out 2016 29

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Como pode um livro de desbragada positividade chamar-se “O Anti-Édipo”? A negação presente no título não estaria comprometendo a pura afirmação de suas “paixões insanas” e “intensidades mutantes”? O Anti-Édipo presta hommage ao “Anticristo”, de Nietzsche. Deleuze e Guattari sintetizam Marx com Nietzsche para levar a superação do niilismo passivo a um ponto extremo. No “Anticristo”, a crítica da culpa judaico-cristã que se infiltrou nos ideais e instituições da modernidade, na verdade, na ciência, na política. No de 1972, a crítica da edipianização generalizada com que o capitalismo domina por dentro do desejo, das artimanhas da felicidade, das armadilhas do sucesso, na coincidência entre fluxo do desejo/moeda e repetição infinita da dívida. A sociedade não se baseia nas necessidades, mas nos excessos, eles é que definem os corpos plenos do social: selvagem, bárbaro ou civilizado. “The road of excess leads to the palace of wisdom…You never know what is enough until you know what is more than enough.” (Blake)

Portanto, o desejo, o consumo, o dispêndio e o desperdício, tudo isso está na base. As máquinas sociais têm que dosar a produtividade enlouquecida por meio de elementos de antiprodução, sob o risco do excesso construir o seu reino. Este é um tema central do “Anti-Édipo” que vem de Marx, do capitalismo como aprendiz de feiticeiro que desencadeia forças que precariamente tenta controlar. Daí tantas alianças propostas com esse jorro de liquidez-desejo: dos novos gestores comportados da esquerda keynesiana aos monetaristas da financeirização irrestrita, da vontade prometeica de tomar posse do processo e tudo controlar ao antiprometeísmo burkeano para quem diante do Anticristo é preciso comer pelas bordas com reformas graduais e seguras. Entre a euforia de habitar as velocidades infinitas ao gosto niilista de um Nick Land e a linguagem cada vez mais autorreferencial dos antropocenólogos que se comprazem em celebrar a própria melancolia, dois núcleos escapistas perfeitamente adequados à atmosfera pós-punk (entre erudição alternativa, cigarros e masturbação).

Para Deleuze-Guattari do Anti-Édipo, somente uma esquizoanálise será capaz de afirmar duas vezes a insanidade globalizada do capitalismo all-out. É Artaud + cyberpunk, Lacan com Burroughs, num tempo de guerra difusa sob o controle da Nova Police, onde o esquizo é feito POW. Fomos soterrados pelo ruído da pós-modernidade? Nos esfumamos em seu crepúsculo branco, nos clarões onipresentes da comunicação total? Ainda temos ouvidos para ouvir o “Anti-Édipo”?

  • Dan Jung

    Querido Bruno, “o desejo d consumo, como disse o dispêndio e o desperdício”, estão mesmo na fundação primordial do anti-Édipo. As maquinações, diferente de maquínico justificam a sua dosagem de produtividade pela antiprodução, seus elementos. Produzir desexcessos para reproduzir exceções… “sob o risco dexcesso construir o seu reino.” O Anti-Édipo, Li primeiro em português de Portugal. Um grande desafio pra mim, na época.

    Interessante o intertexto com Nietzsche (anti-Cristo), sua alusão de em Marx se renovar, o capitalismo aprendiz. É, como na Analise Institucional, a variância do analisador histórico, ou aquele que levanta instituintes. Sem esse levantamento, de variância, a AI não terá potência imediata na polarização das forças (instituinte e instituído).

    Mas Analistas Institucionais, pelo menos os françeses, já falamos sobre o carregadores de valises, nem sei se lembra?!. Enfin, analistas, costumamos associar o (anti)Édipo com a insuficiência de, no humano, fazer a separação entre a estrutura em Édipo (civilização) e a sua subjetividade, ou o que é revelado a partir do juízo de apreensão, dívida simbólica.

    A dívida simbólica, a que herdamos, de nossos parentes na terra, é uma força instituída a ser considerada como iniciante, mas repleta de autorregulações. Para se manter precisa se manter iniciante, autorrenovadas.

    No entanto, as mesmas dívidas simbólicas (agora no plural, na diversidade) são alicerçadas, por elas mesmas… nessa reverberação. Por isso o corte. Vou falar de quebra de estado, mais apropriado e menos analítico. É isso! A experimentação… diferença entre o Édipo estrutural e o Édipo empírico.

    Eles juntaram o prefixo e o colocaram num outro âmbito, adoravam geografia, outro lugar. Como polarizações. Muito contemporâneo ao zeitgeist da época (Guerra Fria). Polarizações…

    E o Guattari era Psicanalista e Deleuze um amante de cinema, os dois juntos, criaram, conceituaram, o olhar desejante, que emerge da dor, mas dor a se colocar na medida ‘Dela’ mesma; que se retroalimenta, autofagia. Ou: para uma perpetuar, a outra tem que desaparecer. Para torna possível a ausência de dialetizaveis!

    Por isso a proposta de retorno é inivibializada, porque ela não é mais latente, a modernidade a desnudou.

    Tudo pela negação, não é à toa o anti.

    Abraçado considere-se, Bruno. Nem revisei como sempre. Desculpe os erros. Gosto assim. Genuíno. Aqui no quadrado me sinto em casa, mas casa como é no arcano sacerdotisa (amo tarô! As circunstâncias lá é mesmo o que não pode controlar, mas é legal conhecer os seus símbolos, acrescenta. Bom eu sou velha bruxa mesmo.), que não tem casa… e nunca passa da sala.