fev 2011 01

Cairo, 30 de janeiro de 2011, corajosa militante sem cobertura

O lindo da revolução árabe está em não ser comandada por nenhuma vanguarda leninista ou fundamentalista. O processo constituinte varre as ditaduras na Tunísia e Egito dispensando a figura do grande guia. Nem charlatões sectários vermelhos, nem beatos maniqueístas brancos. Mesmo assim, não se pode chamar de revolta anárquica ou desgovernada.
Tem um saber revolucionário que circula no boca-a-boca, aprende na contingência e organiza o movimento. Difunde-se nas ruas e praças, no tuíter e no facebook. Aqui não tem Povo, Estado, Nação; não tem bandeira unificada. É um enxame sem símbolos do poder, transnacional, multiminoritário. São muitas revoluções ao mesmo tempo. Esgarçam um horizonte de liberdade e as mulheres podem sair de jeans e cabelos soltos.
A religião não é incompatível com a democracia e a liberdade. O problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
O islamismo não é problema, mas as pretensões políticas transcendentes de profetas, salvadores e igrejas. Nem ocidentalização nem teocracia, melhor uma democracia islâmica com direitos às pessoas e minorias, dentro do comunitarismo da al-Ummah.
A questão religiosa é uma variável, como na política americana. Mas não determinante. Essa revolução brota da luta de classes. É duro quando a verdade bate na sua porta. Imagine um milhão de verdades encolerizadas…
A revolução cria sua própria verdade e se autodetermina na imanência do conflito. A revolta encontra a sua medida em si mesma, no fazer multidão dia após dia de agitação e alegria. Todos hoje somos egípcios.
Seria reducionismo teórico sondar agora analogias pra revolução árabe (cama de Procusto). Experiência a analisar-se na sua singularidade. É preciso pensar *a partir* da revolução árabe e não *sobre* ela. Pode disseminar pela Europa, através dos milhões de imigrantes “capilarizados”. O saber revolucionário para o século 21 recomeça aqui.
Se, na década passada, a América do Sul foi a vanguarda política do planeta, nos anos 2010 o eixo revolucionário se move ao mundo árabe.
Vivemos tempos incríveis.
=================
PS. Este ensaio foi montado artesanalmente com tuítes meus publicados na data de hoje. Demonstra (literalmente) como blogue e microblogue podem vibrar em sinergia. O que o leitor acha? 
Aproveito para recomendar a excelente cobertura televisiva da Al-Jazeera: http://english.aljazeera.net/watch_now/

  • DanDi

    Achei genial a construção, Bruno. Deu mesmo a impressão de ter acompanhado seu pensamento durante o dia da marcha dos milhões no Egito, saudoso 1º de fevereiro de 2011. Peguei o espírito e aspiro este ar dos tempos de esperança. Acreditando que com a força e a coragem necessárias tudo é possível. Como sempre, parabéns!

    Como afirmei, a revolução no mundo árabe me lembra em muito os movimentos de queda do antigo Império Romano pelos povos bárbaros. Analogia crucial para tocar na ferida do ocidental regular que desconhece completamente o mundo árabe e acredita que lá só existe um povo louco e violento.

    Exatamente eles estão ensinando muito neste início de década. Que a emancipação deste povo seja geral e traga avanços nos espaços democráticos.

    Abraços!

  • Anarcorpo

    texto muito bom, parabéns. saudações do ES.

  • Bruno Cava

    Salve, mestre DanDi e Anarcorpo,

    Pois é, como naquele conto de Kafka, os bárbaros já estão dentro das fronteiras. Juventude graduada e criativa, mas sem renda e reconhecimento no Egito é a mesma nas periferias da Europa. Revolução pode crescer.

    Abraços.

  • Anônimo camusiano

    Fora do tema do artigo, Bruno, queria saber onde posso encontrar o livro "A vida dos direitos". Achei a introdução aqui mesmo no quadradodosloucos e me interessei.

    Abraços!

  • Cristina de Amorim Machado

    Salve, Bruno!
    Maravilha sua montagem artesanal e, de fato, vivemos tempos incríveis. Oxalá (para usar uma palavra de origem árabe) esse devir libertário renove as nossas esperanças. As minhas, que andavam meio em baixa, reacenderam-se.
    Beijos,
    Cristina

  • André

    "Se, na década passada, a América do Sul foi a vanguarda política do planeta, nos anos 2010 o eixo revolucionário se move ao mundo árabe."

    Adorei esta tua colocação.

  • Bruno Cava

    Cristina, valeu, hoje mesmo peguei pra ler passagens de 'Contra o método' e depois quero reler o que ele fala da superabundância. Acredito que boa parte das lutas políticas estejam enraizadas nessa questão. Quero dizer, uns forçam a escassez pra lucrar do exclusivo, os outros promovem a abundância e vivem na partilha.

    Valeu, André, fica à vontade.

    Camusiano, hoje em dia você só vai achar comigo, porque eu tenho uma sobra da tiragem de apenas 500 exemplares. Se tiver interesse, pode mandar um endereço postal a hamletvictrix@hotmail.com que eu te encaminho com maior prazer no esquema 0800.

  • Cristina de Amorim Machado

    Bruno,
    É isso aí, o último livro (póstumo) do Feyerabend chama-se "Conquista da abundância, uma história da abstração versus a riqueza do ser". São alguns manuscritos inacabados e textos que ele já havia escrito sobre o tema, que é a abundância da realidade e como se costuma reduzi-la por meio de abstrações de todos os tipos, a tal "admirável monotonia nova", ou seja, sempre mais do mesmo, em busca de uma suposta estabilidade ou objetividade. Para ele, ao contrário disso, e como você disse, há que se promover a abundância, "sem ambiguidade não há nunca mudança".
    Beijos,
    Cristina