nov 2009 21

Está sozinho numa cabine do vagão de primeira classe e resolve fumar um charuto.

Uma manhã esplêndida, olimpicamente ensolarada; uma manhã combinando com o seu humor radiante. Aos cinqüenta anos, semblante tranqüilo e orgulhoso, um espírito cheio de si; vestido com elegância porém sem exageros, óculos Ray-Ban, sapatos incisivamente masculinos e recém engraxados, estilo próximo dos melhores dias de Richard Gere, barba grisalha minuciosamente aparada e ao mesmo tempo sutilmente malcriada. Hoje ele se considera um homem enfim pleno, sente-se no ápice da existência, na idade em que a acumulação de experiências e realizações lhe permite fazer tudo o que sempre quis, aliando o tempo livre, a abundância financeira e a sabedoria de quem sabe o que deseja. Permite-se um sorriso a sós, com gosto, que transborda em autoconfiança. Conclui que é o momento ideal para o Montecristo que há dias vem guardando no bolso interno do blazer, então retira-o e corta a ponta do charuto com a guilhotina, estala o seu Zippo dos Beatles e acende-o, enquanto o trem singra veloz as intermináveis pradarias amareladas. Uma baforada intensa, curtida, enquanto abre a janelinha, e sons metálicos e aéreos, ferroviários, invadem o ambiente. Um conceito de felicidade.

Eis que, nesse momento, a porta da cabine corre para que duas damas adentrem e se acomodem nas poltronas à frente de nosso cavalheiro. Imediatamente defronte, instala-se uma madame opulenta, em vestido azul-escuro, de veludo, chapéu emplumado, bolsa evidentemente cara e de marca, que ela conduz com solenidade. Sobre o colo carrega um pequeno chiuaua, malhadinho, laço vermelho cuidadosamente ao redor do pescoço, olhar ingênuo e frágil, inteiramente dominado pelas mãos finas da empoada senhora, mãos que somente relaxam depois de sentar-se, dando alguma liberdade ao cãozinho. As rugas do pescoço dela não enganam que já atingiu os cinqüenta, embora a maquiagem e a sofisticação, conjugadas com bem-sucedidas plásticas faciais e produtos de rejuvenescimento, de fato conferem-na um ar de balzaquiana, ao redor dos quarenta, e há-de nela se confessar alguma beleza e altivez. Ao lado dela, senta-se uma dama mais jovem, talvez aos trinta, magra, em vestido marrom escuro já desbotando, pele demasiado branca e macilenta, lábios e olhos inexpressivos, um nariz feiamente aquilino, ossos pontiagudos nas maçãs do rosto e clavículas, um físico desinteressante e tedioso. Cruza as pernas e deixa antever tornozelos muito finos, acima de sapatinhos lilás de menina. As duas visivelmente chegam juntas, mas não trocam uma palavra entre si.

Sentam-se e o nosso herói, impassível, restringe-se a oferecer-lhes o mesmo sorriso de antes: dentes tratados, clareados e alinhados expressando um misto de felicidade e soberba, uma alegria tão exuberante que, para alguns, beiraria a ofensa. Resolvido o problema da instalação, sem dizer nada, nem mesmo um cumprimento protocolar, as duas rapidamente reparam na janela semi-aberta e, na inevitável seqüência, no abominável charuto fumegante nas mãos do senhor de óculos escuros. Inaceitável, pensam. A mais nova olha enviesado, demonstra contrariedade, mas não tem coragem de ir mais adiante, dar o próximo passo, e resolve perder-se em reflexões, sem participar de qualquer cena. A madame, mais orgulhosa, fulmina-o com o olhar o mais furiosamente reprobatório que encontra em seu arsenal. Não perde tempo algum e logo passa, com a plenitude de sua força expressiva, a reprová-lo, ainda sem dizer uma palavra, porque não julga que o vizinho mereça.

O homem obviamente percebe a atmosfera hostil, mas mantém o sorriso intacto, enquanto dá uma nova baforada, longa e prazerosa, de pronto sugada pela janela aberta. Agora a madame está verdadeiramente aviltada e esbugalha os olhos o mais que consegue, numa expressão que calaria a mais atrevida criança e o mais destemperado marido. Seu estado conturbado faz-se perceber quando uma veia azulada, entre a sombrancelha e o olho esquerdo, salta da pele, denotando um batimento cardíaco que se acelera na medida em que o homem, disposto com o maior conforto, não faz qualquer menção de mudar o comportamento.

Muito ao contrário, o experimentado fumante apimenta sutilmente o seu sorriso, de simplesmente orgulhoso para um sorriso ladino, uma feição que, agravada pelos Ray-ban, se aproxima indelicadamente do deboche — fato confirmado pela terceira baforada, agora já, ainda que de modo oblíquo, na direção das novas colegas de vagão. O espanto da senhora é absoluto, e o seu cenho franze, formando pregas profundas num rosto até então rigorosamente esticado por plásticas do passado, ao mesmo tempo em que uma tremedeira quase imperceptível chega às mãos e aos braços, e seu olhar transparece um estado tumultuoso e irascível. O homem na verdade parece até encará-la, como se desdenhasse de suas preocupações e de seu olhar atroz.

Uma mulher de fibra e corajosa, e ainda elegante, porque, em sua fúria, nada lhe disse e nem apontou para o aviso de não fumar, mas de repente fica estática, como uma cobra prestes a atacar, então de supetão agarra o charuto, dando um bote ágil com apenas dois dedos, um golpe de todo surpreendente, para puxar o charuto ainda na boca do homem e atirá-lo, com calculada dramaticidade, pela janela. Esta dramaticidade ela obteve graças à energia do movimento, pois, logo após se livrar do charuto, esticou os dedos ao máximo — mais ou menos como fazemos quando tentamos secar as mãos depois de lavá-las, porque não há toalha. Escancara os dedos da mão e deixa-a vazia pendente no ar, sem desviar o olhar direto para o cavalheiro, um olhar implacável. Agora deixa extravasar um ar de vitória, com efeito alguns diriam triunfante, na medida em que um sorriso esboça-se no canto da boca e os olhos brilham de sadismo. A moça ao lado, nervosa, não pôde reagir senão apertando as mãos suadas, mas no rosto antevê-se, ainda informe, uma expressão de satisfação e apoio. A cena toda parece durar muito tempo na psicologia dos três personagens, mas no tempo dos relógios tudo transcorre em questão de poucos segundos.

O homem não modifica a expressão jovial e desdenhosa em momento algum, nem mesmo quando o charuto lhe foi arrancado da boca, na verdade, nesse instante ele acentua a expressão, convertendo instantaneamente a surpresa numa doçura extrema e quiçá estranha e, sem pestanejar, em ato contínuo, movendo-se com gentileza e segurança, avança sobre a madame para repetir exatamente o mesmo gesto, um gesto perfeitamente reflexo, só que, agora, o objeto em questão é o chiuaua. Pega-o gentilmente com dois dedos pela nuca e arremessa-o pela janela da mesma maneira, inclusive com o mesmo arremate dos dedos escancarados, da mão bem aberta. Faz tão rápido e inesperadamente que a madame não tem qualquer defesa. Um décimo de segundo antes de desaparecer, o pequeno animal, percebendo o infame destino, emite um derradeiro ganido, e então voa pela janela do trem a 100 km/h.

Escândalo e comoção. As duas, estupefatas e histéricas, levantam-se e, em total atabalhoamento, abrem a porta, gritam esganiçadamente para todas as direções, parem o trem!, parem o trem!, um acidente!, meu Bebê! meu Bebê!, pelamordedeus!…

Como uma raposa, o homem agarra a pasta e decola de seu lugar, contorna o frenesi de passageiros que começam a apinhar no corredor da primeira classe, e dispara em direção aos vagões da segunda, de onde iria saltar, minutos mais tarde, com discrição, assim que o trem parasse para recolher os restos mutilados de Meu Bebê.

Enquanto os trilhos ficam pra trás, fora do campo de visão, ele apalpa o blazer para certificar-se de que o seu segundo Montecristo ainda está ali, guardadinho. Agora ele sorri com a certeza: esse terá um sabor ainda mais especial.

(Adaptação livre de história contada por personagem do romance “O Idiota” – F. Dostoievski)

maio 2010 08

Meu nome é Heitor e a história que começo a contar é totalmente verdadeira. Com isso, não quero dizer que ela seja baseada em fatos verídicos, mas que aconteceu tal e qual eu vou narrar. E, se o leitor desconfiar, como tem todo o direito de fazê-lo, me procure em privado. Farei questão de indicar testemunhas, mostrar documentos, cruzar informações, a fim de demonstrar, tintim por tintim, o que irei descrever.
Eu tenho 21 anos e moro numa república de estudantes no interior de São Paulo. É uma universidade pública. Faço faculdade de física, com ênfase em cosmologia. As minhas pretensões profissionais são bem modestas: quero compreender o funcionamento do universo.
Nasci com um comichão terrível chamado dúvida. Duvido de tudo. Quanto mais aceita uma verdade, maior o ponto de interrogação que coloco nela, para irritação de familiares, amigos e especialmente meus professores da escola. Eu não faço isso por birra, para ser do-contra, nada disso. É que, diante da enormidade que é o mundo, me ocorre uma curiosidade louca. Uma vontade de entender, uma insatisfação crônica com o que me oferecem. Pra o leitor ter idéia de minha determinação interrogativa, quando tinha três anos, emburrado com a explicação que haviam me despejado sobre o que era morrer, mergulhei na piscina do colégio, prendi a respiração por quase cinco minutos e por sorte não morri afogado. Me salvaram.
Doravante meus pais me colocaram em psicólogo. O mais correto é dizer psicológos, no plural. Porque foram muitos ao longo da infância. Era um saco, os amigos jogando bola na rua e eu lá. Mas não me revoltei. Resolvi explorar o que eles tinham pra falar, se eles podiam trazer explicações. Foi com eles que eu aprendi que a psicologia não pode ser uma ciência séria. Porque um após o outro, não foram capazes de responder às minhas questões, sequer enfrentá-las. Davam evasivas, punham-se na defensiva dizendo que era eu quem levantava mecanismos de defesa. Aspas nisso. Tentavam achar em mim alguma doença, e a sua autoridade advinha dos diplomas bregamente presos na parede. Mas eu os deixava malucos, bombardeava-os com questões de que nada sabiam. Solícito, dava corda só para, mais a frente, disparar questionamentos. Um jogo de gato-e-rato que durou até os onze anos, quando resolvi fingir estar curado para me liberarem. Eu já tinha descoberto, nessa altura, como a mentira era fundamental pra nossa sociedade.
O leitor pode achar que eu vou sentar a lenha nas religiões, que vou tachá-las de superstição, descartá-las no conjunto etc. Na realidade, a minha curiosidade compulsiva jamais me permitiu contornar o sobrenatural, o esotérico, a crença no além-mundo. É o contrário. Desde criancinha, interessei-me sistematicamente pelos que se dispusessem a me oferecer os porquês. Trato-os com respeito. Prefiro um fanático a um agnóstico. Os crentes tendem a ser pessoas apaixonadas, ainda que demasiado, e dão uma agitada na vida. 
Lembro-me claramente a primeira vez em que ouvira falar de Deus. Foi da boca de um colega, aos seis anos,  no pátio da escola. Ele me alertou que se fugíssemos da aula, papai-do-céu iria ver. Peguei-o pela gola e inquiri quem era papai-do-céu. Logo ficaria sabendo que, aparentemente, era uma crença coletiva  numa espécie de supercriatura onisciente e onipotente, que deveríamos respeitar.  Fiquei fascinado. Foi assim que, aos sete, me tornei um aluno aplicado no catecismo, tanto quanto nas aulas de ciências no ensino fundamental. Eu era tão dedicado que ganhara a simpatia do padre Jeremias, um jovem inteligente, simpático, de olhar doce. Meus pais acharam estranho, pois não eram católicos praticantes, mas encorajaram pois ainda tinham na mente o episódio da piscina e aquilo tudo poderia, de alguma forma inescrutável para mim, ajudar-me. Me dediquei com afinco no catecismo e logo me tornei o melhor aluno. O padre notou-me e, no segundo semestre, percebeu que as escrituras, sozinhas, não seriam suficientes pra um menino irrequieto como eu. Então ele me mostrou São Agostinho, São Tomás, Loyola, Padre Vieira (o mais agudo deles), que eu me pus a estudar com método.
Aos treze anos, eu já era uma fera escolástica, capaz de ganhar na argumentação de qualquer um de meus mestres escolares. Eu era terrível. Embora não fosse dos primeiros da turma, porque me aborreciam estudos sobre outros assuntos, eu era o mais articulado. A retórica era tão afiada e ardilosa que, noutros tempos, me acusariam de jesuitismo. Também nessa época me tornei monitor do catecismo. Eu era o braço-direito do padre Jeremias, para inveja de outros rapazes. Mas fiquei chocado o dia em que ele me sugeriu a carreira eclesiástica. Desconversei. 
Apesar de fazer tudo direitinho, o caso é que eu nunca acreditei de verdade em nenhum dos dogmas do catolicismo. Eu estava ali mais atrás de alguma resposta do que de fé. Tinha especial descrença nas forçações de barra: expulsão do paraíso, imaculada concepção, ressurreição, mistério da trindade. Tampouco fui convencido da existência de milagres. Veja bem, não é que eu mentisse todos os dias sobre a minha falta de fé, eu simplesmente cumpria a liturgia, evitava perguntas íntimas e ninguém desconfiava. Não acho que fosse muito diferente de várias pessoas do metiê.
Até que fui expulso. Numa certa aula, um aluno contestador, que estava ali de má vontade, forçado pela mãe beata, provocou o padre com o argumento da existência do mal. Em síntese: se há guerras, epidemias, catástrofes, o Holocausto; se até as criancinhas sofrem, como pode existir Deus e não fazer nada? Logo, não há Deus, estamos por conta própria em um universo ateu, cruel e injusto, ele finalizou com um olhar demoníaco. O padre me passou a palavra, com um sorriso condescendente. Esperava que eu argumentasse com base na divina providência.
Mas a essa altura eu desenvolvera uma explicação bem mais elegante. Além disso, tinha concluído que chegara a hora de sair daquilo tudo e investir o tempo em outras pesquisas. E eu queria sair com classe.
Respondi-lhe professoralmente que a objeção só faria sentido se partisse da premissa de um Deus Bom. Se existe o mal no mundo, nada impede que exista um Deus, mas um Deus Mau. Ou seja, a situação descrita somente descartaria a existência de um Deus Bom. Perguntado então como isso se conciliaria com a Bíblia, se era a comprovação da existência do Diabo, respondi que de modo algum, que o Demônio era uma hipótese desnecessária. Ora, existe algum Deus mais malévolo do que o Deus do Velho Testamento? sanguinário, orgulhoso, vingativo, infanticida, homicida, urbanocida, genocida, preconceituoso, megalomaníaco, genioso, sádico, aterrorizador… um autêntico delinqüente psicótico. Não tem aquela frase de Chaplin: quem mata um é assassino, quem mata muitos é herói? então, e quem mata todos é Deus. Quod erat demonstrandum, concluí, para estarrecimento geral (que durou vinte segundos).
O pároco me puxou pelas orelhas, colocou-me numa salinha e, com uma severidade medieval que eu nunca vira antes (e que nunca esquecerei), me inquiriu implacavelmente sem nenhum resquício da doçura de outrora. Em questão de minutos, descobriu a verdade. Ficou decepcionadíssimo, não foi compreensivo, não me perdôou e nunca mais me dirigiria o olhar. 
Com mais tempo livre, resolvi então concentrar as minhas energias na ciência contemporânea e seus porquês. E o leitor não se apresse em antecipar o curso dos acontecimentos, porque pode se surpreender.

(…)

maio 2010 09

continuação da parte 1.

No primeiro ano da faculdade, aconteceu um dos episódios mais estranhos que pude, em certa medida, participar. Nessa época, eu vivia na moradia estudantil subsidiada pela universidade. Eram dois blocos de apartamentos, todos térreos, situados numa área isolada do campus, que por sua vez já ficava fora da cidade interiorana. Cercado de bosques e laguinhos, distante dos prédios das faculdades, na madrugada o conjunto ganhava uma atmosfera sombria, entre um silêncio sinistro e barulhos noturnos. Ali eu morei nos quatro anos de minha graduação em física, em apartamentos com três ou quatro colegas, num ambiente tipicamente universitário.
Essa história que presenciei começou quando o prefeito do campus resolveu moralizar a moradia estudantil. Ele achava que faltava supervisão, pois até então quem administrava com plenos poderes era o diretório central de estudantes. Claro que era uma zona. Havia moradores clandestinos, animais de estimação, festas desvairadas, consumo de produtos proibidos. Particularmente regular era a reunião nevoenta da “esquadrilha da fumaça” no telhado. Comportado, o máximo que eu abusei da liberdade foram alguns retoques decorativos em meu quarto, tais como pintar espirais amarelas e pretas no teto e estender pés-de-feijão pelos corredores. Afinal, nós estudávamos a teoria das supercordas.
De qualquer forma, no meu primeiro ano, foi aprovada pelo conselho a colocação de vigias na portaria de cada bloco — para o “nosso próprio bem”, justificativa padrão de medidas do gênero. Um porteiro para cada bloco. A sua função era simplesmente observar e, havendo confusões, relatar à administração. Mas eles não deveriam intervir em nada. É claro que, rapidamente, os alunos passaram a encher os vigias de propinas. Principalmente lanches e bebidas, mas rolou o boato que tentaram até passar-lhes drogas, e também que uma aluna do segundo período teria dado pra um deles, a fim de contornar um certo flagrante (uma orgia lésbica, dizem).
Um dia, ficamos sabendo que o vigia do bloco 1 havia se demitido irretratavelmente. Ele não queria mais saber do campus e inclusive passou procuração pra um primo acertar as contas. Estava assustadíssimo com algum fato ocorrido ali, embora fosse um noderstino desses rijos e valentes. Não demorou mais do que algumas horas para a explicação correr. No nosso happy hour diário, já circulava a “versão oficial”, que eu, curioso patológico, ouvi com imensurável interesse.
Todas as noites, ao chegar, um aluno cuprimentava o vigia calorosamente: dava o “Boa Noite” e abria um sorriso doce, antes de ir para o quarto. Com o passar dos dias, desenvolveu-se a simpatia que a regularidade do hábito produz entre as pessoas. Porque todos os dias o estudante chegava exatamente no mesmo horário, à 1:22 da madrugada. Talvez a distração não permitira que o vigilante percebesse que, além da coincidência temporal, o rapaz vestia a mesma roupa. Talvez a distração fosse desculpável, pois eram roupas pouco distintivas: calças e jaqueta jeans, camisa pólo e tênis velho.
Aparentemente, o funcionário tampouco reparou que ele nunca chegava de carro (não havia barulho) ou acompanhado, e que parecia irromper das folhagens escuras diretamente para os prédios.
Tudo isso não me soou inverossímil, como poderia o leitor protestar. Afinal, no dia-a-dia, não esperamos nos deparar com eventos bizarros e por isso, por costume, acabamos deixando de somar A com B, ligar as pontas e tirar conclusões que a posteriori parecerão evidentes. Com efeito, há fatos que tomados isoladamente podem ser facilmente classificados como coincidência ou acaso, porém, no conjunto, na sua sucessiva reincidência, ganham uma dimensão sinistra e chamam a nossa atenção.
De modo que o vigia, todos os dias, respondia o “boa noite” e devolvia o sorriso, um pouco surpreso por ser notado por pelo menos uma parte do corpo estudantil. Pois sempre há aqueles idiotas para quem faxineiras e vigias tornam-se invisíveis ao colocar o uniforme. O desprezo, evidentemente, é recíproco.
Até que, passadas as primeiras semanas da atuação dos porteiros, a prefeitura do campus resolveu acirrar o controle. “Apertar um pouco mais a tampa”, nas palavras do prefeito. Cada vigia receberia um álbum com as fotografias de todos os moradores cadastrados e respectivos apartamentos. Não era pra o porteiro ficar interpelando cada um que chegasse, mas apenas dar um conferida, ir conhecendo um a um, aos pouquinhos. E ao perceber irregularidade, deveria denunciar à prefeitura para as providências julgadas cabíveis. Tal postura de não-confrontamento fora uma sacada da administração. De jeito nenhum, o prefeito quereria um entrevero entre vigias e alunos, porque certamente iria municiar o diretório central nos seus argumentos contra as medidas de segurança.
O vigia do bloco 1 ficou surpreso, na primeira noite com o álbum, em não encontrar o simpático aluno que diariamente chegava depois da uma da madrugada. “Justo ele?”, pensou. No segundo dia, resolveu segui-lo, para descobrir em qual apartamento ele estava dormindo clandestinamente. Aguardou até o horário usual e, às 1:22 pontualmente, “Boa Noite”, disse o penetra, sorriu e adentrou o bloco. Do saguão, o porteiro observou muito cuidadosamente o corredor branco, só expondo metade do rosto. E viu, com certeza, quando o rapaz abriu a porta do apê 114 e entrou. No dia seguinte, o segurança do bloco 1 estacionou numa dúvida nervosa. Tinha sido ensinado desde a mais longínqua infância a não delatar e, embora fosse exatamente essa a sua presente função, aquele aluno ele tinha por seu “conhecido”. Então decidiu avisá-lo pessoalmente, na noite seguinte, deixando para último recurso o papel de dedo-duro.
Novamente, à 1:22, “Boa Noite”, e o rapaz novamente se dirigiu ao 114. O porteiro seguiu-o à distância prudente, esperou ele entrar, certificando-se em definitivo do número do quarto, e imediatamente a seguir bateu na porta. Toc toc toc, teve de repetir três vezes, até que um outro aluno, muito sonado, sem camisa, e de evidente mau humor, atendeu, destrancou e abriu a porta.
— Sim… o que é?
— Boa noite, me desculpa, mas eu quero falar com o menino que entrou aí… — disse o porteiro educadamente, lembrando-se das orientações do prefeito.
— Quem?!
— O rapaz que entrou aí agorinha.
O morador olhou desconfiado, sem entender.
— Olha, eu quero ajudar… vocês sabem que não pode… eu vi ele entrando aí… por favor… — tentou o porteiro.
— Meu, tu tá viajando. Só tem eu aqui no apê, o resto viajou.
Ante a convicção inabalável do porteiro, o morador achou estranho e, talvez num sentimento de inquietude, talvez para desencargo de consciência, resolveu deixar o porteiro entrar. Juntos, rapidamente cobriram os três cômodos da pequena república de estudantes, onde moravam três alunos da química.
Naquela madrugada, o vigia ficou bastante irritado e se sentiu enganado. Elucubrou que o invasor devia ter saído pela janela dos fundos, que dava para a quadra de futsal. Em conseqüência, decidiu relatar tudo na manhã seguinte.
Ao ser recebido pelo prefeito, relatou detalhadamente todo o ocorrido, desta vez sem qualquer hesitação quanto à questão ética da delação. Terminada a história, o prefeito, funcionário das antigas da universidade, assumiu uma expressão grave. Tenso, teve de acender um cigarro, desrespeitando os avisos. Passado meio minuto de mistério, perguntou:
— E como era esse sujeito, me descreva.
O porteiro descreveu, e ressaltou inclusive a regularidade do horário de chegada, todos os dias perto da 1:20 (como se verificou mais tarde, exatamente à 1:22).
Foi então que o prefeito, agora bem agitado, abriu uma gaveta erma e puxou uma fotografia.
— É este aqui, por acaso?
O vigia quase pulou da cadeira. Exaltou-se:
— Ele mesmo! doutor, ele já arranjou problemas por aqui antes né? vamos pegá-lo!
Mas o prefeito não compartilhou da alegria, que logo se revelaria passageira. De cabeça baixa, revelou então a verdade escabrosa. Essa era a foto de um aluno antigo, da década de 70, da universidade. Ele estava morto. Teve um acidente fatal na rodovia quando voltava da festa de um sítio. Pelo que se constatou à época, ele parou o carro no meio da pista, para evitar o choque com uma vaca, mas o motorista da carreta, atrás, estava dormindo. O carro foi despedaçado e ele teve morte instantânea. Caixão fechado, cortejo de estudantes, uma verdadeira tragédia.
Quando terminou de narrar, o porteiro estava tão lívido que até os lábios tinham esbranquiçado. Muito supersticioso, se benzeu várias vezes, balbuciou meia-dúzia de “virges marias” e começou a gaguejar. Porém as palavras não saíam. Um pouco tonto, esbarrando na mobília, o porteiro deixou a sala sem se despedir, e foi a última vez que esteve no campus. Um primo seu mais tarde é quem viria acertar as contas.
É claro que a história correu como um antílope. A secretária ouvira tudo, que contou para a outra secretária, que contou para o pessoal da biblioteca, que contou para alguns freqüentadores mais sociáveis, que contou no bandejão, e aí em questão de minutos (repito: minutos), todas as faculdades já sabiam. No happy hour, à noite, a história ganhou os contornos que eu expus acima, inclusive nos detalhes sobre a reação do porteiro.
Independente disso, quero sublinhar ao leitor que foi assim mesmo que aconteceu. Que essa primeira “versão oficial” foi como tudo efetivamente ocorreu. Nos dias seguintes ao happy hour, fiz uma investigação particular criteriosa. Conversei pessoalmente com o prefeito, com o aluno morador do 114, com os porteiros dos outros turnos, e troquei e-mails com alunos antigos, da época do acidente. Até mesmo chequei a fotografia. Tudo isso, concluí, era realmente a história tal e qual se deu. Portanto, o leitor, por favor, não encare os eventos como “meramente baseados em fatos verídicos”, mas como 100% verídicos. E, se ainda houver dúvidas, como já frisei no início, é caso de procurar-me para eu apresentar, com o maior prazer, todo o conjunto de evidências.
Por óbvio que, nos dias seguintes, houve um frisson generalizado no campus, em especial na moradia estudantil. É o tipo de acontecimento que, se de um lado amedronta, de outro produz uma euforia coletiva capaz de arrancar-nos da vulgaridade cotidiana. O caso inflou rapidamente em boatos os mais diversos. De cara, batizaram o espírito de “Boa Noite”. Nem se deram o trabalho de usar o nome real, virou “Boa Noite”. O Boa Noite então passou a ser avistado por todo lado. Ele só aparecia para pessoas sozinhas e, uma vez revelado, lhe dava, com um sorriso (agora) demoníaco, o seu bordão: “boa noite!”.
Viram o “Boa Noite” tomando banho no laguinho, escondido nas árvores, pairando na janela do quarto (uma dúzia de vezes), nos corredores, no cineclube, em espelhos, em sonhos e até em telas de computador. Uma menina chegou a dizer que viu o “Boa Noite” espiando ela tomar banho e uma outra afirmou categoricamente que ele é chegado num baseado. Criaram um fã-clube “Amigos do Boa Noite”, com direito a página na Internet, o que terminou por rivalizar com um outro grupo, mais informal, dos “Caçadores do Boa-Noite”, cujo objetivo era fotografar e divulgar a aparição paranormal. Tinham também os céticos que não acreditavam, em princípio, em tudo isso, embora alguns deles não deixassem de sentir um “medinho” peculiar, quando sozinhos na madrugada (mesmo que realçassem de si para si que se tratava de uma reação psicológica plenamente justificável).
Pra mim, era um prato cheio. Queria de alguma forma explorar até o fim essa história singular. Jamais eu estivera no olho do furacão de um evento sobrenatural. Sou o tipo de pessoa que, obstinado pela busca dos porquês, não fugiria de espectros, fantasmas, criaturas, alienígenas ou do diabo em pessoa. Muito ao contrário, custasse o que custasse, eu sairia ao encalço, observaria atentamente, tentaria interagir.
Foi assim que, quando soube que os espíritas estavam se mobilizando para lidar com o Boa Noite, resolvi participar da empreitada. Primeiro, entretanto, tinha que conseguir algum acesso ao círculo. Os cardecistas tendem a ser mais discretos e têm a qualidade ímpar de não tentar evangelizar a todo custo. Suas sessões não acontecem a portas abertas nem com alto-falantes e showmícios. São nisso bem diferentes de alguns grupos religiosos, que, num proselitismo desenfreado, só não nos sequestram para assistir aos cultos porque é ilegal.
Minha primeira atitude foi comprar o livro do Allan Kardec.

(continua…)

maio 2010 18

continuação da Parte 1 e Parte 2.
É evidente que não iriam me deixar ingressar no discreto círculo de espiritismo, sem antes cumprir algum dever de casa, sem que se convencessem de meu interesse genuíno. Em questão de um dia, fiz uma leitura dinâmica do “O Livro dos Espíritos“, o primeiro da série de cinco que compõem o cânone de Allan Kardec. Embora seja um leitor faminto, não tinha conseguido ler tudo, mas ao menos já percebera as linhas gerais da doutrina: existe um Deus acima do bem e do mal; existem dois mundos, o material e o espiritual; é possível comunicar-se entre um mundo e o outro; cada ser humano tem um espírito imortal; esse espírito reencarna; é possível que o espírito se descole do ser humano vivo em certas condições (durante o sono, em experiências de quase-morte); da mesma forma é possível um espírito interferir no mundo material; alguns espíritos arvoram-se de “missões” no mundo real — e o volume inclui ainda um ensaio (curioso) sobre a metempsicose, ou seja, a transmigração de almas, e muitos capítulos sobre moral, alegrias e tristezas. Escrito com ares de ciência e racionalismo, bem no clima positivista de sua época, o livro inicialmente me pareceu pretensioso demais. Comparei com meus estudos da bíblia católica que, muito embora tenha sido abundante e sistematicamente falsificada pela igreja, numa mescla de fábulas e preceitos convenientes, pelo menos diz-se que foi escrita por dezenas de indivíduos que se achavam iluminados pelo divino. Este primeiro livro de organização do espiritismo, por outro lado, fora escrito de ponta a ponta, tentando falar de tudo, por um único ser iluminado.
Nesse primeiro contato, eu não cessava de me perguntar o porquê de os espíritas, quando vivos, ocuparem-se tanto com os mortos e, uma vez mortos, preocuparem-se tanto com os vivos. Será que, assente a existência do além, do mundo espiritual, não seria mais sábio, quando vivos deixar os mortos em paz, e quando mortos, os vivos? me parecia lógico, porém reprimi essa curiosidade incipiente porque, o leitor há-de concordar, se eu começasse com questionamentos assim, certamente não me deixariam assistir ao show.
Pus o “Livro dos Espíritos” debaixo do braço, mas também “O Evangelho segundo o Espiritismo” (que sequer abrira), e fui falar com o líder de fato dos espíritas da faculdade.
Chamavam-no Zazá e era um cara sinistro. Seu nome na verdade era Zoltan Zakowics e a família descendia do Leste Europeu. Só podia. Olhar escavado, sério a pesar em qualquer ambiente, Zazá era um branquelo, longilíneo e demasiado magro. Não tinha postura. Seu olhar irradiava um mistério mórbido, que me lembrava filmes em preto-e-branco de Dreyer. Que ele tinha poderes, eu já sabia independente de qualquer mambojambo esotérico. Lembro-me uma vez, numa boate, sabe-se-lá o porquê, quando um marmanjo mais forte encasquetou com o Zazá. Todos acharam que ele iria amarelar ou então apanhar. Mas Zazá, sem hesitar, dirigiu-se ao provocador, pôs as duas mãos para trás, aproximou-se até quase encostar nele e, com olhar magnético, disse: “Me bate”. E então repetiu suavemente, sem desafio: “Me bate… me bate…. me bate.” O outro em princípio ficou confuso, olhou para os cupinchas e riu, mas logo se percebeu nele um tremor nervoso, e então, subitamente, como uma criança desamparada, passou a choramingar. Saiu chorando do lugar, acalentado pelos amigos. O Zazá, impassível, sem nunca se gabar ou sequer comentar o episódio, retornou ao lugar em que estava como se nada tivesse acontecido. Uma demonstração que, a mim, impressionou bastante.
Assim que puxei assunto com Zazá, no bandejão (ele também era remediado), me cravou os olhos de vampiro. Gelei, mas usei de todas as minhas artimanhas por assim dizer jesuíticas para não transparecer. O líder espírita mudou de assunto, comeu pelas beiradas. Só à noitinha, quando nos encontramos no happy hour, resolveu sabatinar-me. O que era natural. Achei que o fez de modo afável, não inquisitorial, bem diferente do que vivenciara com o padre Jeremias, anos antes. Fui o mais sincero que pude, sem comprometer os meus desejos. Disse que não era desse tipo de cético dogmático, que toda forma de manifestação paranormal me causava enorme curiosidade, que estava preparado para acreditar se pudesse ver com os próprios olhos e tirar as próprias conclusões. Acrescentei ainda marotamente que o espiritismo poderia ter um embasamento consistente, do ponto de vista científico. Arrematei com comentários específicos sobre o primeiro livro de Kardec (que bem ou mal fizera primeira leitura) e genéricos, quiçá vagos, sobre os demais. Zazá podia estar armado de forças paranormais, mas eu não era nenhum bobo. Acho que no final ele concluiu que eu era um cético prospectivo e, apesar de não confiar em meus cândidos interesses sobre o espiritismo, disse-me que todo o episódio do Boa Noite pelo menos servia para divulgar a doutrina cardecista.
Me convidou, como conseqüência, a participar do grupo de estudos, que se reunia às quartas no cineclube. Dependendo do que acontecesse ali, Zazá assegurou que, talvez, quem sabe, poderia incluir-me na sessão de trato com o Boa Noite, que por sinal eles estavam preparando já há dias, mas que vinha sendo adiada, visto que ainda colhiam dados importantes sobre o caso. Deu-me a impressão de serem sérios à vera, de conduzirem uma espécie de pesquisa científica antes de qualquer passo, a fim de não cometerem erros e não serem iludidos. E afinal me alertou que, se eu me fazia de idiot savant, deveria parar por ali mesmo, por causa da tal corrente — essencial na canalização das energias espirituais. Se eu quebrasse a corrente, poderia frustrar todos os esforços do grupo ou, pior, poderia ser perigoso, poderia dar M (mirou-me com enigmática veemência). Achei tudo isso bastante excitante, embora em momento algum me deixei levar por ameaças sutis. Só faltava ele dizer que, uuuuuuuu, poderiam levar a minha alma. De toda sorte, eu queria era presenciar. O que viesse, firmeza.
No dia do grupo de estudos, eu já tinha lido mais alguns textos, sempre do Kardec. O seu segundo livro achei engenhoso, fornecendo múltiplos argumentos pra defender o espiritismo e protegê-lo da charlatanice, do politeísmo e outras deturpações. Um texto argumentativo que me lembrou o trabalho de Carl Sagan pros agnósticos, ou de Richard Dawkins pros ateus. Senti novamente o esforço em tornar científico o sistema de idéias, mas não vi um engajamento filosófico no nível de um Tomás de Aquino (o leitor conhece as cinco provas tomistas da existência de Deus?). Depois o livro fica realmente mirabolante, quando Allan discorre sobre telecinese, casas mal-assombradas (que o são o dia inteiro e não só à noite) e que os animais também podem ser instrumentos, ou seja, médiuns. O cara também fala em psicografia. É você escrever doidão a primeira coisa que vier à mente, numa espécie de transe. Isso eu já sabia ser possível. O escritor beatnik Jack Kerouac, por exemplo, se entupia de benzadrina e virava noites, loquíssimo, datilografando um papel infinito (ele colava as folhas umas nas outras). Mas o Kardec disse que o transe pode ser um modo de comunicação com o mundo espiritual, o que, pra mim, era fascinante.
Me esforcei para ser simpático, sem exagerar, e interagir com a galera. Atmosfera bastante jovial, até brincalhona, bem diferente do que eu vira no catecismo, onde a hierarquia era perfeitamente visível e as interdições rondavam qualquer debate. Por óbvio Zazá tinha ascendência, mas ele não parecia exercê-la, talvez pela segurança com que se colocava acima dos demais, no domínio do conhecimento. Tinham umas vinte cabeças, sentadas de perna-de-índio no chão do cineclube. Reconheci três colegas da física, um da química, e duas meninas das engenharias. Uma surpresa! o que depois me fez ruminar as razões de o espiritismo atrair gente das ciências exatas. Talvez pela roupagem científica, pelas reclamadas comprovações empíricas da paranormalidade (que todavia jamais convenceram o establishment científico). Mas eu gostei das discussões. Depois de mostrar um conhecimento mínimo das doutrinas e graças a minha simpatia de bom ouvinte, ganhei crédito.
Notei bem rápido como a maioria dos espíritas filiou-se a esse sistema de crenças com o argumento incontestável da experiência pessoal. Tiveram uma vivência única e intransferível, que os convencera a aderir.
Uma menina me contou da vez que, com dez anos, quase morrendo de hepatite, saía de seu corpo e podia contemplar a si mesma nos estertores da doença. Até que um dia resolveu passear pelas imediações e, como que sugada por uma força gravitacional invisível, teve de lutar selvagemente para conseguir retornar a casa e reencarnar em seu corpo. Nesse dia, narrou-me, o seu corpo esteve à beira da morte, mas daí por diante começou o processo de recuperação, como se o esforço do espírito somatizasse a cura.
Um rapaz da cidade (não era aluno), por sua vez, me explicou que passou a acreditar aos doze anos, quando perdera o pai. Chovia e eles viajavam à noite por uma estrada erma do interior de Minas, quando um vulto muito branco, com cara de pierrô, atravessou-se de supetão no caminho. O pai achou que o tinha atropelado, parou o carro no acostamento, mas eles não encontraram patavina. Só se depararam com o silêncio barulhento do matagal. Sem entender o sinal, pois não eram então espíritas, tornaram a continuar a viagem normalmente. Dez minutos depois caíram num barranco após o carro aquaplanar. O pai morreu e ele sobreviveu por um triz.
Noutra história, mais elaborada, o meu veterano da física contou que a casa onde morava com os pais era mal-assombrada. Na madrugada, ouviam pipocos nas paredes, cortinas fechavam-se sozinhas, alguém caminhava e abria portas. Até que o seu irmão mais velho começou a ver uma mulher de pele muito branca, lânguida, de longos cabelos negros, no espelho do banheiro do corredor. Ela chamava por um tal Marcelo. As coisas começaram a ficar preocupantes quando a mulher passou a aparecer nua, e chorando, pro irmão. Depois começou a acariciá-lo, chamando-o de Marcelo. Tiveram que tomar uma atitude quando o espírito efetivamente tentou transar com o irmão. Convocaram então uma especialista, uma estudiosa do espiritismo, a qual, com a ajuda indispensável de uma famosa médium, foi bem-sucedida em invocar o espírito. A conclusão fora de que se tratava de uma garota de programa chamada Mona (talvez fosse o nome de guerra), que amava um antigo morador da casa, Marcelo. Ele a havia abandonado, apesar das constantes promessas e presentes, decepcionando as expectativas da moça. E então ela, amargurada, sem perspectiva na vida, se matou, voltando a assombrar a casa na esperança de encontrá-lo. Foram várias sessões até convencê-la a desistir da choradeira habitual, pois o cara já tinha se mandado dali há mais de cinqüenta anos e provavelmente também tinha passado pro outro lado (afinal, por que ela não foi procurar no próprio plano espiritual? obviamente não fiz a pergunta).
Conheci também a namorada do Zazá, que ele aliás vinha treinando (!) há dois ou três anos como médium. Ela desde cedo demonstrou sensibilidade espiritual, e várias vezes havia feito contato com o plano espiritual. Era negra e não sei porque me lembrava um pouco a Whoopi Goldberg, só que mais nova. Ultimamente, me disseram na ocasião, a menina se conectava com um espírito chamado Júlio Borges, que a seu passo abria o circuito com o outro lado da existência. No mais das vezes, ela entrava em transe, murmurava frases ininteligíveis, mas Zazá, servindo de guia, traduzia para o restante da corrente. Noutras ocasiões, as palavras pronunciadas eram claras o suficiente para ser entendidas pelos demais, mas ainda assim Zazá exercia o papel de assistente. Obviamente, isto significava que eu deveria ficar de olho no Zazá na hora H.
Eu soube que os ídolos do Zazá eram Helena Petrovna e uma tal Stanislawa. Ele achava as mulheres médiuns superiores aos homens, e tinha a explicação. Um fato que me chocou na reunião foi o desprezo que Zazá tinha pelo Chico Xavier, o psicografista. Irritava-o em especial a psicografia tosca de um senador romano e de escritores consagrados. Ele não só tachava o homem de charlatão, como o considerava a pior espécie de farsante. Porque ele não tirava lucro da fraude, como faziam charlatões mais pragmáticos. Ou seja, o cara mentia e era impostor simplesmente pra ter fama, queimando o filme do bom espiritismo. O Xavier o Zazá ainda tinha por um exemplo claro do subdesenvolvimento brasileiro. Aquilo jamais colaria na Europa esclarecida. Eu tentei argumentar que era tropicalismo, que o Chico poderia ser visto como um tipo de Zé Bonitinho ou Waldick Soriano do movimento espírita mundial, que tem também o seu lugar. Ao ser rechaçado, ainda arrisquei que pelo menos o Chico Xavier era um divulgador realmente existente, enquanto o fundador do cristianismo nem tinha veracidade histórica comprovada. Dos males, o menor. Mas Zazá obstinou-se e fechou a discussão chamando-o, transcrevo literalmente: “o Chico Xavier é um merda ambulante que só quer aparecer.” Achei que ele pegou pesado, mas dissenti em silêncio.
O resultado é que gostaram de mim. O Zazá avalizou, pois eu poderia ser uma boa aquisição pro círculo, o que possivelmente significaria mais um espírito dentro de sua esfera de influência. Marcaram, sob cerrado sigilo, a esperada sessão para lidar com o Boa Noite. Seria numa sexta-feira tarde da noite. Foi aí que confirmei a minha suspeita prévia, de que o centro espírita realizava as sessões mais fechadas na biblioteca da universidade.
A biblioteca é realmente soturna e se ergue numa colina afastada do campus, rodeada por um bosque escuro de araucárias. A sinistra edificação, que precede a própria existência da universidade e data do final do século XIX, comporta longos corredores recheados de prateleiras, que levam a salas frias de estudos, quase sem mobília. Escadas em caracol conduzem ao andar superior, tomado por depósitos com caixotes com livros antigos, trastes e pilhas de carteiras quebradas. Há pesadas portas que se fecham para salas desconhecidas e ninguém sabe o que ainda é guardado nos labirínticos porões. Na noite da aguardada sessão, chegando com os demais espíritas (eu tinha que me considerar um, afinal, a corrente…), não pude evitar de sentir uma estranha imobilidade, agravada pelo céu nublado e pelo vôo de gralhas nas proximidades.

(continua…)
maio 2010 20

Durante a ocupação na China, o capitão japonês foi comissionado com o comando sobre a província mais longínqua do território conquistado. Oficial de carreira desde muito jovem, descendia de uma longa linhagem de samurais que remonta ao Japão medieval.
Conhecido pela brutalidade, o capitão resolveu fazer valer o interdito sobre os cultos locais. Em pouco tempo, conseguiu suprimir a atividade religiosa em toda a província, com exceção de um único templo problemático. Situado na montanha mais afastada da região, seus monges pacifistas não se intimidaram com as ameaças, as prisões e as torturas do Exército Imperial.
Encolerizado, e decidido a ver a proibição obedecida, o capitão mandou avisar que, se não interrompessem os serviços, iria comparecer pessoalmente no culto mensal e cortaria uma cabeça escolhida por capricho entre os presentes. Como os monges se obstinaram, cumpriu a promessa logo no culto seguinte.
Naquele dia, a sua chegada de jipe impressionou a multidão, pois se vestia como um samurai. Dispensou a escolta e, sozinho, irrompeu em plena cerimônia. Marcial e impassível, observou a massa meditativa e ajoelhada que o ignorava solenemente. Caminhou até o centro, desembainhou, ergueu a espada, pausou e, num golpe invisível, decepou a cabeça de um fiel selecionado ao acaso. Ninguém reagiu, de modo que o capitão voltou calmamente para o carro estacionado em frente. Retornou ao quartel sem dizer uma palavra.
Essa cena repetiu-se religiosamente mês após mês, ano após ano. Deram apelidos ao capitão e a sua reputação espalhou-se tão vigorosa quanto a daquele templo distante. Porque os fiéis não abandonaram o culto. Ao invés disso, os monges resolveram incorporar a participação do samurai nos rituais previstos. A chegada dele era prenunciada com mantras e a decapitação homenageada como parte de um processo qualificado de reencarnação. Alguns crentes passaram a pintar os pescoços com marcas direcionando o talhe. Naquela comunidade erma, o capitão findou por ser considerado um redentor divino, embora achasse que a reverência crescente do populacho se devesse a sua condição nobre e militar.
Um dia, a invasão chegou ao fim e o capitão decapitador foi obrigado a regressar a sua terra natal. Em vão, os religiosos aguardaram-no naquele mês. Nenhuma cabeça mais seria cortada. Decepcionados, os fiéis um após o outro abandonaram o culto, que tampouco empolgou a nova geração.

O templo finalmente teve de ser fechado.

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