set 2016 21

alibi

Crítica de Aquarius (Kléber Mendonça Filho, Brasil/França 2016, 145 min.)

O filme ficou famoso em maio em virtude da manifestação no tapete vermelho de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro. Com cartazes “Aconteceu um golpe de estado no Brasil” e “Governo ilegítimo”, o elenco fez coro com o mote #NãoVaiTerGolpe dos protestos nas ruas, logo depois da abertura do processo de impeachment contra a presidenta eleita. À época, além dos aparelhos sindicais e de movimento ligados ao PT, a mobilização a favor do governo tinha sido bem sucedida em penetrar em frações significativas do meio universitário, cultural e artístico. Com estreia nacional em 1º de setembro, no dia seguinte ao desfecho condenatório no Senado, o filme serviu de gancho para que o movimento se repetisse nas salas de cinema brasileiras. Ao final de cada exibição, são ouvidos gritos “Fora Temer”.

O eixo de Aquarius se desenvolve ao redor da personagem Clara, uma senhora na casa dos sessenta, mulher realizada, forte, autônoma, que enfrentou um câncer. Interpretada por Sonia Braga, a protagonista mora há décadas num prédio de frente para a praia, forrado de vinis e referências vintage, num bairro nobre da cidade. Foi ali que Clara viveu dias felizes com o marido morto, ali onde amou e criou os filhos. Todo esse patrimônio material, moral e simbólico é ameaçado quando uma construtora começa a comprar os apartamentos para pôr o prédio abaixo e construir no lugar um novo empreendimento de luxo. Todos os moradores aceitam a barganha menos Clara, que solitariamente resiste às pretensões da expansão imobiliária.

Com essa premissa, o fio condutor do drama se desenrola tensionado entre o indivíduo legítimo em seu direito e o assédio de uma corporação sedenta por lucros. Decidido a desalojá-la, o empreiteirozinho arrogante recorre a expedientes imorais e ilegais, perturbações, ameaças, chantagens. Ao longo do filme, identificando-se com Clara, se podem ouvir reações de parte da plateia, a mesma que ao final gritará “Fora Temer”, de aprovação ou reprovação diante da saga da mulher que resiste. É assim que se pode ouvir um riso cúmplice no momento que o empreiteiro se gaba por possuir MBA em business nos Estados Unidos, o que lembra uma cena do longa anterior do diretor (O Som ao Redor), quando o playboy Dinho alerta aos milicianos, escandindo as sílabas, que “aqui não é favela”. É assim também, com um sorriso encantado, que a plateia pontua a participação na economia emocional organizada pela trilha sonora, quando por exemplo uma canção precipita a troca de olhares entre Clara e a namorada do sobrinho, denunciando a cumplicidade de bom gosto.

Mas somente uma leitura apressada poderia reduzir o filme à luta entre Davi e Golias, da pequena gigante moral contra um Poder maior. Como em O Som ao Redor, as imagens são mais escorregadias. Um campo subrepresentativo imprime ao ambiente presenças espectrais na forma de sombras, pesadelos, alucinações, reminiscências. É como se uma violência difusa estivesse prestes a abater-se, num suspense a seguir invariavelmente frustrado, como um complexo subterrâneo de fatos que jamais ganha o primeiro plano. Em O Som ao Redor, eram fantasmas de escravos que perambulavam pela casa do patrão, um enigmático menino negro que subia em árvores, ou então sons sinistros; em Aquarius é o pesadelo de uma empregada que roubava joias, é uma reminiscência de violência sexual, um carro bloqueando a saída de casa, uma porta destrancada na madrugada. A estratégia consiste em provocar o estranhamento em meio a coisas e relações do cotidiano. Essa estratégia está ligada ao caráter de classe que a instância fílmica assume e tem a sua razão de ser, pois esse caráter é materialmente elusivo e, portanto, só pode ser acessado de maneira oblíqua. Uma abordagem direta não daria conta. Porque o espectador é levado ao desassossego em função de seu posicionamento social, de maneira indireta: teme os manos com cordão de ouro e boné de marca que vêm se juntar à terapia de grupo ao ar livre, assusta-se com a cabeça do negro que subitamente aparece na cozinha, ou espera o pior quando dois peões de obra seguem à distância e então abordam Clara na porta de casa. Mas logo vem o anticlímax, pois o real não é tão simplista.

Em ensaio sociológico, tanto O Som ao Redor quanto Aquarius jogam com a tese da cordialidade brasileira, isto é, o fundamento paternalista, a intimidade necessária que acompanha o exercício ordinário de autoridade e ascendência social. Naquele filme era João, neste é Clara, que faz questão de conhecer todos os subalternos pelo nome e, logo nas primeiras cenas, solicita uma “verdurinha” à empregada que prepara o almoço, enquanto vai tomar banho de mar (com a atenção especial dos salva-vidas). A mesma empregada cujo filho tragicamente morto a protagonista vai à festa de aniversário na favela. O homem cordial está tomando banho, contudo, num mar de tubarões. Em O Som ao Redor, a dialética entre segurança e insegurança se resolvia num curto-circuito imediato: comprar proteção se revela uma armadilha. Já em Aquarius, a relação dinâmica entre uma e outra passa por um labirinto de mediações. Clara resiste ao assédio da construtora acionando a sua própria rede de proteção: um bombeiro militar, uma advogada particular, um contato pessoal da família Cavalcanti, conexões na imprensa, tudo isso que, no fundo, sustenta também a modernização de que a construtora é um vetor.

A concepção inicial do Poder como um todo unitário que esmaga o indivíduo em seu direito logo dá lugar à microfísica de poderes, de cuja integração deriva a eficácia ordenadora do todo onde os personagens se inserem. O poder é relacional e circula, de modo que a distância entre o poder mobilizado por Clara e pela construtora não pode ser medida por uma moral. Ambos os contendores que medem as forças identificam na propriedade a exteriorização da própria personalidade como um direito titulado seja pela pessoa física, no primeiro caso, seja pela jurídica, no segundo. Mas é o mesmo jogo e o mesmo poder que, de um lado ou de outro, é mobilizado. De qualquer modo, trata-se de uma luta interna corporis às elites locais. O homem cordial — burguês — mobiliza uma série de recursos jurídicos, políticos e moleculares que não aparecem para ele como um artifício de poder, como se os detivesse a título de direito natural. O filme acompanha o movimento objetivo aparente dessas diversas mediações de classe, pela sinuosidade própria da realidade brasileira, levando a crítica ao plano do inconsciente fílmico que se maquina nos silêncios, nas expectativas, nas hesitações, nas obliquidades, nos medos, nas aparições espectrais, como força real.

Essa força irrompe no filme anterior, O Som ao Redor, no atentado organizado e premeditado que atualiza, na penúltima cena, a violência difusa de classe que percorre a narrativa. Os milicianos estavam, de fato, vingando-se do senhor de engenho modernizado como empresário imobiliário. Haveria uma diferença entre esse desfecho e o longo arco de revides e pequenas sabotagens que os personagens manejavam contra os patrões ao longo do filme? Sim, o próprio fato que foi organizado e premeditado. O ressentimento vai coalhando ao longo de O Som ao Redor até saltar, qualitativamente, na ação violenta de classe. Ela não é redentora nem satisfaria um posicionamento consequente em maior prazo, e muito menos o filme dela se compraz, porém essa violência programada tem o condão de lançar retrospectivamente uma nova visada sobre toda a história de O som ao redor. Por sua vez, em Aquarius, a nuvem de violências jamais se realiza senão através das presenças espectrais, que coadjuvam a luta principal entre as elites. Os personagens pobres aparecem chapados na paisagem e lá ficam, sem formular ponto de vista, enquanto no filme anterior eles eventualmente se levantam. Em Aquarius, as elites lutam sobre o pedestal formado pela figuração puramente passiva de pobres e empregados.

É justamente nesse ponto que o novo filme de Kleber Mendonça Filho toca magistralmente a conjuntura nacional, quer os autores queiram ou não, e pelo visto querem. Porque o impeachment também não passou da reacomodação de elites políticas, cuja gerência teve de ser trocada por incompetência. Primeiro, incompetência para realizar as reformas neoliberais e o ajuste fiscal, como Dilma pretendeu, segundo, em barrar a Lava Jato, missão assumida por Lula. Nesse sentido rigoroso, o impeachment não passou de uma luta intestina entre grupos de poder, ambos invocando uma força popular a seu lado que, todavia, não compareceu na cena. Clara representa, precisamente, um dos lados dessa disputa “politicamente” elitizada.

Ela não está cercada apenas pela construtora e pela violência amniótica que espreita as relações de classe mediadas pela cordialidade. Como boa parte daqueles que aplaudem o filme pelas razões erradas, ou em exercício arbitrário das próprias, sente-se cercada também pela avalanche de evangélicos que sobem as escadas, pelo excesso de carros comprados a crédito que engarrafam o estacionamento, ou pela proliferação de MP3 e filmes para tubes pornôs do mundo de hoje. Os cupins já estão no andar de cima, pois a dita “nova classe média”, cujas principais referências não são Maria Bethânia nem Chico Buarque, ascende junto com o Brasil-business. A construtora não tem nenhum problema em agenciar-se taticamente à nova classe, o que para Clara duplica a sensação de isolamento. Duplica, também, a identificação de certo público: é toda uma civilização que se encontra ameaçada pelo “golpe”.

Pouco importa se as intenções dos realizadores não coadunam com o que foi dito até aqui, ou o fato que Aquarius foi filmado bem antes. Uma intervenção se torna prenhe de vida quando intercepta a complexidade histórica em que se emaranham processos de longa duração ou iminentes, onde os acontecimentos se espessam debaixo das representações morais e objetivas. Por isso, não são acessórias à compreensão do filme a performance do elenco em maio na première na França, a coincidência das datas em relação à destituição da presidenta, ou as declarações do diretor de que o filme sofreu retaliações por parte do novo governo. A existência material é determinada por apropriações e reapropriações que recriam continuamente os significados políticos e estéticos, à revelia das intenções autorais. O cinema, mais que ferramenta de acesso ao real, é o próprio real em seu devir, então cabe, sim, interrogar sobre a atualidade em que gera efeitos, em que é.

Embora não fosse um filme sobre o levante de 2013, O Som ao Redor provavelmente foi o melhor filme do junho maldito, o que melhor o decifrou. Ainda que tenha sido produzido um ano antes das jornadas. Entre condomínios fechados, grades, paredes, muros, numa ortogonalidade talhada em concreto armado, aquele filme de 2012 traça o cenário de fragmentação, estratificação e confinamento do processo urbano brasileiro, que desloca os conflitos para a vida privada, fetichiza os bens da casa e pulveriza a identidade de classe. Em Som ao Redor, o fundamento da propriedade é patriarcal e as relações igualmente são cordiais. Ao cotejar engenho e metrópole, expõe como o processo de modernização, em vez de levar ao Brasil do futuro como se prometia nos slogans do governo, transpõe o arcaico no novo, que passam a coexistir na unidade orgânica do desenvolvimento. Nisso reside o paradoxo de o levante ter irrompido em meio à retórica grandiloquente do Brasil Maior. O filme como um todo prenunciou junho de 2013, cujo acontecimento imprevisível fez explodir as tensões sublimadas e as violências difusas do processo urbano e fez irromper, como na fatídica cena final, um revide direto aos símbolos da propriedade, à rede de poderes que sustenta a dominação. A palavra é levante.

Aquarius está funcionando como o duplo farsante, o lado débil do díptico. Depois da revolução francesa, para recalcar o conteúdo de levante popular, a burguesia inventou para si uma narrativa heroica onde aparecia como mocinha da história, transfigurando e se alucinando na tradição culta da Ilustração. Fazia isso enquanto exaltava os valores universais pelo que dissimulava seu caráter estreito e sua vergonha, de modo que mesmo as derrotas sobre o pedestal eram sempre erigidas à qualidade de tragédia histórica. Tal universalidade intrínseca a sua luta servia-lhe de signo de autenticidade que, como a Clara de temperamento mercurial, dota a indignação de sinceridade, “muito correta” como é elogiada pela empregada. Deve-se então julgar os lados pelo grau dessa sinceridade de não ter nada por trás, diferentemente da construtora e seu empreiterozinho arrogante, sedentos por lucro. É essa a chave de entendimento para a lacração com que Clara redime a si e aos espectadores, talvez numa vaga citação a Tarantino, na sequência final de Aquarius, quando as tábuas com cupins são por ela atiradas sobre a mesa da sala de reuniões da empresa. Os modos lembram o talking bitterly, de uma já longa tradição que remonta aos campos de reeducação maoísta, passando pela segunda onda feminista norte-americana, até chegar bastante caricaturizado nas guerras culturais entre petralhas e coxinhas.

O gesto em Cannes, portanto, faz muito sentido. Talvez ainda seja Clara, a coração valente que, de cima do tapete vermelho, proteste em nome da democracia. Ainda que seja uma democracia de belas almas cuja principal reivindicação foi exigir o seu ministério de volta. Já os espectadores que ao final gritarão “Fora Temer” acompanham a saga de Clara pelos 145 minutos, para participar de ainda outro ritual de pertencimento e assim mais uma vez inscrever-se na linha justa de que o filme, supostamente, seria representante. Uma vez consumado o impeachment, vivido com um genuíno trauma civilizacional de certa elite, resta o mecanismo compensatório: elaborar uma idade dourada onde possamos pendurar o nosso vazio. De novo, o filme é certeiro, quando estende o varal da nostalgia até a virada dos anos 1980. Só sobrou isso.