jan 2011 29

Já escrevi, noutro lugar, que debater em 140 caracteres constitui uma experiência engrandecedora. Poderia ser aproveitada em todos os níveis do ensino. Em espaço tão curto, não dá para se delongar em explicações do passado, influências do meio, contextualizações.  A síntese virtuosa se impõe. Assim, cada personagem se engaja inteiramente no presente dialógico. A sua virtuose não se predetermina por formatos ou regras rígidas. Adapta-se criativamente, explora os recursos expressivos e eleva a qualidade poética do texto ao máximo.
O tuíter é tão educativo não só pela exigência de concisão e criatividade, mas também pela possibilidade de outras pessoas aderirem ao debate. A discussão pode começar singela e, de um golpe, se converter numa rizomática hashtag, desdobrada em subtemas, com dezenas de debatedores. Uma colaboração dinâmica que, menos do que forjar consenso, multiplica pontos de vista e cerze alianças e discordâncias amiúde inusitadas. Traça-se assim um reflexo vivo do estado do debate, das limitações e contradições do presente, no corte de alguns minutos ou horas. Desenvolvem-se extensivamente, em contiguidade e conflito, matérias das mais diversas. A arte no tuíter está, portanto, em apreender essa diversidade dialógica, em lidar com essa multidão de palavras e argumentos. Reside em reconstruir a textura polifônica de um debate vivo — em toda a multiplicidade irredutível de vozes.
Nada mais saudável, a democracia se concretiza no dissenso. Afinal, se os mundos das pessoas não fossem diferentes, não poderia haver partilha — não passaria de uma sonolenta comunhão, um grande ooommmmmm. Ou então um mundo unificado pela “opinião pública”, isto é, pela sua vocalização exclusiva por determinados “formadores de opinião”.
Daí muitos “opinadores profissionais” da imprensa tradicional se incomodem tanto com tuíter (e blogues, facebook etc).  Em nome de um jornalismo que não cola mais e que fala de si para si, desdenham do que seria um pseudojornalismo, um planeta bárbaro, uma boataria sem fim ou fonte confiável. Porém, a força do tuíter consiste, precisamente, em participar de um mundo pós-jornais, onde a “opinião pública” se dissemina transversalmente. Sua virtude está em fortalecer a horda, em que cada cidadão age como nó emissor e receptor da teia comunicativa da sociedade.
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Aproveito para reproduzir um diálogo em 140 caracteres, de hoje, com Raphael Tsavkko, do Angry Brazilian, e Michel Hulman:
Tsavkko @hulmann A esquerda prefere 1 pensar no bem do povo e depois na democracia pregada pelas potências, simples.
Hulmann @Tsavkko P mim, não há regime que possa justificar a barbárie; ao contrário da esquerda, q mantém sites e blogs alternativos p dizer q 2+2=5

BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @hulmann Capitalismo e socialismo real não são opostos à barbárie. Esta se instala no seu coração. É o Cel Kurtz em “Apocalipse Now”.

Tsavkko @BrunoCava O engraçado é q a direita acha q a esquerda defende incondicionalmente Cuba. Não, criticamos, @hulmann  
Hulmann @Tsavkko Coréia do Norte, China, Vietnã… são tantos exemplos de sucesso do socialismo… =(

Tsavkko @hulmann Mas bem mesmo vai a África! Lá sim vemos as maravilhas do Capitalismo em ação! Egito, bela ditadura capitalista então!

Tsavkko @hulmann @BrunoCava mas tb ñ acreditamos na “democracia” que querem impor.

BrunoCava Não vejo porque repetir os erros do socialismo e do capitalismo. Quero cometer erros novos. Nossa geração pode criar algo ainda sem nome.

Hulmann @Tsavkko A vdd é q a esquerda quer democracias capitalistas, p que possa operar livremente p torná-las ditaduras comunistas. #esperteza

BrunoCava @Tsavkko Não acho que exista _a_ esquerda. Existem mil esquerdas, mil lutas, mil situações concretas em que o campo político se divide. 

BrunoCava @hulmann O socialismo real fracassou na URSS e as pessoas desertaram dele. Agora é hora de desertar do capitalismo, Viver mundos livres. 

Hulmann @Tsavkko Ah tá! Então Cuba não é uma ditadura? Vou jogar na lata de lixo 4 anos de Ciência Política. O q é uma ditadura p vc?
Tsavkko @BrunoCava Sme dúvid,a tem até quem defenda Coréia do Norte e seja saudoso do diator da Albânia… Maluco tem em qqr lugar… 
BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @Tsavkko @hulmann A luta hoje não é entre socialismo x capitalismo, mas por uma partilha pós-capitalista e pós-socialista dos mundos. 

Tsavkko @BrunoCava A esquerda precisa de uma renovação, superar ñ o Socialismo, mas os meios fracassados.  

BrunoCava @Tsavkko Nem capitalismo, nem socialismo, nem internacionalismo. Hoje se pode concretizar um comunismo global.

Tsavkko @BrunoCava Sim, mas ñ significa que o Socialismo, enquanto utopia, este superado, apenas os modelos tradicionais de “chegar lá”.  

BrunoCava @Tsavkko Não dá pra apostar mais no “socialismo em um mundo só”. Esquerda nova multiplica mundos, desejos, potências, lutas.

Tsavkko @BrunoCava Temos de incorporar novos elementos e até novos anseios, mas a utopia da igualdade e da liberdade permanece. #Socialismo  

BrunoCava @Tsavkko A utopia não é socialismo, mas comunismo. Só posso acreditar numa utopia entranhada no real e vivenciada agora. Não existe amanhã.


BrunoCava @Tsavkko Desertaram do socialismo real pq o capitalismo era mais atraente. Hoje surge um mundo mais atraente que o capitalismo. Eis a luta.

Tsavkko @BrunoCava E o q vc vê pela frente?  

BrunoCava @Tsavkko Esquerda valorizar desejos, prazer, consumo. Capitalismo não gera isso — vem depois, produz escassez, bota preço e acumula. 

  • Anônimo camusiano

    "Só posso acreditar numa utopia entranhada no real e vivenciada agora. Não existe amanhã."

    Tenho quase certeza que já deve ter lido o seguinte texto, todo caso: http://pt.protopia.at/index.php/De_Outros_Espa%C3%A7os

    Abraços.

  • DanDi

    "Não vejo porque repetir os erros do socialismo e do capitalismo. Quero cometer erros novos. Nossa geração pode criar algo ainda sem nome".

    Que frase linda! São pessoas assim que me inspiram: miram a utopia, mas não são utópicos, apenas têm a esperança de que se é possível criar mundos novos por meio da fúria, da racionalidade e do amor.

    Quando meu bloguinho crescer ele quer ser igual ao Quadrado.

    Abraços mestre!

  • Bruno Cava

    Salve, Anônimo. Não li, mas deve haver cruzamento de referências, algum terreno comum. DanDi, no marxismo, Bloch foi o pensador que mais conseguiu costurar a utopia com o realismo. Antonio Negri fala em "desutopia constitutiva". Camus fala disso o tempo todo, ao enraizar a revolta no "pensamento mediterrâneo", na generosidade do meio-dia.
    Abraços.

  • Mateus Selle Denardin

    A princípio achava que espremer ideias em discussões de 140 caracteres era, no mínimo, inútil, quando não frustrante. Agora vejo, e como você aponta, como uma forma de polir as ideias, de se chegar ao essencial e sucinto, mas dizendo muito.