out 2011 02

A chegada de Lampião ao inferno

O ressentimento do escravo separa o céu e a terra. Duplica o mundo real e as suas relações. Duplica-os na moral, cujos valores ordenam-se de fora, fixos, já estabelecidos. Cabem ao escravo então duas atitudes opostas. Como tese: confirmar e inventariar os valores (funcionários da filosofia, burocratas do Castelo etc.). Ou como antítese: negá-los na histeria do social sem, contudo, escapar de sua própria paixão ressentida. Pois o que o escravo faz não pode mudar nada, sem a participação direta do senhor, sem se tornar o senhor nas mesmas condições. O escravo espelha-se no senhor. Todo o cosmo fecha-se então sobre si, numa harmonia universal dos antípodas.

O escravo pensa o direito como reivindicação diante de um altar. Eis a vontade abstrata da lei, o estado, a moralidade, a humanidade do homem. Reclama a reparação da injustiça e exaspera uma indignação moral. Os escravos agrupados em rebanho acabam liderados pelo sacerdote. O sacerdote mobiliza as paixões tristes e se constrói no ideal ascético da pureza. O sacerdote prega sobre a dupla hierarquia de céu e terra (dever-ser e ser), teologiza as relações materiais para neutralizar a ruptura e, nada inocente, reduz a multiplicidade à escolha entre Deus e o Diabo.

O senhor, de outra feita, não separa o que ele faz do que ele pode. Move-se no espaço alisado dos sertões do real. Em termos marxistas, diz-se: das relações sociais de produção, da materialidade das lutas, do trabalho vivo. Então, para o senhor, o direito não se separa do sentido da terra. Coincide com a potência e a virtude (direito = potência = virtude), de maneira que o senhor pode constituir ele mesmo o que é justo, na prática, na afirmação de valor. Eventual oposição do jus à Lex se dará como reflexo de uma relação absolutamente interna, interna dos efeitos às causas e vice-versa. Não se separam o que o senhor pode e o que ele faz.

Evidentemente, não cabe uma sinonímia entre o senhor e o escravo e as classes dominante e dominada, como se fossem a forma e o conteúdo da Grande Narrativa para as relações de poder. Não se faz apologia da aristocracia dos poderosos. O senhor e o escravo atuam como personagens de conceito: que podem se exercer de múltiplas maneiras, nos riscos e ameaças da floresta dos lobos. Não é possível identificar um substrato sociológico ou fixar um referente, a fim de atribuir o papel de senhor ou escravo a isto ou aquilo. O senhor poderá ser o filho do escravo.

A dialética tenderá sempre a servir à classe dominante, interessada em reconciliar os sujeitos e os valores na sua realidade. Tentará chegar a termo nos antagonismos, perderá os dedos mas não os anéis, de modo a preservar a totalidade, o modo de produção global.

Do ponto de vista ético, a formulação propugna para que os que lutam pela mudança ajam como senhores, que sejam fortes e tenham coragem, que decidam na virtude de ser gauches da vida. Que rompam as injunções morais e os mundos simbólicos impostos de cima das nuvens, para afirmar e constituir um outro mundo, mais afirmativo e menos ordinário. Que vivam de outro modo a liberdade. Quando isso acontece, rasga-se o céu azul dos valores e prevalece o mundo diabólico da revolução e da festa, sobre o cosmo da segurança e do medo. É a algazarra dos demônios ao meio dia, que põe fim à história de muitos erros e instaura a desordem do desejo.  Libertando-se da consciência ressentida do escravo, escapando da dialética do poder que o aprisiona, o novo sujeito político pode realizar-se como poder constituinte.

mar 2012 24

O Alexandre é daquelas pessoas que, quando você conhece, percebe que não precisa postular espíritos livres. Advogado, criminólogo, jurista, filósofo, crítico musical, ex-defensor público, pianista, enxadrista, boêmio e militante de todas as horas, das longas noites de infâmia e dos dias brilhantes de vitória. Conheci-o num dos infinitos grupos de estudo na universidade. No primeiro bar, fez questão de deslindar cada citação oculta de minhas falas: “Sartre, né?”, “agora, Benjamin…”, “Oswald…”. Entre bebidas e narguilés, foram muitas maratonas de cinefilia, intermináveis Tarkovskis madrugada adentro, sete assistências a Terra em Transe, mais de vinte da primeira sequência de Fellini 8 1/2. Compartilhamos da preferência por Michel Foucault (o Alexandre estava tão saturado do pensador que efetivamente conversava com ele nos sonhos, pedia-lhe conselhos), pelas Bachianas (sobretudo o 1º movimento da 3), pelo xadrez (vício que herdou do pai, com farta biblioteca enxadrística em casa), pela black music setentista (cuja história no Brasil está para ser escrita), por Gilberto Gil (a quem estendemos uma faixa “Para Presidente!”, no show) e por um lulismo de combate. Escrevemos um livro juntos. Formávamos um círculo onde me sentia como num romance de Cortázar, afogados que vivíamos numa erudição intransigente, entre livrarias, botequins e cafés.

Mas Alexandre não é apenas um diletante. Já percebera isso quando conjugávamos as forças no movimento estudantil. Ele, apaziguador e todo carisma; eu, destrutivo e debochado. Ambos, embriagados de ironia, inconformismo, e do Grande Amor que move a boa política. Na agitada cena do primeiro mandato do presidente Lula, polemizamos com esquerdistas e governistas. Infiéis da balança, estivemos juntos na chapa tropical-anarquista Babilônia, no fogo cruzado entre as tropas da UJS e as seitas do PSOL. Uma defesa do governo Lula além dos governistas, além do petismo (por vezes ressentido, noutras simplesmente aparelhado), além do próprio Lula. Como bons nômades e pós-modernos, era fácil desqualificar-nos. Entre a esquerda ascética, éramos festivos, entre festivos, muito “movimento estudantil”; entre socialistas, anarquistas; entre anarquistas, muito vermelhos; junto a militantes, intelectuais; entre intelectuais, muito militantes… O nômade não habita, ele transita, e transitando, se torna difícil agarrá-lo, domesticá-lo, — e isso consiste numa postura política, um surplus de vida, pois permite que o nômade sucessivamente se coloque mais além, ali, naquele lugar imprevisto onde os dispositivos de poder (ainda) não estão à nossa espreita. O nômade nunca confessa tudo e nunca é totalmente confiável: persiste um suplemento de desconhecido, de mistérios e perigos.

Alexandre então ingressou na defensoria pública do estado. E passou a jogar no jogo do judiciário, a alta casta do estado brasileiro, esse imenso cenário de dementes. Somente um espírito artimanhoso, felliniano, poderia dançar nessas bandas sem se bandear, sem se tornar um paralítico mental, sem burocratizar a alma. Alexandre usou de toda a sua ginga para defender o réu brasileiro, preto e pobre, da gana punitivista onde comparecem juristas, jornalistas e os almoços de classe média. Apesar dos labirintos do funcionalismo, Alexandre conseguiu chegar ao núcleo de terras e habitação da defensoria, onde escreveria parte da história da instituição nos próximos cinco anos. Ali, nunca foi defensor de gabinete. No NUTH, participou da construção de um bunker da resistência militante, junto de outros defensores incondicionalmente defensores públicos, junto de estagiários duros de roer, que não estavam ali para bajular e ser escravizados, como muitos patrões esperam deles. O Grande Amor do NUTH, a sua produção de subjetividade. Defenderam os pobres contra o rolo compressor de poderes públicos, da propriedade, dos donos da cidade. Movimentos sociais e NUTH compunham a mesma articulação política, uma das poucas articulações potentes contra o consenso progressista que erradica os pobres para longe. Lembro-me que, nessa época, ele estava tão engajado na missão, que era difícil falar com ele. De fato, nem apareceu em meu aniversário de 30 anos, por causa de uma remoção na calada da noite, onde teve de atuar. Alexandre aparece no fronte das batalhas, por exemplo, neste documentário (a partir dos 11:20). Nas muitas contra-operações, o defensor levou bombas de gás, borrachadas, sprays de pimenta, plantou-se numa casa em plena demolição e resistiu a seguidas intimidações de policiais e funcionários da prefeitura.

Num Rio de Janeiro higienista e urbanista, olimpicamente fascistizante, Alexandre realmente incomodou muito. O NUTH se tornou uma pedra no sapato dos governos. Toda mobilização que dependa do estado também se sujeita à desmontagem por dentro dele. Basta trocar os cargos de confiança, transferir os funcionários incômodos, mudar a gestão. Na virada para 2011, a nova gestão da defensoria, mais alinhada ao governo do estado, fez a diferença. Negativamente. Alguns núcleos foram comprometidos na atuação direta com movimentos sociais e lutas urbanas. Alexandre foi transferido para o interior. Os estagiários militantes despedidos e processados. Lugar de defensor passou a ser o gabinete. De estagiário, a senzala do gabinete. Festas no Copacabana Palace deram o tom da mais nova Defensoria, que saía do casulo mais glamourizada, mais requintada, nova-rica às beiras do esnobismo, “limpa” de movimentos e da realidade. Sinais do aburguesamento de uma instituição, até então, bem reputada nos meios ativistas. O ar se tornou irrespirável para as porcas borboletas.

Como nômade, Alexandre percebeu que estava na hora de pular fora. A mais instigante das artes circenses: a evasão dos aparelhos de captura. A única saída do escravo quando pungido pela dialética do senhor está no êxodo pelo deserto. Um absurdo, disseram, renunciar a uma salário vitalício de quase vinte mil. Tentaram de tudo para que ele voltasse atrás: ofereceram trégua, propuseram licenças, centenas de telefonemas e e-mails, o defensor-geral ligou pra mãe dele… Mas não teve jeito, a exoneração era incontornável. Abriu-se uma nova manhã em sua vida, ainda novos desafios, novas lutas. Atingidos no ego, — como alguém poderia desprezar tal status e de modo tão acintoso?, — só puderam mesmo considerá-lo louco.  E então vários se fecharam em sua mediocridade corporativista, aos 33 anos com a boca escancarada de dentes. Não podem acreditar eles, arrivistas e dementes, da insuportável verdade. Os espíritos livres existem.

 

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Este texto é a contribuição do blogue à campanha Articulação Fórum da Justiça / Alexandre Mendes, para Relator Nacional da Plataforma Dhesca Brasil, “uma articulação nacional de 36 movimentos e organizações da sociedade civil que desenvolve ações de promoção, defesa e reparação dos Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca), visando o fortalecimento da cidadania e a radicalização da democracia.

A campanha aceita subscrições individuais ou coletivas (de organizações, movimentos, coletivos etc), basta manifestar o apoio “até 30.03.2012, às 12h, mediante e-mail a <forumjustiça@gmail.com> – com o nome completo da entidade/organização a que vocês pertencem“.

A mensagem completa do pedido de apoio pela Articulação Fórum da Justiça:

“Solicitamos APOIO à candidatura do ex-defensor público, e atualmente advogado e pesquisador em Direito à Cidade, ALEXANDRE F. MENDES, para o cargo de Relator Nacional em Direitos Humanos (Direito à Cidade) da Plataforma Dhesca Brasil.

A Plataforma Dhesca Brasil  é uma articulação nacional de 36 movimentos e organizações da sociedade civil que desenvolve ações de promoção, defesa e reparação dos Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca), visando o fortalecimento da cidadania e a radicalização da democracia.

Seu objetivo geral é contribuir para a construção e fortalecimento de uma cultura de direitos, desenvolvendo estratégias de exigibilidade e justiciabilidade dos Dhesca, sendo que uma das estratégias adotadas são as Relatorias de Direitos Humanos.

Essa candidatura se mostra totalmente apropriada e desejada pela imbricação original do Fórum Justiça com o GT Moradia, facilitado por integrantes da democrática gestão do Núcleo de Terras e Habitação – NUTH, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, no período de 2007 a 2011.

O candidato, que atuou no NUTH durante o referido período, sempre se destacou por seu empenho e tenacidade na defesa jurídica de dezenas de comunidades pobres da cidade do Rio de Janeiro e na formulação de estratégias de proteção ao direito fundamental à moradia, tendo destaque nos casos de despejos forçados causados direta ou indiretamente pela realização dos denominados “Megaeventos” (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos de 2016).

Além da reconhecida experiência profissional na defesa do direito à cidade e à moradia, o candidato possui destacada atuação teórica e acadêmica sobre o tema, tendo obtido, recentemente, com distinção e louvor, o título de Doutor em Direito da Cidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. E é autor de diversos artigos e trabalhos acadêmicos, ministrando também uma série de aulas e palestras em âmbito nacional e internacional.

Portanto, por associar ampla e rica experiência, teoria sólida e conduta ética irreprovável na defesa do direito humano à cidade, confiamos que ALEXANDRE F. MENDES possui todos os requisitos e atributos para exercer o cargo de Relator Nacional de Direitos Humanos.’

 

maio 2012 13

“Lembro-me de uma época em que soltava invectivas incendiárias menos pelo gosto de escandalizar do que por necessidade de escapar a uma febre que, sem o exutório da demência verbal, teria me consumido.” – Emil Cioran

Admito: existe um misantropo em mim. Senta-se no fundo do palco. Basta prestar atenção para encontrá-lo sempre no mesmo lugar, com seus cabelos brancos, calmamente alternando goladas de cachaça e cigarros Derby. Quase de bastidor, contempla o barulho e a fúria do movimento da vida em que os outros se engajam. Embriagados de urgências e afazeres, os outros personagens passam pelo misantropo como se ele não existisse. Não têm tempo pra isso.

Mal sabem eles que, na noite da noite, quando todos estão esgotados e uma modorra se instaura no palco, o sujeito vem à frente. Nessas raras ocasiões, se pudéssemos nos esconder entre as cadeiras do teatro vazio, talvez teríamos a sorte de ouvi-lo. E ele diz:

Até quando essas disputas de verdades? Daqueles que se gabam delas possuir, e que por elas guerreiam como ícones sagrados? Agitam-se, esbarram-se, despeitam-se, atacam-se, e vão arrebatando-se de fanatismos, uns depois dos outros, uma sucessão de vinganças e ofensivas. Alguns afogam-se em rancores e invejas, outros navegam sobre eles na direção dos ventos, em qualquer caso sufocando a inteligência de vaidades, orgulhos e artigos de fé; — e para quê? Obcecaram pelo real, pelo imperativo de que algo de real definitivamente aconteça consigo, algo que verdadeiramente valha a pena. Estão cansados de esperar a sua vez, que parece jamais vir. A ponto de degustar até o desastre e a desgraça, saborear qualquer situação excepcional, mesmo que negativa, humilhante; o que consterna o rosto e pontua a fala de exasperações e demandas imediatas, e tudo isso os preenche de algum sentido.

Obstinaram-se em viver seu tempo histórico, o coração armado, a mente tensa, e todos os momentos modulados à máxima concentração de forças. Inconfessadamente, querem que a existência os faça doer e ranger, para provar acima do benefício da dúvida de que estão vivos, sim, vivos aqui e agora. Os mortos não caminham conosco: nós caminhamos ao Sol! Essa certeza vital os restitui o ímpeto a cada manhã, mesmo depois das piores noites. E respiram fundo esse ar vicioso, carregado de humores venenosos. Odeiam com mais intensidade do que amam. E quando amam, amam a falsa imagem que fazem de si mesmos. Seus ódios tragam a parcimônia, deixam-se tomar por um furor que neles causa motivação e até alegria. Pretendem explorar paisagens inverossímeis, assediar os castelos da tradição, devorar os ídolos de outras gerações, sem qualquer condescendência com quem quer que seja.

Meus contemporâneos batalham pelo futuro da humanidade. E eu lá tenho, ou alguma vez tive algum compromisso com a humanidade? desde quando? mas que me importa a humanidade? que importa essa mística, o velho erro e todas as cândidas intenções humanistas? Se dizem que vai acabar, me traz a sensação de alento, porque o humano nunca se colocou como ômega universal. Não sou atravessado pela humanidade, não é a minha condição. Chega desse clima de idade média, simpatia pelo inferno e gozo secreto ante as visões de fim de mundo. Escatologia de condomínio fechado, paranoia de rico, humanismo que lubrifica a máquina de torturas da Colônia Penal (menos rangidos! menos gritos!) O enfrentamento é viver e não aspira ao conforto de shopping center nem aos idílios plastificados e prazeres customizados da geração.

Se não entenderam até agora, não vão entender nunca. O padeiro não fabrica pães pelo bem da humanidade. Vejo no outro as mãos, a pele, a dor, a loucura, a terra, a Lua, (e mesmo um quê de imortalidade), porém não posso nele enxergar a imagem e semelhança do humano. Do outro, quero a terra que levarei para o meu jardim secreto, um mundo delirante onde a única substância é o absurdo. A misantropia é condição do amor, esta afecção da imaginação, atividade imaginadora em que o outro se cria. E se cria numa imagem onde não me reconheço mais. Sem entrar nos jogos pautados pelos “resultados”, cujo nojo é preciso provar até o fim para dele se libertar, imunizado da doença infantil que acomete os humanos. Tenho o direito à misantropia.

E quanto às toupeiras em posições de mando ou status, que se comprazem com as ninharias e nulidades que obtiveram numa vida obesa? Esses não merecem mais do que o desdém. Eles e todos aqueles que os servem voluntariamente, presos em medos, resignações e impotências. Para estes, só há uma via para existir: revoltar-se. Mas odiá-los seria superestimá-los. Sentir rancor, divinizá-los. Nada avilta mais à sensibilidade do que o ressentimento diante da imundície deste mundo. Sinto-me absolutamente imune diante das mesquinharias que os fazem acordar cedo e alimentar a Grande Máquina. Uma derrisão sem limite. Se possuo uma vaidade, é do tamanho da mediocridade que encontro no dia a dia, e nada mais. Podem tentar enlamear-me com suas mazelas desinteressantes e conquistas ridículas, incitar-me ao remorso, à ferida moral, ao derrotismo romântico, mas ressurgirei intocado. Suas taras não me interessam. Fugirei para grandes espaços arejados, para o extremo sul do Brasil, e lá me confinarei em mim mesmo, sonhador de todos os mundos, na lembrança incandescente de ternuras e barricadas, nos horizontes infinitos dos pampas. Munido da grande ironia, renascerei intocado da vulgaridade.

O mestre romeno tem razão, às pessoas falta a qualidade da deliquescência. É preciso aplicar na humanidade a fórmula do solvente universal.

 

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À Maria Ivonilda, do blogue Ademonista.

set 2012 27

Na minha escola, era proibido jogar bola no pátio do recreio. As bolas haviam sido banidas pela direção. Mas a gente dava um jeito. Costumávamos levar o lanchinho em tapauer, já que as lancheiras eram “coisa de menina”. Os recipientes plásticos tinham uma dupla função. Depois de comer, fechávamos a tampa e eles faziam as vezes de bola. Um dia, fui parar na direção por isso. A diretora me fez duas perguntas. “É seu?” E depois: “menino, os pais não te ensinaram a dar valor às coisas?” Perdi a minha bola. Foi o meu primeiro contato explícito com o valor. Mais de uma década depois, fiz faculdade de engenharia. Uma das matérias que me encantava, e a única que acabei me destacando, foi matemática. Cursei obrigatórias e eletivas: cálculo diferencial e integral, álgebra, estatística, cálculo estocástico e econometria. No final, contente de avançar no fluxograma do curso, fiquei surpreso quando um professor me disse: “Agora você pega tudo isso, vai pro mercado financeiro e fica rico.” Por estranho que pareça, tive uma sensação parecida como quando fora repreendido na escola.

Dar e tirar valor

Depois do episódio da tapauer, fui educado que as coisas têm um valor em si mesmas. Um valor objetivo. Esse valor é representado por um número de unidades da moeda. O valor é medido pelo dinheiro. Embora o preço da coisa varie, existe um valor médio. É que as oscilações de oferta e demanda acabam convergindo, ao fim e ao cabo, num valor intrínseco. O dinheiro, por sua vez, se ganha com trabalho. O trabalho da gente também tem um valor. Esse valor igualmente varia, mas no final sucede uma média. Quem define essas médias, o preço das coisas e do trabalho, é o mercado. A nossa economia funciona pela lógica do mercado, de maneira que cada um receba o seu. Cada um possa ter acesso aos valores que faz jus. Para corrigir as distorções, existe o estado. O estado regula o mercado. O mercado em condições saudáveis exprime o equilíbrio da circulação dos valores na sociedade. Regular o mercado significa evitar que os preços desequilibrem o valor intrínseco das coisas e do trabalho, mantendo a ordem econômica. O dinheiro, portanto, permite medir simultaneamente o valor das coisas e o valor do nosso mérito, esforço e qualificação enquanto trabalhadores. A medida do dinheiro ordena tudo.

Mas uma coisa ficou latejando na minha cabeça desde a escola. Estou falando de um detalhe na segunda pergunta da diretora, depois que ela estabeleceu que a propriedade da tapauer era minha (ou dos meus pais). Ela falou em dar valor às coisas. Opa. Se as coisas têm um valor intrínseco, por que ela me exigiria dar a elas algo? Por que as coisas afinal precisariam de mim, deste menino desobediente, para ter valor? Tem alguma coisa que não fecha. Talvez o valor não seja tão objetivo assim.

Volto a pensar no meu tapauer-bola, todo riscado das peladas do pátio, quase destruído. Qual era o valor daquilo pra mim? O valor do tapauer era afetivo. Eu estava me lixando pra quantidade de trabalho médio incorporada nele. Nem exprimia pra mim algum dinheiro que eu pudesse obter vendendo ou trocando a coisa. O tapauer não representava uma medida quantitativa. Era pra jogar bola ora! Uma atividade social e lúdica. Reunia os cupinchas no preciosíssimo tempo livre, entre as aulas sonolentas; um entreato de liberdade do tempo confinado e disciplinado pela escola. No tapauer, existia um valor subjetivo, relacional, nem por isso menos real, um valor todavia não reconhecido pelo poder constituído. A diretora não podia aceitar o valor afetivo do tapauer. Esta me educava a dar-lhe um outro tipo de valor. Que não era só valor de troca (comprometido com a deterioração), mas também valor de uso (guardar o alimento, sua função socialmente determinada). Mas os meninos recusávamos os valores de troca e de uso que nos eram cobrados a reconhecer. Nesse processo insurgente, desafiávamos não só a disciplina da escola, mas também a estrutura social íntima de nosso mundo. Contestávamos na práxis a lógica do valor. E éramos mais ricos por isso.

Fetiches e afetos

Quem sabe, o raciocínio valha pra todas as coisas. Todas com uma dimensão afetiva. As relações que crio com os outros pegam nas coisas. Sabe disso quem manuseia roupas de entes queridos falecidos, tão impregnadas de subjetividade. Tudo isso que nos faz sentir de tantos modos diferentes. Vale inclusive para as relações que crio comigo mesmo (o que não deixa de ser um outro). O valor medido por dinheiro não apreende a singularidade do que está em jogo. Aquela tapauer embutia um mundo inacessível para a métrica padrão. O valor afetivo se compõe de uma miríade de afetos que compartilhamos ao longo da vida. Com isso, na verdade, as coisas se abrem. Tornam-se peças de um quebra-cabeças maior, sem objetividade intrínseca. Os objetos se interconectam aos sujeitos na experiência. Assim, só pode haver objetos essencialmente parciais, que anseiam ontologicamente pelo preenchimento afetivo; bem como sujeitos parciais, que afetam porque não se bastam dentro de si.

No Capital, Marx fala do fetiche da mercadoria. No século 19, a antropologia inventou o conceito de fetiche para comprovar, agora com vezo científico, a inferioridade dos outros povos. Eram primitivos porque não conseguiam separar os objetos dos sujeitos. Viam entidades, potências míticas e qualidades sensíveis entranhadas em todo lugar. Eram incapazes de enxergar a coisa como coisa, o seu valor interno enquanto objeto separado do restante. Estavam presos a um mundo fetichizado. Marx vai dizer que os brancos ocidentais também vivem o seu fetiche. Conferem às coisas uma qualidade incorpórea que jamais esteve lá “objetivamente”, e a partir do que se relacionam e organizam a sociedade. Precisamente, o valor. Tal credo se arraigou tanto nessa tribo que a maioria o toma por inquestionável. Como se, de fato, as coisas tivessem um valor objetivo, e a economia não passasse da movimentação mais ou menos espontânea, mais ou menos organizada, dos inumeráveis valores sociais. Como se o dinheiro pudesse representar o lugar, o tempo e o direito de cada qual, segundo a ordem cósmica da economia capitalista. Como se o mercado fosse dotado do atributo demiúrgico de atribuir a medida a todas as coisas. O ápice da naturalização do valor se dá com a propriedade. Isto fica claro quando a propriedade é de alguma forma problematizada, ao que se seguem o terror, o pânico, a ira dos proprietários, como se a própria harmonia universal tivesse sido ameaçada.

O leite que bebo no café da manhã passou por um longo percurso, da fazenda à fábrica de processamento, à embalagem e controle de qualidade, ao sistema de distribuição e varejo. Não posso ver o circuito produtivo por trás do leite que chega prontinho na prateleira. Quando passeio pelo shopping, tampouco posso saber de onde vêm as roupas na vitrine. Se foram confeccionadas por bolivianas em regime de trabalho semiescravo na Zona Norte de São Paulo, por adolescentes púberes em sweatshops na Mauritânia, ou made in China. Não fui educado pra me preocupar com isso. O que deve importar é a etiqueta, com que posso avaliar se o produto vale o preço. Mil e uma operações de trabalho foram abstraídas, e junto dessa abstração uma montanha de relações entre patrão e empregado, exploratórias, racistas, sexistas, insalubres, violentas, toda a organização do trabalho. O problema do valor não está só em quantificar o essencialmente inquantificável, mas também apagar uma relação social desigual. Apagá-la convenientemente.

A proposta socialista

Nesse contexto, uma proposta que se vê por aí consiste em racionalizar a lógica do valor. É medir criteriosamente o quanto vale cada coisa, seu justo preço. Esse valor pode ser calculado pelo tempo de trabalho incorporado na coisa, o tempo socialmente necessário para a sua produção. Segundo essa lógica, o valor do trabalho também pode ser medido segundo critérios racionais. É preciso desenvolver essa ciência, que calcule cuidadosamente a equivalência entre as coisas e o trabalho. Cada ofício numa escala de valorização, um coeficiente xis que você multiplica pelo tempo ípsilon efetivamente trabalhado, tendo como resultado o seu salário. O preço do leite passa a embutir os custos envolvidos no conjunto de operações produtivas, da vaca até a mesa. As roupas igualmente são dotadas de um valor que faça jus ao trabalho dos envolvidos, sem margem para o sobrepreço. Remuneram-se, com justiça, os trabalhadores envolvidos, pagam-se as cotas devidas e cientificamente justificadas, sem gerar lucro para ninguém. A lógica do valor passa a ser aplicada por uma razão superior, com critérios científicos, regulando o mercado de modo que não sucedam desequilíbrios e injustiças. Essa é, grosso modo, a proposta socialista. Instaurar uma razão planificadora da produção, um estado-plano, que decida o que produzir, como, onde, quanto e para quê. Foi tentado algo parecido, em alguns momentos, no socialismo real do Leste Europeu e URSS. Atribuíam-se metas, cotas, tabelas, padrões, fórmulas, toda uma matematização para que a economia funcionasse ordenadamente, com base nos valores de uso. Sem assim concentrar lucro, renda, propriedade, os males capitalistas, mediante uma cadeia de equivalências estritamente racional e metódica.

Fico pensando, nessa sociedade, se poderíamos jogar bola com o tapauer na escola. É bem provável que eu teria sido repreendido da mesma maneira. Talvez a diretora alterasse a primeira pergunta. Em vez do “É seu?”, diria, em tom moral, “Você sabe que foi o Povo quem fez isso?”. Ou, mais sinistra: “Você sabe que isso é do Estado?”. A segunda pergunta permaneceria igual, sugerindo que não dei o mesmo valor que o Povo ou o Estado dão. Tenho a suspeita que o socialismo real fracassou não pela falta de concorrência ou motivação produtiva, essas bobajadas que contam pra gente, como se no mundo capitalista os peixes grandes não colaborassem promiscuamente entre si, forjando o ideal de competividade apenas para a base, para que as pessoas passassem a digladiar-se tolamente umas contras as outras, na arena de trabalho, em vez de se aliarem todas contra os patrões e o sistema injusto. É possível ponderar que o socialismo real tenha fracassado por continuar considerando o valor como objetivo, no que não difere muito do velho capitalismo. Ainda que esse valor objetivo seja chamado “valor de uso”. Busca-se erigir uma sociedade unitária, disciplinada, harmônica, comportada. Porém, fechada a novos usos, aos atributos sensíveis, às dinâmicas afetivas e às potências míticas, a tudo isso que a vida é mais, além das tabelas e fórmulas matemáticas, além da lógica do valor. Esses socialistas seguiram Marx ao pé da letra. Mas ao combater o fetiche negativo da mercadoria, mataram o fetiche positivo. Alienaram-se da magia da vida. Perderam de vista o excesso de desejo e imaginação que faz  as pessoas plenamente livres. Numa palavra, o imensurável. O que não tem nem pode ter medida.

O capitalismo afetivo

O próprio capitalismo se adaptou para captar o valor afetivo. Os capitalistas não fizeram isso porque sejam bonzinhos, mas porque é mais eficiente e lucrativo fazê-lo. Não consigo afastar a ideia que foi assim que o capitalismo real superou o socialismo real. A sociedade socialista proibia múltiplos usos e liberdades. Retificava todos conforme a reta razão da ciência e do estado. Aplicava uma moral de bom cidadão socialista, uma moral pouco permeável em qualquer lugar que se olhasse. Já a sociedade capitalista, mais maleável e transigente, integrava os excedentes e desvios em sua própria dinâmica. Se uma se preocupava em negar o desejo e proibir o excesso, a outra preferia governá-los.

Querem ouvir rock´n roll e dançar moonwalk? ótimo, venderemos todo o tipo de música. Querem agitar a vida sexual? ótimo, eis uma cultura pornô, sex shops, michês e prostitutas de luxo. Querem conhecer a natureza selvagem, entrar em contato com o cosmos, defender o verde da floresta contra as forças malignas do progresso? Ecoturismo, esoterismo, ecologismo! Querem a revolução? venderemos camisetas de Che Guevara… Pouco importa o quê, it´s business stupid.

Lá pelos anos 1960 e 1970, o capitalismo sofreu uma grande transformação. O novo espírito do capitalismo funciona a partir do valor afetivo. Sua métrica muda completamente.  Opera a partir do imensurável. Os cabeças do novo capitalismo reconhecem não existir razão intrínseca nas coisas ou no trabalho, do que se poderia atribuir um valor objetivo. O valor não tem mais como ser medido, por exemplo, pelo tempo de trabalho incorporado nele, por qualquer outra aritmética meramente quantificadora. O valor afetivo rigorosamente não tem preço, não pode ser submetido à velha lógica dos valores de troca e de uso. Nesse cenário, não seria irracional uma propaganda televisiva mostrar meninos saudáveis e alegres jogando futebol com tapauers no pátio da escola. Claro, nessa hipótese, seriam tapauers diferenciados, recipientes adaptados ao multiuso, com um design especial para famílias descoladas. E é esse componente afetivo que predominará na definição do preço, e não admiraria se esses tapauers modernos custarem bem mais caro. A atribuição de valor a um tênis pouco tem a ver com o circuito produtivo de confecção e distribuição. Tem muito mais a ver com a marca, a eficácia da publicidade, as imagens e os afetos que os publicitários consigam coalhar como parte integrante do produto. Minha escola estava mesmo desatualizada. O próprio capitalismo já aprendeu a dar valor afetivo às coisas.

Isto não significa que o valor desapareça como fetiche hoje. Mas perde qualquer ambição de representar objetivamente as coisas e o trabalho. A medida perde a fixidez, se torna um limiar. A economia política clássica e a neoclássica entram em crise. É o canto do cisne das pretensões liberais clássicas, a aparição do neoliberalismo. O neoliberalismo exprime o tipo de governo de quando o capitalismo desiste da lógica quantitativa do valor. Esse novo modo de governar se regula pelas finanças. Não que as finanças sejam algo novo no capitalismo. Na realidade, a relação de débito e crédito vem desde o neolítico precedendo a própria existência da moeda, e o sistema bancário existe pelo menos desde os cavaleiros templários, no século 12.  No entanto, agora, o sistema financeiro se reveste de absoluta primazia. É ele quem passa a mediar o valor. Menos como uma cúpula superpoderosa nalgum lugar específico, do que como uma mediação interna a todas as operações econômicas. O crédito, o investimento e os juros compõem inextricavelmente o funcionamento econômico. A vida é financeirizada.

Comunismo da desmedida

As finanças são o único modo de conviver com a ruptura da medida. As bolsas de valores flutuam junto com as incertezas, as nebulosas, as ondas de choque e as vertigens da nova economia. Bilhões se criam aparentemente do nada, outros bilhões evaporam, fábulas mudam de mãos a altíssimas velocidades. O valor se dissolve como fluxo. E flui sem parar sobre as fronteiras nacionais e regionais. Nesse modo de governar, não se pretende mais gerenciar a equivalência para manter o equilíbrio do todo econômico. Agora, o desafio é governar a não-equivalência, assumindo a turbulência inerente do mundo da produção. Porque não tem mais receita. Não tem outro jeito de continuar sustentando a desigualdade e a injustiça. Então é caso de governar a instabilidade mesma, garantir o valor em condições de vazamentos alucinados de produtividade. E assim desconjurar a turbulência e controlar o seu assanhamento político: o tumulto. A governabilidade depende da capacidade de administrar uma crise tornada permanente. O neoliberalismo vem junto do hard power contra a disseminação global do tumulto. Por outro lado, as pretensões racionais e racionalizantes do socialismo e das esquerdas se mostram nostálgicas, obsoletas. Hoje, as forças produtivas se acham muito mais sofisticadas, e não existe marcha ré na história. Em vez do plano homogêneo que o dinheiro pode medir e o mercado organizar, como nos sonhos fordistas do pós-guerra; sucedem inúmeros planos entrecruzados, heterogêneos, incompossíveis. Muitas esquerdas sonham com um futuro passado.

No rodamoinho financeiro e suas bolhas, se torna indispensável uma outra matemática. Outra natureza da medida, outras premissas e outras variáveis, que levem em conta a imensurabilidade, a irreversibilidade, a heterogênese, a homeorrese. A história da matemática marcha ombro a ombro com o desenvolvimento financeiro.  A econometria se esforça para compreender mercados multidimensionais, lógicas não-lineares, fractais, movimentos brownianos, processos de Wiener, teoria do caos, cadeias de Markov, cálculo estocástico. Não é por acaso. E também não foi por acaso que meu professor (curiosamente, ele se chamava Milioni) disse que eu poderia ficar rico com a econometria. Eu costumava estudar matemática pra entender coisas como o conjunto de Mandelbrot ou o paradoxo das paralelas, não me ocorrera que poderia servir para trabalhar para o sistema financeiro. Deja vu. Era novamente o menino fazendo um uso inútil, desperdiçando as coisas com seus amiguinhos não-enquadrados. Comecei a pensar, então, se não era possível resistir do mesmo modo clandestino e subversivo quando éramos crianças. Organizar com os cupinchas, na alegria e desobediência, uma práxis. Quer dizer, jogar futebol matematicamente, além da imposição do valor pelo sistema financeiro e o neoliberalismo. Nem tanto renegar o poder de abstração e o efeito de liquefação das finanças, mas roubar-lhe o fogo, numa ação coletiva dentro e contra o próprio sistema.

Hoje vejo como essa pergunta não se orienta por algo a fazer. A revolução e o comunismo não são algo ainda a ser feito. Projetá-los num futuro bloqueado é tão impotente quanto identificá-los num passado frustrado. É que essa desmedida já está sendo realizada coletivamente por muitos grupos, dispersos, imanentes, com maior ou menor grau de ânimo rebelde. Organizam-se produtivamente a partir do valor afetivo: maximizam afetos ativos e bons encontros, minimizam os passivos e ruins. Resistem quando necessário. Reexistem sempre. Do menos fazem o mais: na favela, no devir índio, na internet bárbara. Recusam a imposição do valor, noutras palavras, o puro mando da forma de governo contemporânea. Pautam-se mais pelo compartilhamento que pelas trocas, pela cooperação do que concorrência, pela paridade e camaradagem em vez da verticalização. Reafirmam-se no singular. Conceitualmente, podem ser a multidão de que fala Negri, as máquinas nômades de Deleuze e Guattari, o povo antropófago por vir, a classe selvagem sem nome. Essas experiências reafirmam o propósito de viver além do valor. Anseiam por um viver bem. Propugnam por uma espécie de comunismo pós-moderno e heterodoxo. Vivem na pele, com o que se relacionam ao infinito, uma insuficiência intensiva e qualitativa.

Mas aqui não cabe, esquematicamente, opor o quantitativo ao qualitativo, o produto ao processo, o extensivo ao intensivo, a normalidade vazia à superabundância de uma vida vivida com coragem e generosidade. Queremos o pátio para nós e não aceitaremos mais as injunções da diretora. Queremos a matemática avançada, o cálculo estocástico, o sistema financeiro como um todo, todos seus recursos e artimanhas. É reapropriar tanto a riqueza social, quanto o poder líquido de mobilizá-la em suas infinitas escalas e níveis. Queremos autonomia para produzir sem valor. Queremos tudo, porque é tudo nosso. Quero a bola de volta.

 

 

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* Devo doses cavalares deste ensaio ao livro O casaco de Marx (Peter Stallybrass, trad. Tomaz Tadeu, Autêntica), além dos 3 livros do Capital e dos Grundrisse, de Marx, e toda a crítica à teoria do valor elaborada por Antonio Negri e os autonomistas operaístas, como Christian Marazzi, Carlo Vercellone, Andrea Fumagalli, Giuseppe Cocco e Gigi Roggero.

** Agradeço ainda à diretora da escola e ao professor de econometria.

nov 2012 20

A consciência negra é forte quando se põe em movimento. Quando se afirma diante do rosto cínico de uma sociedade que se recusa até a reconhecê-la como protagonista. Mas o negro existe. Insiste em existir. A afirmação do negro, o negro em movimento, e a MULHER NEGRA são potências de escalas míticas, ânimos que acontecem e transfiguram a nossa realidade. Essa latência subterrânea transborda de tempos em tempos, intempestiva e sem medida, como uma raiz agressiva por debaixo do cinza do cimento. Os quilombos se alastram desde há séculos pontilhando a jornada do Brasil Negro. Sempre se pôde ouvi-los cantar e segredar, murmúrios que se entrançam e se fortalecem — um inconsciente de povos. Condensações de palavras desconhecidas e entonações perdidas, a formar a espinha de um novo brasileiro. Os ex-escravos se põem em marcha em direção à meca de um povo porvir. O pulso pulsa apesar da infâmia da história e da política do Brasil. Continuam erigindo na capital de mármore branco o grande templo pagão, em que se entrevaram todas as crenças na cruz, nos comerciais de margarina e nos manuais de boas maneiras do colonizador.

Olorum se mexeu. É colar de contas que, despedaçado pela violência e o inaceitável do racismo, não cede a própria birra para outra vez mais se recompor e, contra o mar das escravidões, fazer de sua condição uma luta, de sua indignação uma reafirmação de ímpeto. A favela é usina e o negro é mundo — mundivivência das culturas de resistência, o funk batidão, o break, o hip hop, a poesia ritmada dos rueiros, o axé, o samba, o kuduro.

O negro em movimento pixa, golpeia e derruba os muros da universidade, da fábrica, do fórum, da prisão, todos os velhos monumentos civilizacionais. É FORÇA VIVA e SABER VIVO, sua consciência um grito, os gestos uma faca apontada ao coração da vergonha branca e embranquecedora. Dois negros no pódio de punhos cerrados, gritando. É consciência dos corpos, e pensamento dançante, e que pensa ao dançar. Neles, a negritude acontece, como a própria beatitude negra de um universo em expansão.

Com lança, cavalo e manto, corremos por esses campos, tomamos os arraiais e essas ilhas: o Haiti, a velha Lapa, o Harlem, Pinheirinho, Belo Monte, a Providência, a Vila Autódromo, as cotas raciais, o Prouni, o Reuni, a bolsa família. Agora não tem mais chororô — é tudo nosso. As águas subiram e a enchente não poupará ninguém: terror de quem resmunga e despreza do alto de colinas de conforto. Veio Zumbi — o novo homem em que me perdi e me perdendo me achei, violência e ternura, as cores destoadas, espadas em riste todas juntas. Quem vai com tudo não cansa: se espanta, e dança, e avança.

A negra dança e ri.