set 2009 23

Até onde é possível narrar a vida sem parecer narcisista?
É ilusão achar que nos escondemos atrás da terceira pessoa, de nossos personagens transubstancializados. Engano de mesma natureza pensar que, na primeira pessoa, nos revelamos. Que ao falarmos “eu”, falamos de nós. A literatura estaria entre a primeira e a terceira pessoa — talvez na segunda pessoa, no “tu”, leitor. Ou, talvez, o narrador consista numa quarta pessoa, além de mim, de meus personagens e do leitor. O poeta um pequeno deus, quiçá. Mas não creio nisso, pois não acredito na transcendência da escrita à vida. Diferença de representação e expressão imanente. Problema filosófico que mereceria um ensaio, não fosse chover no molhado.
Afinal, que de tão importante tem o “eu”? Conte-me, amigo, o “eu”?! Jornada de autoconhecimento? Orientalismos, caminho de Compostela, Sartre, música new age, psicanálise… sempre atrás desse saltimbanco misterioso, da essência fugidia do que somos. Querer conhecer-me a mim mesmo? Que me importa! Eu quero mesmo é saber do “não-eu”. De meu não-eu. O “eu” que se dane. Clarice escreveu uma vez que desejava tanto ser um “não-eu”, mas tanto, a ponto de não haver mais um “eu” para morrer.
Arroubos egocêntricos, a escrita vai além disso. Portanto conto de niilismos, o meu “não-eu” particular, no qual, em clima de anamnese, mergulho desde que decidi insurgir-me contra o “eu”, essa pedra afundando na água.
Daí meus niilismos, a paixão pelo subsolo. Vou pulando de um pra outro. Como o bonequinho de Pitfall, para Atari, saltitando de cabeça em cabeça dos jacarés, antes que escancarem a bocarra e me engulam por inteiro, como no conto de Dostoievski.
Há muitas pessoas que se acomodam confortavelmente na unidade do “eu”. Íntegros, sintetizam-se em uns poucos princípios, numa panacéia qualquer consolidada aos vinte e poucos anos. Pode ser o amor verdadeiro, o filho, a moral, a religião, a carreira profissional, provavelmente um sistema composto desses ingredientes. E dizem: “eu” sou assim e assado, “eu” quero isto e aquilo. Esclerosam o caráter, instalando-se em poltronas douradas e cantinhos cálidos, na comodidade dos ruminantes. Aos porquês, respondem porque é assim, inventam uma desculpa qualquer, e desconfiam daqueles que vivem noutro plano, como se distantes estivessem da verdadeira realização, da felicidade barata que ostentam ou que almejam ostentar.
Valho-me do que não sou, do estranho e do absurdo, de meus inimigos, para abrir caminho em direção às metáforas, ao fantástico, a novas realidades que enriquecem e expandem o universo. Não é que a arte seja a justificação da existência. Ora, por que o universo ao invés do nada? Porque sim. O que é nunca precisou de razão para ser. Quem precisa de razões somos nós, poeira cósmica dotada de raciocínio. Não. A arte não justifica nada; a arte potencializa a existência, criando mundos.
Continuo portanto a jornada, concedo seja narcisista, das críticas a menor e mais tola. Jornada sem lógica aparente que não essa razão vital — louca rosa feita dos espinhos e sentidos que constituem a minha modesta biografia.

fev 2010 23

Questão das mais enigmáticas: como transpor a distância entre eu e um outro? quais as condições de possibilidade da comunicação? como saltar o abismo existencial?

A solidão deriva do fato incontornável de que a dor é sempre individual. Quem sente dor, não pode a comunicar por inteiro. A dor do parto, a dor da morte,  momentos do nascimento e da finitude, dores que ninguém compartilha. Se as ciências, as artes e todo o engenho humano urdem teias de aranha ao redor do indizível da dor, sempre resta um quê de inexprimível, um quê exclusivo de quem padece.

Não se trata, diretamente, da dor física, emocional, mental, psicológica, moral, da agonia, do êxtase religioso-erótico-químico, mas da dor que lhes precede e se modula nisso tudo: a dor da existência, a dor metafísica.

Dor existencial, impulso imanente do ser, em nós e por nós, pulsação interior que luta para aflorar, e esbraveja para que a natureza inteira ouça: vida

Eis que, apesar de todas as constrições, do ressentimento, da finitude, da tristeza, da doença, da despotência, apesar de tudo, a vida extravasa em todas as direções e o homem vive. Dilacerado, delirante, agonizante, putrefato, desesperado, humilhado, cravejado de chagas, diante da sentença da morte, encarcerado na Sala 101, em transe permanente, — o homem vive. Lutará até o último respiro na sua inabalável convicção instintiva de que deve viver. A dor saúda a vida — quantos não foram os soldados e doentes que, padecendo-lhe, agradeceram por estar vivos?

Dor como outro lado do conatus, o ímpeto de perseverança no mundo, a base de toda a expressão humana. Dor una que é ao mesmo tempo desejo múltiplo, desejos. Dor existencial que se converte em desejos, na alegria e na liberdade. Desejos de expansão, nunca saciados, querendo sempre mais, querendo sempre além da dor, querendo outro, e assim tornar-se o ainda-não-eu, dilatar-se na direção do outro-eu e “eus“.

Intensificar a dor da existência e, banhando-se pelo sentimento trágico da vida, multiplicar-se em tantos personagens quantos desejos. Acolhendo no coração a tragédia, amar o destino, amar a desmedida/hybris, e por assim dizer vencer a morte pela força do renascimento na alteridade.

Nos outros, nossa carne renasce. Pelos outros, pelos amores, somos da morte vencedores. Com os outros, combinamos os desejos e parimos um ser que vive na relação. E assim, é criado o filho híbrido (de hybris), a infância do mundo, o centauro dos desejos, o cordão de carne entre o dizível e o indizível, o corpo coletivo da linguagem e do amor, por fora da solidão.
A desenvolver.
maio 2010 15

O indie não quer ser igual a ninguém, só a todos os outros indies. O indie decora nomes de bandas, livros e filmes que os outros indies aprovam. O indie se veste como os outros indies. O indie compra óculos e tênis onde os outros indies compram. O all-star é um signo confiável da indianice, mas os mais indies vão além. O indie odeia rótulos, salvo indie. O indie é gregário e territorial, mas só com outros indies. Além de independente, o indie ambiciona ser visto como descolado, contemporâneo, desprendido, cool, moderno, alternativo e despojado.
O indie se remorde ao ser chamado de posudo, pseudo-intelectual e emo, ou de emo-sem-franja. O indie adora dizer que é só um cara normal. O indie tem perfis quilométricos no orkut e facebook. O indie tem vagas insatisfações existenciais. Aos trinta, o indie passa a ter insatisfações existenciais ainda mais vagas. O indie não acredita em originalidade, mas em undergroundinalidade. O indie não tem depressão, ele é daqueles que acha que está deprimido. Se não é desse tipo, no mínimo ele se diz bipolar. O maior problema do mundo, para o indie, é o tédio. Por isso, o indie é blasé e acha que deve ser agradado pelos outros.
O indie não afirma, ele acha. Foge de polêmicas. O indie é multicultural, mas abomina quem toma partido. O indie só se filia a causas óbvias: paz mundial, liberdade de expressão e sobretudo ecologia. Não tem opinião formada senão nessas causas, quando muito. O indie não faz política, fica indignado. Indiegnado. O indie tem horror a partido político. O indie gosta do Obama, mas não do Lula. O indie acha todos os políticos corruptos.  O indie acha que o pior problema da política é a corrupção.O indie só confessa o voto quando é no Gabeira, na HH, na Marina. O indie acha que todas as religiões têm a mesma mensagem. O indie não discute religião. Mesmo o indie ateu se diz agnóstico, porque é mais indie.
O indie é libertário, mas tem uma vida sexual monótona. O indie quer que o parceiro goze, mas sem baixaria. O indie brocha, mas não toma viagra. O indie não fala palavrão nem na cama. Se fala, pega leve. O indie transa, mas não fode. O indie nunca participou de uma orgia. O indie é cabeça-aberta, mas a sua vaidade não suporta traição. O indie não valoriza a família, mas tem família estruturada. O indie não fuma cigarro. Quando fuma, não traga. Quando traga, não cheira. O indie quer que o traficante seja punido, mas não o usuário. O indie gosta de narguilés. O indie adora festas de apartamento. O indie ama pracinhas onde encontra os outros indies e pode comparar o sapatênis mais modernoso. O indie é sentimental, mas não é emotivo. Ele interioriza e depois escreve no blogue.
Com o indie, nada nunca é pessoal. O indie quer ter um smart car. Se der, um New Beetle. O indie quer passar um tempo na Europa. Geralmente Paris, Barcelona ou Londres, mas os mais indies pretendem ficar num lugar supercool: Montreal, Dublin ou Bratislava. O indie curtia “Legião Urbana” e agora curte “Strokes”, e idolatra “Velvet”, “Radiohead” e “Oasis”. O indie gamou na saga “Crepúsculo”, embora depois tenha achado muito mainstream pra ele. Idem para “Avatar“. O filme-manifesto para o indie é “Os Famosos e os Duendes da Morte“.
O indie se tornou o lado descafeinado, impotente e apolítico de nossa geração.
Não sou indie, eu sou índio!
jun 2010 19

Prosador líquido, ateu praticante, comunista convicto.
Uma das poucas leituras que agradeço ao ensino fundamental, cuja lista de livros obrigatórios é uma das maiores causas do semianalfabetismo do pais.
Doze anos, eu lia José de Alencar uma página, pulava cinco, lia outra. Rachel me deixava sonolento. Eça me fulminava de tédio. Patinava sobre as linhas de Lygia. Machado eu gostava pero no mucho. Descobria Augusto dos Anjos, começava um namoro com Hilda e Pessoa.
Memorial do Convento me pegou de jeito. Leitura fluida, virgulada, com fundo social e histórico, em camadas. Adorava a iconoclastia contra as falácias cristãs: O Evangelho segundo Jesus Cristo li com fervor religioso.
A descoberta do realismo mágico, em Memorial do Convento, me arrancou dos pulps: da ficção científica, do romance de crime, do ciberpunk.
O vôo da Passarola, a máquina alquímica do padre-cientista, produziu a minha primeira embriaguez literária. Porque ela voa! lança-se sobre o firmamento do sonho e do desejo. Fui tomado de assalto, absorvido, forçado a virar a página até a última.
Li outros livros dele, mas poucos anos depois troquei-o por Rosa, Clarice, Cortázar e literatura russa. Foi eterno enquanto durou. Valeu, Saramago.

jun 2010 26

Tenho uma raiva dentro de mim. Uma raiva intransitiva. Uma raiva sem direção e sem objeto. Uma raiva como um animal carnívoro que quer latir, estraçalhar e engordar. Essa fera devora tudo o que aparece pela frente, pessoas e lugares e momentos e sentimentos e livros e filmes e tudo o que de comestível existe e pode existir na matéria, porque a matéria é Deus e o homem quer ser Deus. A única santidade vem do reconhecimento da corrupção da matéria.
Dessa raiva, e somente dela, é que se pode amar as pessoas. No sentido concreto de amar: impuro, corrupto, material, plural, insaciável. Nada tem de carência: é uma plenitude que não pode ser contida. É ímpeto que força passagem para derramar no outro a raiva, a dor de existir, o grito represado. É a solidão cúpida vertida no leito do próximo. É o afeto combinado com outros espíritos livres. Ou isso, ou não seria possível dormir, insônia da multiplicação de vozes, numa Babel de consciências, num teatro da culpa.
Toda a vez em que me encontro num lugar deserto, junto à natureza silvestre, desbando a berrar todos os palavrões e imprecações contra os ídolos da tribo por dois ou três minutos. Um cometa poderia se chocar amanhã e extingüir a humanidade, que ainda restaria o riso sardônico de um niilista morto. E não pretendo que meus demônios encarnem nos porcos, para ficar puro. Quero é multiplicar os diabos, banqueteá-los, atiçá-los cada vez mais terríveis, provocadores e travessos, e então libertá-los pela única razão que o mundo precisa de algazarra infernal. Para acontecer alguma coisa minimamente real que prove a existência do presente.
É muita mediocridade, muita injustiça, muita violência disfarçada de boa consciência, e muita falta de vida vestida de normalidade, ansiosa pela família sonsa de comercial de margarina, pelo narcisismo filial, pela constituição de patrimônio, pelo abuso do regime desigual. Nutro completa repugnância por melodrama, sentimentalismo, melosidades — essas babaquices que paralisam. Recheiam as crianças de imbecilidade até elas ficarem efetivamente imbecis, ou então se revoltarem com caretas para a câmera fotográfica.

Me afugenta qualquer esboço de carta de amor — todas são ridículas irremediavelmente. Um verdadeiro asco por sentimentos oceânicos, comoções rasgadas, dramas íntimos. Casual, frio, incapaz de entender o verdadeiro amor? falso amor! exercício de tirania, vaidade e posse, na exclusividade e expropriação de afetos.
 
“Amor para sempre” é esclerótico, coisifica o desejo e interrompe o tempo vivo em prol de abstrações convenientes e alegrias bovinas. Um relacionamento de comercial de margarina pra mim é uma abominação. Um aborto de felicidade. É uma aberração escatológica. É um estupro de Deus. Não digo que sou imune a ciúmes, como não sou imune à beleza, como não sou imune à riqueza, como não sou imune ao medo. Sou um ser finito e falível! se tento ser mais forte, é porque reconheço a fraqueza que me cerca e tenta me dominar. Me nivelar com essa coisa hedionda, com esse cotidiano vulgar, com esse mundo banal que tenta a toda hora me aniquilar na sua feiúra infecciosa. Irrita-me a felicidade dos vegetais.
Amar é um devorar contínuo dos amanhãs, dos seus e das outras pessoas. Amar é lamber os beiços enquanto se corre de peito aberto em direção ao mundo putrefato. Tenho uma raiva dentro de mim. Sem a grande raiva, não pode haver grande amor.