador. Diferentemente daquele tempo, a classe trabalhadora hoje compreende não apenas o operariado de fábrica, como também a inteira rede social de produção de serviços, relações, imagens, afetos, bens materiais e imateriais. Se sucede uma tendência, hoje, não está mais na formação das fábricas, segundo o modo de organização do começo do século 20. Está, isso sim, no investimento progressivo de toda a metrópole dentro dos circuitos de produção e circulação, na inclusão de todos no mercado de trabalho e consumo — uma socialização geral e irreversível.

 

Por mais que a agricultura e a indústria convencional continuem existindo, o fato é que um processo de pós-industrialização atinge a sociedade dissolvendo formas antigas, inclusive reconfigurando as relações de produção dos ditos setores “primário” e “secundário” da economia. Da mesma forma que a agricultura fora industrializada, a indústria é pós-industrializada. O capitalismo não se contenta mais com a extração de mais-valor da produção fabril. O capital explora também e sobretudo as redes deslocalizadas de serviços, trocas simbólicas e compartilhamento, o inteiro tecido biopolítico em que estão todos, formalmente reconhecidos como trabalhadores ou não, implicados em sua vida cotidiana. Por isso, sem se respaldar na própria vida social e suas formas de produção atuais, qualquer apelo de luta anticapitalista/antiestatal corre o risco de rapidamente degenerar para banalidades antiautoritárias, sem premência ou dinâmica expansiva.

 

Neste contexto, seria possível resgatar o triângulo de Lênin: subjetividade – organização – revolução? Talvez sim.

 

Se a tendência hoje é da formação de um proletariado cognitivo (a dita “proletarização pós-fordista”), então é aí que devem ser pesquisadas as relações de produção — relações que são, imediatamente, um novo e geral cotidiano produtivo. A classe trabalhadora virou suco e isso em certo sentido foi bom, porque significou a derrubada dos muros da fábrica. O operariado se liquefez ele próprio, vazando das estruturas fabris para derramar-se sobre a metrópole biopolítica. Portanto, sem desprezar, de modo elitista, o imbricamento das pessoas com suas ferramentas, modos de cooperação e formas de trabalho; é preciso identificar os tempos e espaços da cooperação social, e onde estão os pontos de atrito, em que se é canalizado e explorado pelos patrões. Certamente, no começo do século 21, muitas vezes os patrões estão mais deslocalizados e abstratos do que antes, na figura das finanças, de comandos difusos e cada vez mais invisíveis de um funcionamento econômico, alçado à condição transcendental.

 

O método de Lênin consiste em estar “dentro e contra”; dentro das relações de produção, subvertendo-as, e contra os patrões (condensados ou difusos), tomando-lhes o poder. Nada de imaginar reservas sacrossantas que estariam a salvo do capitalismo. A libertação não está em construir sociedades alternativas, mas em ativar uma alternativa de sociedade (o comunismo), na imanência do cotidiano social mais imediato e disseminado. Por isso que, se o telefone celular ou a rede social da internet estão tendencialmente indissociáveis da organização das relações (de trabalho, afetivas, de diversão, de comunicação), então é possível subverter as relações de produção aí implicadas, para que o telefone celular e a rede social sejam usadas politicamente, potenciando a subjetividade. O mesmo vale para o consumo: embora o programa do capital seja assujeitar o consumidor dentro de padrões dóceis e multiculturais, neutros em relação à política, essa relação de produção pode ser reorganizada, a fim de gerar efeitos de subjetividade. A mobilidade urbana, se é condição para a superexploração dos fluxos e a ordenação da cidade, também pode se converter em mobilização. E assim por diante, o ponto está em que somente pesquisando como as pessoas se organizam produtivamente, — matriz sobre o que o vampirismo capitalista funciona —, seja possível mapear as resistências e criatividades, que podem ser integradas coletivamente numa estratégia.

 

Isto significa que é preciso, também, contestar os novos narodniks que defendem alguma pureza em grupos supostamente intocados, que estariam mais em contato com a “natureza” ou depurados da contaminação das tecnologias, das redes, da integração global. É preciso, ainda, contestar os utopistas, — usualmente elitizados e muitas vezes munidos apenas de retórica, — para quem a salvação consista em separar-se da mediocridade do mundo, em comunidades Osho, retiros ecológicos new age, casas Fora do Eixo ou seitas de baixa dieta proteica à moda Jim Jones. Para que uma revolução possa acontecer, é imprescindível que suceda efeito de escala, dentro e contra o modo capitalista dominante, numa alternativa de vida. Que, nesse processo, as formas concretas da transição (para o comunismo) já existentes sejam libertadas de dentro dos modos existentes de cooperação, autoprodução de sujeitos e libertação, e assim reorganizadas e requalificadas. E que os pontos de atrito sejam tensionados segundo a própria conformação das relações de produção do capitalismo atual, o que evidentemente passa pelo racismo, o patriarcado, a heteronormatividade e tantas outras opressões majoritárias.

 

Se Marx pensou na comuna como aposta de organização e Lênin o soviete, hoje estão em gestação os lugares de subjetivação, isto é, as formas concretas da transição. Os muitos focos de luta centelham globalmente, uma vez que a dominação capitalista é globalmente integrada. A cooperação transversal, a liderança distribuída, a horizontalidade dos processos, a arquitetura em rede, a produção biopolítica — tudo isso são parâmetros tanto do capital mais avançado, quanto da resistência e da franja de reinvenções dos novos movimentos. Daí que não adianta tentar reeditar formas falidas que nada mais tenham a ver com o cotidiano produtivo das vidas, por meio de organizações totalmente obsoletas. Tal nostalgia de outros momentos do século passado não condiz com a necessidade de calcar-se na organização produtiva realmente existente, e leva a uma espécie de autismo político. Sem requalificação, sem apoiar-se nas tendências, todo o movimento estudantil, sindical e orgânico está fadado à impotência, à incapacidade de fazer qualquer coisa de eficaz e expansivo. Enquanto isso, os teóricos e empreendedores do capital não perdem tempo defendendo a ortodoxia. Eles se adaptam o mais rapidamente à realidade produtiva, redimensionando os mecanismos de controle e inventando novos. A luta de classe é dinâmica, na medida da liquidação das formas antigas.

 

Ainda é possível promover um bom encontro com Lênin, na contínua atualização de suas hipóteses e dadas as condições reais das lutas e as circunstâncias com que nos defrontamos diretamente, legadas e retrabalhadas. O que fazer segue uma pergunta incontornável, em meio à desorientação de nosso tempo.

 

 

 

REFERÊNCIAS BÁSICAS

 

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs; capitalismo e esquizofrenia, Vol. 1-5. Ed. 34. [1980]

LÊNIN, Vladimir I. O que fazer? [1902]

___. Um Passo a Frente, Dois Passos Atrás [1904]

___. Imperialismo, fase superior do capitalismo [1915].

___. O Estado e a revolução. [1917]

MEZZADRA, Sandro; CHIGNOLA, Sandro. Fuori dalla pura politica. Laboratori globali della soggettività. 7/12/2012. http://www.uninomade.org/fuori-dalla-pura-politica/

NEGRI, Antonio. Trinta e três lições sobre Lênin. Edição italiana manifestolibri. [1973]

___. Da fábrica à metrópole; ensaios políticos. Edição italiana DataNews. [2006]

ROGGERO, Gigi. La misteriosa curva della retta di Lenin; per una critica dello sviluppo del capitalismo oltrei i ‘beni comuni’. Ed. Usher. [2011]

abr 2014 25

tatianaFoto: Tatiana Roque, túnel velho Botafogo-Copa, 24/4/14

Douglas Rafael da Silva Pereira seria apenas outro Silva assassinado durante uma operação policial na favela, não fosse DG. Não fosse dançarino do programa da Regina Casé na Globo, Douglas seria outro “implicado no tráfico”, num noticiário supersaturado de roteiros baratos e automatismos jornalísticos. Não levaria a comoção à TV. O enterro não mereceria a atenção dos telejornais. As armas dos policiais não seriam apreendidas. Nem haveria investigação digna do caso. E com certeza o Instituto Carlos Éboli não teria sido desmentido pelo IML, que mostrou que DG foi atravessado por um tiro pelas costas. Não leríamos, na manchete do jornal Metro, que o secretário de segurança “não descarta” que a polícia o tenha executado. Não fosse DG, a justa revolta dos moradores do Pavão-Pavãozinho seria reduzida à “ação orquestrada pelo tráfico”, e reprimida como tal. Como de fato foi, mesmo sendo DG. Quando Edilson da Silva dos Santos, morador da favela, levou uma bala na cabeça e morto. Outro Silva para a estatística das UPP.

Publicado no youtube em 1º de julho de 2013, Made in Brazil traz DG como protagonista, interpretando si mesmo. Ele vive a plenitude da idade num Rio de Janeiro encravado entre o morro e o mar. Aparecem jogos de bola na areia, a solidariedade do morro, a força do funk, a arte de rua, a grande emoção de estar ali no meio da gente. Mas no final, o paraíso se desmancha sem vaga pra romantismo. O ator é pego numa batida policial, como de praxe na favela, e esculachado. DG está no papel de qualquer jovem negro. É de arrepiar o momento em que a ficção, com grande verdade, prenuncia o real.

O curta tem a qualidade de pôr lado a lado a riqueza incomensurável da vida no Rio de Janeiro “pobre” e o desvalor absoluto com que essa vida é tratada. É a contradição máxima. A mesma Globo que veicula e explora a riqueza dos pobres, em programas de Casés ou Hucks, fabrica e mantém uma verdade jornalística legitimadora da tortura e assassinato sistemático da juventude negra. De um lado, a voracidade imobiliária interessada não apenas nas vistas suntuosas dos morros, como também na vida cultural, sua exuberância alegre, festas, camaradagem inspiradora. Do outro lado, o racismo institucionalizado, a ausência de serviços básicos, saúde, saneamento, respeito. De um lado, a maior taxa de policiais por habitante de metrópole do país. Do outro, o abuso cotidiano, a normalização do estado de exceção contra pobre, negro, manifestante. De um lado, a capitalização da favela, do funk, das culturas de resistência, mercantilizadas e domesticadas por intermediários e muita publicidade. Do outro, a montanha de corpos chacinados de boa fé, porque eram “implicados com o tráfico”.

Hoje, o protesto depois do enterro cruzou Copacabana gritando “Justiça”, “Fora UPP” e, a palavra de ordem que unificou as lutas pelo Brasil, “Não vai ter Copa”. Eram quase mil pessoas, na mistura potente que, uma vez em luta conjunta, tanto assusta quem anseia para apontar só “favelados” ou só “coxinhas”. A mistura na luta compromete seja a desqualificação que seriam manipulados pelo tráfico, seja pelo PIG. Estavam ali não só por DG, mas pelo Silva que muitos também são, por todas as Silvas e todos os Silvas que se recusam a ser pacificados.