jan 2010 15

Classificação.

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Doravante, nas suas críticas de cinema, teatro, livros, discos ou o que quer que seja, o blogue adota o sistema de classificação por quadrados. De um (“Abominável”) até cinco (“Obra Magna”):
jun 2010 29

Dunguismo.

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Nada tem de novo a afirmação que se pode explicar a sociedade através mundo do futebol. Confluência universal de paixões e interesses, o futebol mobiliza personagens os mais diversos, expondo a intimidade entre cultura, política, mídia e comportamento. Além dos muitos livros, na academia são freqüentes artigos e dissertações a respeito. Apropriada, nessa perspectiva, a Copa do Mundo para compreender o nosso tempo.
Dunga teve a audácia de bater de frente com os interesses da Rede Globo, em geral casados com os da cartolagem da CBF. O capitão de 1994 pôs fim ao “jornalista embutido” na Seleção. Nas copas anteriores, quem não se lembra da prima donna do Jornal Nacional, “incorporada” ao dia-a-dia dos jogadores? Entrevistava, brincava, fazia refeições com eles. A TV Globo o tempo todo entremeava a programação com as intervenções de Fátima Bernardes, em estratégia para auferir audiência ($$$) entre os jogos. Ela chegava até a ir junto de ônibus e avião com o time brasileiro. 
Nesta Copa, contudo, a representante da Globo foi barrada às portas da concentração. O técnico rebelde não só vetou o oba-oba jornalístico com os seus comandados, como também desobedeceu ordens expressas do todo-poderoso Ricardo Teixeira. Este havia acertado a “exclusividade” da emissora no contato com os jogadores, num usual acordão por baixo dos panos. Dunga ignorou os bastidores e obstinou-se: enquanto houver Copa, quem manda é ele e só ele. Doa a quem doer. Ou então que o demitam. Zangado com a insistência dos jornalistas, na coletiva obrigatória depois da partida tensa com a Costa do Marfim, o ex-volante desabafou gauchescamente pra cima de um repórter “global”: “besta, burro, cagão”. E também mandou às favas o assessor de imprensa da delegação, que tentava intermediar os interesses da Globo/CBF junto ao técnico.
Na mesma noite, os cabeças das Organizações Globo acionaram o seu imenso oligopólio internacional, — construído sobre privilégios e favores estatais desde a ditadura, — para tentar torrar o treinador turrão. A reação “global” apareceu em programas de televisão e de rádio, nos sites da emissora e nos seus diversos jornais impressos. Dunga mereceria uma punição exemplar pelas palavras de baixo calão “diante da família brasileira”. Curioso como a emissora que tanto se proclama verde-e-amarela, bobamente ufanista, terminaria por prejudicar o time. 
Na verdade, nada de novo no horizonte. A Rede Globo responde à ameaça de seus monopólios, privilégios e “direitos exclusivos” com a tática-padrão: linchamento midiático. Um apedrejamento de todas as direções… que desta vez não funcionou! porque a torcida ficou do lado de Dunga. E a internet articulou a resistência. Defensores do técnico organizaram correntes de mails e tweets, conclamando a não comprar os argumentos enviesados da Globo. Sustentavam que, se o Brasil perdesse a Copa, boa parte da culpa seria da Rede Globo, cujos repórteres queriam aparecer mais que os jogadores e perturbavam um técnico já sob duríssima pressão. Outros veículos, como UOL e Folha de São Paulo, aproveitaram para malhar o concorrente, revelando os reais motivos da indignação “global”. Surgiu, enfim, a campanha “Um dia sem Globo”. Em protesto, incentivava o torcedor brasileiro a assistir ao jogo com Portugal pela TV Bandeirantes.
Embora mal-sucedidos em abaixar efetivamente a audiência da Globo, os protestos acuaram os donos da emissora e eventualmente fizeram com que ela recuasse no ataque a Dunga. No dia seguinte, a linha editorial abrandara bastante. Evitava tocar no assunto tão candente da véspera. Jornalistas ressentidos com a nova posição editorial chegaram a comparar Dunga com Lula: ambos os personagens “de origem humilde e sem educação” [pobres ignorantes], mas que detinham respaldo no “povão” [massa ignorante].
Há um fundo de razão nesses comentários, mas só na medida em que a reação estridente a Dunga fracassou tão amargamente para a grande imprensa quanto o linchamento moral sobre o presidente Lula, em 2005. Nas duas ocasiões, tentaram um golpe branco contra personalidades contrárias a seus interesses e privilégios mais arraigados, falharam em ganhar a “opinião pública” [no fim das contas, eles mesmos, os jornalistas] e terminaram por culpar a “ignorância popular” por esse fracasso [o Brasil não tem jeito, mesmo…]. Quem dobrou a grande imprensa, nos dois casos, não foi Lula ou Dunga, mas a audiência: a multidão potencializada pelas redes que não (mais) sucumbe acriticamente à desinformação sistemática da emissora.
À parte do jeito irascível e da lógica do inimigo, Dunga fez um dos comentários mais lúcidos e profundos de todo o imbróglio. Perguntado porque impedia o contato com a mídia, ele disse que os jogadores estavam concentrados para trabalhar diretamente com o futebol. O trato constante com jornalistas resultaria num trabalho extra que ele não poderia dar ao luxo de despender. Com menor razão, um relacionamento com jornalistas “embutidos”, que seria transformar integralmente o tempo do jogador em trabalho.
De fato, hoje o capitalismo inclui o tempo livre nos circuitos de produção e consumo. Não há vida privada, comunicação social ou lazer que não seja imediatamente de interesse do capitalismo. Todo o tempo vivo pode ser aproveitado e mensurado economicamente, o que fica claro nos programas televisivos de “realidade”, na telefonia celular, nas redes sociais, na produção just-in-time etc. E esse trabalho por fora do emprego formal serve ao funcionamento do capitalismo ao mesmo tempo em que não é remunerado por ele. É considerado falaciosamente “externalidade“. Apesar de, no nosso tempo, não existir mais um “fora” do espaço capitalista (tudo é passível de valor e consumo), tenta-se iludir a gente que o tempo fora do emprego deveria ser grátis. Que seria tempo de “não-trabalho” — ao que se contrapôs Dunga.
Daí os grandes veículos quererem entrevistar e capturar a vida privada/tempo livre dos jogadores, sem no entanto remunerá-los por isso. Como se fosse uma “externalidade”: o jogador ganha pra jogar bola e não pra “aparecer”. Ora, nada mais distante do capitalismo pós-industrial. Nele, o valor concentra-se mais na fração imaterial do que material, mais no processo comunicacional ao redor, do que no produto em si.
Mirem-se nos grandes ídolos, como Cristiano Ronaldo, Kaká ou Messi. O valor deles, o passe multiplica-se mais pelo valor agregado pela imagem e estilo/arte, do que pela efetiva contribuição para vitórias. Não que seja pouco o futebol jogado (pois é muito!), mas os valores se tornam astronômicos, — digamos vinte ou cinqüenta vezes mais do que um outro jogador só um pouco menos talentoso, — graças ao capital imaterial ao redor do craque.
Portanto, quando Dunga defende que os jogadores não devem trabalhar “grátis” para a grande imprensa, como se fosse um dever, ele está se contrapondo à lógica do capitalismo contemporâneo. O dunguismo trava o rendimento principal do capital hoje: investir a vida no processo produtivo, para obter mais-valia, ao mesmo tempo em que não proporciona renda. Como se fosse um “direito” seu explorar o tempo livre/vida privada dos trabalhadores e não um direito dos trabalhadores auferir renda com a sua vida produtiva.
O técnico brasileiro disse (xingou) um não ao capitalismo, provocou um curto-circuito da grande imprensa e, contra os prognósticos, obteve o apoio entusiasmado da multidão. Como não há mais o lado de fora do capitalismo, ele luta de dentro e, por mais que venha a ser derrubado no final da Copa, abre novos horizontes para a insurgência na Seleção. Politicamente hábil, Dunga é mais um vetor da resistência dos muitos contra a expropriação sistemática da vida pelo capitalismo.

jul 2010 02

Admito: apesar de assistir a futebol rara e desinteressadamente, gosto da comoção da Copa do Mundo, quando tem jogo do “Brasil”. De um certo modo, a euforia mitiga a vulgaridade cotidiana. E sempre vale a redução/cancelamento de expediente.
Além disso, essa Copa servia direitinho para vôos interpretativos. Vejam-se o ensaio sobre o dunguismo de resistência, neste blogue, e as análises políticas da eliminação precoce da equipe francesa, na Revista Multitudes (em francês).
Se a semifinal tivesse três ou todas as seleções sul-americanas, talvez alguém escrevesse a respeito do devir-Sul do mundo, de como isso também é reflexo de uma nova realidade socioeconômica. Seria um pouco leviano (provocativo?), porque o resultado das partidas depende de (N + 1) variáveis, as mais obtusas e insondáveis.
Escrever sobre futebol deve ser um tipo de ocultismo, tamanha a imprevisibilidade. Nesta Copa, sondei blogues para achar o mais rigoroso e científico. Mesmo as estatísticas e desenhos do Paulo Vinícius Coelho, o PVC, me pareceram, no final, chutes e opiniões duvidosas, só um pouco mais embasados.
Talvez o mais sensato seja escrever crônicas sem ambições, sem tentar compreender em detalhes esse jogo enigmático e nada matemático. Como fazem o Tostão e, um pouco menos literário, o Juca Kfouri. Embora o último seja mais politizado, quanto à falcatrua da CBF e aos monopólios da Rede Globo.
O jogo de hoje: “Brasil” jogou melhor 45 minutos e entregou nos outros 45. Poxa, partida de futebol tem noventa e poucos minutos e só um dos times jogou os 100% do tempo. Não teve nada de injusto a vitória da “Holanda”, como escreveu o Kfouri. Poderia ter metido 3, 4 ou 5, uma goleada histórica. É na adversidade que você mede um grupo e, nela, o time expôs a sua fraqueza. Bastou um momento de dificuldade e pronto, o sertão virou mar e o mar virou sertão. A tão falada fortaleza da defesa brasileira se mostrou um castelo de cartas, desmoronado no primeiro sopro.

Todo o trabalho de Dunga só serviu pra ganhar de três times inexpressivos, empatar com um mediano e perder na hora do vamos-ver. Faltou líder (nem Lúcio apareceu), os jogadores incorporaram os xiliques do técnico, e Felipe Melo deveria ser eleito o melhor jogador da partida… o melhor holandês. E o Cruyff tinha razão: o jogo não valia um ingresso de 500 euros.

A arte do futebol é a única graça que existe e pode existir nesse esporte. Futebol de resultados me parece papo de empresa. Com os os respectivos funcionários-modelo, galgando carreiras e posições individuais. E onde está a arte? na economia de movimentos, na coordenação entre os jogadores, no virtuosismo do craque, no domínio do espaço e do tempo. Qualidades que fazem o futebol bonito e, por isso mesmo, produzem resultados.

Por um lado, é bom o fim do fanatismo bobo, do ufanismo sazonal, da idolatria de milionários famosos. Nada é tão patético quanto a expressão “sonho do hexa”. Mas, por outro, termina também a agitação, e terça-feira terei de acordar cedo. Que perdesse na semifinal, né?
Por inércia, acompanharei as próximas partidas, mas ainda de mais longe, torcendo pelos países do MercoSul.
No mais, às eleições!

ago 2010 28

Dilma Pop Art.

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 Fonte: Diário Gauche.

set 2010 03

Paula Cava e Bruno Cava, 1984