jan 2010 07

Blogue com pretensão literária não pode ser diário. Da mesma forma como uma história privada, pura e simplesmente, não faz um romance — a começar pelo fato da distância ontológica (e inevitável) entre autor e narrador e leitor.

Quando a produção se restringe ao blogue-diário, e ainda por cima direcionado a leitores com nome e rosto, o foco esfumaça-se e a mesmice tende a dominar. O exercício de estilo, a disciplina do pensamento, a expressão, o delírio, a infância do mundo, tudo isso se perde na burocracia monológica do diário online.

Outro dia mesmo li não-sei-onde, acho que numa entrevista, a Clarah Averbuck irritando-se com a pecha de blogueira, que a desqualificaria do estatuto de escritora. A perguntar-se: perante quem ela quer se qualificar? perante quem deseja ver-se rotulada escritora de estampa, autêntica, the real thing?

Talvez, como pioneira da blogosfera, ao invés de negar, contornar ou minimizar o seu meio e ferramenta de trabalho — aliás a construíram em primeiro lugar como escritora —, fosse mais construtivo afirmá-los, e num determinado sentido “rotular-se” blogueira, e fazê-lo às escâncaras, nas entrevistas, artigos, prefácios.

Afinal, basta folhear os lançamentos para concluir que muitos livros publicados, a gigantesca maioria, são de uma mediocridade grosseira: platitudes tacanhas e historinhas particulares, em geral mal escritas. Sem incluir aí a iniqüidade dos livros de “auto-ajuda”, inclusive mentirosos já no gênero, pois, se você compra um livro para se ajudar, não é auto-ajuda, mas ajuda exógena.

De toda sorte, o autor medíocre acha que basta uma história privada — uma infância difícil, uma perda lancinante, a mãe com câncer, uma paixão tórrida e clandestina, uma viagem qualquer —, basta algo assim que, zás, voilá tem-se um romance. Não e não. É preciso projetar-se num universo literário, marcado por densa historicidade, pautado por movimentos artísticos e literários, contextualizado por políticas e filosofias e religiões, atravessado de fora a fora, vertical e horizontalmente, diametral e diagonalmente, por linhas de força e diagramas epistemológicos, forças poderosas exercidas pela linguagem e pelos signos na sua totalidade. Etecétera. Para a arte literária, não basta um best-seller, quando este prescinde do essencial: inquietação, pressentimento, insight, renovação, profecia, expressão, um novo mundo. O livresco e o literário!

Mês passado, relendo um famoso lingüista russo, Bakhtin, recordei-me de como a história, muitas vezes, só importa na medida em que se adapta a uma proposta global. Dostoievski, para aquele pensador, tem como grande força a sua radicalização da polifonia, da relação profunda dos personagens com a verdade enunciada por eles mesmos, da inexistência de verdade global senão como realidade múltipla, composta de modo plural por sofisticadas consciências independentes… porém não farei resumos e portanto me resumo a recomendar a referência: o clássico “Problemas da Poética em Dostoievski” (Mikhail Bakhtin). Nota bene: Se não achar, me peça que eu consigo em pdf.

Assim, o enredo/argumento em si só interessa na medida em que atende a um projeto estético, uma visão de narrativa, a um pretexto literário com reverberações éticas, alegóricas, históricas, filosóficas, semióticas e todas quantas. Isto pode parecer óbvio, e de fato é-o, mas a constante lembrança reforça-nos a tenacidade da autocrítica, faz-nos inquirir permanentemente sobre as relações entre forma e conteúdo, texto e contexto, e acerca da inserção da obra na riquíssima conversação que é a literatura ocidental.

Então pra que serve literariamente o blogue? Em primeiro lugar, arrisco!, serve como work in progress, na interatividade midiática tão própria da revolução da Internet, deste século. Há dois anos, publiquei “Vida dos direitos”, um pequeno livro por uma pequena editora, sobre filosofia política e direito. Do lote de quatrocentos exemplares, se dez foram efetivamente lidos, será para mim uma notícia surpreendente. O Quadrado dos Loucos, projeto menos e por outro lado mais pretensioso, ele, mal o trouxe online, reparo muito mais gente por aí, a comentar, criticar ou simplesmente ler. O blogue embute uma força poderosa, aliás tanto mais quanto maior for a inserção no mundo online das pessoas de todas as origens e segmentos sociais. E nada mais revolucionário em termos de democracia midiática do que o acesso universal, uma das políticas culturais engendradas pelo Ministério da Cultura com Gil, que segue em concretização. A literatura só tem a ganhar com os blogues, sobretudo quando todos, sem exceção, puderem freqüentá-los e criá-los.

(…)

jan 2010 30

1. Deslocamento do narrador para terceira pessoa. Narrador não onisciente, de cognição limitada à consciência dos personagens. Paulatino surgimento do narrador-cronista, fora da “história”, porém dela falando como um personagem que a acompanha. Narrador não está acima dos personagens e não pode narrar o que nenhum deles experimenta.

2. Penetração panteísta. Inexistência de síntese, exortação moral ou ideologia-mestra. Cada personagem carrega idéias-força e discursos que definem e são definidos por elas. Personagem como mundo dentro do mundo múltiplo da obra. Comunicação de cada personagem a trabalhar-se como sinonímia de seu mundo.

3. Ação dramática com conflitos que não se resolvem. Coexistência de contrários: oxímoros. Ausência de solução pelo narrador ou pela obra como um todo. Admissão das aporias, contradições.

4. Alteridade. Dialogismo. Dissincronia. Privilégio do diálogo sobre o monólogo. Figura do diálogo interior, com utilização de duplos. Subjetividade verrumante dialógica. Auto-refutação e auto-incorporação da percepção exterior.

5. Realidade superabundante. Medley de elementos descritivos e narrativos. Fluxo de consciência conectado à concepção dialógica e subjetivista das personagens. Minimalismo quiçá na personagem minimalista.

6. Trabalhar com afinco a construção dos personagens. Deixá-los então interagir livremente, sob a menor intervenção “pessoal” do autor.

7. Na sintaxe: mesclar linguagem truncada e convulsionada de Dostoievski, prosa espontânea e sonora de Kerouac, o mergulho nas espirais da mente de Lispector; na semântica: o vívido surrealismo de Miller, a honestidade ensaística de Montaigne, autores filosóficos: Deleuze, Spinoza, Negri, evitar Nietzsche excessivamente romântico, a antropofagia de Oswald, Zé Celso, Oiticica e o tropicalismo; e na pragmática: o pano de fundo das esquerdas, terceiro mundo, cultura livre, democracia radical, liberação moral, estética da existência e devir-Brasil do mundo.

8. Pensar constantemente o ritmo e a estrutura melódica do texto; adotando o ritmo acelerado do bebop, mas também a desarmonia dedicada do free jazz.

9. Referências proliferando-se por meio do cinema. Signos forçados a interagir entre os diversos campos artísticos.

10. As teses serão defendidas e postas a interagir pelos personagens e não pelo narrador, muito menos pelo autor.

11. Não haverá concessões conscientes ao fácil, ao tolo, ao ingênuo; o texto é pra bater no rosto e fazer pensar.

12. Nenhum sinal de aburguesamento senão por meio dos personagens burgueses, que serão, evidentemente, maioria.

13. No esforço radical de atender às demandas sintáticas, semânticas, pragmáticas e semióticas, espera-se que, por recombinação acidental e/ou espontânea, surja uma brevíssima contribuição. Talvez.

Continua.

fev 2010 05

Continuação.

14. Devorar signos de outras formas artísticas, cinema e quadrinhos e música e artes plásticas, buscando expressão a mais completa de conteúdos do contemporâneo, do ponto de vista multiplamente construído pelas personagens. A geração é do porvir, a geração que o romance instala como interlocução de si mesmo e que não pode preexistir-lhe.

15. Personagem feminina entre as vagas e imprecisas personagens do Godard dos 60 (Anna Karina sobretudo), entre a dança da joie de vivre e a “superficialidade profunda” dos gestos, reino das contradições coexistentes, dos mistérios, da infância do mundo — influenciada talvez pela Mona e a Clara, de Cortázar. E outra personagem feminina fortemente matizada pelo ímpeto, o disparate, a corporalidade, com Billie Holyday. E terceira personagem pequeno-sonhadora, crédula, cronicamente insaciada e insatisfeita, a romper a gaiola de aço, tirada quem sabe das convulsionadas lispectorianas. Quarta personagem que se resume numa Marcello Mastroiani fêmea.

16. Personagem masculino sem ingenuidades porém carnal, ateu e materialmente cristão e quixotesco. Cristo telúrico, realista, mundano, Cristo-pessoa, mais Aliócha Karamázov do que Príncipe Mishkin. Personagem da entrega, do amor como cupidez e sangue, no sentido da terra, um dizer SIM a tudo o que vem pela frente, afirmação permanente. E outro personagem masculino sonhador, contemplativo, cerebral, poeta da Lua, homem de idéias, entre o fatalismo russo e a filosofia ocidental, irônico, dedilhador de ilusões. E ainda o retorno de Emilio e seu fogo bestial, a sua brutalidade existencial, a sua incisividade incondicional.

17. Prosa mais direta, aguda, frases curtas, foco na ação, no verbo, inspirar-se em Oswald. Leitura de fundo, simultânea: trilogia dos “Condenados”.

18. Tema da conversão do sofrimento em impulso vital. Tema da violência surda. Do conflito das caretices, das concessões, dos ismos. Discussão política, ética, artística, ontológica, autoreferente.

19. Ausência de dénouement, bem como da catarse que lhe precede.

20. Subtramas conduzidas pela interação das personagens, sem planejamento anterior pelo narrador. Aliás, narrador não-confiável, desleal, sacana, vacilante, sarcástico, incongruente.

21. Caráter rabelaisiano, renascentista, escatológico de Emilio e da personagem inspirada em Lady Day, contrastado com humores mais espirituais e platônicos.

22. Deslocamento do romance à clef, como Henry Miller ou “passado a ferro”, para o romance antibiográfico.

fev 2010 08

Desceu as escadas do metrô esbaforida.

Vultos cinzentos desviavam de seu afã e as paredes ladrilhadas curvavam sobre a tormenta desconexa de seus pensamentos.

Joana era toda colapso e balbuciou consigo, entre nuvens carregadas e ventanias barulhentas: por quê? como cheguei aqui? aqui, neste exato instante cósmico, neste buraco negro de merda, neste dilema astrofísico? ah, mas isso vai mudar, isso hoje vai mudar, pela dignidade…

A roleta não aceitou o cartão de Joana. No impulso com que vinha, levou um tranco e quase despencou por cima do braço metálico. Furiosa, deu joelhadas no aparelho, atirou o cartão para longe, terminou por pular para o outro lado e disparar, sob o protesto distante de algum vigilante funcionário e os olhares assustados dos transeuntes.

Desceu à toda velocidade a última das escadas, sua cabeça um dínamo convulsionado de remorsos e desilusões, sua face contorcida de desenganos, a bolsinha de couro preto esvoaçando para todas as direções.

Pela enésima vez, Joana repetiu para si: por quê? ele me amava? me amou? dignidade, Joana! alguém alguma vez me amou? por quê?!

Atingiu por fim o subsolo, aprumou o casaco e marchou com a resolução dos loucos. Foi até a borda dos trilhos, mas no derradeiro passo, teve um sentimento estranho.

Joana não cruzou a faixa amarela, a linha dos que não voltam.

À noite, na solidão do leito, elucubrou que teria ouvido um sino de igreja, badalando várias vezes, mas o sino não emitira nenhum som e isso a assustara terrivelmente. Todavia não podia estar certa o que exatamente tinha feito seu corpo parar. Um monte de razões obscuras, por certo… isso não importava mais, agora estava viva para lamentar não ter aproveitado, mais cedo, tão oportuna chance.

Mas, retornemos à Joana, a um passo do fosso daquele fim de tarde.

— Joana, — pensou para si baixinho, sabendo, no íntimo, que os suicidas de verdade não pensam — vais se matar por causa dele? e de quem mais? aos trinta anos deflagrada sob o seu ardor, livre as quimeras humanas, a sua voz grave, a mão calosa, o cheiro acridoce de seu suor, o modo como cruza as pernas enquanto me chama de putinha, como viver sem isso? meus seios que ele amassa com tanta indelicadeza, ah me encha de tapas Emilio, homem que nada me pediu e a quem tudo dei, nos últimos sete meses recebeu todo o meu grandecíssimo mel, meu cio, meu leite de leoa, meu estupor de fêmea, ele me fez dançar sobre as brasas do inferno e agora, não me quer mais, não me quer mais, não me quer mais… por quê?, disseram-me que isso aconteceria dia ou outro, ora, eu já vivi de tudo um pouco, mulher madura?, qual nada, nunca deixei de ser menina, de ser ingênua, de acreditar em duende, quero tomar banho de mar à meia-noite, quero sentir com os meus pés descalços e deixar a brisa banhar a minha nuca, insaciável, mas agora, um fim amargo ou uma amargura sem fim?, porque sem Emilio, nada restará de mim… ah estou farta do ruído das pessoas, farta das estações, dos ciclos sem fim, dos amores com fim, farta das fábricas de infelicidade, farta daquele homem, dessa mulher, dessa criança, sim, estou farta do ruído das cidades, do ruído estridente e dos ganidos desse trem que vem em minha direção, mais e mais perto… por quê?!

Joana contempla com olhos afogados o farol dianteiro do primeiro vagão.

O celular toca. É Gustavo, seu marido. Maquinalmente, ela atende.

— Oi amor… tudo bem, estou aqui na Cinelândia, já já chego em casa, o quê? ok, pode deixar que eu passo no mercado.

A lufada da passagem do trem bateu-lhe o rosto. Bólido trovejante bem rente, arrancando-a do caos de suas agruras.

Enxugou as mágoas, entrou e aconchegou-se num espaço minúsculo, entre o sisudo homem de paletó e as secundaristas do ensino público.

(…)

fev 2010 12

Amassada anonimamente do vagão, seus cabelos fulvos desarrumados, Joana repunha dentro dela a personagem que até então tinha sido com Emilio. Ao redor, o povo passageiro suspendia momentaneamente os dissabores e queixas, bestificado de fim de expediente, cheirando à tardinha que caía na cidade.

E então Joana embarcou no trem veloz das memórias, recuperada da histeria que lhe havia acometido nos últimos quinze minutos. Ponderou como o seu amor por Emilio não havia estalado de uma só vez, de supetão. Conhecera-o assim vagamente na redação, e por longos meses ela sequer notara a sua presença. Uma amiga traquinas lho apresentara, prospectivamente, num happy hour, mas ela não abriu a menor conversa para aquele rapaz moreno e casual, uns poucos anos mais novo que ela. Ela tinha de admitir, agora, que, por um longo tempo, era como se ele nem existisse, e talvez toda a roda gigante de eventos sequer ocorresse, se, numa tarde fria, não tivesse resolvido notar a sua existência. Percebendo aquela ligeiríssima abertura, o colega distante da página internacional, às apalpadelas, foi aconchegando-se, com astúcia de cigano e bom humor de carioca, com os olhares e sorrisos arremessados na hora propícia, com o timing que é o cerne da arte de conquistar. No princípio, Joana fez questão de ressaltar para si, não o amava em hipótese alguma, nem o achava especialmente bonito ou inteligente ou charmoso, mas lhe respondia as provocações à guisa de troça. Marota, não recusava o desafio, e inclusive não a reprimiam as auto-imprecações morais, de modo que se permitiu o flerte ocasional, sem maiores perspectivas ou maldades. Intimamente, todavia, havia fixado, talvez no subconsciente, talvez ao se aproximar dos trinta, que escancarava o coração defronte as oportunidades do acaso, que não se furtaria de viver em circunstância alguma, e que de toda sorte já havia traído Gustavo, provavelmente valia o vice-versa e, portanto, não haveria mistério incontornável em trair de novo. Joana não deixou de admirar-se, enquanto lembrava, como ela sabia ser racional quando precisava.

Quando aconteceu, Joana nunca deixou de questionar-se, como poderia se sentir seduzida por um homem tão imperioso, bárbaro, falso, egoísta — tão pródigo em seus prazeres, tão inconsolavelmente atirado ao que de mais mundano encontrava pela frente. E não descobriu nada disso mais tarde, mas de imediato. Emilio, jamais embotado por arrependimentos e ressacas, nunca hesitante nas escolhas, sempre certo de fazer o que mais lhe apetece, não cultivava futuro nem passado. Ele recebeu naturalmente inclinações anti-idealistas logo na infância, e desde cedo bazofiou de religiões, ideologias, propósitos maiores. Plenamente convicto de seu caráter sólido e generoso: investir tudo no presente.

Se já gozara escapadas, para Joana foi o primeiro caso em que ela amava mais o corpo do amante do que o próprio, mais os trejeitos e toques do que as palavras, mais a sua voracidade e animalidade do que as sutilezas do espírito. Semblante másculo, olhos negros enormes e pestanudos, costas largas, um corpo moreno com grandes extremidades, parecia extraído de uma tela de Portinari — e que mãos… e que ombros. Era um leão, concluía Joana, e ai de quem servia a suas paixões na embriaguez da volúpia.

Ela recordou da primeira vez em que se entregou, naquele congresso de jornalismo em São Paulo. Dessa vez, presenciou, abismada de desejo, Emilio lançar-lhe fogo pelos olhos, espumar, ganir, — gemidos ásperos e clamores bestiais irrompiam de seu peito inchado de nadador. Joana pensou como ele a incitava, com as exclamações mais chulas que já ouvira, a montar-lhe, e como ela participava dos jogos, e com eles inebriava-se risonha de uma vivacidade que ia lhe escasseando na sua dita vida real. Seu coração palpitava, xingava-o, estapeava-o, chamava-o com as pernas como uma leoa ruiva, exigindo satisfação imediata — sim, Emilio, sim, sim, sim… tomado por um Dioniso enfurecido, Emilio perdia o controle das mãos e pernas, na hora do gozo.

Acordada do sensual turbilhão pela frenagem sibilante do metrô, Joana viu como o velhote reparava nela, quiçá lascivamente. Uma menina de óculos tortos mirava-a curiosa. Decerto por ela estar abraçando o corrimão com tanto ardor, olhos semicerrados e o rosto avermelhado, repleto de sardas, encostado no metal frio e engordurado de mil mãos. Ficou ainda mais rubra e pediu desculpas mentalmente, antes de sair, porque era a sua parada.

Desceu na estação da Siqueira Campos e caminhou para o Carrefour, tonteada pelas lembranças incandescentes daquele que finalmente a rejeitara.

Emilio não lhe podia sair da cabeça.

Depois do congresso, passaram a freqüentar-se na hora do almoço, em motéis do centro da cidade. Sabia que, agora, aventurava tudo nesse afaire. Mesmo assim, ofertava a sua paixão felina e todo o seu presente de mulher vibrante à volúpia desenfreada do seu saqueador. E pressentia o futuro de desconsolo e vitimização, profecia que ora se realizava. — O que podia fazer, falou baixinho Joana de si para si, — eu era um instrumento musical em suas mãos enormes, tocava-me a seu bel-prazer por todo o compasso, tirava-me melodias sôfregas, afinava-me e desafinava-me, eu seria uma tola, se lhe resistisse, e ele tampouco me resistiu, porque nele despertei um desejo desabalado, que a mim muito gratificava.

Lembrou-se desgostosamente como jamais trocaram juras, não prometeram fundir os destinos, não discutiram a situação de um e outro. Porque eram os dois, ele e ela, casados. E se, embora se davam o respeito de não mencionar os companheiros, estes nunca ficaram alheios em absoluto à cólera amorosa que engolia Joana e Emilio. Ele não se negava a reconhecer que os outros pairavam como sombras inominadas, como um bloco de silêncio implicado nas conversas mais realistas, o não-dito a todo momento entranhando-se no dito, contaminando-o, infectando-o de sentidos inconfessadamente temidos.

Joana parou a recapitulação e confessou para si que não era bem assim, que a história estava mal contada em pontos-chave, que relatara tortuosamente e saltara passagens indispensáveis, que os acontecimentos coalhavam alegoricamente numa narração de novela (e ela nunca fora noveleira), que agregava sensações falsas à brutalidade dos cheiros, toques e umidades, que aquele romance findo esta tarde, em definitivo, nunca foi fácil para ela, como o parecia ser para ele, e que nada disso tinha a ver com Gustavo, o companheiro leal, mas com outros fatos, que ela julga não convirem, agora, narrar.

Eu peço calma ao leitor, porque, se Joana assim procede, há-de ter motivo, e fico eu aqui, junto de você aí, sondando como isso poderia continuar.

Mesmo porque Joana interrompeu o fluxo do passado, para arrumar-se, diante do espelho do elevador. Arrumou inclusive as feições do rosto, fingindo uma conhecida personagem, pois já-já chegaria ao apartamento, trazendo as compras que Gustavo lhe pedira.

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