out 2014 14

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Não há nada a ser comemorado no apoio de Marina a Aécio no dia 10, seguindo o PSB e o PV de Eduardo Jorge. É realmente lamentável e as condições exigidas apenas amenizam o que é um grande erro. Tem gente soltando rojão na linha do “eu já sabia” ou “bem feito”, com um ar de satisfação íntima de quem parece estar acompanhando as intrigas da novela das oito. Não perdem uma oportunidade de espinafrar aqueles que elegeram como vilão preferencial. Pena que o “Aécio Never” não valeu para o 1º turno, porque Marina x Dilma teria comprometido o PSDB em larga escala, e transformado positivamente as coordenadas da disputa. Venceu a mesmice e o sentido à direita. “Aécio Never”, para vários, foi corolário do “Marina Never”. Se a contradição fundamental do sistema político brasileiro é entre PT e PSDB, isto é, a contradição entre dois projetos distintos de Brasil, por que essa contradição não se manifestou quando havia tantos cargos e mandatos em disputa? Quando teria sido possível usar a atenção que a eleição presidencial aufere para traçar, claramente, o mapa das forças políticas partidárias?

Ao invés disso, a máquina governista, com reforços a partir daí cinicamente elogiados (no dia seguinte ao pleito, voltarão a ser ridicularizados, pelo menos até daqui a 4 anos), bateu todos os dias na Marina, que não soube, não pôde, e não tinha como responder na mesma medida. As três coisas sucederam em distintas ocasiões: respondeu mal, não conseguiu responder, não tinha meios pra responder. Já para o PSDB, a eleição foi um domingo no parque. Não admiram, agora, as teorias conspiratórias sobre o diversionismo. Marina teria servido de boi de piranha para a tucanada passar incólume.

A realidade no entanto é mais irônica. O erro de avaliação aconteceu na campanha de Dilma, e também por aqueles que cerraram-lhe fileiras segundo a estratégia delineada por João Santana. O marqueteiro defendeu a tese ofensiva desde o momento em que, nas pesquisas, Marina passou Aécio, na época estabilizado em 15% das intenções de voto. Sob o comando de Santana, a eleição foi jogada como um videogame. O que importa é passar pra próxima fase e “zerar” o jogo. O problema disso não é, tanto, a desconsideração de alguma moral. É a desconsideração da própria política. Nada de avaliações ideológicas, de como pautar à esquerda, de como defender, afinal de contas, o que diferenciaria o projeto do PT em relação ao projeto antagônico, o que justificaria tantas alianças, recuos, estagnações, aparelhamentos. Onde esteve a tão invocada “esquerda do PT”, incapaz até de emplacar um painel programático? Quem hoje volta a jogar pedra na Marina, poderia se perguntar se uma aliança com o PSDB é pior do que uma aliança com o PMDB, a família Sarney, Cabral/Pezão, Jader Barbalho, Renan Calheiros, dos ruralistas assassinos, dos megaempresários erigidos a “campeões nacionais” pelo neodesenvolvimentismo dominante.

Outras avaliações podem ser feitas. Qual o efeito de uma campanha massiva em tom acusatório pessoal, de difusão do medo, de hostilização aberta, qual o efeito pode ter nas demais disputas em curso e no processo como um todo? Porque o medo é um afeto reativo que costuma mover o processo à direita, ao cevar instintos de autopreservação, reações patrimoniais (que tenho a perder?), pulsões identitárias (o que sou/não sou) e o sentimento gregário (familista, com todas suas neuroses).

O apoio de Marina a Aécio foi um erro, do ponto de vista de uma construção por fora da representação. Teria sido erro simétrico apoiar Dilma. E não há o que relativizar. Mas vale pôr em contexto. Marina poderia ter surpreendido com uma neutralidade enérgica. Essa sim seria uma surpresa. Porque não foi uma surpresa o alinhamento com uma das candidaturas, dado o que aconteceu no 1º turno. Tentamos, outros amigos e companheiros, em especial do suprapartidário Coletivo Biorana contrariá-lo. Você pode enfrentar preferencialmente um adversário, mas precisa ter em mente que seus eleitores continuam no jogo depois da “desconstrução”. E a maioria dos eleitores de Marina não quer ver Dilma nem tingida de verde e amarelo.

Até é possível argumentar que, em 2014 ,a diferença entre PT e PSDB é tão pequena que, sem Marina, a neutralidade deveria se impor. Ao que fui respondido, várias vezes: são iguais… MENOS uma campanha! Também não me desiludi com Marina por seguir o mesmo roteiro da “velha política” de negociar e escolher lado num binarismo esvaziado. Seria exigir que Marina seja algo que nem ela afirma ser. Porque Marina nunca, em nenhum pronunciamento, se colocou como a “nova política”. Eu mesmo fui pessoalmente ouvi-la falar em três ocasiões, no Rio de Janeiro. Nas três ocasiões, deixou claro ser “velha política”, que não deveríamos esperar nenhuma liderança messiânica, nenhum anúncio personificado do novo, mas apenas uma tentativa de induzir uma transição política. A palavra usada por Marina foi “interregno”, período entre reis, quando a maturação das forças democráticas da sociedade poderia transformar a representação, de modo que não precisássemos mais de alguém com carisma e experiência como ela.

Marina tinha plena consciência e deixava claro que, sem a emergência de um movimento desde a sociedade, de fora do sistema representativo, ela não era nada, não tinha como instrumentalizar nada, e seria capturada de volta pelo videogame. As manifestações de 2013-14 e a emergência mundial de novos sujeitos faziam nutrir o sonho de que talvez fosse possível competir institucionalmente de maneira inovadora. Essa hipótese não se verificou, mas não é absurda. Não foi à toa que essa hipótese foi desqualificada seja pela simples mentira a respeito do discurso de Marina (ela estaria se apresentando como messias da nova política redentora, o que é falso) seja através de uma desqualificação paralela das jornadas de junho, dos novos movimentos, e da tentativa de pensar e fazer política por fora da política da representação. Parte da fúria anti-Marina se deve, também, ao susto que essa hipótese significou, especialmente quando parecia possível uma candidatura majoritária nacional canalizá-la. Isto causou horror.

Equilibrada na corda bamba entre uma Rede incipiente e um PSB fragmentado, Marina sabia que sua única chance era contar com uma mobilização de baixo pra cima, na linha do “Yes we can” norte-americano. O que não aconteceu. O que foi um sonho não sonhado com a força real necessária. As redes de mobilização e organização não se formaram, e o impulso momentâneo arrefeceu, a seguir desgastado dos dois lados, diante de uma síntese impossível esboçada pela campanha hesitante de Marina. Hugo falava que o “extremismo de centro” e Silvio o pemedebismo prevaleceriam. O que se mostrou correto a posteriori. Mas a história se faz enquanto é feita, e se existe uma brecha, e uma hipótese/aposta merecedora do investimento da práxis, ela deve ser investida. E hoje vejo como era, sim, possível, mas que tal possibilidade necessariamente exigiria a chegada no 2º turno, quando poderia, pelo menos, ser ouvida. Marina não teve o direito sequer de ser ouvida. Impôs-se imediatamente o “nada a ver por aqui, para frente!”.

A derrota no 1º turno foi um balde de água fria em Marina, o que fechou qualquer brecha. Enregelada pelo fechamento induzido pelo ex-partido e pela esquerda de governo, depois do veto de 2013 ao registro da Rede, não admira que Marina tenha pra si que o PT, Dilma e Lula sejam seus inimigos declarados, que não hesitarão em mobilizar a máquina para estigmatizá-la e barrá-la. Quantas vezes for necessário. Talvez fosse muito esperar outra coisa, um gesto de grandeza agora (de que eu certamente não seria capaz), num otimismo da razão inteiramente incondizente com o cerco que ela sofreu pelas forças políticas. Marina teria, realmente, se destacado muito, tivesse seguido o exemplo de 2010, e afirmasse sem meias palavras um antagonismo ao sistema político, uma neutralidade enérgica. Não aconteceu. Perdeu-se assim ainda outra chance de escapar das dicotomias infernais, em direção ao que tudo parece inescapavelmente precipitar. Reforça-se a sensação de asfixia dessa eleição presidencial, reduzida a memes fáceis, condenações cômodas e análises previsíveis, sem inspiração, repetitivas, redundantes, interessadas somente em seus próprios umbigos identitários.

O ponto culminante desse fechamento possivelmente é o fato que, como quer que a eleição termine, será adotada a narrativa que as manifestações de 2013 propiciaram o avanço da direita. Se Dilma ganhar, os mesmos que desqualificaram as lutas como um caldo de coxinhas, despolitizados e vândalos, se colocarão como vencedores históricos, e comemorarão sobre os escombros deixados pela repressão e criminalização. Este “paradigma” será aprofundado, como afirma abertamente a campanha de Dilma. De falta de aviso, ninguém vai poder reclamar. Se Dilma perder, não tenho o menor resquício de dúvida que as manifestações de 2013 serão preferencialmente culpabilizadas (assim como, ré máxima, Marina).

Não é desejável que Dilma ganhe e confirme todos os esquematismos, adesões automáticas e certezas ideológicas, sem que ela tenha sequer esboçado uma virada à esquerda, sem que tenha afinal apresentado a diferença em relação ao PSDB, além de exibir grandes números e indicadores, como se investida exclusivamente da missão messiânica de ajudar os pobres. Por outro lado, também não é desejável que Aécio ganhe (toc toc toc na madeira), o que além de todas alianças e acordos conservadores e retrógrados, também será confirmar os esquematismos. E não esqueçamos nunca que um Aécio tão forte no segundo turno é um produto indesejado das ações conscientes e avaliações estratégicas. A vitória de Aécio também será um mérito da campanha de Dilma.

Que mais posso dizer? PT e PSDB têm diferenças mas não são forças independentes, não existiriam com a força que têm, se não existisse a contraparte. Existe um processo dialético da representação em que PT e PSDB estão enxertados, um se alimenta do medo do outro, e com uma definição negativa compensam o vazio da representação sobre o que se equilibram em primeiro lugar. Em suma, um se identifica como o não-outro, e assim eles repetem o idêntico do problema que disputam. Aécio foi escolhido para facilitar a transferência de votos, graças a instintos maturados por duas décadas de polarização. Dilma supôs que Aécio seria mais fraco, deixado para ser combatido no segundo turno. Foi uma escolha deliberada e (in)consequente. Então que faça bom proveito. Outras brechas porventura se abrirão, para quem acredita que seja possível construir novas instituições e, porque não, uma nova política.

O sol não vai deixar de nascer no dia 27 e as lutas continuarão, de um jeito ou de outro. Isso me basta, e daí recomeço.

out 2014 13

LPDFoto: Kátja Schilirò

Em 17/12/2013, a Aldeia Maracanã foi despejada do antigo Museu do Índio, um prédio histórico do lado do estádio homônimo. Durante a remoção violenta pela PM, José Urutau Guajajara subiu numa árvore e ali resistiu por 26 horas. A remoção se somou à série de remoções violentas realizadas pelo governo, no processo de higienização urbana e “choque de ordem”, voltado aos megaeventos da Copa e das Olimpíadas. O desmantelamento da Aldeia também se explica pelo refluxo repressivo que se seguiu às jornadas de junho-outubro no Rio de Janeiro.

A ocupação da Aldeia Maracanã foi um desses eventos que, pequenos em escala, tiveram um impacto enorme como qualificação das lutas. Ocupada em 2006 por indígenas de várias tribos, nela aconteciam ritos, cantorias, encontros militantes e um centro de acolhimento para indígenas em trânsito. Além de várias moradias, funcionava uma oca e um pequeno comércio de artesanato.

Com a ameaça de remoção, a partir de 2012, a Aldeia mobilizou a cena ativista carioca e reuniu grupos heterogêneos, desde ambientalistas a anarcopunks, passando por participantes do ciclo de ocupas (2011-12). Um acampamento paralelo se amalgamou à ocupação indígena, além de reforços  vindos de tribos de outras regiões: mundukurus, caiapós, pataxós, tucanos, arauetês etc. O fortalecimento da resistência, simbolizado no hall pelo fogo que nunca apaga, sustentou a ocupação até março de 2013, quando ocorreu a primeira remoção violenta, depois de várias escaramuças e ataques diversionistas. Na resistência, vale lembrar, juntaram-se alguns operários que trabalhavam na obra vizinha de reforma do estádio, que foram prontamente despedidos.

Depois da primeira remoção da Aldeia, as moradias e ocas foram demolidas e a área útil reduzida pela metade. Vários indígenas foram “realocados” numa área sem infraestrutura no bairro distante de Jacarepaguá. O prédio remanescente foi cercado pela polícia. Só não foi demolido porque o instituto estadual do patrimônio histórico tombou-o. Construído em 1862 pelo Duque de Saxe, o prédio tem o triplo da idade do próprio estádio.

Reocupada em agosto de 2013, numa correlação de forças mais favorável graças às jornadas, a Aldeia voltou a se tornar um centro de encontros indigenistas e militantes em geral. Foram realizadas várias reuniões de avaliação dos movimentos, bem como atividades artísticas, aulas de tupi e rituais religiosos. Mas a maré virou novamente contra os ocupantes e, em dezembro do mesmo ano, aconteceu a segunda remoção violenta, depois de uma tentativa malfadada de retomar parte do terreno perdido no primeiro despejo.

Vários indígenas e movimentos do Rio de Janeiro reivindicam a retomada da Aldeia Maracanã para uma gestão autônoma e comum. Uma das propostas é transformar o prédio numa Universidade Indígena, um sonho dos indígenas, compartilhado por Darcy Ribeiro, que teve passagem pelo lugar na época em que ali funcionava o Museu do Índio (1953-77).

A maraca ou maracá é um tipo de chocalho, com sementes secas e uma pega, agitadas geralmente em par, ou então rodadas lentamente. Hans Staden, em “Duas viagens ao Brasil” (1557), já descrevia como os índios usavam as maracas nos rituais sociais. Durante toda a ocupação da Aldeia, assim como nas muitas marchas, protestos e ocupações de que os indígenas participaram, a maraca esteve presente, nas danças de luta e de alegria de uma geração que decidiu lutar.

out 2014 11

HALLU

Guy Debord explicou a sociedade de espetáculo como o processo final da alienação totalitária do trabalho humano no mundo objetivo da mercadoria. George Orwell traçou o perfil de uma distopia coletivista regrada pela vigilância absoluta. Mas ao carrossel de imagens do primeiro e às teletelas do segundo, William Burroughs inclui o corpo e a biologia na descrição do controle social. Para ele, a existência supermidiatizada no capitalismo tardio corresponde à experiência extracorpórea.

Para Debord, as eleições seriam o espetáculo da superestrutura que se torna, prescindindo de infraestrutura, a própria matéria dos interesses da política. A política se confunde com a imagem, e nada mais passa a existir por trás de sua superfície furta-cor. A resistência é impossível, pois na sociedade do espetáculo toda ação produtiva conspira por sua falsificação rigorosa, que se torna abstração real. É indiferente o Facebook.

Para Orwell, as eleições seriam uma farsa planejada para enganar e domesticar os cidadãos, para deixá-los felizes com a tirania. As eleições são o momento máximo da mentira, quando o grau de hipocrisia se torna insuportável. A resistência vai à clandestinidade, de onde vanguardas desencadearão guerrilhas. É preciso sair do Facebook.

Para Burroughs, as eleições são um transe mórbido. A droga eleitoral carrega a pessoa a paisagens amplas e complexas, mas a percepção mais cuidadosa logo identificará loopings, rotinas mesmerizantes e memes. Sente-se veloz, mas na realidade está correndo em autorama. A liberdade é prometida, mas se está policiado no difuso, pela Nova Polícia do opinionato. O partido é substituído por uma nuvem de almas desencarnadas. O Facebook acelera a agregação espiritual de alucinações e delírios, ou como diria o escritor, o Ugly Spirit. Mas não se deve sair do Facebook e das eleições para a vida. A vida real, afinal de contas, também é um sonho sonhado por terceiros no qual decidimos intervir.

Para Debord, é inútil resistir, resta um niilismo comprazido ou um pessimismo angustiado. Para Orwell, a resistência é útil, mas para o Déspota, pois ele próprio a engendrou para confirmar a dominação total. Para Burroughs, a resistência ainda é possível e sobretudo desejável, apesar das eleições, apesar do Facebook.

out 2014 08

DIlmécio

O Brasil entrou numa espécie de transe à véspera da eleição. Uma disputa que desceu ao nível dos instintos e dos reflexos automáticos, entre dois grupos que cultuam divindades antagônicas. Um e outro se colocam como antítese entre si, diante do que se é convocado a aderir como salvação. Os termos são definitivos e incontornáveis. Ambos os templos multiplicam variações sentenciosas da máxima de Luís 15. Après moi le déluge. Depois de mim o dilúvio.

De um lado, a cruzada dos sábios justos contra a corrupção dos ignorantes. O desejo de mudança traído como marcha cívica pela pátria livre, protagonizada pelo trabalhador honesto que dá duro todos os dias e se reserva o direito de exigir que os políticos não roubem. Para esses, as manifestações de 2013 sintetizaram o basta de uma geração ao projeto de poder de uma casta de usurpadores e sanguessugas. É o Brasil do Bem. Embora essa avaliação esteja usurpando o sentido das manifestações, que lutavam em nome próprio por direitos e qualidade de vida. Seus sacerdotes pregam a causa da modernização contra os impulsos estatólatras e as mistificações ideologizantes. O recente sucesso eleitoral aparece miraculado como confirmação de sua missão civilizatória nas terras bárbaras que prometem varrer de arcaísmos, à imagem do estado de São Paulo, alfa e ômega de tudo de bom que aconteceria no Brasil.

Do outro lado, a cruzada dos defensores dos pobres contra os ricos. O desejo de mudança negado como protesto pequeno-burguês manipulado pela direita golpista. Para esses, um vasto movimento de democratização lamentavelmente foi abalado pelas manifestações de 2013, quando saiu das sombras um país antissocial, outrofóbico, despolitizado, cúmplice tradicional da opressão e da exploração, e que fora bisonhamente subestimado. É o Brasil Coxinha. Com a dubiedade de quem se engaja na causa popular ao mesmo tempo que mantém as avaliações conservadoras, seus sacerdotes falam em nome dos pobres, como se aqueles dependessem de suas divindades e sacerdotes para agir e lutar em nome próprio. O recente fracasso eleitoral é atribuído às massas fascistas (pobre população…), à ética do trabalho de São Paulo (pobre trabalhador paulista…) e até às manifestações.

Os mais céticos recorrem ao Lênin da NEP: é preciso dar um passo atrás para dar dois adiante. Do lado de lá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Aécio, para limpar o terreno para que outras forças melhores posteriormente possam ocupar as ruínas deixadas pelo PT. Do lado de cá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Dilma, para preservar as conquistas sociais e instigar a esquerda do PT a reconstruir-se a partir dos escombros que sobraram das forças progressistas.

De mal menor em mal menor, é perpetuada a dialética do pior com o que os templos se alimentam de fiéis. A julgar pela pregação apocalíptica dos púlpitos, como quer que votemos, no dia 27 de outubro as compor­tas do céu vão se abrir e a chuva cairá sobre a terra por 40 dias e 40 noites. O Brasil tão tomado pela lama que o conselho de Lênin terá sido inútil. Não mais possível andar pra frente nem pra trás. Prosperará o caranguejo.

 


Dedicado a Augusto Botelho.

out 2014 03

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Dilma vencer a eleição no 1º turno ou Dilma x Aécio no 2º é o fim da eleição do mesmo jeito. É a confirmação do idêntico. Uma polarização que repete o mesmo imaginário neodesenvolvimentista x neoliberal, inspirando as mesmas certezas ideológicas, adesões automáticas e esquematismos. É a repetição matemática do mesmo discurso e da mesma ausência de propostas do embate entre PT e PSDB, de 2010.

A julgar pelas campanhas, para Dilma e Aécio os últimos quatro anos simplesmente não aconteceram. Para eles, as jornadas de junho não aconteceram como evento político e repolarizador da sociedade. Seria a vitória da narrativa governista: junho de 2013 foi um espasmo golpista, manipulado pela direita, agora derrotado nas urnas pelo povo brasileiro, uma vez esclarecido da “política da verdade” pela filósofa catedrática e sua entourage, pela claque de blogueiros progressistas e bots nas redes, e por João Santana. Nessa pasmaceira, continuo a me espantar com a quantidade de apoiadores e ativistas que defendem Dilma em nome da “unidade da esquerda” sem que a presidenta oferte sequer um aceno para uma mudança de rumos.

Cambaleante sobre a corda amarrada entre Rede e PSB, a improvisada campanha de Marina cometeu erros óbvios e enfrenta um exército que convoca um milhão de soldados todas as manhãs com informes de SMS dos memes, hashtags e slogans do dia. Marina está cansada e rouca (também pudera!), mas viva. Contra os esquematismos e adesões automáticas, e pela possibilidade de um segundo turno menos estéril, minimamente politizado e positivamente imprevisível, no domingo votarei nela. Só tá morto quem não peleia.