jun 2010 26

Tenho uma raiva dentro de mim. Uma raiva intransitiva. Uma raiva sem direção e sem objeto. Uma raiva como um animal carnívoro que quer latir, estraçalhar e engordar. Essa fera devora tudo o que aparece pela frente, pessoas e lugares e momentos e sentimentos e livros e filmes e tudo o que de comestível existe e pode existir na matéria, porque a matéria é Deus e o homem quer ser Deus. A única santidade vem do reconhecimento da corrupção da matéria.
Dessa raiva, e somente dela, é que se pode amar as pessoas. No sentido concreto de amar: impuro, corrupto, material, plural, insaciável. Nada tem de carência: é uma plenitude que não pode ser contida. É ímpeto que força passagem para derramar no outro a raiva, a dor de existir, o grito represado. É a solidão cúpida vertida no leito do próximo. É o afeto combinado com outros espíritos livres. Ou isso, ou não seria possível dormir, insônia da multiplicação de vozes, numa Babel de consciências, num teatro da culpa.
Toda a vez em que me encontro num lugar deserto, junto à natureza silvestre, desbando a berrar todos os palavrões e imprecações contra os ídolos da tribo por dois ou três minutos. Um cometa poderia se chocar amanhã e extingüir a humanidade, que ainda restaria o riso sardônico de um niilista morto. E não pretendo que meus demônios encarnem nos porcos, para ficar puro. Quero é multiplicar os diabos, banqueteá-los, atiçá-los cada vez mais terríveis, provocadores e travessos, e então libertá-los pela única razão que o mundo precisa de algazarra infernal. Para acontecer alguma coisa minimamente real que prove a existência do presente.
É muita mediocridade, muita injustiça, muita violência disfarçada de boa consciência, e muita falta de vida vestida de normalidade, ansiosa pela família sonsa de comercial de margarina, pelo narcisismo filial, pela constituição de patrimônio, pelo abuso do regime desigual. Nutro completa repugnância por melodrama, sentimentalismo, melosidades — essas babaquices que paralisam. Recheiam as crianças de imbecilidade até elas ficarem efetivamente imbecis, ou então se revoltarem com caretas para a câmera fotográfica.

Me afugenta qualquer esboço de carta de amor — todas são ridículas irremediavelmente. Um verdadeiro asco por sentimentos oceânicos, comoções rasgadas, dramas íntimos. Casual, frio, incapaz de entender o verdadeiro amor? falso amor! exercício de tirania, vaidade e posse, na exclusividade e expropriação de afetos.
 
“Amor para sempre” é esclerótico, coisifica o desejo e interrompe o tempo vivo em prol de abstrações convenientes e alegrias bovinas. Um relacionamento de comercial de margarina pra mim é uma abominação. Um aborto de felicidade. É uma aberração escatológica. É um estupro de Deus. Não digo que sou imune a ciúmes, como não sou imune à beleza, como não sou imune à riqueza, como não sou imune ao medo. Sou um ser finito e falível! se tento ser mais forte, é porque reconheço a fraqueza que me cerca e tenta me dominar. Me nivelar com essa coisa hedionda, com esse cotidiano vulgar, com esse mundo banal que tenta a toda hora me aniquilar na sua feiúra infecciosa. Irrita-me a felicidade dos vegetais.
Amar é um devorar contínuo dos amanhãs, dos seus e das outras pessoas. Amar é lamber os beiços enquanto se corre de peito aberto em direção ao mundo putrefato. Tenho uma raiva dentro de mim. Sem a grande raiva, não pode haver grande amor.

  • Cria

    Apenas vou comentar com três palavras : INTENSIDADE DE SENTIMENTOS. Muito bom, Bruno !! Um texto visceral. Beijos.

  • Bruna Landim

    Já disse pra você que acho todas as suas produções, desagradáveis. Mas admiro elas, falam a verdade vomitada, simples e dura. Bruno Cava, uma vez me disse que eu não entendia o Artaud, e detestei. Muito. Mas, desagradável como é. Tinha razão. Você é o diabinho em pessoa que ama demais!

  • Dan Jung

    Cara, o seu texto me lembrou "Totem e Tabu" (Freud) e "A Ilha do Dr. Moreau", ao mesmo tempo. O assassinato do Pai. A comilança da carne, o luto e a consequente melancolia. A questão do desejo que só poderá ser instituído a partir da interdição do gozo pleno (após morte do Pai que tudo podia). Adorei! Poderia até servir de resenha para ambos.

  • Pingback: A banda mais Prozac da cidade. | Quadrado dos Loucos - Prosa, crítica, crueldade e desejo.()