jan 2011 15

A televisão afundou no teledrama. Num refrão desolado, 24 horas por dia, as imagens escavam a morte, a perda, a comiseração. O noticiário capricha nos closes de novela, induz o choro e aguça as lamúrias. Repórteres-abutres farejam os cadáveres e se refestelam na contagem, enquanto âncoras ensaiam as suas melhores poses consternadas. Quem vai contar a história mais triste? Quem vai filmar a cena mais comovente? A morte é repetida centenas de vezes, entre comerciais de cerveja e margarina.
A narrativa treina o olhar de espectador e não o agir de cidadão. Passivo, o espectador desmobiliza-se na caridade geral, que ele assume como redenção de si mesmo. O ativismo do cidadão, por sua vez, a TV contorna, pois lhe ameaça com seu senso crítico e sua vontade de mudar. Só interessa à grande mídia fabricar o sofrimento e expiar na piedade.
Pois querem a minha compaixão? Não darei.
A TV não vai comandar o meu sentir. Não tem como aproximar a dor do outro pela via do sensacionalismo. Compaixão de madame. Termina por celebrar a impotência e disseminar a tristeza, clonando os escravos de um espetáculo vazio. Entorpecido pela pulsão de morte, o olhar televisivo ignora a vida que se debate entre as águas e insiste em perseverar apesar da adversidade.
Meu sentir está com essas pessoas que escavam e salvam, que vão à tona e respiram, com quem empenha tudo de si e grita e luta. E não com a morte e a impotência. Porque, ao contrário da narrativa televisiva, não existe conexão com o outro através da morte, senão como culpa. Somente na vida e através dela se pode tocar (n)o outro.
Nesse sentido, os mortos não importam.
Deixemos que os mortos enterrem os mortos. Desrespeito? E se fosse comigo? E se fosse o meu filho? Nesse caso, a última coisa que lhe faria jus seria capturá-lo nalguma narrativa televisiva. O luto se desenvolve numa relação pessoal. Enluteço-me menos emulando o choro diante de uma câmera, do que num lento mastigar da memória. Esta vencerá a morte precisamente ao expulsar do morto do que ele tem de morto, preservando-lhe a força da vida, o seu calor e seu sorriso. Eis aí o luto como recordação seletiva: faz retornar do passado a diferença querida. Ela que se irá amar eternamente e não uma carcaça inerme.
É preciso pensar nos vivos. Elaborar políticas concretas para populações em áreas de risco. Organizar politicamente a ajuda aos que continuarão e a reconstrução da cidade. Mesmo o sofrimento tem o seu lado positivo, no excedente que dele irrompe. Mesmo na dor, há vibração e espessura na experiência humana. É hora de reafirmar e celebrar a vida, pois o pensamento da morte é o mais imundo. A morte foi inventada pela direita.
Ante a dança de morte que a TV encena, com uma gargalhada trágica se pode romper a lógica da impotência. Algumas imagens, todavia, vazaram da comiseração generalizada. O homem lança a corda, puxa a mulher para fora da turbulência, e sorri. E sorri! Seu sorriso converte a tristeza na alegria de todos, e assim potencializa a resistência dos que lutam. Aí está a distinção entre tragédia e melodrama. Axé para os vivos.

***************************

A faísca deste ensaio brotou de uma conversa com Fabrício Toledo, a quem rendo os créditos. Também contribuíram Sindia Santos, Moana Mayall e Ronald Duarte.

fev 2011 01

Cairo, 30 de janeiro de 2011, corajosa militante sem cobertura

O lindo da revolução árabe está em não ser comandada por nenhuma vanguarda leninista ou fundamentalista. O processo constituinte varre as ditaduras na Tunísia e Egito dispensando a figura do grande guia. Nem charlatões sectários vermelhos, nem beatos maniqueístas brancos. Mesmo assim, não se pode chamar de revolta anárquica ou desgovernada.
Tem um saber revolucionário que circula no boca-a-boca, aprende na contingência e organiza o movimento. Difunde-se nas ruas e praças, no tuíter e no facebook. Aqui não tem Povo, Estado, Nação; não tem bandeira unificada. É um enxame sem símbolos do poder, transnacional, multiminoritário. São muitas revoluções ao mesmo tempo. Esgarçam um horizonte de liberdade e as mulheres podem sair de jeans e cabelos soltos.
A religião não é incompatível com a democracia e a liberdade. O problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
O islamismo não é problema, mas as pretensões políticas transcendentes de profetas, salvadores e igrejas. Nem ocidentalização nem teocracia, melhor uma democracia islâmica com direitos às pessoas e minorias, dentro do comunitarismo da al-Ummah.
A questão religiosa é uma variável, como na política americana. Mas não determinante. Essa revolução brota da luta de classes. É duro quando a verdade bate na sua porta. Imagine um milhão de verdades encolerizadas…
A revolução cria sua própria verdade e se autodetermina na imanência do conflito. A revolta encontra a sua medida em si mesma, no fazer multidão dia após dia de agitação e alegria. Todos hoje somos egípcios.
Seria reducionismo teórico sondar agora analogias pra revolução árabe (cama de Procusto). Experiência a analisar-se na sua singularidade. É preciso pensar *a partir* da revolução árabe e não *sobre* ela. Pode disseminar pela Europa, através dos milhões de imigrantes “capilarizados”. O saber revolucionário para o século 21 recomeça aqui.
Se, na década passada, a América do Sul foi a vanguarda política do planeta, nos anos 2010 o eixo revolucionário se move ao mundo árabe.
Vivemos tempos incríveis.
=================
PS. Este ensaio foi montado artesanalmente com tuítes meus publicados na data de hoje. Demonstra (literalmente) como blogue e microblogue podem vibrar em sinergia. O que o leitor acha? 
Aproveito para recomendar a excelente cobertura televisiva da Al-Jazeera: http://english.aljazeera.net/watch_now/

mar 2011 08

Para o homem, só há duas mulheres. A mãe e a puta. Na esposa, buscamos a mãe. Nas amantes, a puta. Todas as mulheres que o homem conhece não passam de variações da mãe e da puta ideais. E só. Homem que é homem não tem amigas. O sonho de consumo masculino se realiza com 1) uma casa perfeitinha, com mulher e filhos saudáveis, bem-educados e brancos, e 2) um harém, com atrizes pornôs, safadas e de todas as raças.
Este o universo machista em que fomos condicionados e somos incentivados, e contra o qual lutamos todos os dias, inclusive em nós mesmos.
O capitalismo cognitivo captura a mulher em ambos os modelos. Em especial, através dos comerciais de cerveja e de margarina. De um lado, exigida como puta, segundo a cosmética andróide da publicidade de cerveja. De outro, cobrada como mãe, conforme a estética asfixiantemente careta das margarinas. A mulher é colocada 24 horas por dia sob julgamento por dois tribunais contraditórios. Espremida entre a mulher-Skol e a mulher-Dorianna, não deve ser fácil.
********
Nunca tinha assistido ao programa da Ana Maria Braga. Fiquei surpreso ao saber que Dilma participaria, na terça passada, dia 1º de março. Aconteceu o impensável: deu gosto encorpar a audiência da Globo.
Discordo de quem avalia que ela baixou a cabeça pra grande imprensa e traiu o eleitorado. Paira certa imaturidade de quem acha que está junto e misturado com o governo, isso pra não falar de dor de cotovelo. A campanha eleitoral acabou: movimento é uma coisa, governo outra. Somos um movimento na rede, uma legião, e continuaremos a ser, mas a presidenta doravante pertence ao estado. É outra dinâmica. Posso discordar de várias posturas do novo governo, mas também não sou nenhum opositor sicofanta, à procura de pelo em cabeça de ovo.
Por que não interpretar o acontecimento pela lógica inversa? Ora, a Globo teve de engolir a presidenta em seu principal show matinal, fritando uma omelete. Mais que uma concessão de Dilma, ela conquistou o direito de ser convidada, inclusive pelos maiores inimigos históricos da democracia brasileira.
A presidenta Dilma não muda uma vírgula de seu discurso, nem um trejeito de sua persona política, no congresso do PT ou numa comemoração da Folha de São Paulo. Com desenvoltura e autoconfiança, Dilma expôs as políticas do governo, defendeu a orientação de esquerda, mostrou saber do que fala e, como resultado, valorizou a própria imagem.
Comoveu-me, lá no programa da Braga, quando Dilma disse que o grosso do trabalho das mulheres não aparece. Nas últimas décadas, as mulheres se incluíram em espaços antes inacessíveis. Tornaram-se professoras universitárias, médicas, engenheiras, economistas, pilotas de caça, juízas, blogueiras, presidentas de empresa, parlamentares etc. Além do trabalho mais afetivo e doméstico, abriram caminho para postos de formulação e direção.
Portanto, silenciosamente, nas relações do dia-a-dia, e quase sem o devido reconhecimento, as mulheres vêm impregnando a sociedade de uma diferença, de uma outra cosmovisão, que desconstrói o mundo patriarcal clássico, autoritário e reificante. Tudo isso igualmente é movimento feminista, num nível molecular, numa espécie de microfísica social.
Nesse momento da entrevista, entre receitas de omelete e troca de amenidades, Dilma provou mais uma vez que tem brilho próprio. Talvez não precisemos sentir tantas saudades de Lula. Quem sabe Dilma reúna qualidades extraordinárias para liderar esse governo, à altura do anterior. Só que do seu jeito próprio, um jeito de mulher.

========================================
A inspiração para este breve ensaio ocorreu-me ao ler A grande luta das mulheres, no blogue amigo O Inferno de Dândi, editado por Danilo Marques.

O leitor pode interessar-se por Só uma mulher para o amor vencer o ódio, texto do Quadrado por ocasião da vitória de Dilma nas eleições presidenciais.

mar 2011 12

O que é ser de esquerda? o que faz um partido de esquerda? quais exemplos de governos de esquerda? esquerda x direita? esquerda x esquerdismo? qual o papel do militante de esquerda?

Existem questões que galopam para o campo do abstrato. Muito rápido, tornam-se exercícios rebuscados de estilo e argumentação, porém vazios de concretude. É como o castelo de cartas: montado para o aplauso, mas frágil.

Há quem negue a dicotomia esquerda x direita: a esquerda morreu e o que aí está não passa de farsa. Em parte, têm razão, mas só quando falam de uma certa esquerda.

Outros estabelecem-na de modo dogmático e maniqueísta, ou seja, moralizam a dicotomia. Estes também estão certos, mas só na medida que, com esse discurso, se posicionam à direita. Fantasmagórica Esquerda, essa que se reproduz com cacos de teoremas, teleologias redentoras, identidades (bate no peito pra dizer: sou de esquerda!), cosmovisões apocalípticas. Essa esquerda abstraída da materialidade das lutas, insensível às máquinas e circuitos do capitalismo. Essa que se rotula Esquerda como espírito de rebanho, com seus pastores e cajados. Ou como ressentimento diante de um inimigo injusto, identificar-se através do que se nega (moral dialética de escravos).

É preciso que a questão seja recomeçada mil vezes. Que seja reafirmado o primado do antagonismo, na ação e interpretação políticas.


Talvez melhor problema não seja o que significa ser de esquerda. Ou mesmo o que é a esquerda. O que importa é como devir esquerda.

Porque a esquerda vive. Na Praça Tahrir, em Túnis, em Madison, no carnaval de rua com suas máscaras de Ana de Hollanda e Tiririca, no trabalho imanente de uma multidão que produz e diferencia novos direitos. A esquerda afirmou a cópia livre, os novos modos de produzir da rede, o Wikileaks, a Wikipédia, o WordPress.

Inquietações:

Como recomeçar a esquerda? desestabilizar as histórias encarquilhadas? irromper as identidades sectárias? hibridizar, propagar, multiplicar? como articular os saberes minoritários?, como proliferar os afetos ativos? como intensificar o amor pelo distante, pelo retorno da diferença? como constituir e partilhar novos mundos, onde se afirmam direitos que não existiam? o que precisa ser dito que nunca o foi, como dizê-lo?, e como fazê-lo sempre um pouquinho diferente (pouquinho contudo que faz toda a diferença), para que o movimento se faça numa dinâmica expansiva e multitudinária?

Não sou de esquerda. A esquerda acontece em mim. É uma vontade que vem e plá, muda a percepção. Niilismo heróico convertido em revolta. O medo cede à uma dinâmica expansiva de autovalorização. Generosa, a revolta se concretiza contra a ordem rígida do mundo caduco. O destino se prova frágil, percebe-se que a hybris pode destroçá-lo. Escapa-se da História, de seu passado e futuro pré-definidos. Constitui-se um novo tempo: um tempo intensivo, uma outra civilização onde a existência é uma aventura.
A esquerda vem antes da direita, como a resistência antes do poder, a vida antes da morte, o infinito do finito. Defrontada com a criação de outro mundo, a direita reage. Por isso reacionária. Não pretende perder sua posição dominante na tribo. Nesse momento, do inevitável choque de forças, se destacam duas estratégias para a esquerda: a luta e o êxodo.
Luta quando o antagonismo ganha espessura dramática, e assim a tensa narrativa adquire contornos épicos. Dá-se a condensação de afetos e armas, é Praça Tahrir ou Outubro Vermelho, Canudos ou Maio de 68.
Êxodo para comprovar que, sem a vitalidade e o amor, toda a exploração colapsa. Recusa quando entra em greve contra os patrões, mostrando quem manda na produção. Recusa também pós-industrial, quando se produz à margem das corporações e indústrias culturais, como rede colaborativa.

Quando deserta para longe de uma região explorada, onde pretendem fixar mão-de-obra precária. São os nordestinos no Sudeste ou os árabes na Europa, dentre tantas diásporas constituintes. Quando não faz o jogo nos termos postos pelo inimigo, o prefiro não da enrolação sistemática do escrivão Bartleby, de Herman Melville.
abr 2011 21

“I must go on. I can’t go on. I’ll go on.” (Beckett)

Um ano e sete meses, 413 postagens, 994 comentários, 228 inscritos e centenas de milhares de visualizações depois do lançamento, em 8 de setembro de 2009. As tarefas: criticar sem concessões, articular conteúdos com rigor e concisão, deixar-se inundar por ensaios mais líricos, verter na escrita a vida mesma, na sua batalha encarniçada por expressão e alteridade.

Ufa! editar um blogue é uma experiência total. Exige disciplina, criatividade, loucura, constante aprendizado e tesão permanente. Pra mim, uma viagem e tanto, absolutamente imprevisível, que me conduziu a novos mundos. Trata-se de um exercício de desenvolvimento, potencialização e liberação pessoal, cujo segredo está em peitar a postagem em branco, contra todos os prognósticos do bom senso.

Ao escritor tarimbado, até pode parecer fácil blogar. Ora, atividade caseira, inferior à literatice. Que ilusão! é muito mas muito difícil um blogueiro não deixar a peteca cair. Pode ser muito gostoso, mas também angustiante. Qualquer descuido embota a  modesta, porém singular qualidade das postagens. Diferente do livro, o blogue não tem vida vegetativa, e sua existência esboroa aos primeiros afastamentos mais longos do autor.

Quem acompanha este blogue sabe como ele não se esforça em fidelizar públicos. Não se prende a temáticas específicas. Não se bitola em assuntos homogêneos. Não adota público-alvo, senão aquele criado dialogicamente em seu desdobramento. Às vezes, o QdL deriva por saberes e discursos vários, noutras devaneia em solilóquios e achismos, mas também, de vez em quando, não deixa de enfrentar debates prementes, sem transigir com o rigor.

Nunca acreditei em leitor ideal. E confesso: sempre preferi os infiéis e as maliciosas, aos “médios” e honestas. Agradeço a todos, e em especial aos comentadores, que tanto fortalecem a luta diuturna do blogueiro.

Uma nova manhã.

O Quadrado dos loucos migrou para o WordPress. Uma plataforma colaborativa, em código aberto e, por isso, melhor que o Blogspot. Doeu um pouco desistir daquele ambiente retrô, tão tradicional da primeira blogosfera. Mas navegar é preciso. Deste jeito, coordenou-se melhor às redes sociais e sofisticou a sua interface de vídeos e podcasts. Incorporou um design mais limpo (o antigo “embaralhava a vista”, como alertou uma leitora), enredou melhor os conteúdos. E assumiu um estilo próprio, de autoria do amigo santista Renan Halphen, o mesmo do melhor site brasileiro de conteúdo musical.

O webdesigner trouxe ao QdL 2.0 tudo do bom e do melhor em matéria de recursos e funcionalidades. Ficamos meses pensando, repensando e trepensando como redesenhá-lo, trabalho cujo resultado aparece na tela do leitor, graças 100% à virtuose dele (sou péssimo em design).

A ocasião se apresenta para que o leitor possa compartilhar as suas impressões. Gostou? não gostou? não gostou do quê? está melhor pra ler? o que pode melhorar? por gentileza, contribua.