set 2016 07

As três gavetas

Publicado em Ensaios

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Em 2011, eu estava acampado na OcupaRio, envolvido até o pescoço na comunicação e ações de organização, quando fui abordado por um membro do Fora do Eixo, que à época buscava colar nas marchas da liberdade e nas ocupas do ciclo 15-M. Lembro que, nesse período, a rede de que participo não havia rompido em definitivo com eles, e estávamos numa campanha comum chamada “Mobiliza cultura” para contestar a guinada à direita que o governo Dilma tinha acabado de aplicar no MinC, com a gestão Ana de Holanda. O tal agente do FdE se sentou num bar comigo e resolvi recontar-lhe um boato que tinha ouvido. Fiz isso sem nenhuma intenção de provocação, como bem de conversa mesmo. Eu tinha ouvido que o FdE tinha três gavetas com os nomes de potenciais parcerias e recrutamentos. As gavetas eram organizadas pelo que eles avaliavam ser o desejo principal do alvo, “Dinheiro”, “Festa” e “Ego”. Para minha surpresa, o interlocutor não somente confirmou essa tática de cooptação como disse que o meu nome estava na gaveta “Ego”. Imaginem o quanto não fiquei ofendido, e disse-lhe que deveriam imediatamente remanejar-me para a gaveta “Dinheiro”. Se não fosse possível, pelo menos me colocassem no esquema da “Festa”.

Em 2014, a campanha de Dilma assumiu abertamente a “guerra de narrativas” para uma candidata e uma campanha que não tinham nada de bom na real para mostrar. Pelo contrário, a realidade era uma crise multidimensional que levava o país à beira do abismo. Era preciso, então, investir tudo na “guerra de narrativas”. E não bastava mais contar apenas com os intelectuais orgânicos, com a lendária militância petista ou com os blogueiros anti-PIG arregimentados a soldo desde o episódio do mensalão. A situação era tão crítica para a reeleição que era preciso capilarizar a guerra discursiva. Foi aí que, mais ou menos conscientemente, o comitê eleitoral e a cúpula do PT encontraram a enorme rede da elite universitária, acadêmica e cultural. Uma rede alimentada por anos com leite A que, agora, estava no lugar e hora certos e com as capacidades certas. Para todos esses produtores do discurso, o governismo ofereceu as três gavetas de uma só vez: 1) do “Dinheiro” pela via indireta dos congressos, colóquios, projetos de pesquisa, 2) do “Ego”, pela importância inédita conferida aos intelectuais numa campanha política por uma causa justa, 3) da “Festa”, pelo fortalecimento dos laços identitários e de uma zona de conforto que envolve socialidade e boa consciência (e sabemos que a maior inimiga da festa é a culpa).

Passada a eleição, contudo, toda a guerra de narrativas desabou porque baseada em duas mentiras: 1) que não havia uma crise dramática, 2) que Dilma não faria o que os adversários fariam. Havia a crise e Dilma fez o que havia imputado aos adversários. Segue-se um niilismo comunicativo impressionante, ao mesmo tempo que duas das três gavetas perdem o poder de convencimento. A do dinheiro, que começou a escassear. E a da festa, já que a gestão de expectativas deu lugar à gestão de frustrações e a boa consciência virou má. Sobrou a do ego. Tudo isso junto, não admira a completa neurose que sobrou aos intelectuais governistas, mezzo-governistas e criptogovernistas: apegar-se ao próprio ego em meio à má consciência e à perda do dinheiro.

Eu já participei de eleições no passado e sei bem como consome uma grande fatia do seu tempo por semanas a fio. É preciso participar de reuniões entediantes, aprender a panfletar, descer à praça e ter uma paciência de Jó com os eleitores. Em 2014, com a “guerra das narrativas”, bastava fazer postagens em redes sociais e assinar manifestos burocráticos como aquele suboficial de repartição pública vagamente interessado no caso dos requerentes. Para a “guerra de narrativas”, isso bastou. Mas o deserto do real se impôs nos anos seguintes e as declarações beligerantes, os repúdios aos inimigos, as festas das batalhas vencidas, os relatos de heroísmo, tudo isso se tornou postiço, não convence mais ninguém, nem os próprios governistas. O sabor que fica não é amargo, ele é azedo.

Tenho visto algumas pessoas falando em luto, que levará muito tempo para superarmos o clima de niilismo pós-PT. Eu já sou mais desencantado. Acredito que nunca vai acontecer luto nenhum. Que essa geração está definitivamente perdida e que ficar esperando uma mudança a esta altura do campeonato é uma torcida inútil. O esforço necessário para sair dessa situação é infinitamente maior do que o esforço que nos trouxe a ela, que foi um esforço mínimo da parte da maioria dos governistas, um esforço “narrativo”. A zona de desconforto para a superação dos impasses excede de trabalho e esquecimento ativo o que havia sido necessário para construir a zona de conveniência em primeiro lugar. Então vai vir de outro lugar, de outros mundos e outros arranjos. Não adianta esperar ninguém acordar porque a insônia é uma inconveniência.