fev 2010 23

Questão das mais enigmáticas: como transpor a distância entre eu e um outro? quais as condições de possibilidade da comunicação? como saltar o abismo existencial?

A solidão deriva do fato incontornável de que a dor é sempre individual. Quem sente dor, não pode a comunicar por inteiro. A dor do parto, a dor da morte,  momentos do nascimento e da finitude, dores que ninguém compartilha. Se as ciências, as artes e todo o engenho humano urdem teias de aranha ao redor do indizível da dor, sempre resta um quê de inexprimível, um quê exclusivo de quem padece.

Não se trata, diretamente, da dor física, emocional, mental, psicológica, moral, da agonia, do êxtase religioso-erótico-químico, mas da dor que lhes precede e se modula nisso tudo: a dor da existência, a dor metafísica.

Dor existencial, impulso imanente do ser, em nós e por nós, pulsação interior que luta para aflorar, e esbraveja para que a natureza inteira ouça: vida

Eis que, apesar de todas as constrições, do ressentimento, da finitude, da tristeza, da doença, da despotência, apesar de tudo, a vida extravasa em todas as direções e o homem vive. Dilacerado, delirante, agonizante, putrefato, desesperado, humilhado, cravejado de chagas, diante da sentença da morte, encarcerado na Sala 101, em transe permanente, — o homem vive. Lutará até o último respiro na sua inabalável convicção instintiva de que deve viver. A dor saúda a vida — quantos não foram os soldados e doentes que, padecendo-lhe, agradeceram por estar vivos?

Dor como outro lado do conatus, o ímpeto de perseverança no mundo, a base de toda a expressão humana. Dor una que é ao mesmo tempo desejo múltiplo, desejos. Dor existencial que se converte em desejos, na alegria e na liberdade. Desejos de expansão, nunca saciados, querendo sempre mais, querendo sempre além da dor, querendo outro, e assim tornar-se o ainda-não-eu, dilatar-se na direção do outro-eu e “eus“.

Intensificar a dor da existência e, banhando-se pelo sentimento trágico da vida, multiplicar-se em tantos personagens quantos desejos. Acolhendo no coração a tragédia, amar o destino, amar a desmedida/hybris, e por assim dizer vencer a morte pela força do renascimento na alteridade.

Nos outros, nossa carne renasce. Pelos outros, pelos amores, somos da morte vencedores. Com os outros, combinamos os desejos e parimos um ser que vive na relação. E assim, é criado o filho híbrido (de hybris), a infância do mundo, o centauro dos desejos, o cordão de carne entre o dizível e o indizível, o corpo coletivo da linguagem e do amor, por fora da solidão.
A desenvolver.
  • Cria

    Sempre bom estar aqui e poder admirar tua expressão, Bruno ! Beijo.

  • André Vaz

    Alô alô, Bruno! Tá sumido, hein?? Ainda na vibe dos concursos?

    Tá excelente o seu quadrado aí, hein? Visita lá o meu, quando tiver tempo: http://www.myspace.com.br/andrevps. Não é tão de louco, mas tá lá, na dele, quietinho. E expressa alguma dor da existência também. Mas tem algo de humano que não expresse?

    Abraços! Fernanda manda um beijo!