set 2009 09

É inverno de meu segundo ano de faculdade. Moro no campus no bloco de apartamentos dos alunos. Tudo fora de lugar, incongruências por todo lado, livros, alfarrábios, bizus e urucubacas. Desenharam espirais em amarelo e preto no teto. Pés-de-feijão prorrompem em cantos inauditos. Um pernilongo sardônico rodopia e rodopia. Um carrinho de supermercado, daqueles mini, em cima do armário; o Mad-Leo que surrupiou numa noite qualquer… ou foi o Richard? Entre papéis e apostilas de álgebra linear, termodinâmica e mecânica celeste, provas antigas, exercícios, lá está!, atirada à própria sorte uma edição de bolso de “Memória da Casa dos Mortos”. Um escalímetro marca a página – porra, cadê meus marcadores?

São dez da noite e estou deitado no tapete surrado de meu quarto de estudante. Engraçado como não tenho tempo pra nada e todos me perturbam, mas ainda assim passo horas olhando para o teto refletindo. Reflexões de resto incipientes. Desassossego básico. No quarto ao lado, assistem à besteira da televisão. Como sempre, me irrito – respiro mais pesadamente e quero estar em outro qualquer lugar. A música do Nirvana que pus no computador vai de 0 a 100 em 5 segundos, os olhos se fecham, Kurt seu animal…

Chove e troveja e os bambuzais se contorcem ante as lufadas inclementes do futuro. Um milhão de anos de hominídeos pra chegarmos ao Homo sapiens sapiens. Cem mil para a idéia da pedra lascada; outros vinte mil para dominar o fogo, dez mil a agricultura, depois o bronze, o ferro, o aço e em menos de mil anos estamos voando, falando com outros continentes, teoria da relatividade, anticoncepcionais, rádio, TV, e então a cara enjoada da Fátima Bernardes em 50 milhões de casas banais.

“…I like it. I’m not gonna crack. 
Quase tudo o que chamam vida real é insônia, porque nos esquecemos do costume de sonhar. Isso virou passatempo. Nem a psicanálise quer mais saber. Freud morreu. As pessoas estão mortas, bocas escancaradas, cheias de formiga, esperando… discutindo à mesa – quando muito – os telejornais, as telenovelas, os últimos lançamentos. Tudo à minha volta é unidimensional e a culpa não é da cultura, dos ideais modernos, da civilização-judaico-cristã. É nossa. É minha e é sua, nós, que esquecemos como fechar os olhos e sonhar. O vento é terrível e me arrasta impuro, levando consigo as ruínas e detritos dessa civilização. Um anjo aturdido, prostrado, de costas para um futuro apocalíptico. Aterroriza-se enquanto a montanha de facilidades e eletrodomésticos e excrementos acumula-se até o céu.

(…)

set 2009 11

É inverno de meu segundo ano do Instituto e eu abro os olhos.

A música se foi e desligaram a TV. Um campus verdejante e espaçoso, quinhentos estudantes, somente dez por cento fêmeas, uma paranóia no ar chamada desligamento, o ar insolente do arrivismo juvenil, corredores apinhados das criaturas as mais exóticas, o país inteiro representado, dos pampas à selva amazônica, a juventude pobre e rica e sobretudo classe-média, a loucura, a bebida, a matemática, as aulas de ResMat, o professor Weis que escreveu “lasciate ogni speranza voi ch´entrate” na entrada da aula, os planos altissonantes (e tolos) — nenhuma porta trancada, uma Comuna, uma comunidade.

Tenho um pouco de dinheiro e uso-o nas noites de quarta, hoje, na modorra de nosso pôquer doméstico. Agredimo-nos com grosserias, destilamos os nossos conhecimentos salgados, nos oprimimos com a nossa inteligência, pavoneamo-nos falando de sexo e filosofias — e eu, volúvel a ponto de sufocar, e depois calmo.

— Caralho, djou (todo mundo é djou), a gente não tem nada a ver com Cães de Aluguel! — diz Samurai.

— Tem sim, pô, aquela cena eles jogando, no começo. Sem falar que nosso papo é tão Tarantino. — defende-se Richard

— Eu sou o Mr. Black! — claro que eu não ia querer ser o Mr. Pink.

— E eu quero ser Tim Roth. John Malkovich o escambau. — prossegue Emilio — mas de boa, o Samurai tem razão, nada a ver com nada. Os caras do filme eram bandidos, de verdade, mafiosos. Isto aqui é jogo de molecada, vocês são tudo moleque, que crimes por acaso você cometeu Richard? A gente nem sabe o que é violência. Violência mesmo, saca? A menina treze anos bota um vestido rosa e vai rodar a bolsinha pra caminhoneiro na BR-116. Quantas cartas? E você, djou? Cães de aluguel, nada a ver. A única máfia pra que estão preparando a gente é a gangue das grandes empresas. Aí sim, concordo. Mas executivo não tem charme vira-lata, nem o olhar docemente assassino do Tim Roth. Aliás ninguém aqui tem charme porra nenhuma. Olha pro Richard, um zé mané metido a grunge: camisa xadrez em cima de camiseta preta do Pearl Jam. Eu e vocês são tudo uns merdas sem estilo. Quem manda fazer engenharia? Faculdade pra quem quer casinha, carrinho e esposinha. Ou então é mongol mesmo. Isso não somos. Ou somos? hahahahaha, vão se fuder.

Emilio, interior do Mato Grosso, blefa bem, lê mentes e ainda por cima rouba. Prestidigitador parece, nunca me contou como faz, e sorri quando é acusado. — Roubo mesmo djou, é imoral não roubar de uns patos que nem vocês. — ele ganha a maioria das noites. E não queremos que ele ganhe. Boa praça e comedor. Tem um mel inexplicável e muitas sucumbem em seu estilo casual… às oito da matina, numa mão um copinho plástico com café e na outra um cigarro, atrasado.

Ao redor dos 20 anos, se bebia muito mas atipicamente maconha não se fumava. Além de pôquer, jogávamos War. Sempre tive por um jogo inferior ao xadrez. Se bem que o xadrez é uma arte milenar e então é evidente que o jogador de War não engraxa as botas do enxadrista. Mas eu jogava War com essa galera porque assim socializava. Meia-noite e estamos de saco cheio dos estudos, dos carreirismos, da instituição implacável, das pás cheias de escuridão atiradas no nada da juventude. E assim no nosso escapismo bebemos e jogamos e vamos aos puteiros. Jogávamos à vera, como se estivesse em jogo o destino da civilização. E de fato estava.

— Meia-noite. Qual vai ser hoje, djou, Scala ou Greenhouse? — pergunto. Greenhouse era o único puteiro minimamente decente e ao mesmo tempo acessível na São José de 1998. Vamos Emilio e eu. Lá tinha a vantagem de um dos donos ser o nosso professor de topografia, logo não tratavam a gente bem só porque éramos assíduos. Sentamos na mesa logo de frente ao queijo e me aconchego na tarefa de ouvinte. Mais uma sessão da imaginação ociosa de Emilio, estragada pelo excesso de matemática.

—Mulheres, ou querem dinheiro, ou querem se casar. No fundo são todas putas. Prefiro lutar com uma virgem, mas elas acabaram na década passada, meu pai quem me disse. As virgens pelo menos me dão um pouco de ilusão de inocência. Meu sonho de consumo sempre foi tirar a calcinha de uma desconhecida pela primeira vez. Depois perde a graça! Porra, djou, Greenhouse tá caído hoje, vamos pro Scala, tem umas putas freak agora, uma anã, já viu? Uma anã. Quero dar palmadas na bunda de uma anã. na vida só quero um dinheirinho, umas viagens e umas putas. Você tem razão, Bruno, é mecânico ficar atrás de putas o tempo todo como a gente faz. Mas só elas me entendem. Eu sou um camponês de merda que só as putas entendem. Garotas de programa, eu sei djou, mas eu chamo putas e pronto. É que não consigo me apaixonar! — no meio das digressões, Emílio me pega pelo braço, mostra uma loira enorme, tipo nórdica, bem acima do peso — Tá vendo aquela bunda? É a minha puta do sul. Santa Catarina, polonesa, se diz colona, sei lá. Ela adora a bunda dela! Fica me pedindo pra vê-la em todos os ângulos e tirar fotos! Não me interesso por ela, mas pela bunda. As outras meninas eu saio mas os programinhas me aborrecem, tudo bem, tem um instante de ilusão, mas que se fodam, uma bunda assim é que é memorável. — E por aí vai, um ramerrão por vinte, trinta minutos. Me limito a assentir com a cabeça e fazer comentários breves. Não ironizo. Não nos levamos muito a sério e essa é a idéia.

Estou no segundo ano e é inverno. Sou um navegador das noites e dos sonhos, sem bússola, um iteano porém livre, e preciso de minha liberdade. Abuso dela para realizar a minha atração pelo subterrâneo, pelas pessoas as mais noctívagas, malditas e mal-faladas. Quero me perder na escuridão, me tornar uma criatura. Quero as mulheres mais sórdidas e promíscuas. A perfeição trágica de Dostoiveski, os filmes pessimistas de Bergman, as espécies que me servem de paradigma feminino: Deneuve, Anna Karina, Uma Thurman. Preciso da noite e de seu poder de negar-se no mesmo ato em que se afirma. Não vivo se não me deixarem meditar para a lua. Sobre minhas decepções, sobre as pedras das ruas, minhas esperanças (sempre vãs), sem companhia, sem conversa de verdade, essa intolerável falta de calor e de amor que aflige as pessoas. O que querem de mim? Afinal?! Os elogios das pessoas me humilham, as suas críticas me entediam; o seu café é frio e sem gosto e me causa asco. O que vocês têm a me oferecer? Eu quero a maldição. Prestaria as minhas contas a Deus, quem sabe, se ele existisse.

(…)

set 2009 13


— Djou, como tu vê o fim do mundo? — disparei-lhe na cara.

— Caralho. Ca-ra-lho! é por isso que eu saio contigo. Quando te conheci, achei que você não passava de um bebê chorão, um subproduto, aliás, olha pra você, cara… Agora, essas paradas escrotas que você levanta, os teus sonhos malucos, a tua falta de noção, isso show de bola — Roxana ao lado da mesa, Emilio passa a mão, ela lhe devolve um sorriso veterano — olha djou, não compro o big crunch, a teoria da matéria escura, supercordas, a teoria da inexorável — delongou-se deliciado na palavra “inexorável” — inexorável reversão da expansão primordial, toda essa parafernália, físicos mirabolantes e suas teorias acrobáticas. O universo teve um começo mas não tem um fim. Por que todas as coisas têm que acabar? Não! vai inchar inchar inchar, até só sobrar frio e desolação, zero Kelvin, party is over baby. Mas vai lá, tu começou esse papo pra mais uma de tuas viagens.

— “O eterno silêncio dos espaços infinitos” não te assusta?

— Tô cagando, couldn´t care less, djou — pega na bunda de Kelinha, que se senta no colo. Emilio já saiu com ela, boa gente, interior de Minas, siliconada, sonha com o Rio de Janeiro e a bebida preferida é uísque “Passaporte: tem um nome tão chique!”. Bebe à nossa custa o “Passaporte”, falamos o usual, logo retomo:

— Na verdade, é outro fim de mundo que eu tô falando. Tipo um asteróide bizarro vai bater na Terra e a humanidade só tem uma semana de vida. Anunciam isso na Globo. E aí?

— Porra, aí ia ser um deus-nos-acuda, as pessoas sairiam de casa se matando, olhos de vingança, se roubando, se saqueando, hahahaha, ia ter estupro pra caralho, imagina, a cidade em chamas, o asfalto derretendo e a gente caindo direto no puteiro do inferno, à sombra do Capeta. Não ia nem precisar do asteróide. — diz Emilio.

— Credo! — diz Kelinha — eu não acho que seria o caos não, pelo contrário, todo mundo ia se abraçar, se beijar, uma alegria só, os filhos perdoando os pais, as mães perdoando as filhas, inimigo fazendo as pazes com inimigo, as pessoas transando nas praças, os presos soltos, iria ser uma semana de Natal. Amor!

— Kelinha, cê tomou bala? — pergunta Emilio, com cara de sério, e continua: — Dá pra notar sim garota, você tá pegajosa, olha aí, passando a mão no meu pau, que bagaceira… — pronto, quando usava a palavra “bagaceira”, e a usava arregalando os olhos, não largava mais dela, era “bagaceira isto”, “bagaceira aquilo”, “maior bagaceira”, “bagaceira da porra”, cinqüenta vezes “bagaceira”. Pra Tim Roth, ele fala demais.

— Gente, é o Jack! — grito-lhe assim que entra no prostíbulo.

Jack Dawson, apelido do colega da mesma turma. Autobatizou-se assim em homenagem ao Leonardo Dicaprio de “Titanic”, de quem esperançosamente buscava haurir a personalidade melodramática. Claro que não tinha nada a ver fisicamente com o ator. Nem posudo nem loiro nem passava perto de um jeitão galã. Em verdade, nele até se verificavam traços do charme de um Bogart — mas duvido que as mulheres notassem, de tão tênues. Seu teatro de operações eram os chats, onde virava o romântico Dawson. Um caçador internáutico, incansável. Persistia três, quatro, seis horas em papos essencialmente vazios explorando a carência crônica que assola os seres da sociedade contemporânea. Adulava as vítimas à exaustão, ouvia seus problemas mais tolos e insossos, beijava-lhes os pés, prometia-lhes um cruzeiro transatlântico pelos oceanos do romantismo barato, embalado e distribuído pela televisão. Jack Dawson, personagem que, para ele, sintetizava o problema central de sua vida e das novelas: amar e ser amado — quero dizer, amar belas mulheres e principalmente ser amado por pelo menos uma. A enganação se dá nos dois sentidos. Pois se ele não era Leonardo, elas também não confirmavam, quando do fatídico encontro real, aquelas fotos selecionadas a dedo e editadas digitalmente, que ele recebia em 150 kilobytes. A invariável distância ontológica entre a efígie e a pessoa concreta, entre a máscara e a bunda. Algumas dez anos mais. Outras dez quilos, o que é pior. Nada incontornável, afinal, só vai apresentar-nos as apresentáveis.

Senta-se com a gente. Jack porta-se no Greenhouse exatamente como atua nos chats. Demonstra interesse e compaixão pela conversa das meninas: por serem profissionais, merecem o dobro de sua melodramática performance. Jack entra na sala, Jack sorri para Norma, Jack puxa conversa com Norma, Jack oferece uma bebida para Norma… Norma?! que nome de guerra de merda aliás. É engraçado como os dois insistem no impossível: Emilio em que Kelinha pague-lhe um boquete embaixo da mesa e Jack em beijar na boca de Norma.

Qual delas, qual das santas, vai apoderar-se de mim e devolver o meu coração, amanhã, tão leve como uma pluma? Anuncio que só me apetecem as que já trabalharam na mesma noite, sob a usual admoestação de Jack:

— Djou, deixa de ser sem-noção, garota de programa é que nem quarto de hotel, que nem copo de boteco, você tem que sentir que ninguém usou antes, que está limpo e desinfetado. Eu só pego o primeiro corte da picanha. Imagine se você sentir o bafo de camisinha?

— Isso só realça a santidade. Quanto mais impura, melhor. — devolvo de prima.

— Sem-noção. — os dois ao mesmo tempo.

— Vejam que vocês são religiosos, quiçá católicos não-praticantes. Os pais os levaram na puberdade aos prostíbulos e adquiriram o hábito. Religião praticada de modo autêntico, sem questionar. Ou melhor, sem a necessidade do questionamento. Vocês vivem e isso lhes basta. Mas eu não. Nasci imperfeito e deslocado. Por isso me tornei um teólogo materialista e como tal questiono, mas minhas questões são inautênticas, porque já não tenho fé. Não é que eu não acredite porque questiono. É que, por não acreditar, eu questiono. Quero ver o avesso do hábito, o outro lado das coisas. E então o que me resta no final? a clara noite do nada. — mas não lhes respondi nada disso, somente sorri resignado e tomei outro gole do uísque nacional, sem gelo, queimando o esôfago.

“(…)Come dowsed in mud,
Soaked in bleach
As I want you to be
As a trend, as a friend,
As an old memory, memory
(“Come as you are”, NIRVANA)

A fumaça jaz espessa, luzes neon rasgam a perspectiva, movimentos incertos de um tempo descentrado, as dançarinas nuas refogem, suas curvas sinuosas e carnes abundantes perdem os contornos, as formas humanas se esvaem no pó assistemático da matéria, apenas o velho viveiro do Greenhouse assoma no fundo do salão. Nele, aves escuras, irrequietas, destrambelhadas, quase cegas, perdendo as penas, doentes. Sabe-se-lá como eram criadas na lugubricidade à revelia da sociedade protetora. O maior pássaro, o mais negro, conjura-me a atenção por absoluto. Harpia que voa de um lado para o outro, espaventando as irmãs menores, as bruxas hamletianas de Circe, fazendo ranger a enorme gaiola, como rangem as entranhas do céu diante do espetáculo da beleza. Emilio e Jack esfalfam-se com as suas ninfas modernas, religiosamente entorpecidos em busca de uma salvação que lhes parece de direito. As aves do viveiro são as mesmas daquela estrada deserta, pontilhada de cruzes, árvores esfomeadas, céu horrivelmente escuro. A estrada termina na caverna das sensações infinitamente amargas, guardada por sentinelas de chumbo de uma civilização perdida, a gruta do mistério irresolúvel em que nos embrenhamos, do indecifrável que está entre o céu e a terra, dando-nos nada e exigindo-nos tudo. Dezenove anos e já havia aprendido a duras penas a viver na dimensão paralela do tempo, tempo onde os céus, almas e mares desabrocham em palavras, onde um povo de fetos e embriões traduz-se em versos. Tempo mítico, em que tudo são forças inconscientes e nuvens de antimatéria, quando tudo acontece no mesmo instante. Meu intelecto, como um dínamo de pensamentos convulsionados, está a ponto de explodir.

Assaltado pela náusea da intranqüilidade, corro ao banheiro. Branco, limpo, cálido, confortador, de tal maneira que nele poderia deixar-me sepultar. Incongruente a ponto de sufocar, e então calmo… O som é de Rachmaninoff, o segundo concerto para piano, se não me engano. Ao espelho, uma morena, botinhas, vestida em preto e branco, lenço caprichosamente disposto no pescoço, cabelos inteligentemente presos. Percebe a minha entrada:

— Como vai querer hoje, meu anjo?

— Sem carinho, sem afagos, sem falação, sem nenhum tipo de romantismo. Eu quero do modo mais seco e profissional possível.

— É você quem está pagando, meu anjo…

— E não sou seu anjo. Meu nome é Bruno.

Mas o banheiro não é do Greenhouse.

(…)

set 2009 15

Tatiana. Os amigos a chamavam de “Tati”. Eu de “Ana”. Sempre a vi como “Ana” e pra mim sempre será “Ana”. Um rosto suave, por volta dos vinte anos, um pouco lactoso, sombrancelhas pretas e retilíneas, olhar vivo e muito sério, mas comigo, talvez só comigo (ambição desmedida), assumia feições marotas. Tatiana, essa mulher, justo ela, recordação que insiste em continuar agredindo-me, persiste em desorientar o meu sistema. Um sentimento vago de mal-estar, genérico desconforto, paulatinamente condensado numa dor mais pontiaguda na boca do estômago.

Por óbvio agora não poderia estar no toilete do Greenhouse, retocando o visual. Mesmo porque só iria conhecê-la três anos mais tarde, no meu último da faculdade. Olhava em torno desnorteado, sem entender, não só como ela poderia estar ali, tão jovial, mas também como era espaçoso aquele banheiro. Um palácio. As mãos em concha, soprei-as, de uísque o hálito, e definitivamente uísque barato. Decidi voltar imediatamente ao puteiro, mas ela cortou-me um segundo antes:

— Ah, você… — virando-se pra mim — anjo de Rembrandt, loirinho, bochechas escarlates, burguesinho macilento. Você e a sua fixação para ser indecente, imoral, para ser mau. Fervilha de maldade, carrega uma raiva intransitiva, apronta as suas, mas no final só consegue assustar passarinhos. — disse Ana, numa crueldade apaixonante que me conquistara. Assim, forçava-me a depor escudo e cimitarra, incapaz de reagir à altura, surpreendido dentro de minha própria fortaleza por ardis os mais desonestos: jogar-me contra mim mesmo em minha própria mente. Ah, mulher! quando a mulher exerce um certo grau de poder sobre um homem, tudo está perdido. Não tardará para a sua bandeira ser arriada, cuspida e incinerada, as suas igrejas profanadas, os seus ídolos saqueados e vendidos a preço de alface. Somente o seu sofrimento poderá provar-lhe que a ama, e como conseqüência lógica, por meio de uma miríade de mecanismos sutis de dominação, ela controlará tudo, as dobras do seu ser, controlará até a sua respiração. Respira, respira, agora prende!, preeende até ficar roxo, isso, isso, mais, mais, mais!, mais!!, agora pode respirar, respira vai, eu deixo, isso, respiraaa… te amo querido.

Despenteou-me todo, rindo. Nem me tentei conter e parti pra agarrá-la. Envolvê-la como um polvo, os braços, mas também as pernas, o peito, a barriga, a bunda, o pescoço, a virilha, os calcanhares, as axilas e a parte detrás dos joelhos, de uma vez só. Toda! Esguia, resvalou-se felinamente pra fora do abraço que nela se fechava com dezesseis membros. Fugiu. Ainda pude, num reflexo de domador de cobras, segurá-la pelo antebraço, num aperto forte em que a pressão de meus dedos avermelhou a sua pele, machucando-a. A meio metro de distância, olhamo-nos afinal nos olhos.

— Perversa. — sussurro gracejando.

Foi então que ela irrompeu em um sorriso eufórico, culminando no beijo estalado no ar, disparado em minha direção, feixe de elétrons excitados na mistura de nitrogênio, oxigênio e gás carbônico. Na velocidade do som, o rio metafísico atravessa o espaço entre nós dois e me golpeia no lábio inferior. Atordôo-me, deixo-a ir, e chego mesmo a deslocar uns poucos centímetros para trás. Quando respiro de novo e o ambiente volta a existir, mal consigo delinear a mão de Ana, já do lado de fora, fechando a porta. Escapou-me de novo, a bandida.

— Cacete, como preciso mijar! — e deixo-me esvair no mictório de um banheiro bem menor do que há trinta segundos. Algum bêbado, que poderia ser amante de Bukowski e se não é deveria ser, pichou em letras vermelhas na parede:

Quando tudo se resume a isso“.

Atravesso a porta para retornar ao Greenhouse, mas a música que toca é outra. Ouvíamos Rachmaninoff nas nossas reuniões no Círculo. Era como chamávamos, no segundo ano, o nosso círculo literário. Reuníamos uma vez por semana num casebre simpático no centro de São José. Durou dois anos e meio e não sei como conseguimos mantê-lo por tanto tempo, dadas as circunstâncias. No fundo, era no centro da cidade e não era. Porque logo ali, ao lado, começava um famoso acidente geográfico, um ponto turístico, que era a ampla depressão, cem metros mais baixo do nível da rua. O vale do Rio Paraíba. Uma década depois, a área findaria ocupada pela favelização. Contudo, à época, ainda era verde, bucólico, silvestre. O tal “Banhado”. Nossas reuniões ocorriam nessa casa, na fronteira entre a zona urbana e o Banhado.

O lugar era um clube de RPG. Nos anos 90, os RPGs online ainda não tinham sobrepujado por completo os jogos ao vivo, com pessoas em carne-e-osso, mestre dos jogos e bem mais vivacidade. Na casa, de dia funcionava uma loja oferecendo desde o clássico Dungeons and Dragons ao mais góticoVampire, passando pelo sistemático GURPS, o tosco Tagmar e o supostamente escabroso Chamado de Ktultu. Vendia também mapas, fantasias, acessórios e dados, nos cinco formatos repetindo os cinco poliedros de Platão, os únicos com ângulos regulares e congruentes: D4 (tetraedro), D6 (cubo), D8 (octaedro), D12 (dodecaedro) e D20 (icosaedro). Este último sem dúvida o mais mágico de todos, cujas propriedades divinatórias remontam à escola dos pitagóricos, mas também com aplicação no origami místico e na umbanda.

Nas noites de sexta e sábado, parte dos clientes jogava RPG na própria casa. Havia diversos grupos formados, dependendo da preferência por vampiros, elfos, fighters, paladinos, anões guerreiros ou ciberpunks. No cômputo global, um pessoal boa gente, com idéias incomuns, ethos diferenciado. Afinal, tudo o que se afasta da mesmice dominante incentivemos. Notei desde cedo um componente de marginalidade nos RPGs, uma resistência misturando surrealismo e contracultura. Um dos jogadores uma vez me contou que morrera uma menina jogando Vampire em Minas Gerais. Tanto melhor! é mais disso o que a nossa sociedade precisa. Bons os tempos em que você podia furar o olho brincando de varetas ou engolir a bolinha de gude e asfixiar.

De qualquer forma, durante a semana, funcionavam outras atividades na casa além do RPG. Bizarrices, claro. Tinham os espíritas que vinham pra se comunicar com os mortos, nas sessões das quintas. Os esperantistas apareciam nas terças, a fim de atualizar-se sobre os progressos da língua universal, uma espécie de maçonaria lingüística. Na quarta, o espaço alugava-se à dinâmica dos portadores da síndrome de Klinefelter, mas essa só durava uma hora e meia, e então era sucedida pela reunião semanal da 7ª Zonal do Partido Comunista Operário. É que a 7ª Zonal do PCO votou unanimamente (três a zero), pela inconveniência de reunir-se no mesmo dia de esperantistas ou cardecistas, pois os julgavam alienados. Na verdade, não eram eles quem os avaliavam assim, mas a diretiva (secreta) emanada do Comitê Central. O fato de uma das filiadas deter a anomalia descrita por Harry Klinefelter foi o argumento decisivo para a vitória da quarta-feira. As noites de sextas e sábados eram exclusivas dos RPGs, ocasionalmente no formato live action, que é como chama o RPG jogado fora da mesa, ao ar livre, em que você empresta o seu corpo ao personagem, mas tem dificuldade em jogar os dados, especialmente em jogar o D20, a menos que os mestres sejam precavidos e carreguem cartolinas bem duras, em formato de bandeja, para viabilizar os combates. No domingo, depois das 21:00 a casa virava um clube de swingue. Finalmente, na segunda, éramos nós, o círculo literário.

(…)

set 2009 18


— Grande Richard, cedo hoje! Fala Suga. — disse eu, que costumava chegar antes deles, pois vinha direto da aula de espanhol a alguns quarteirões. Fico surpreso ao ver não só Richard, mas também Suga, um e outro jogando tênis de mesa nos fundos do clube. Lá fora, o trânsito entope a cidade, enquanto o crepúsculo se anuncia sobre o vale e tudo queda de um vermelho de vinho tinto.

— Faaaala, djou, belezinha? tá inscrito no pingue-pongue?

— Claro, próximo! — sento-me ao lado da mesa. Suga, da escola coreana, dominava o jogo. Era da equipe da faculdade, colecionava raquetes, encomendava as bolinhas da Coréia e sabia que a bolinha laranja dá um efeito diferente da bolinha vermelha (diferença essa que jamais entendi). Era tão superior a nós que se distraía, às vezes eu tinha a impressão que ele nem estava olhando a bola, que enquanto jogava resolvia na cabeça os complexos exercícios de Mat-36: as transformadas de Fourier, a fórmula de Euler e a sua aplicação no cálculo integral de linha e de volume. Defensivo à náusea, Suga dificilmente desferia cortadas, a menos que você desse muito mole, levantando pra ele. Não era um tigre. No máximo, arriscava algumas bolas de efeito, mas fora isso ficava apenas devolvendo pro outro lado da rede e te ganhava no cansaço, porque uma hora você errava. Suga era descendente de japonês, não lembro a geração, e se irritou muito o dia em que o classifiquei como um panda do pingue-pongue. Panda é bicho chinês e come bambus e isso ele não aceitava. Franzia a testa também, disfarçadamente, quando chamávamos o Samurai de Samurai, porque o Samurai era cantonês e samurai só no Japão, né.

Eu apreciava o jeito do Richard jogar. Desde a primeira bola um porradão atrás do outro. O forte dele eram as bolas de fundo que ele atingia quando já na descendente, abaixo do nível da mesa. Se fosse jogador de xadrez, ele decerto seria adepto do Gambito do Rei. Uma torsão de pulso de Richard, zás, um míssil rente à rede, que Suga, com olhar esnobe, devolve paciente. Com a calma de quem sabe que, na próxima, o outro erra.

— Vocês sabiam que, nas universidades nos Estados Unidos, quem gritar shotgun primeiro tem o direito de sentar do lado do motorista? É, no banco da frente. — disse Richard, errando precisamente naquela que era a próxima bola.

— Foi num filme B ou então no Jerry Lewis — brinquei, anotando mentalmente que Richard sempre começava os assuntos com “vocês sabiam que”.

— É sério, é cultural. Comprei o livro: The Official Shotgun Rules, que discute em pormenores as regras de procedimento do shotgun. — disse Richard.

— Pô djou, e se eu quiser sentar atrás? tipo, ao lado da mina que eu tô a fim de comer? — ponderou com sagacidade Suga, que marcara outro ponto de saque.

— Não tem problema. Quando clama shotgun, recebe o direito de escolher onde sentar. Se não falar nada, presume banco da frente, que todos acham o lugar mais nobre. É ou não é? Não, óbvio que não vale querer ser o motorista. A posição de motorista é imune ao shotgun. A polêmica maior não é essa, mas sim quando, a partir de que instante você já pode alegar o shotgun. Exemplo: estamos comendo no Habib´s e vinte minutos antes de sairmos, me adianto e grito shotgun, pra sentar na frente do fusca do Emilio. Isso vale? O que acham? Errado! não vale! o mandamento determina que as palavras mágicas só têm eficácia se forem invocadas depois da hora D… D de Decisão claro. É aquele momento em que todos se decidiram, sem margem à dúvida, a realizar um certo objetivo, ir pra um certo lugar específico. Além disso, somente abre a janela pra falar shotgun quando a turma sai pra rua, vai pra fora do prédio ou do local em que estiver. Tem mais. Se você disser shotgun e voltar pra lugar coberto, aí tem que falar de novo quando sair, porque a re-entrada remove a eficácia das palavras e outro pode roubar o direito do shotgun.

— E se a garotada estiver ao ar livre, digamos jogando bola? — fingindo-me interessado.

Vinte e um. Tchau djou. — substituo-o à mesa, como próxima vítima de Suga.

— Nesse caso a regra que vale é a da visão do carro. Só pode falar shotgun quando o veículo surgir no campo de visão. Avistou o carro, shotgun, você senta na frente. E se tiver mais de um carro? Mole, você especifica em qual carro vai sentar. Shotgun Emilio ou shotgun MadLeo. Tem uma outra regra que diz até que se você já segurou na maçaneta da porta com um lugar claramente em vista, ou ainda se já está em processo de sentar-se, nesses casos, shotgun não vale mais. Ou seja, o assento é de quem tomou providências concretas para ocupá-lo efetivamente.

— E se duas pessoas falarem shotgun ao mesmo tempo? — pergunto, novamente com insofismável desprezo pelo assunto, não reparado por eles.

— Boa tentativa, Bruno, nesse caso, a regra manda resolver no jan-ken-po. — disse Richard.

— Jó-quem-pô, escrito com hífens, a Marta iria nos corrigir agora. Ou seria joquempô, escrito tudo junto? — disse eu, veramente em dúvida.

— Tudo junto e “jô” e não “jó” — Suga assumindo ar de autoridade, por ser o único de origem oriental — ou então “Jóquei, pô!” (ninguém riu). A forma certa de jogar joquempô: os jogadores alinham-se com a direção de Hiroshima, dão meia-volta, fazem um pas de deux e então pá!, abrem as mãos ao mesmo tempo. Vocês sabiam que existe jogador profissional de janken-pon? Você lê o adversário e antecipa os movimentos, que nem pôquer… ou xadrez. — provocando-me.

— Gostei do pas de deux. — disse eu e, assumindo ar professoral, continuei: — Mas eu, ocluso na barbárie ocidental, achava que a idéia do joquempô era justamente você agitar a mão três vezes, jó quem e no a sua jogada. O problema intrínseco do joquempô reside na possibilidade de um empate ad infinitum. Que não se dá no xadrez, jogo muito mais pensado. No xadrez, o empate é anunciado quando há repetição da configuração das peças sobre o tabuleiro. Vale explicar. Quando a mesma posição, a mesma “fotografia” do tabuleiro repete-se três vezes. Não necessariamente em três jogadas consecutivas de ambos os lados. Com freqüência, o tabuleiro com a configuração X acontece na jogada 40, e depois na 44 e a terceira vez na 45, e aí é empate assim que alguém pedir. Sim, tem que pedir, e quem está inferior no jogo acaba pedindo. Tablas como se diz no jargão enxadrístico. Tablas igual empate. Que enxadrista não conhece o famoso empate entre Fischer e Petrosian, na terceira partida do match de 1971? No joquempô, não rola, mesmo que os lances se repitam, o jogo prossegue. Se, por qualquer improbabilidade astronômica, uma conjunção de quasares, um entrechoque de galáxias de nêutrons, e essas coisas acontecem, se os dois põem papel, e então pedra, e então tesoura, e não importa como os dois vão colocando a mesma figura, vão empatando, isso pode acontecer ao infinito. E mais. Outro sério entrave na sua história, djou, dá-se com a possibilidade de serem três, ou até mesmo, quatro as pessoas gritando shotgun simultaneamente. Aliás, a Marta, assim que chegar aqui, exigirá que falemos “espingarda”. Deveras ridículo, imaginem, nós saindo do Habib´s e aí: espingarda! Não só não deixaríamos sentar na frente, como, assim que chegasse no H-8 (o bloco de apartamentos dos alunos), iríamos arremessar o maluco no Feijão (a piscina do campus, batizada por assumir o formato da semente). É capaz de o Emilio nem querer mais levar o cara, se ele gritar “espingarda” pra ganhar uma vaguinha privilegiada no fusca. De qualquer forma, “Pedra Papel e Tesoura” daria um bom nome pra livro.

— Se forem mais de duas pessoas ao mesmo tempo, decide a coisa pela boa e velha adedanha. É básico. Isso não está no meu manual, mas é regra costumeira, certo?Common law! É adedanha ou adedonha? Adedonha. Agora, esse argumento do empate cósmico não cola. Muito fraquinho djou. Outra coisa que não pode é violar a regra do S-O. — Richard pagando mistério.

— S-O?! — Suga e eu curiosos, mas sem distrair num ponto disputado com tanto interesse. Eu resolvera ficar também no chove-não-molha, só restituindo despretensiosamente a bola na mesa, pra ver até que ponto Suga ia agüentar o jogo de comadres sem me atacar. Contudo, depois de dúzias e dúzias de pingues e pongues, comecei a sentir-me igual daquela vez há muitos anos. Quando fizera o exercício bastante asinino de encarar o meu cachorro, uma bobagem!, pra testar quem desviaria o olhar primeiro. Eu ou o cão. Meu cão era teimoso. Fiquei ali por quarenta minutos, em laboriosa concentração — porque de fato é uma tarefa dificílima fixar o olhar ao mesmo ponto por tanto tempo. E o bicho não se mexia. Fitava-me, fitava-me, fitava-me, até que de repente, pasmem, torceu devagarzinho a cabeça, até quase os 90 graus, até ela ficar de lado. Manifestou a canina perplexidade diante de minha estupidez. Eclodi imediatamente em enigmáticas lágrimas, e depois veio o riso libertador. Nesse momento pude ver, meio de soslaio, para não encarar o algoz, ver o cão, aquela criatura miserável, vê-lo sorrindo triunfante. Era melhor do que eu afinal, devia pensar mas… onde está a novidade? Bola na rede, merda, Suga levanta a sombrancelha e agora eu o vejo caninamente cruel, aquele mesmo olhar petulante de indiferença. Guardei essa imagem com tanta nitidez mental que sou capaz de vê-lo agora, enquanto escrevo, perfeitamente, como se na minha frente estivesse.

— SO de Special Other. Se o motorista tem namorada ou se a mãe dele está junto. Ou se é o dono do carro que por uma razão qualquer não está dirigindo. Etcétera. O shotgun no caso só vai valer pros outros lugares. Na realidade você pode falar shotgun depois de alguém ter falado, porque ficam em disputa os demais assentos do carro. Eu por exemplo não gosto de sentar no meio, prefiro a janela.

— Li um estudo estatístico — disse Suga — provando que o lugar mais perigoso é atrás e no meio. É onde você tem mais chance de morrer em um acidente, porque sai voando pelo vidro frontal. O lugar mais safo é exatamente atrás do motorista. O segundo melhor: atrás e do lado do carona. O carona, na frente, também se fode… Ah sim, se tiver air bag o assento da frente ao lado do motorista fica melhor do que os assentos detrás. Mas caralho djou, vocês estudam cálculo. Com as mesmas condições de contorno, tirando o air bag, o mais seguro é sentar atrás do motorista. É que quando vai bater, ele tenta safar primeiro a si mesmo. Isso inconscientemente. Se vai bater, foda-se o lado direito, onde ele não está.

— A menos que seja carro australiano naturalmente. — completou Richard aparentemente a sério, e continuou: — Eu ainda prefiro sentar na frente, porque terei mais condições de me preparar para o choque. — disse um pouco injuriado. — E digo mais, meu pai vai me dar um carro, e no meu carro eu vou admitir as regras do shotgun. Logo, Bruno, você que gosta de sentar à frente, é bom ir lendo o meu livrinho. Tem até uma seção que explica como ser um mestre de shotgun, as estratégias para cada ocasião, pra virar um shotgunman.

— Não lerei e de toda sorte isso é americanizado demais até pra mim. “Espingarda!” bem apropriado no Tio Sam. Não sei porque mas não me soa estranha a idéia de um ianque tresloucado, invariavelmente branco, olhos chamejando de um fogo selvagem, ostentando uma doze de cano cromado pra fora da janela, atrás de um índio ou de um negro, dando sopa pro azar. Deve ter um sentido literal no Texas, onde inventaram esse ritual, terra dos bravos e sociopatas. O presidente Bush, riding shotgun over the nation’s economy, com a guerra do Kuwait (em 1991). O americano que além de americano ainda é nacionalista nunca vai aprender a sambar, porque a arma de fogo constitui extensão do próprio pau. — eu provocando Richard, de pai gringo.

— Vinte e um a seis, djou. Tchau pra você e suas frases de efeito. — disse Suga.

Durei menos na mesa do que Richard, que prosseguiu:

— Eu sei como surgiu mas não vou contar, dever de casa pro sabe-tudo, só dou a dica que foi na arrancada pro Oeste, no século XIX. O shotgun vem de tradições dos primeiros migrantes pra Califórnia, os settlers. A gente manter um círculo literário pra discutir shotgun é tão Tarantino. — concluiu a preleção Richard.

— Se bem que o meu último comentário foi à Michael Moore. A propósito, morreu o papo, a Marta chegou. — apontando pra ela, a única mulher de nós quatro, o núcleo-duro do Círculo, entrando no salão.

(…)

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