out 2009 17

Não fossem o amor e a dor, os seres humanos seriam incomunicáveis entre si.

Etimologia: não quero falar do amor-eros (cupidez), do amor-philia (amizade), do amor-narciso (amor próprio), nem do vapor barato do amor-telenovela (melodrama). Quero tratar do amor-ágape (amor-banquete), febre de quarenta graus que pretendemos inocular nos outros, para contornar a mortalidade. E dela sair vencedor. Contudo, o amor intransitivo, como força expansiva irresignada à finitude, esse não conseguimos abarcar. Faltam-nos forças poéticas. É que, ao infinito, só acedemos em lampejos e relances, logo repelidos que somos por seu assombro e incompreensão. O amor, por isso, tentamos domesticá-lo e fazê-lo inteligível, coisificando-o numa pessoa, numa dada circunstância.

O que amamos já pulsa dentro de nós; apaixonar-se consiste em boa parte na projeção mais ou menos consciente dessa força interna preexistente. Ilusória passividade. O amor nada tem de falta, pois tudo nele é excesso e completeza. A carência jamais produzirá o amor, senão a impossibilidade de amar. Quem ama está a todo momento transbordando a si mesmo nos outros, e por isso conjuga exceção e excesso, e assim ama a vida.

A coisificação do amor, por um lado emocionalmente conveniente, por outro inicia o gradual processo de decomposição do amor. Decompõe-se nos outros amores, citados no começo. Em virtude disso, de tempos em tempos, ansiamos por novos amores, já que o amor coisificado converteu-se em eros ou philia ou narciso ou uma combinação de seus subprodutos. Porque o amor é quem produz o sentido e confere valor às coisas e não o contrário. Porque o amor não resiste a que lhe dêem limites. Dentro de uma gaiola, ele não canta. Porque ele não existe para ser representado, e se constitui da expressão nua: um meio sem finalidade.

Portanto, vivê-lo às últimas conseqüências significa apontar o rosto ao infinito, na magnitude espantosa de tudo o que podemos ser, uma vida em que vivemos trezentos e sessenta e cinco dias por ano e não somente cinco ou seis. Mas não reunimos a coragem suficiente para o desafio, porque somos apenas humanos. Eis o sentido do super-homem de Nietzsche: o ser que ama.

jul 2010 15

O artigo Meu ateísmo: Sagan, Dawkins, Woody, publicado no blogue coletivo Amálgama.

jul 2010 26

Em recente ensaio publicado no Amálgama, escrevi o menino ateu.

Como ele preferia arremessar-se à experiência, lambendo os beiços diante da contingência, a render-se a explicações empacotadas e liturgias empoeiradas. Mostrava a língua às certezas vendidas na feira das igrejas — sérias ou rastaqüeras. Cercada pela sociedade teísta e esotérica, ludibriada de crenças, a criança insubmissa reagiu e resistiu como pôde. Escarnecia da certeza, da submissão e da heteronomia, ao mesmo tempo em que abraçava a incerteza e a dúvida. Mais que métodos, um modo de viver.
Ao longo do ensaio, o menino cresce, amadurece, domestica-se de humanismo, eufemiza-se agnóstico, põe para ninar o orgulho luciferiano. Edifica um arranha-céus de métodos e esquemas, para sustentar racionalmente o seu sistema-mundo, sem divindades, sem espíritos, sem transcendências. Mas eis que Dawkins reabre a veia e a bile amarela inspira-o novamente à guerra. Transfigura-se ateu praticante, milita na causa dos descrentes, lança-se ao encalço.
O ensaio colheu comentários favoráveis. Leitores simpáticos ao pequeno ateu. Quer pelo texto reverberar a sensibilidade do leitor, na identificação sentimental com o personagem, quer por representar, em alguma medida, a sua biografia mesma.
Quando li, na qualidade de autocrítico, vi um paradoxo. A sua força e a sua fraqueza estão no estilo: discurso indireto livre, na sutil contaminação entre o menino-personagem e o adulto-narrador. Se, por um lado, transpira autenticidade vivente e intensidade lírica, por outro lado, exprime como fraquezas os volteios um pouco barrocos, pesam os adjetivos, incomoda a falta de argumentação cartesiana e de silogismo direto. Estilo: ganha-se e perde-se.
Felizmente houve crítica negativa. A mais frontal atribuiu ao texto o caráter de “ceticismo dogmático”. Ao entronizar a dúvida como dogma, este autor se tornou um uróboro. A dúvida comeu a própria cauda. Afirmar que Deus não existe, proclamar-se ateu, é tão dogmático quanto a certeza inversa. Isso foi debatido fartamente num blogue de ativismo religioso, para onde as discussões extravasaram.
Quis retrucar. Disseram-me: perda de tempo argumentar com dogmáticos. São desleais e, no final, escondem-se atrás da rocha da fé. Ora, discordo, ateu cupincha. Quem vai à praça deve preparar-se para debater com qualquer um que cruze o caminho. Faz parte da arte de viver: tirar o melhor do acaso de encontros e desencontros. Quem teme os lobos, — mesmo que sejam ovelhas de dentes afiados e olhar faminto, — não vai à floresta. O ateu praticante não se satisfaz em pregar aos incréus. A graça está em contribuir para o descaminho. No que o ateísmo assume uma dimensão política, como militância pela liberdade.
A primeira tentação foi atolar-me no debate epistemológico. Hesitei. Depois de um ensaio tão lírico, seria contraditório. Seria frustrar a tentativa de elegância ensaística no sarapatel de ataques e contra-ataques, tão clássicos da famigerada dialética blogueira. Um dos objetivos principais sempre foi transpor a discussão epistemológica para o plano ético e político, isto é, o ceticismo como inerente a concepções democráticas e libertárias da vida e da cidade dos homens.
Contudo! pra que resistir à tentação? além do mais não subo em salto alto. Desci descalço aos subterrâneos lamacentos da metafísica.
Lá no blogue Fé e Razão, respondi que não tem essa de ceticismo dogmático. O cético não tem certeza de nada. O cético dizer que a entidade sobrenatural não existe é diferente de o crente dizer que exista. Embora este tenha a certeza de que Deus exista, o cético não tem certeza de que Deus não exista. Ele duvida que exista. E duvida muito. Dispensa a hipótese. No dogmatismo, há certeza e dogma; no ceticismo, incerteza e dúvida.
Apesar da atmosfera de incerteza e dúvida, habemus conhecimento. Só é impossibilitado um conhecimento absoluto, total e inquestionável — característico de ideologias, religiões, e da ciência quando deturpada como panacéia, o cientificismo. Quem disse que o conhecimento precisa ser com certeza? O conhecimento cético não tem certeza, senão não seria conhecimento genuíno, mas dogma. O sistema-mundo do cético prescinde de dogmas e axiomas, pois parte não só de conhecimentos contestáveis, mas também de metodologias, esquemas e experiências igualmente questionáveis e dubitáveis na sua essência.

O conhecimento cético, — menos pretensioso que dogmatismos religiosos, ideológicos, místicos e cientificistas, — pode produzir ciência.  A melhor ciência, embora ciência limitada e precária, incapaz de amealhar certeza matemática. Esta existe só no mundo formal das equações e teoremas, no juízo analítico. Falo de outra ciência, da ciência como vela no escuro de Carl Sagan.

Mas e quem duvida de tudo, não duvida da própria dúvida? sim e não. A dúvida tem a qualidade ímpar de afirmar-se no ato mesmo em que se nega. Ao duvidar da dúvida, já se está mais adiante, duvidando de uma dúvida no passado, afirmando-a no presente que duvida. O verbo duvidar sobreleva ao substantivo dúvida. No princípio é o verbo, o zap do baralho ontológico.
Quem duvida de tudo, como pode construir um sistema-mundo? a dúvida pode ser construtiva? lá no Fé e Razão, eu me saí com duas linhas de argumentação.
Invoquei primeiro um monge franciscano do século 14, Guilherme de Occam. Defrontado com o desconhecido, Occam formula e tenta refutar as hipóteses mais simples. Se não se verificarem na experimentação, passa às mais complexas. Exemplo. Estaciono o carro na Lapa carioca e, ao voltar no final da noitada, fico desolado perante sua a desaparição misteriosa. Occam: vou formular e tentar refutar a hipótese de ele ter sido furtado, ao invés de imediatamente pôr a culpa em duendes ninjas templários, a serviço dos Illuminatti. Do mesmo modo, se dirijo numa estradinha à meia-noite e me espanto com um fulgurante clarão no céu, primeiro tentarei identificar um fenômeno meteorológico, ao invés de sair postulando espaçonaves alienígenas.
Conjurei ainda o método da indução mitigada de David Hume. O empirista inglês diz que, se observarmos 10.000 vezes o mesmo fenômeno, nada, absolutamente nada pode conferir a certeza de que ele se repetirá a 10.001ª. A indução não gera certeza. Porém, se a 10.001ª observação contestar as 10.000 anteriores, isto não significa que houve um milagre. Mas sim que é preciso analisar, antes de qualquer outra coisa, se houve um erro de observação/observador.
Por mais que, indutivamente, não se possa assegurar, das dez mil precedentes, a décima-milésima-primeira ocorrência da série, nada impede que, para fins práticos, acreditemos numa lei geral para o fenômeno. A indução não gera certeza, mas pode produzir conhecimento. Conhecimento empírico, logo refutável e dubitável. Conhecimento cético. Conhecimento prático, ético, logo político.
Exemplo. Um menino ateu larga uma pedra de cima da ponte dez mil vezes seguidas e ela cai. Por mais que, indutivamente, não seja possível ter a certeza de que a 10.001ª pedra vá cair (suponha hipoteticamente um magneto oculto que a desvie para um imã igualmente escondido), eu não vou me colocar embaixo da ponte e esperar um milagre. Para fins práticos, me guiarei pela repetição e confirmação de fenômenos experimentados.
E assim pode operar, em termos bem grosseiros, uma ciência cética. Um conhecimento sem certeza, sem dogma, que possa ser permanentemente questionado e refutado e melhorado e alinhado à prática social. Um conhecimento também guiado pelo espírito de sistema: coerência e economia de princípios. Um conhecimento construído persistentemente pela experimentação, e consistente à observação e reiteração, e sem jamais perder de vista os fins práticos e resultados concretos. A dúvida metódica não faz milagres, mas não frustra ânimos questionadores. Pelo contrário, motiva-os a ousar duvidar, inquirir e descobrir as suas verdades.
Isso ainda dá muito pano pras mangas.
Nota bene. Não a toa um ateu hormonal não consiga viver a sua inquietação na academia. A inquietação cética é não-acadêmica. Para isso, nada como uma boa conversa, errante em assuntos e  dispersa em metodologias. Conversa de bar, de café, de caminhada, de porta de cinema. Nada, afinal, como o bom e velho blogue.

ago 2010 31

Citação apócrifa.
Por reducionismo ou ignorância, costuma ser atribuída a Nietzsche e/ou a Dostoievski, mas nenhum dos dois sequer a esboçou.
N escreveu sobre a morte de Deus no livro Gaia Ciência.  O personagem do louco anuncia que Deus morreu, que o matamos, que erigimos monumentos fúnebres em seu réquiem (as igrejas). Para ele, assassinar Deus foi uma ação grandiosa que pode inaugurar “uma história mais elevada do que toda que jamais existiu!”. Mas o homem do século 19 ainda não está preparado, e o profeta insensato desanima-se.
No romance Os Irmãos Karamázov, o irmão do meio, Ivan, literato  cínico e cético provocador, fala: “Tudo é permitido. À noite com o assassino: — Vê, meu amigo, Cristo foi pura e simplesmente um homem comum, como qualquer outro, só que virtuoso.” A partir daí, outros personagens vão desenvolver a fala. Rakítin irá imputar a Ivan a frase: “se não existe a imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido.” Mais adiante, o diabo — duplo dramático do intelectual — dará mais uma contribuição, considerando como sua a declaração: “não há virtude se não há imortalidade.”
Contudo, nenhum dos dois autores, nem qualquer dos personagens do panteão, disse algo como “Se Deus está morto então tudo é permitido.” Nem poderiam. Seria reduzi-los à vulgata a mais tacanha.
Para N, Deus morre quando a civilização conclui pela irremediável ausência de valores e sentidos definitivos. Quando descobre que “sentido da vida” é uma sentença absurda, porque “sentido” e “vida” não se conjugam entre si. As idéias modernas contém um erro na origem, cujo desenvolvimento leva inexoravelmente a um clima  romântico de descrença generalizada. Percebe-se afinal que não pode haver instância transcendente com direito de julgar a vida — todos os ismos erraram.
Menos que passividade e fatalismo, que o filósofo atribui a Schoppenhauer e seu “budismo ocidental”, para N isto significa que a vida é mais importante do que a moral, do que os valores que pretendem julgar aquela. O caso não é avaliar a vida pelos valores, mas os valores pela vida. É ela, primeiro de tudo, quem transvalorará os valores. Não se trata de jogo de palavras, mas de uma declaração de liberdade ontológica. Ela confere à criatura uma potência além da finitude e da necessidade, além das definições e injunções do homem, ou seja, além do próprio homem. Nasce o super-homem, que ama o destino imanente a si mesmo.
Para D, a conclusão do “tudo é permitido” é rechaçada ferozmente ao longo de toda a obra e com muita agudeza em Os Irmãos Karamázov. Para D, o ser humano se constrói somente na interação com os outros. O campo relacional precede a essência individual. Existência antes da essência. E os personagens de D são pessoas reais transfiguradas na literatura, sem jamais renunciar ao caráter múltiplo e inacabado que os encarna no texto. A essência do homem só se concretiza na alteridade, e por isso o amor mundano condiciona a existência ética. Justifica-a no sentido da terra, na costura de corpos e afetos capaz de dar sentido aos atos e valor à realidade humana.
Para N, o cristianismo matou Deus. Seja Deus na expressão religiosa judaico-cristã, seja Deus nos ideais modernos do humanismo e da ciência positiva. O anticristo é o único e verdadeiro cristão. Porque faz renascer Cristo na sua afirmação radical da vida, que por sua vez é o sentido de si mesma e criadora de todos os valores. Um Deus transfigurado, um deus dançarino, um deus-artista. Assim, Deus não está morto. Está livre.
Para D, mesmo que Cristo estivesse errado, que ele não tivesse existido, devemos ficar com ele. Pois Cristo implica a conversa interior que inventa o outro e eu mesmo no processo dialógico. D descrê no Deus transcendente assim como rejeita o narrador onisciente. Tal qual um Jesus mundano e revolucionário, coloca-se junto de seus personagens — aqui! no sentido da terra, através do discurso indireto livre. O criador está com as criaturas e se faz presente nelas e com elas, porque é, justamente, a sua multiplicidade. Isso resta claro ao final do capítulo O Grande Inquisidor (também publicado à parte, como single), quando o messias terreno beija o inquisidor. Um beijo de amor no grau máximo: afirmativo e desprendido. Deus não está morto. Deus é o outro.
Tanto D quanto N respondem com extrema inteligência, arrisco dizer, à questão moral do “tudo é permitido”. Um traçando uma ética da potência, da criação, da arte. O outro por meio de uma ética do amor terreno, e da alteridade como poder constituinte. Duas éticas potentes contra uma moral impotente. Um e outro desviando a perspectiva da pergunta moral que quer outorgar a autoridade e a submissão. E cuja resposta, para driblar as vivandeiras do bem e da verdade, precisa deslizar de suas premissas enviesadas e reinstaurar o problema em outros termos.
Talvez quem tenha formulado, às últimas conseqüências, a querela do “tudo é permitido” tenha sido o Marquês de Sade, com seus libertinos ateus, furiosos, pusilânimes, insidiosos. Nesse sentido, Nietzsche e Dostoievski retrucam-lhe à altura, sem qualquer moralismo.
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PS. Este breve ensaio ocorreu-me como comentário a um post da amiga Rayssa Gon no (ótimo) blogue Bule Voador. Refiro-me ao post “Por que você ainda não se matou?“, quando um dos primeiros a comentar atribuiu a citação em pauta a Nietzsche. A atéia Rayssa mantém o blogue presença da peste, que combina sarcasmo, lirismo & vinganças. Estava a comentar com ela, a propósito, como subscrevo e defendo a militância atéia. Como admiro a prosa de Dawkins, na sua infusão de amor e ódio (ver o post Meu Ateísmo Radical).

PPS.Por outro lado, até como autocrítica, acho que o ateísmo em si, quando desvinculado de políticas concretas ou sistemas éticos, acho-o estéril. O ateísmo pelo ateísmo é ponto de partida e não linha de chegada. Chega a ser uma armadilha para rebeldes de primeira hora, tanto quanto assumir acriticamente iconoclastas como Nietzsche, Cioran ou Debord. Depois do deslumbramento, ficar só no ateísmo é como recusar-se a sair da puberdade filosófica, e dormir no jardim da infância do pensamento e da liberdade.

set 2010 15

Tem personagens que a gente carrega pela vida. Falam ao pé-do-ouvido, provocam, inspiram, excitam, levantam argumentos e contestam as nossas opiniões e atitudes. Fazem-nos como somos, e não deixam nunca de nos seguir. São personagens que, de tão pulsantes, atravessam as nossas vivências. Encarnam na matéria e passamos a vê-los nos outros e em nós mesmos. Aparecem. Quantas vezes não nos pegamos agindo como um personagem de livro ou filme? De repente, nos flagramos numa situação livresca, e rimos (ou choramos) de nossa atuação digna da ficção.
Há alguns personagens arraigados na cultura, cuja efetuação move multidões e dá o tom de acontecimentos históricos. Jesus, Sócrates, Buda, Homero. Nenhum deles sabemos se existiu como criatura de carne-e-osso, porém é pacífico que existiram. O personagem possui a sua força de existir, porque vive por meio dos outros, os quais se constituem pelos personagens mesmos. Que é o indivíduo, o “eu”, essa cômoda ficção, senão um amontoado polifônico de personagens? É um grupo teatral, às vezes coerente e harmônico, quase sempre confuso, labiríntico e repleto de contradições. Toda a metafísica ocidental não foi capaz de apaziguar-nos em alguma identidade última, alguma cápsula de “eu” —, e não foi pouca a palavra a explodi-la nas mil e uma noites da (in)consciência.
Convencer-se que se é antes de tudo personagem, isto é, que não há diferença de natureza entre pessoa e personagem, é um passo importante de libertação. Liberdade que se aprofunda com a faculdade de autoconstrução, com a dimensão de ator que cada qual possui. Autoconstrução menos de um indivíduo isolado, — um ego ou perfil montado à moda de orkut, — que de um corpo construído na interação com os outro corpos. É a combinação de afetos e desejos que constitui o personagem, um ser de alteridade e socialidade. Não há personagem sem drama, nem drama sem teatro, — e não à toa a tragédia seja considerada tão próxima do grande enigma da vida.
Avesso a preceptores mais velhos, e inadaptado para selecionar referências na cultura pop, desde menino tive de buscar nos livros os meus personagens. Num processo mais ou menos espontâneo, era caso de achar referências e daí elaborar, aos bocadinhos, os personagens “internos”. A partir desses personagens, participar das relações sociais, com mais desprendimento e vigor, e erigir as pontes entre o magma informe dos desejos e a civilização organizada. O personagem está entre o “eu” e o “outro”.
Ainda criança, vidrado em romances de crime e novelas de ficção científica, tive em Sherlock Holmes e Hercule Poirot duas referências primevas. Impressionava-me o raciocínio por abdução, que extrai, de um todo desorganizado de acontecimentos, as suas regularidades inauditas e verdades abscônditas. Os dois detetives abduziam de um só golpe, dispensando os métodos mais comuns da dedução ou indução. E eram outsiders, misteriosos, ricos em manias, de inteligência aguda e observação implacável. Agiam sozinhos e pensavam por si mesmos, independente das autoridades.
Meu primeiro anti-herói (a gente nunca esquece) veio da ficção científica de Jack Vance. Sempre achei-o subestimado em relação a escritores mais consagrados do gênero, como Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke. O seu universo mistura sonho e ciência, numa prosa barroca e indomável. E numa leveza narrativa que só o pulp confere.
Jack Vance me apresentou o aventureiro Cugel, protagonista de muitas histórias e sagas interplanetárias, um caçador de recompensas cínico, safado e espertalhão, mas demasiado humano para dele desgostar. Cugel foi o meu primeiro protótipo de homem que se convenceu da ausência de sentido último em todas as coisas. Portanto, que se permite ao riso trágico e ao amor ao destino. Esta uma vaidade por assim dizer superior, um orgulho mais maduro que o egoísmo e a mera autoestima, — manifestação luciferiana que eu iria vislumbrar em várias outras pessoas e situações da vida.
Fã dos quadrinhos, ali não faltaram personagens de referência. Conquistou-me na primeira revista o Surfista Prateado, um dos seres mais líricos e contemplativos da história da literatura. Viaja solitário pelos espaços imensuráveis, de consciência liberta como os feixes de luz, fluida como a radição cósmica, espontânea como o movimento dos astros. Me fascinava como ele conseguia vivenciar o eterno, — junção de vácuo e absoluto, de escuridão e clarão —, sem ser esmagado pela incompreensão, sem sucumbir pascalinamente ao transcendente. Diante do inefável, e da aniquilação inexorável por Galactus, mantinha a atitude zen. Gostava também como a jornada titânica do Surfista pelos horizontes infinitos não prescindia do amor, pois o viajante prateado amava Shalla-Bal, — a sua Dulcinéia, a sua Beatriz.
Outro que me alimentou o teatro do eu foi o Monstro do Pântano (e Constantine), que tomei contato depois de conhecer o Surfista. Toda a vez em que incido em tendências fatalistas, há um Monstro do Pântano dentro de mim. Uma criatura híbrida, de todo indiferente ao destino humano e sábia como só o totalmente saciado pode ser. Sabe que, daqui a cem anos, cada um de nós não passará de alguns pedaços de cálcio e números em estatísticas perdidas. Imerso no lodaçal de matéria orgânica, na putrefação do húmus (em) que é Deus, o Monstro particiopa do uno primordial em que pulsa toda a vida. Antes de ler Nietzsche ou Bergson, o Monstro do Pântano me conferia relances de uma ética simultaneamente vitalista e decadente.
Já na adolescência, como sói ocorrer fui insuflado pelo que a vulgata chama de “hormônios”. O que, na verdade, significa ser ativado em sua força de existir, ser assaltado pelo desejo do outro e de si mesmo. Ou seja, pelo desejo de personagem —, intensificação púbere de altruísmo e egoísmo. Compreendi então como podia ser loucamente erótica a literatura. Quem sabe usar os melhores livros eróticos jamais precisará de Viagra. Isso também se cultiva e se aperfeiçoa. Há pessoas que cultivam o seu prazer assistindo a vídeos pornográficos. Fazem-no sistematicamente, por anos a fio, a ponto de se excitar mais com essas imagens do que com o objeto nelas representado. Da mesma forma, pessoas que usam os livros, e vão sofisticando a libido ao longo das leituras, no jogo de personagens erotizados que lemos e somos.
Adolescente, pra mim nenhuma foto da PlayBoy se equiparava a livros como, digamos, As Pelejas de Ojuara. Seu protagonista era um personagem além do anti-heróico, era tropicalista. Suas aventuras sexuais pelo interior do Brasil misturavam o burlesco, o chulo, o sertanejo, o real maravilhoso. Sim, Oswald de Andrade já tinha inventado Serafim Ponte Grande, mas neste o escracho generalizado impedia a fagulha erótica de correr pela pele. Já no livro de Neil de Castro, era difícil não se eletrizar com a narrativa debochada das transas, num humor picaresco que tem tudo a ver com uma sexualidade livre de sentimentalismos chãos. Quantos não foram os rios de esperma que verti, só graças à passagem de Ojuara com a Feiticeira. Na primeira noite, esse bicho ardilosamente transmutava-se nas mulheres mais deliciosas e transava barbaramente. A vítima ficava tão seduzida pela surra de sexo que baixava a guarda. Então, na segunda noite, ela estraçalharia a sua genitália. O monstro tinha uma buceta dentuça.
Foi só na virada para os 20 anos, que encontrei a minha fonte definitiva de personagens. É uma palavra pesada, “definitiva”, mas não posso mentir, é a que me ocorre com mais exatidão ao caso. Dostoievski criou um panteão inexaurível de personagens. Um panteão completo e exuberante. São pessoas movidas por idéias-força, intensas para concretizá-las às últimas conseqüências, fulgurantes na complexidade e densidade. Tudo isso numa narrativa conflituosa, que põe os personagens a se concretizar no ato mesmo em que se negam e se destroem mutuamente, enquanto todos são submetidos a mais íntima análise por um narrador assombrado pela própria narrativa. Literatura de personagens em convulsão, na fratura dos desejos, na catástrofe dos amores. Faça-se a humanidade mesmo que o mundo pereça.
Em conseqüência, vários personagens de Dostoievski me impactaram. Na medida em que os internalizava (e os externalizava), em toda a sua potência, eles derrubavam ingenuidades, devastavam crenças, reformulavam os valores e sentidos. Personagens que me estilhaçavam, me reduziam a uma sombra, me calavam a boca, e por tudo isso, justamente, eu os seguia, eu os deixava frutificar demônios e santos em mim.
(continua)