maio 2010 15

O indie não quer ser igual a ninguém, só a todos os outros indies. O indie decora nomes de bandas, livros e filmes que os outros indies aprovam. O indie se veste como os outros indies. O indie compra óculos e tênis onde os outros indies compram. O all-star é um signo confiável da indianice, mas os mais indies vão além. O indie odeia rótulos, salvo indie. O indie é gregário e territorial, mas só com outros indies. Além de independente, o indie ambiciona ser visto como descolado, contemporâneo, desprendido, cool, moderno, alternativo e despojado.
O indie se remorde ao ser chamado de posudo, pseudo-intelectual e emo, ou de emo-sem-franja. O indie adora dizer que é só um cara normal. O indie tem perfis quilométricos no orkut e facebook. O indie tem vagas insatisfações existenciais. Aos trinta, o indie passa a ter insatisfações existenciais ainda mais vagas. O indie não acredita em originalidade, mas em undergroundinalidade. O indie não tem depressão, ele é daqueles que acha que está deprimido. Se não é desse tipo, no mínimo ele se diz bipolar. O maior problema do mundo, para o indie, é o tédio. Por isso, o indie é blasé e acha que deve ser agradado pelos outros.
O indie não afirma, ele acha. Foge de polêmicas. O indie é multicultural, mas abomina quem toma partido. O indie só se filia a causas óbvias: paz mundial, liberdade de expressão e sobretudo ecologia. Não tem opinião formada senão nessas causas, quando muito. O indie não faz política, fica indignado. Indiegnado. O indie tem horror a partido político. O indie gosta do Obama, mas não do Lula. O indie acha todos os políticos corruptos.  O indie acha que o pior problema da política é a corrupção.O indie só confessa o voto quando é no Gabeira, na HH, na Marina. O indie acha que todas as religiões têm a mesma mensagem. O indie não discute religião. Mesmo o indie ateu se diz agnóstico, porque é mais indie.
O indie é libertário, mas tem uma vida sexual monótona. O indie quer que o parceiro goze, mas sem baixaria. O indie brocha, mas não toma viagra. O indie não fala palavrão nem na cama. Se fala, pega leve. O indie transa, mas não fode. O indie nunca participou de uma orgia. O indie é cabeça-aberta, mas a sua vaidade não suporta traição. O indie não valoriza a família, mas tem família estruturada. O indie não fuma cigarro. Quando fuma, não traga. Quando traga, não cheira. O indie quer que o traficante seja punido, mas não o usuário. O indie gosta de narguilés. O indie adora festas de apartamento. O indie ama pracinhas onde encontra os outros indies e pode comparar o sapatênis mais modernoso. O indie é sentimental, mas não é emotivo. Ele interioriza e depois escreve no blogue.
Com o indie, nada nunca é pessoal. O indie quer ter um smart car. Se der, um New Beetle. O indie quer passar um tempo na Europa. Geralmente Paris, Barcelona ou Londres, mas os mais indies pretendem ficar num lugar supercool: Montreal, Dublin ou Bratislava. O indie curtia “Legião Urbana” e agora curte “Strokes”, e idolatra “Velvet”, “Radiohead” e “Oasis”. O indie gamou na saga “Crepúsculo”, embora depois tenha achado muito mainstream pra ele. Idem para “Avatar“. O filme-manifesto para o indie é “Os Famosos e os Duendes da Morte“.
O indie se tornou o lado descafeinado, impotente e apolítico de nossa geração.
Não sou indie, eu sou índio!
  • rayssa gon

    ai, tem como ser meio indie??

    pq, tipo, eu tenho tedio e um blog mas eu gosto do lula. então vc acha q eu sou, assim, uns 50% indie?? como fäs/??

  • Bruno Cava

    Salve,
    (risos) eu também sou um pouco indie, acho que toda a nossa geração tem traços. Na verdade, eu não quis descrever um rótulo, mas uma TENDÊNCIA, uma força que move as pessoas, a indianice. Claro que tem os *mais* indies e os *menos* indies e os *totalmente* indies.
    Abraços!

  • Bleffe

    Participe da campanha "Música em troca de Fraldas", que visa ajudar às crianças desabrigadas pelas chuvas no RJ:

    Música em troca de Fraldas

    Dia 23/05 tem Show do #Riounido, que visa ajudar às crianças desabrigadas pelas chuvas no RJ:

    #RioUnido

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