jun 2014 25

coxinha

O reductio ad coxinha está se tornando um argumento universal para desqualificar os críticos. Adotado por quem fez de tudo para ridicularizar, desmobilizar e, em alguns casos, criminalizar os movimentos, coletivos e ativistas que intensificaram as lutas desde junho de 2013, é um reducionismo binário e rotulatório. Basicamente, só haveria duas opções hoje: ou você é pró-“povão” e está com Dilma, ou é coxinha e está com Aécio.

Em vez de entrar no debate sobre propostas concretas e pautas políticas (legalização do aborto e das drogas, direitos indígenas, luta contra homofobia, renda, moradia, meio ambiente etc), simplesmente achatam todas as críticas à “coxice” do outro lado. Ora, esse sempre foi o método da direita. A diferença é que, em vez de “coxinha”, eles falam “petralha”, mas é o mesmo esvaziamento com o sinal invertido. Felizmente, o mundo da vida é mais plural e admite muitas posições além dessa banalizada acusação mútua.

Pra quem já defendeu o governo, é triste ver governistas se entrincheirando não em pautas políticas de esquerda, mas numa mistura de deboche, autoelogio e surdez, historicamente tão característicos da direita brasileira. Neste ano, pelo visto, o nível do debate eleitoral, pelo menos pra presidente e governador, promete ser muito baixo. A menos que, coletivamente, seja possível encontrar meios e métodos de uma campanha paralela para preencher o debate de conteúdos.

jul 2014 06

Moons

As quatro luas galileanas descobertas pelo astrônomo em 1610 orbitando ao redor de Júpiter, graças ao recém introduzido telescópio com lente magnificadora 20x. Foram as primeiras luas encontradas noutro corpo celeste que não a Terra. A descoberta minou ainda mais o sistema de Ptolomeu (séc. II), já que definitivamente as luas de Júpiter não orbitavam a Terra. Embora contestado desde a antiguidade, o modelo geocêntrico gozava de uma fortuna crítica de 2 mil anos, era queridinho do catolicismo e do islamismo, e adotado com entusiasmo por filósofos como Aristóteles e Avicena.

As quatro luas galileanas são, com folga, as quatro maiores, dentre as 67 luas conhecidas do planeta gigante. Por ordem de proximidade a Júpiter, são elas Io, Europa, Ganimedes e Calisto (foto).

A primeira, Io, é repleta de vulcões e atividade tectônica, o corpo celeste mais geologicamente conturbado do sistema solar, um inferno dantesco coberto de lagos de enxofre e nuvens de dióxido sulfúrico. Daí a cor amarelo-esverdeada da superfície. Os vulcões de Io são tão altos quanto o monte Everest e o empuxo deles tão descomunal que a lava ejetada escapa do campo de gravidade, para formar uma nuvem de magma na órbita de Júpiter. Além disso tudo, pela proximidade, a lua é fustigada pelas tempestades de plasma geradas por aquele cataclísmico planeta.

Europa, totalmente diferente, é uma bola de gelo apinhada de despenhadeiros e canais. Tem um núcleo mineral de silicatos cuja afloração contrasta com o branco do gelo da superfície, que chega a – 160º C, tornando o gelo tão duro quanto granito. A lua conta com uma tênue atmosfera de oxigênio. Junto com Marte, Europa é séria candidata à vida extraterrestre. Debaixo da crosta congelada, a força de maré causada pela interferência gravitacional de Júpiter é tão grande que o calor produzido pode liquefazer a água, com ainda mais razão se for considerado o vulcanismo (https://gsa.confex.com/gsa/2007NE/finalprogram/abstract_117688.htm). A hipótese mais aceita é que, entre 10 e 100 km de profundidade, existiria um oceano de água líquida, o que totaliza o dobro do volume dos oceanos da Terra. Isto significa um potencial de vida extraterrestre (http://www.universetoday.com/42303/europa-capable-of-supporting-life-scientist-says/), pelo menos, semelhante ao que se verificam em fendas oceânicas, com moluscos, crustáceos e até mesmo peixes de profundidade. Em dezembro de 2013, análises de espectrometria da NASA identificaram a presença de certos silicatos na superfície europeana que podem estar associados a processo orgânicos (http://www.jpl.nasa.gov/news/news.php?release=2013-362).

A terceira das luas de Galileu, Ganimedes, é a maior lua do sistema solar. Ela é ligeiramente maior (2%) do que a segunda maior (Titã, de Saturno), tem o dobro da massa da Lua e chega a ser maior que o menor planeta, Mercúrio. É composta por uma mistura de gelo e rocha. Ela é tão grande que existe uma controvérsia se Galileu realmente foi o primeiro a observá-la. Registros compilados por um grupo de história da ciência de Pequim sugerem que o astrônomo chinês Gan De, que fez um estudo meticuloso sobre Júpiter no século 5 a.C., teria avistado Ganimedes a olho nu (http://en.wikipedia.org/wiki/Gan_De).

Finalmente, Calisto, a mais externa das quatro descobertas em 1610, é a segunda maior de Júpiter e terceira do sistema solar. Formada por rochas, gelo, amônia, silicatos diversos, tem uma muito tênue atmosfera de gás carbônico e oxigênio. Como está bem mais distante de Júpiter, o aquecimento gerado pela força de maré é bem inferior, de maneira que, se existir água em estado líquido, estaria localizada em oceanos tão profundos quanto 100 ou 150 km, debaixo da crosta congelada. Menos “midiática” do que as demais luas, Calisto no entanto foi contemplada como a lua jupiteriana mais propícia para uma colonização humana (http://tinyurl.com/pfavfvj), precisamente por se manter afastada dos efeitos deletérios do planeta Gigante, com baixos índices de radiação e estabilidade geológica. Além de conter água e oxigênio para reabastecer missões espaciais, a lua daria um bom entreposto no limiar do sistema solar exterior, inclusive para alavancar cosmonaves para outras estrelas, beneficiando-se do melhor efeito estilingue possível, tensionado a partir de Júpiter. Depois de Marte (2030-35), Calisto é o segundo destino mais visado pelos projetos de exploração do espaço extraterrestre, possivelmente na década de 2040 (http://trajectory.grc.nasa.gov/aboutus/papers/STAIF-2003-177.pdf).

As quatro luas de Galileu são tão sugestivas, em sua riqueza de potencialidades, que foram exploradas milhares de vezes na ficção não-científica, em livros, filmes, quadrinhos, videogames. Uma breve pesquisa na wikipídia mostra várias obras inspiradas, incluindo famosos como Isaac Asimov, Philip K. Dick, Stanley G. Weinbaum, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, Kim Stanley Robinson, Bruce Sterling e até H. P. Lovecraft, que em 1919 descreveu “filósofos-insetos orgulhosos e rastejantes” habitando Calisto.

Na sequência de “2001, uma odisseia no espaço”, o filme “2010” (1984, Peter Hyamns), a nave abandonada no primeiro filme é encontrada orbitando Io. Na série “Babylon 5”, Io possui a segunda maior colônia humana, depois de Marte, e operações de mineração em Europa (que ironia). Esta lua também é o lugar escolhido para um piquenique da turma do “Futurama”, num dos episódios. Já na versão mangá da série “Yamato”, a nave vai em missão a Calisto para resgatar os amigos, mas o herói termina refém das forças de Gamilon. Em Superman, da DC Comics, quando 100 mil criptonianos decidem terraformar uma anti-Terra, eles abduzem Calisto de Júpiter, a fim de criar o efeito de maré nos oceanos particulares do novo planeta.

Por último, e aqui encerro a divagação, Ganimedes, a maior das luas galileanas, foi o esconderijo escolhido por Zordon para abrigar suas frotas estelares, os Mega Vehicles, em episódio dos “Power Rangers”.

 

Fotos: Sonda Galileo (NASA, década de 90)

Dedicada à Cristina de Amorim.