out 2009 17

Não fossem o amor e a dor, os seres humanos seriam incomunicáveis entre si.

Etimologia: não quero falar do amor-eros (cupidez), do amor-philia (amizade), do amor-narciso (amor próprio), nem do vapor barato do amor-telenovela (melodrama). Quero tratar do amor-ágape (amor-banquete), febre de quarenta graus que pretendemos inocular nos outros, para contornar a mortalidade. E dela sair vencedor. Contudo, o amor intransitivo, como força expansiva irresignada à finitude, esse não conseguimos abarcar. Faltam-nos forças poéticas. É que, ao infinito, só acedemos em lampejos e relances, logo repelidos que somos por seu assombro e incompreensão. O amor, por isso, tentamos domesticá-lo e fazê-lo inteligível, coisificando-o numa pessoa, numa dada circunstância.

O que amamos já pulsa dentro de nós; apaixonar-se consiste em boa parte na projeção mais ou menos consciente dessa força interna preexistente. Ilusória passividade. O amor nada tem de falta, pois tudo nele é excesso e completeza. A carência jamais produzirá o amor, senão a impossibilidade de amar. Quem ama está a todo momento transbordando a si mesmo nos outros, e por isso conjuga exceção e excesso, e assim ama a vida.

A coisificação do amor, por um lado emocionalmente conveniente, por outro inicia o gradual processo de decomposição do amor. Decompõe-se nos outros amores, citados no começo. Em virtude disso, de tempos em tempos, ansiamos por novos amores, já que o amor coisificado converteu-se em eros ou philia ou narciso ou uma combinação de seus subprodutos. Porque o amor é quem produz o sentido e confere valor às coisas e não o contrário. Porque o amor não resiste a que lhe dêem limites. Dentro de uma gaiola, ele não canta. Porque ele não existe para ser representado, e se constitui da expressão nua: um meio sem finalidade.

Portanto, vivê-lo às últimas conseqüências significa apontar o rosto ao infinito, na magnitude espantosa de tudo o que podemos ser, uma vida em que vivemos trezentos e sessenta e cinco dias por ano e não somente cinco ou seis. Mas não reunimos a coragem suficiente para o desafio, porque somos apenas humanos. Eis o sentido do super-homem de Nietzsche: o ser que ama.

jan 2010 12

Para melhor atingir em cheio o melodrama, e assim barbarizá-lo, é preciso compreendê-lo.

Não existe melodramático sem a supervalorização da felicidade. Tipicamente moderna, a felicidade incorporou-se à pauta política e à cultura na virada do século XVIII ao XIX, com as revoluções burguesas. Vejam-se a constituição americana, a declaração de direitos do homem, o iluminismo francês, a filosofia de Stuart Mill. Não por acaso, o melodrama impregna o teatro do século XIX e desemboca na gênese do cinema hollywoodiano, nas primeiras décadas do século XX. Doravante, fala-se no direito de ser feliz, “o importante é ser feliz!”, e a felicidade deve ser perseguida, desenvolvida, maximizada pelos governos.

Mas na sociedade moderna, a felicidade atravessa a família. A nova família burguesa. Inexoravelmente. Nada mais comum à modernidade capitalista do que a divisão entre o espaço público/político e o privado/econômico-familiar, com salvaguarda preferencial do último. A vida familiar serve de célula e matriz de sentidos do mundo social, principal depositária e guardiã da moralidade. É dentro de casa que se lava a roupa suja, onde ninguém de fora deveria meter a colher. É a mãe que deve controlar moralmente os filhos, vigiá-los e puni-los, e o pai controla a todos. Só se admite intervenção estatal no caso de fracasso do patriarca.

Por conseguinte, no melodrama, o solo estável e hipostático, o centro da narrativa, o núcleo de nossas vidas, passa a ser a vida familiar. O foco narrativo melodramático confere primazia sobre a relação marido-mulher, mãe-filha, irmão-irmão etc. Todo o resto é secundário e, em última análise, pouco importante. O que vale mesmo, o eixo condutor do melodrama, é constituir uma boa família, é reunir as condições patrimoniais e afetivas para que ela prospere e se perpetue, até que a morte os separe. Ou seja, o essencial reside em encontrar amor o mais próximo do ideal burguês, o famoso partido “pra-casar”. A partir daí, do casamento como ato festejado da constituição da célula, cerrada moralmente pela fidelidade e privacidade, a partir daí ter filhos, provê-los da educação mais próxima do ideal, e formar uma família de comercial de margarina, no seu ideal moral, na sua estética da perfeição burguesa. O fechamento dá-se em dupla-camada do sistema, na medida em que famílias-margarina devem relacionar-se com outras famílias-margarina, o que garante a sua perenidade, como é esperado à guisa de coesão da sociedade como um todo.

É claro que o melodrama, como produto cultural, tem uma história. Desenvolve-se no mesmo compasso da sociedade burguesa, nas transformações sucessivas do capitalismo: revolução industrial, taylorismo, fordismo, pós-fordismo (contemporâneo). Se no século XIX, a sua lógica estruturava-se pela moral religiosa, por um patriarcalismo opressivo, e pela austeridade (talvez inspirada pelo protestantismo weberiano), no século XX surgem a psicanálise moralizante, o consumismo do capitalismo fordista, e um hedonismo vulgar a toda prova, intepretado como direito ao prazer e ao orgasmo. O melodrama da família de classe-média incorpora, portanto, discussões sobre a sexualidade do casal e sobre os traumas dos filhos, e ainda acerca da felicidade também como capacidade de realizar-se no consumo: casinha, carrinho, roupinhas, fim-de-semana em Búzios. Antes o que importava era o céu, mas agora é o céu, Brastemp, carro importado, apê no Guarujá, croissant e suquinho de maçã. O objetivo final é o cantinho dourado, todo-seu, espaço de realização plena da personalidade familiar, uma casa próspera, segura e feliz, prateleiras com a literatura burocrática e discos de Ana Carolina e Seu Jorge; jazigos onde tais criaturas cevarão a sua tranqüilidade de consciência, a sua paz de espírito, e com trinta e três anos escancarão as bocas cheias de dentes, esperando Godot.

Com a nova legislação sobre o divórcio, a inserção da mulher no trabalho remunerado, a emancipação da juventude, — resultado de lutas nas novas sociedades capitalistas — tudo isso, se de um lado significa ameaça, de outro aumenta o apelo da terapia de casais, das DRs como profilaxia, lutando contra a sua dissipação pelo tédio e desgaste, pela carência progressiva de liberdade, prazer e usufruto das potencialidades. Sim, a ordem tem fendas, e o burguês tratará de consertá-las. Melodrama e aventura, por sinal, restam gêneros incompossíveis. A inquietação fundamental do melodrama ronda a destruição da célula familiar, e o resto — sejam inquietações metafísicas, artísticas, políticas, científicas, éticas — finda secundário, acessório, passatempo (!)…

Os conflitos próprios do melodrama, a sua temática propriamente dramática, circundam então a incessante luta pela formação, manutenção e rendimento social da família. No tocante à constituição, o gênero usualmente foca a busca pelo amor perfeito, o triângulo amoroso, a difícil conciliação de amantes de classes distintas, e a solidão/ansiedade/desespero em não encontrar o parceiro do comercial de margarina. Quanto à manutenção, trata-se de abordar os dilemas — inevitalmente morais — ao redor da fidelidade, da segurança, do patrimônio, e enfim das frustrações e decepções (amadurecimento) inerentes à descrença nos ideais ingênuos de outrora. A dissolução da célula familiar, dentro do melodrama, assume a posição de mais grave crise narrativa, uma catástrofe. O que se reflete em rupturas de personalidade, suicídios, assassinatos, toda a sorte de sentimentos aflorados à flor da pele, sempre permeando essa experiência-limite de base melodramática.

Em regra, a inocência do homem e da mulher “de família”, ou o casal-e-seus-filhos, exerce o papel de vítima dos livros, filmes e peças melodrámaticas. O bom burguês é fiel, sincero, autêntico e põe a segurança de sua família em primeiro lugar. O bom burguês é melodramático. Sempre e sempre o mal — personificado em vilões, gangues, mudanças sociais, novas idéias — consiste numa ameaça externa que vai pôr em risco o bem familiar. Separa-se claramente o bem do mal, com fulcro na moral familiar e suas virtudes de preservação e estabilidade. A narrativa desenvolve-se então sobre a disputa entre um e outro, sobre uma ótica monológica e pífia que se presta a educar com o caminho certo, seguro, feliz. Pedagogia da mensagem moral, geralmente revelada no final feliz, onde os autenticamente virtuosos são recompensados e os hipócritas e daninhos são punidos, consagrando a família de comercial de margarina.

O resultado disso tudo, em geral, é o empobrecimento da potência cultural, na sua força expressiva e de transformação, em proveito de: conversas supérfluas, historinhas privadas insossas, preocupações umbilicais, pretensões comezinhas, tédio, repetição exaustiva, alienação ética e estética, despolitização, superficialidade dos personagens, tramas assépticas e previsíveis, finais redentores autóctones, padronização, solércias morais e moralistas, carência crônica de criatividade, felicidade de vegetais, nivelamento de sutilezas, ausência de senso crítico e engajamento social… poderia continuar por linhas e linhas, mas concluo com a falência do bom gosto associada aos melodramas.

É muito fácil identificar o melodrama no cinema hollywoodiano, clássico e moderno, nas telenovelas da Globo e nos filmes bancados pela Globofilmes, e em toda a gigantesca massa subartística derivada desses produtos da indústria cultural. Mas o fato é que o melodrama está em toda parte.

Talvez, dentre autores brasileiros, um dos que melhor soube implodir o melodrama, ou seja de dentro pra fora, seja Nelson Rodrigues. A prosa rodriguiana adota caráter melodramático e leva-o aos estertores, revelando as linhas de força, do desejo, da hipocrisia. Pessimista, direitista, ele não parece acreditar na mudança do estado de coisas ou então faz-lhe ouvidos de mercador. Portanto, como o melodrama não tem jeito, é assim que a vida é, os seus dilemas culminam em contradições convulsivas, e os surtos coléricos destróem de chofre a célula familiar, mergulham-na no abismo da violência e provam mais uma vez a ingenuidade e insinceridade de sua felicidade de vegetais. O mundo cruel e irreconciliável de Nelson, pulsões na superfície, foi um bom começo de resposta ao melodrama brasileiro.

jan 2010 20

Estilo musical desenvolvido em pequenos nightclubs de Nova Iorque, por uma nova geração de jazzistas intelectualizados e dissidentes, o bebop revolucionou o mundo do jazz logo após a Segunda Guerra. Virtuosismo instrumental, lirismo acrobático, afirmação individual, rejeição do suingues comerciais e suas big bands, ruptura com a ordem harmônica e melódica, eis aí elementos célebres do bebop. O que mais me chama a atenção no bebop, contudo, é o ritmo super-rápido de seus números. Abaixo uma amostra no sax de Charlie Parker e trompete de Dizzy Gillespie.

Fim dos anos 40, o bebop é expressão de um tempo em que tudo se acelerava: os aviões a jato, a bomba atômica, os trens-bala, mas também a alucinante literatura beatnik (movida a benzadrin), a narrativa veloz do cinema de Orson Welles, as defesas índias do xadrez soviético, a pintura convulsivamente apressada de Pollock.

jan 2010 23

Em junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela não-exigência do diploma de jornalismo para o exercício profissional da atividade. Para muitos, uma decisão surpreendente. Quando o STF se curva às tendências e adota posições pouco ortodoxas, é sintoma de ventos da mudança. De fato, nessa questão, a mais alta corte do estado brasileiro refletiu a condição corrente da comunicação social, que não admite mais “feudos” de uma ou de outra especialização. Na última década, com a consolidação da Internet e suas tecnologias par-a-par (P2P: MSN, youtube, emule, torrent etc), redes de comunidades, blogues e twitter, ocorreu uma avassaladora revolução na difusão, recepção e produção de informações. Se, tradicionalmente, sempre houve articulistas, colunistas e editorialistas sem a formação universitária formal em jornalismo, no presente isso se tornou a regra, por força da mutação da comunicação contemporânea.

A revolta das entidades de classe dos jornalistas, como era de esperar-se, foi imediata e de tom indignado. Como reação, ameaçaram implementar provões ultra-rigorosos, intensificar a fiscalização e “punições”, e inaugurar uma tal “Ordem dos Jornalistas do Brasil”, aos moldes da que os advogados possuem. Ou seja, querem contra-balançar o fim da demanda por diploma instaurando um estado policial sobre a atividade. “Ordem”, aliás, remete às sociedades secretas da maçonaria, que por sua vez se originam historicamente das guildas e corporações de ofício da Baixa Idade Média. Todas elas bastante anacrônicas para o matiz democrático e transparente que se almeja para o jornalismo contemporâneo.

O corporativismo não prevaleceu. Não é de hoje que certas entidades de classe trabalham pela manutenção e expansão de “reservas de mercado”. E assim, como clubes privé e excludentes, militam somente em causa própria, pelo estabelecimento de privilégios e espaços restritos aos “sócios”, que pagam (compulsoriamente) a anuidade. Uma luta que remete ao passado felizmente distante do corporativismo varguista e do New Deal de Roosevelt, numa concepção de capitalismo industrial que não faz o menor sentido no século XXI. Com ainda menos razão no campo das humanidades, em que se firmaram a interdisciplinariedade e o caráter anti-tecnicista do conhecimento.

Há quem acuse a flexibilização de representar novo avanço do neoliberalismo. Uma crítica supostamente à gauche. Por neoliberalismo, entendem um modo de dominação global, fundamentado no capital financeiro, que aprofunda o fosso entre ricos e pobres. Todavia, se há uma forma de agir da doutrina neoliberal, ela está em fragmentar o mundo do trabalho. Isto se dá, como regra, pela lógica da especialização — pedra angular da tecnocracia dos governos neoliberais. Exemplo disso, no Brasil, têm-se os dois governos FHC (1994-2002), finamente sintonizados ao governo norte-americano de Bill Clinton e do Partido Democrata. No modo neoliberal, trata-se de definir claramente a fronteira entre quem está dentro (incluídos) e quem está fora (excluídos), em que o fiel da balança é o emprego formal. E aí põem-se um e outro a brigar. Os que estão dentro, graduados dentro da lógica do especialista, defendem o seu quinhão: aumentos de salário, previdência, garantias e “reservas de mercado”. Os que estão fora, sem diploma e/ou sem emprego, anseiam por entrar no trabalho formal, e assim pleiteiam políticas de universalização do acesso.

É o mesmo conflito que marca a universidade brasileira. O setor social historicamente inserido no mundo universitário — branco, classes A e B, vindo de escola particular — organiza-se para impedir a democratização do acesso, barrando os excluídos, como encetado pelos últimos dois governos Lula (2002-10). Por conseguinte, opõem-se a políticas de cotas, bolsas para os de baixa renda (Prouni), planos de expansão (Reuni) e reorganização dos currículos e carreiras (Universidade Nova). Não é coincidência que o combate à popularização do acesso dê-se à direita neoliberal e oligárquica (PSDB, PFL) e à esquerda corporativa e estatalista (PSTU, PSOL), numa aliança conservadora contra a maioria da população. Tudo com base na lógica do especialista e em apelos à qualidade (deles mesmos). Em suma, os que estão dentro lutam para barrar os que estão fora, embora não admitam, na superfície do discurso, a sua intenção excludente.

Neste contexto, as políticas neoliberais promovem uma espécie de “inclusão dos excluídos”. Só que uma inclusão relativa, na medida em que, pela ausência de distribuição de renda, os de-fora findam incluídos precariamente — como se mantivessem o estigma da exclusão. Então, por um lado, o neoliberalismo (positivamente) rompe a privatização branca por dentro do estado oligárquico brasileiro, — massificando o telefone celular, por exemplo —, e de fato propicia condições de estabilidade da moeda para o crescimento econômico. Todavia, por outro lado, carecem-lhe políticas sociais para amparar o desenvolvimento, produzindo subemprego generalizado e agravamento da desigualdade social, do fosso entre excluídos e incluídos. O que somente nos governos de Lula pôde ser desenvolvido, com a multiplicação e priorização das políticas sociais, tornando-se o pivô mesmo do avanço econômico.

O debate ao redor da atividade jornalística reflete a mesma problemática. Os de-dentro, diplomados em jornalismo, pretendiam barrar os de-fora a comunicar conteúdos jornalísticos. A coloração neoliberal, portanto, não reside na política de abertura e acesso à atividade e produção, mas na tentativa de manter fragmentado o trabalho, com uma fronteira clara entre a minoria (civilizada) que está dentro e a maioria (bárbara) que está fora, chancelando somente os primeiros. Só que, como no conto de Kafka, os bárbaros já estão dentro da muralha, por todo lado, encravados profundamente no império das comunicações.

O mundo do jornalismo hoje convive com uma legião de blogueiros, autônomos, midialivristas freestyle, web-artistas e outras criaturas das mais diversas tribos. Há coletivos de vanguarda mesclando audiovisual, design gráfico, sociologia, teoria das novas mídias, crítica, espistemologia etc. E mais! a mais democrática inovação da Internet reside na facilidade para que cada um se torne produtor, rompendo a dialética transmissor-receptor. Ora, qualquer um pode montar um blogue, uma revista online, um twitter de ressonância, enfim, cada pessoa com um computador pessoal tem o potencial de ser um veículo de mídia, direcionando-o para onde bem entender. Cineastas, professores, músicos, escritores, advogados, celebridades, prostitutas, garçons… todos estão veiculando os seus conteúdos, constituindo os seus públicos, todos tornam-se nós de produção desse rizoma infinito da era digital. Sim, chegou a hora da mídia livre, a nossa hora.

A qualidade, fica onde? A pergunta empedernida da lógica do especialista. Com a multiplicação de pontos de mídia, também aumenta o ruído, e conteúdos duvidosos e deturpados passam a circular mais rápido e mais longe. Veja-se a quantidade de spam e mails-“hoax” entupindo as caixas de mensagem. O diploma de jornalismo seria, portanto, indispensável como porto seguro para quem busca a informação limpa, correta, pesquisada, a notícia imparcial, o mais próxima da verdade o possível.

Em primeiro lugar, nada mais longe dos escrúpulos da verdade, transparência e imparcialidade do que a grande mídia brasileira. Historicamente. Aliás, o setor sequer adentrou no capitalismo liberal, permanecendo ainda nos tempos das oligarquias familiares, da república café-com-leite. São famílias dominantes, entranhadas em concessões públicas e no lobby parlamentar, na demonstração mais cabal de que não há divisão real entre público e privado no Brasil. Cinco exemplos: Marinho (Globo), Civita (Abril), Mesquita (Estadão), Frias (Folha) e Saad (Band). Juntas, controlam um conglomerado teratológico cujos tentáculos vão de norte a sul, de leste a oeste, perpassando profundamente a sociedade brasileira. A Globo, o maior império da mídia latino-americana, detém concessões no país inteiro para mega-emissoras de televisão e rádio, além de jornais impressos — no Rio são dois (!) de grande circulação —, revistas, editoras, gravadoras e produtoras cinematográficas, todas elas predatórias e com grandes fatias do mercado.

Chega a ser curioso assistir ou ler a editoriais desses grupos defendendo a liberdade de expressão e da mídia. Que liberdade possui um repórter ou âncora do Jornal Nacional? um colunista influente do Estado de São Paulo? um locutor famoso da Rádio Bandeirantes? Ou você se conforma à linha editorial nos seus pontos relevantes, linha tirada do “aquário” (gabinete dos donos e editores), ou então é melhor procurar um outro veículo, mais adequado a suas opiniões próprias… ou ao jornalista que tem opinião a veicular. Aliás, jornalista com opinião própria só é bem-vindo em jornalão quando ele não afronta a linha dos editores e donos. E o mais grave: na imprensa brasileira, ao contrário de boa parte da européia, os veículos da grande mídia apresentam-se imparciais e neutros, acima do bem e do mal, cândidos serviçais do interesse público, sem partidarismos, limitando-se a mostrar a verdade crua dos fatos e a denunciar os bandidos e malfeitores. Desnecessário discorrer sobre a falácia embutida. A simples distribuição de assuntos e notícias no tempo já implica inúmeras escolhas de ordem política, ética, estética e sobretudo comercial. Que dirá a cobertura da política nacional (de que essa mídia é parte interessada).

O fato é que a qualidade da informação depende muito mais da multiplicidade do que da existência de uns poucos portos seguros e protegidos da barbárie da comunicação. Queremos barbárie, a quantidade conduz à qualidade! Quanto mais pontos de mídia, mais riqueza de opiniões e pontos de vista, para que o cidadão possa pesar as verdades e sintetizar a sua. Democracia é reino da escolha pelo cidadão e não por grupos autointitulados guardiões da verdade e da moralidade. Pois então: a TV Al Jazeera promove radicalismos islâmicos e suporta guerrilhas urbanas? que seja! mas quão mais pobre a cobertura da última Guerra do Golfo, quão mais limitada a visão da verdade, se contássemos somente com as ultra-patriotas emissoras norte-americanas, que chegaram a promiscuamente instalar equipes ditas “orgânicas” junto às forças armadas daquele estado-nação.

Em conclusão, tem-se, de um lado, a grande mídia, concentracionária e oligopolista, com os seus jornalistas-funcionários, leais aos patrões da família proprietária; especialistas ortodoxos adaptados aos formatos de seu veículo, devidamente diplomados e incluídos na carreira formal dos jornalistas. De outro, a mídia grande, difusa e rizomática, heterodoxa, vanguardista, dos trabalhadores informais e precários da Internet, surfando no mundo pós-industrial. Os corporativistas do jornalismo preferem aliar-se ao primeiro grupo, talvez por ambição de, quem sabe um dia, galgar posições na carreira (subordinada e sem liberdade) de um jornalão ou grande emissora.

Com o século XXI e as novas tecnologias, radicalizou-se a democratização das mídias. Tanto o acesso aos conteúdos culturais e informações ampliou-se a níveis antes impensáveis, quanto cada cidadão passa a ocupar um papel ativo e relevante na comunicação social. Em meio à revolução comunicativa, o fim da exigência do diploma de jornalismo é somente mais um sintoma do fim de uma era. O verdadeiro curto-circuito, contudo, já está ocorrendo: as novas mídias não somente se tornam rentáveis e sustentáveis, mas cada vez mais “roubam” os públicos que antes se viam sujeitados, por falta de opção, ao oligopólio dos grandes veículos.

jan 2010 31

Na década de 60, a guitarra elétrica, a rock music, as bandas superpop inglesas e americanas arrasaram a produção cultural e formaram uma nova geração. Tempos de um entusiasmo eletrizante com Beatles, Stones, Jethro, Janis, Jimi, Jimmy, Jim e todos quantos. Woodstock etc. De um início no ieieiê nos primeiros anos dos 60 para o medley fervente de 67 a 69, no cadinho da revolução cultural e dos movimentos pelos direitos civis, atingindo o apogeu com Led, Hendrix e a última fase dos Beatles. No Brasil, primeiro os Mutantes, e então a antropofagia com o tropicalismo, em especial Gil e Tom Zé.

Mas o jazz amargava anos difíceis. As big bands do suingue não mobilizavam a geração há mais de dez anos. O super-acelerado bebop fechava mais noiteclubes do que os abria, — por seu crescente hermetismo e sofisticação, — ou é o que dizem alguns historiadores (ref.: doc do Ken Burns). Música para músicos. Por outro lado, a heroína sugava a cupidez e destruía o ímpeto dos realmente bons. Usuário, Yardbird Parker, alfa e ômega do bop, consumiu-se até o colapso físico e morre em 1955. No começo dos 60, irrequieto, incessante, o movimento desenvolve-se para estilos ainda mais abstrusos, — free jazz e avant-garde jazz — desejo de liberdade que, embora criativa e brilhantemente engendrado por Coltrane, Coleman e cia. — não empolgou a juventude. Eles queriam era rock.

É aí que Miles Davis, já consagrado nos anos 50 (o legendário “Kind of Blue“, síntese magistral do cool jazz, e.g., é de 1959), decide fortalecer e liderar a mais nova escola. Sincretismo radical, o fusion faz concessões a muitos estilos e instrumentos, embaralhando as cartas e chocando os críticos mais caxias. Busca assim um novo espírito para o jazz, uma tentativa de reinseri-lo na multidão, tão acessível quanto o que embalava a vida noturna de New Orleans, na virada do século. Para isso, abraça a guitarra elétrica, o teclado, os efeitos eletrônicos em geral, conjugando-os, em heterogênese, com o trompete, o sax, o clarinete. Fundiu literalmente o jazz, o funk, o rock, o rhythm and blues e eventualmente o hip-hop e a música eletrônica.

O fusion pode não ter conjurado o declínio do jazz, e de fato Miles obteve resultados bem aquém dos planejados, porém plasmou uma gama infindável de músicos, reverberando no rock progressivo, no jazz-rock, no funk-jazz e, décadas depois, no acid jazz. Estilos que usaram e abusaram do jam, das misturas inesperadas, dos solos virtuosistas de guitarra, mas também da atitude colaborativa de instrumentos de contextos até então imiscíveis.

Clipe de Frank Zappa, foi um achado que expressa bem a época:

Banda de Miles tocando músicas do álbum “Bitches Brew” (1969):