nov 2010 10


Quando tudo se resume a isso. amarfanhado em lençóis, úmidos de suor e baba, pele oleosa impregnada de noitada, boca seca e mal-cheirosa, dentes emporcalhados. hoje é domingo, mais um domingo sem saída, domingo adomingado. manhã de luz indesejada. tristeza sem motivo. vontade de não fazer, de não abrir os olhos. têmporas encharcadas. água. o filosofar do teto. o solo lunar. o passo da humanidade. som de TV distante, anuncia novamente o domingo. como todo domingo sem futuro. estático.
Reclamo, reclamo que todos me incomodam, tudo me perturba, nunca tenho tempo pra nada. mas passo o tempo todo olhando pro teto. um tempão. corrosão das entranhas. a bile um dia vazará pelos poros. água. incontinência boêmia sem sentido mentira que o mundo em extinção é mais intenso. quero sair da cama. água. derrubo-me da cama, arrasto-me pelo bagunçado na quitinete. montinho de roupas. cortinas entreabertas de sétimo andar. o sol visceral, nenhuma misericórdia. fiapos da noite no maço vazio de Marlboro, nos sapatos desconjuntados, no cheiro dos dedos. lembrança incandescente de outra noite, e de outra, e de outra, todas iguais? não. ontem. cacos de um mundo se ajuntam atrás de ordem, deixe estar, água, mijar e água. oceano primordial. ociosa manhã.
O banheiro cambaleia até mim. chão frio. próstata ardente, aaaaaaa, fluxo intermitente, um novo homem. água, não tem água. envelhecer é não lavar mais os copos. tanto faz. indiferença amarga. a última das aguilhadas de uma noite já esquecida. guardei a água na garrafa de Teachers´s. o gosto é de vodca. mas é água. sei que é água. aspirina. duas. mais água. muita água. pedaço de pizza. uma lata de pêssegos em calda. combina. cada um se arranja como pode. tudo encalacrado dentro. dói a cabeça. fogo da noite aos poucos se desvaindo, acolho o sol que se apossa do conjugado. pôsteres do Hendrix na luz triunfante. Elegia 1938 na parede, de novo leio: “coração orgulhoso, tens pressa de confessar…” triunfante luz, ardência, adidância do domingo, sem destino. a manhã vai sussurando memórias.
Camiseta qualquer. bermuda qualquer. chinelo qualquer. domingo qualquer. tudo é qualquer neste cotidiano. cotidinsano. cotidinsandecido. quero chorar, não choro. rir é mais profundo que chorar. mais complexo. mais sensível. chorar toda vigarista consegue. chorar na telenovela. a defesa do choro, inatacável. bah, nada de elevador. escadas. não cruzar com os velhos e seus cachorros de butique. não tranquei a porta. dá azar voltar. volto, porque desafio o azar. dói a cabeça. mas não tranco, não ligo. envelhecer é amargar a indiferença das coisas. desapegar-se? não. arriscar-se? não. lixar-se? não. desesperar-se. alegre desesperança.
O que eu quero, dona? me vê um café com leite. e cigarros. bebo e fumo. ah, a baiana do sucos. Marli. cinturinha. adoro. suntuosa, uns dez anos mais? cinco? não como as bonecas que não caminham, flutuam. mimadinhas que adoram um fascistinha. pra sentir alguma coisa real. mas essa Marli caminha. mexe e remexe. objeto do desejo? me oprime. deve namorar um cara que nunca brochou. com ela eu brochava. deve falar ‘barba e cabelo’. isso é tão clichê. por isso real. crua. cruenta. cruel. render-se ao chavão. cotidinsano. queimo a boca. deixo a garganta queimar. ergo os olhos, um desses jovenzinhos. vinte anos no máximo. franja e sapatênis. envelhecer é falar “essa geração”. mais abonada que a minha. essa galera dentes alinhados narizes corrigidos. não se revoltam com nada. nem com os pais. bem cuidados apascentados bem alimentados. que nem laranjas da Califórnia. mas se você espreme, não sai nada. inconsistente. talvez um líquido adocicado incolor. ou choro de novela. droga de luz no espelho. estou com cara de domingo. inapresentável. bolsa nos olhos. pele manchada. remelas. meu reino por óculos escuros. não vou buscar. dá azar e…
A camiseta manchada. branco no verde-escuro. pasta de dente ou esperma, não reparo. as coxas de Marli. a fulana do canto me viu reparando. ar de profissa. toda arrumadinha de manhã. preconceito. machismo. sorrio de leve. ela despreza. deve ter lido o pensamento. descontraio. ego e superego um litígio. esse sucos só tem profissa. outro dia mesmo mas… passa um ônibus a toda, viro o rosto, o 174, eu pego esse ônibus. é domingo e a TV do sucos está ligada. latejam as idéias. outro cigarro. Marli, dentes tão feios, tesão. outro cigarro. no fundo o auge do homem é curtir um cigarro. e só, sem mulher, sem literatura, sem ressaca, sem esperança. tristeza, o motivo começa a se delinear. a noite passada. pás de memórias da escuridão. a colherzinha do café reflete a luz, dor de cabeça.
Laísa. ela acordava mais cedo e deixava mensagens de batom no espelho. ia embora e deixava essas coisas loucas, parecia um poeta maldito. outro dia li “Tua vida é uma puta merda e você sabe”. chorei. é ridículo. também mora numa kitinete. dilúvio de livro e bituca e CD pirata. ela leu tudo a filha da mãe. tudo tudo tudo. criança roubava livros das livrarias. agora dos amantes. outro dia mesmo. achei meu “Jogo da Amarelinha”, vermelho. Laísa, olha meu livro aqui. ela abriu na primeira página, escreveu “Paulo”, pôs de novo na pilha de argentinos. e riu. desarrumou meu cabelo. ela pega pesado às vezes. outro dia na kiti dela, achei camisinhas no banheiro. que eu tinha comprado. tudo bem foder os caras. mas pô, aquele pacote era pra gente. eu compro o negócio e ela usa com outros caras. queria ter acordado hoje com o espelho abatonzado.
Resolvo tomar banho de mar. tirar a ressaca. arrancar o domingo do corpo, catarrá-lo na areia, como um molusco, do bem pegajoso. é isso ó, ir descalço até a praia e dar uma nadada. decido-me de vez. vou tomar banho de mar, depois ponho “Stairway to Heaven” no repeat infinito. se isso não funcionar eu me mato. hahaha. piadista. vou tomar banho de mar, pôr “Stairway to Heaven” no repeat e dar uma bela cagada. tá decidido, uma cagada com o solo do Jimmy Page, que mais querer da vida? lembrei que a porta tá aberta. entro. procuro a sunga. dor de cabeça. sento à beira da janela. uma coca light. outro cigarro. passou outro 174, vazio.
(…)

nov 2010 12

[Para ler a primeira parte: Prosa Bastarda (1)]

Sunga verde. ficam os chinelos. caminhar na pedra. pedra portuguesa desenhada em tempos imemoriais. algum cavaleiro da ordem de cristo, atrás de riqueza e mulheres nuas perfumadas das índias. sonho de uma manhã de verão. a cabeça, essa cabeça, esse dínamo interrompido por lufadas de dor. contração à altura da testa. ribombar de estrelas. andar sobre a pedra praia a dois quarteirões. clareza lancinante.
Melancolia não mais. tédio é tão chique. né? mal do século. mal da classe-média. ai de mim, Laísa, saudades dos teus cachos de aventura. e do teu “eu não te amo” de vermelho ruge no espelho. e da tua boca infinita que me engole. daquele beijo que eu era só o beijo e nada mais. nem uma vírgula ponto-e-vírgula a mais. o ócio da lembrança de um beijo. o ódio das tardes incautas.
Espelho trincado de socos de inconformismo. inapresentável a minha cara. tédio é tão chique. pois então, Laísa, esperava falar contigo, mas não dissemos nada. ora Paulo, há tão pouco a se dizer se se trata de falar alguma coisa verdadeiramente. como plantas. se alvoraçam com o vento, se curvam, se tocam, mas não se comunicam. outro dia mesmo era tanta banalidade, tantos clichês categóricos, Laísa, me virei pro colega de trabalho vi uma samambaia. uma samambaia gigante. com aqueles pontinhos pretos atrás. sementes né? que sejam. tinham aqueles pontinhos pretos. e eles se moviam. como insectos. com ‘c’ mesmo, insectos, igual aquela vez. da bebedeira infame no bar da Jebel. sair na rua gritando “seus insectos! insec-tos, são vocês!”, insectos diante do anticristo de camisa preta em cima dos carros com oitenta e cinco quilos de generosidade e loucura.
A adolescência sem suspiros. cigarrilha samba na boca, copo plástico com vodca extensão das mãos. balalaicas. nada de uísque. os velhos tempos sem uísque. hoje uma camisa limpa e um bom uísque, eis o homem! velhos tempos de mijar na rua como afirmação da virilidade. modos de turminha barulhenta com olhar assassino covarde. riso luciferiano. extintores de incêndio e putas. os tártaros invadem a Rússia no século doze que nem um bando de garotos fazendo merda na noite. entrosados. queria ter uma Rússia em mim. eu tenho uma Rússia? vã glória. Andrei Rublev era o filme predileto da Laísa. digo preferido dentre os soviéticos claro. ou ela dizia isso. ou se vangloriava. Andrei Rublev esse papo tudo de sofisticado de Tarkovski. metafísico, congelamento do tempo, tempo-espaço, espaço-tempo. existencialismo de Dostoievski e Chestov. em Solaris. até onde chegamos ó altíssimo. ai a cabeça. é assim mesmo. não tem como gostar d´alguém sem sofrer e causar dano. perdas e danos.
Areia pelando. descalços no desmundo. barrigas e bundas desfilam. desinibidas. toda a deformidade fellínica. pá pá pá frescobol. tamboréu. sol sol sol. barraquinha de sempre. me vê uma batida. abacaxi. como assim? pinga. cheiro de ventinho-maresia. zunzum abelhas. quanto? tó. adeus ressaca. ir até a beira da água. ondinhas nos pés. criança castelinho de areia. no horizonte o navio com destino pra China, indiferente. agora esticar. apertar. estalar. água escura lodosa verde-escura braçadas. a noite de ontem. cacos formam mosaico. mosaico pode ser lido daqui pra lá, de lá pra cá. a parede da memória. Alberto. braçadas mais rápidas. sol e sal.
Que fim levou a noite pra Alberto ontem.  reiterada pergunta. foi ao fundo da noite. forço a vista, atrás de eventos desconexos. focar o que está logo ali, mas não aparece, não se anuncia no magma de vozes e sonhos. água turva como a lembrança. demasiado oleosa.  o foco da lente está desajustado, como se o tempo não significasse. como se o que eu pudesse dizer a Laísa fosse mais  apropriado no dia em que não existíssemos mais. e nada mais, nesse dia, poderá ser dito. não dissemos mas devíamos. por causa de tudo. é esse o fogo do juízo final. que faz dizer o que poderíamos dizer, se soubéssemos que não mais existiríamos no dia seguinte. o que você diria para alguém se soubesse que amanhã não existiria? e o que não diria de jeito nenhum? o descrédito das palavras. é preciso falar. falar a despeito de. apesar de. do quê? da morte. me perdoa leitor se estorvo, se pareço engenhoso. pretensioso. as palavras. é que não consigo. é que… você sabe. enfim.
Não se vê nada. água noite turva demais. tirar a cabeça d´água.  respirar. reordenar a trajetória. vou em direção daquele velho farolete no fundão. cinco minutos de braçadas. fácil demais outrora. nadar aqui como renascimento do menino. nadava o mesmo circuito desde que me lembro por gente. com cinco anos já nadava. a orla da praia como recordação primeira, logo última. o cheiro pastoso da baía dos navios. a cor sabre da areia. só que hoje não tenho mais o sangue fervendo. o apetite engolidor da vida. a vida é que engole.  me devora, me despedaça em memórias. o farolete cada vez maior. meninos escalávamos com uma cordinha. tinha uma cordinha. cortavam pra não subirmos mas sempre amarrávamos outra. meu irmão, sempre ele, trazia a erva no saco plástico. marijuana que nome per-fei-to. Maria Joana gritavam no acampamento. Maria Joana! Maria Joana! saco plástico pra não molhar no trajeto. chego ao farolete. fumávamos em cima do farolete. encarapitados masturbavam-se todos ali. masturbávamos? isso foi era fantasia. daquele tempo ou depois. foi mesmo? devaneios de uma alegria lúcida, entrecortada por momentos de desprendimento. o coração de menino não morre. é enterrado vivo.
preciso ligar pra Alberto.
preciso ligar pra ele.
Ei. não tem mais cordinha. subo de qualquer jeito. tenho quê. ralo a mão. escorrego. uma. duas. três. na terceira meu pé acerta alguma coisa debaixo d´água. algum ferro esquecido da estrutura. ralo o pé. não desisto. subo na quarta. cabeça melhor. a rebatida. a visão da orla. prédios tortos, labirinto torto. a brisa melhor do que nunca. soberana. que fazer de Laísa? Laísa Laísa. tem as pessoas deprimidas e as que se acham deprimidas. as mulheres da idade média não tomavam valium. imagine, ano mil, cruzadas e peste negra, cada parto uma roleta russa. sangue e cruzes e horror do fim do mundo e não tomavam valium. aquilo sim era mulher de Atenas.
Telefonar pra Alberto. tinha algo errado. ontem. Alberto falara sem falar. charada nas entrelinhas. o quê? buzina de navio se despede da baía. um nome emerje do labirinto. escapar do minotauro que come o passado. está tudo errado. pressentimentos e imagens. obtusa manhã. tudo estranho aqui no farolete da infância. a praia logo ali pessoas sem rosto passam suas felicidades bovinas. grito maquinalmente palavrões. o preferido: buceta. daqui não se ouve nem com vento a favor. estar num deserto sem ninguém ao alcance do seu berro obsceno. 

Me atiro na água escura. sei que não tem nada embaixo aqui onde me atiro. mergulho. tão obscuro quanto a noite passada de onde vêm cabelos. os cabelos me chicoteiam e deixam nódoas de nicotina pelas costas. são fios soltos. telefonar pra Alberto. urgente. braçadas vigorosas. a noite disse adeus. mentira. disse até logo. um novo homem numa nova manhã. o menino venceu. desadomingou-se. o velho anão niilista e sua gargalhada foram lavados das minhas costas. a noite depôs a sua lama e suas algas no mar. no oceano primordial. a empáfia do dia enfim começa. desencardido dia.

nov 2010 14

Para ler desde o início: Parte 1 e Parte 2

Chiam pulmões, expandir e contrair. aqui já dá pé. fico em pé. água pelo pescoço. caminho. diástoles e sístoles da bomba chamada ser humano. o menino chego à beira-mar em seus trinta anos. contemplo ainda outra vez o espetáculo das manadas humanas. a multidão de bombas na praia de domingo. caminham rente ao mar nas duas direções. se cruzam e se medem as fisionomias, as pernas, os peitos, as grifes dos óculos escuros. centenas de milhares de pegadas inúteis que o insolente mar não tardará em apagar. para sempre. será assim até o dia em que a bomba se recusar a funcionar. o fim de expediente. expira a vida útil. do motor, das câmaras, do fluido. 
Estico os braços ao máximo. há muito desisti de entender. é como abraçar as ondas que agora batem às costas crestadas pela manhã. chego ao seco o sol pousa no rosto. frontal. tudo é luz não fosse a noite de ontem. insistente noite. Joana ontem. Alberto ontem. o gosto acre dos cigarros aguça o palato. bolinha azul do frescobol. Joana ou Laísa? Joana. rodinha de bola. atravesso a extensa faixa de areia. mata fechada de guarda-sóis. caravana de ambulantes. Joana e Alberto. lombos sinuosos com o rabo apontado ao céu, em despeito à autoridade do universo. teimosamente imperturbável.
o mosaico fica mais nítido. fluxos desordenados se condensam em nacos de recordação. o ontem se sedimenta. ontem foi a festa me recuso a chamar soirée lá na casa do Alberto. uísque e red bull. invocado de tudo, rodopiante, até o horizonte da não-lembrança. táxi me escorraçou na sarjeta, vomitado. Seu Osvaldo me pôs no elevador. disso lembro. mas da festa? saí expulso? não sei.
Alberto saberá. meu grilo piadista. o cara que sempre quando encontro tenho que ficar bêbado. e passar confidências. sua presença me ativa a vontade de Dioniso. um Dioniso vulgar, mas fecundo. me leva a delírios produtivos. Alberto conheci no final da faculdade. amigo mesmo, não como outros que já morreram aos trinta e pra quem amizade é tomar choppe de vez em quando pra falar da injustiça do mundo e da trairagem sic! das mulheres. Alberto o cara mais não-tô-nem-aí que já conheci. não discorda nada de você, te sacaneia em tudo. tem uma cosmovisão romântica não sentimental nunca melosa. um guerreiro indomável contra a Grande Máquina. se não tem nada maroto pra dizer, se limita a sorrir e sacudir a cabeça pra frente, como quem diz sim, sim, sim. seu ânimo avacalhador não deixa o tédio prevalecer em situação alguma. outro dia no bar deu dois pilas pro atendente passar discretamente um bilhete à garota sozinha-tristinha no canto. a garota leu, ficou vermelha, sorriu súplice, foi embora contente. o bilhete dizia “sou só um humilde garçom, mas eu te amo”. gentil e condescendente, porém não muito, perde o amigo e não a piada. fraseador por vocação. um dia tomando caipirinha ao poente, se virou do nada e disparou, muito sério: “como é difícil conversar com alguém que ainda não se convenceu da ausência de sentido último em todas as coisas”. ele tinha a lábia na ponta da língua.  múltiplos recursos. se daria bem como vendedor de seguros, político, gigolô, alto executivo. 

Alberto, nunca descobri qual era a dele de verdade. virou jornalista da página policial e não troca por nada. seu sonho de universitário era trabalhar nas Notícias Populares, leu de ponta a ponta, e escrever sobre tarados, seqüestros e bebês-diabos. se arrasou com o fechamento das NP, justo no ano da formatura. agora não tem mais bebê-diabo e seqüestro de Roberto Carlos, mas bem que ele se deliciou com a do traficante que estrangulou a namorada grávida com o cordão umbilical do feto arrancado. o texto dele ficou tão borbulhante de sentidos que parecia escrito por Gay Talese.  já disse mil vezes pra ele investir em romance policial. ele acha essa de “livro” um fetiche bobo. sou um alvo preferencial de Alberto. ele só respeita as pessoas sacaneadas que não se sentem ofendidas. Alberto tem desprezo por quem se ofende com facilidade.

A última zoação dele comigo foi quando doamos sangue. chegou um mail na redação pedindo com urgência. lemos juntos o apelo tão sincero, o filho do remetente havia se acidentado e dependia de uma transfusão para sobreviver. olhamos um para o outro, e fomos, faceiros, o pedido de socorro impresso, conseguir a dispensa do trabalho que a lei concede nesses casos. passamos o dia repondo  o sangue perdido no bar da Jebel. dias depois, o filho-da-puta falsificou meu resultado. dos exames que eles fazem automaticamente com o sangue do doador. forjou uma cartinha endereçada a mim, em papel timbrado, brasão do hospital, texto insuspeitável, e deixou sobre minha mesa. a carta sugeria, com bastante tato, eu entrar em contato o mais rápido possível com o “setor de infectologia”, pois “o exame havia dado alteração”, mas que eu “deveria manter a calma” porque era “necessário realizar novos testes”, segue telefone de contato. caí como um patinho. na hora tudo girou. dobrei os joelhos. até os lábios ficaram lívidos. e Alberto rindo que se mijava na sala ao lado. com outros colegas,  claro. enquanto eu me derretia e corria pelo ralo. o medo da aids. a geração inteira sofreu e sofre com isso. como é que eu nunca peguei nada? Deus ajuda os pecadores. mesmo! meu prédio.

Subo pelas escadas pra contornar a velha do décimo andar. com seu poodle mais antipático que ela. subo molhado e descalço. porta destrancada. o ritual de praxe. lavar o pé. mijar. beber água. fumar. ligar o som. alto. Led e a cagada ficam pra depois. play Jimi. o bufão e o ladrão na manhã que já vai alta. tem que ter uma saída do labirinto. o vozeirão arrebenta. a guitarra arrebata. nessa, melhor que o Dylan. não é diferente, é melhor. o xamã. o maior artista do século vinte. o modelo de artista trágico. cabelo incrustado de vinho barato. resina vermelha no cabelo black. ainda está pra ser escrita a história da black music no Brasil. era mais novo que eu. tá ali ele vinte e sete anos mais novo que eu me encarando na parede. como o Jim, a Janis, o Kurt. esquento um café. ligo o celular. nenhuma mensagem. nenhuma ligação perdida. porra, Laísa. então ligo pra Alberto. minha leveza não perdurará. falsa leveza.
Alberto? soy yo, fala cara, ontem deu tudo errado né.
opa camarada, tava na praia?
é, banho de mar pra tirar a zica, e ontem de noite?
tirando a sua perfomance, a noite foi agradável, você sabe como um luar e uma guitarra flamenca são mais que suficientes pra agradar espíritos simplórios.
vai falando… eu o quê?
tás de brincadeira, não lembra, Paulo? a Joana…
a Joana, o que tem.
como venho te dizendo há séculos continua enrabichada por você, e pra valer.
sim, ela obcecou tô ligado, mas, ontem?
ontem e o Gustavo pelo visto não tá nem aí, ficou lá no jardim se exibindo, deleitou os espíritos simplórios com o seu vaaaaaasto cabedal trilíngüe sobre Rimbaud, Blake e Gláuber Rocha.
e a Joana ficou grudada, me perseguiu pela festa, Alberto tô lembrando (sim, me confrontou, disse que estava se separando, eu a entendia como ninguém, eu despertava nela uma outra Joana, mais livre e mais jovem, que naquela fase da vida dela se apaixonaria por um poste que dizer por mim, que a entendia como ninguém…)
pois é, mas você falou algo realmente comovente, sensível como só você sabe fazer, porque eu vi, ela de supetão fechou a cara e foi embora à francesa num choro contido, daqueles bem pungentes, e nem falou com marido e no momento Gustavo entretia meia-festa com truques de cartas.
não, eu, eu fui… direto, fui, quem sabe… cruel, falei coisas que não deveria, antigas (crueldade é o cru, o real, e não à toa se é cruel quando se “manda a real”).
guarde seu remorso pras tuas cabras.
a comiseração é minha.
o negócio é que, logo depois, você nos agraciou com uma apresentação de dança contemporânea, foi pro meio da sala se agitando e dançando, do jeito singular que você dança todos os ritmos, e fazendo caras e bocas, ao som de Elis Regina, ah sim, requinte da cena, a sua braguilha estava aberta.
e aí alguém fez uma piadinha, ou olhou com sarcasmo, você fechou o tempo na hora, parecia até que estava esperando por isso, e então ficou daquele jeito agressivo, falou em anticristo e insetos e après moi le deluge e aí, como sói ocorrer nessas ocasiões, tive que arrastar você até o táxi.
Alberto, pago uma cerveja hoje como compensação.
aceito se forem três.
feito.
que horas?
à tarde, tipo quatro horas, eu te ligo, beleza?
me liga que estarei em casa escrevendo a matéria do bebê enforcador.
aquele abraço.
até logo, maledetto!
Me deito diante do teto. Joana qual nada. Joana não. Laísa. andar de mãos dadas com ela decrépito sentimentalismo. será amar aceitar o ridículo. nas escamas do emotivo. eu que me orgulho de uma vida na chanchada. provar mais uma vez a fraqueza e a finitude. se render. admitir a baixa autoestima, amar quando não se ama o suficiente. não se é capaz de tecer relações em todas as direções sem, um dia, querer acordar colado à pele da amada. pele de Laísa que eu nunca mais terei. amar afeto passivo, rendição sem condições. término do sítio da cidadela da vaidade, assaltada pela carência. e eu, menino feito, não tenho mais muralha. o castelo construído pedra sobre pedra de experiência em trinta anos desmorona. 

Laísa, ela, só ela, me provou novamente que não entendo nem nunca entenderei o porquê das coisas. eu que me convenci tão jovem que as palavras sentimentais servem para camuflar a crueza do assalto sexual. agora chafurdo qual porco no lamacento sentimento. grunhe suinamente: eu te amo. no pântano do amor soçobrou um navio de convicções. eu que nunca acreditei e sempre preguei que o amor não é um sentimento. ai, que situação novelesca. me decalco de mim mesmo noutro, só para constatar a minha perdição, só para ficar mais angustiado. Laísa meu mantra. refrão que se enfia nos minutos. maré de saudade. o amor é um mantra. no qual vacilo até ser colhido pelas primeiras imagens do sonho. adormeci.

nov 2010 18

Para ler desde o início: Parte 1, Parte 2, Parte 3.

Estou na belina de meus pais num tempo em que não se usava cinto de segurança. corpos infantis dourados salgados. banco de trás espremidos, pele com pele melada. sacudindo de paralelepípedos e buracos. menino irrequieto, pés descalços, à milanesa de praia, era eu de novo. sonhando a paisagem pela janela do carro, no enquadramento padrão de filme da infância. os prédios passando, torres de vidro acima da cidade, acima do espetáculo insone das ruas. tão novo mas já sabia contemplar um futuro de mistérios. sabia que, atrás do muro da banalidade, haveria um jardim de delícias além de toda fantasia concebível. segredos inapreensíveis de cheiros e impulsos. tudo parecia mágico. era mágico. a pressa de existir. no carro, ouvia meu avô falando do medo de morrer. mas vô, medo deveria ter eu, de morrer sem ter vivido, sem ter provado da paixão de viver até o final da taça. estou sentado numa cadeira vermelha e tudo isso não está acontecendo comigo. percebo agora que são imagens na tela grande de cinema.
Estou na primeira fila desse cinema em que o passado desfila. Augusto me dá um peteleco na orelha. acorda pra vida moleque. e gargalha alto. no filme, o menino Paulo chorava, enquanto em primeiro plano os créditos desciam. o menino chorava somente diante da injustiça. chorava? pelo menos escrevera isso na redação nota dez que comoveu a professorinha do primário. ela à época não passava de um bloco vermelho perfumado inacessível. chorava? era um fraco, isso é que eu era. um ressentido o menino. o choro é o último refúgio dos canalhas. as luzes acendem e os garotos esvaziam o cinema. tarde matada da escola. estamos caminhando em turma pelo calçadão da praia Augusto me puxa pelo braço. e fulmina: moleque, você sabe bater punheta? é assim ó, assim ó! abre a braguilha e se masturba na frente de todos. e desse jeito ganhava o olhar de hiena dos demais amiguinhos. todos mais velhos do que o menino que não sabia punhetar. fragmentos de pesadelo, me viro e reviro, compungido porque eu já vi esse filme.
Estou no bar da Jebel com Alberto. Augusto senta-se à mesa. está com a idade de quando éramos garotos, a barbinha, a costeleta, o cordão prateado, o corte máquina-quatro, o suvaco se cabelando. na mesa, não me soa absurdo o fato de eu ter uns quinze anos a mais do que meu irmão mais velho. diante dele, volto a ser o menino, o homem desfeito. e Augusto, dominante, se põe no centro dos assuntos e passa a discorrer na mesma desenvoltura com que entorna os copos de cerveja. gesticula demasiado. esse é Augusto. têm pessoas que te fazem retroagir e ser alguém que você não é mais. não é que a pessoa te vê diferente do que você se tornou. essas pessoas poderosas efetivamente te estilhaçam a personagem. te repõe na verdade inconfessada, deliberadamente esquecida. força involutiva que converte Paulo. converte-me na imagem alquebrada do menino que, doravante, não posso evitar de ser.
Estou na mesa do bar, e todas as mulheres olham para Augusto. querem Augusto. desde cedo aprendi que toda mulher tem um cara pra quem ela quer dar. o jogo da conquista se resume em provar a ela que você é esse cara. Augusto sempre era esse cara. me oprime. qual Ovídio, contava em prosa e verso as suas caçadas amorosas, a sua conquista épica por todas as fêmeas da espécie. um donjuanismo no seu sentido ontológico. no seu sentido diria trágico não fosse Augusto, porque ele não merece alcunhas tão caras. afinal trágico é um dos elogios mais bem cotados na minha tábua. Augusto tinha o donjuanismo por religião. Augusto galga a sua salvação na diversidade da conquista amorosa, precisa provar todas e qualquer uma. não tipo aqueles pra quem tudo é igual, pra quem tudo no fundo resta indiferente, relativismo apático, laranjas sem sabor, suco sem açúcar. nem como aqueles outros que pulam de fantasia em fantasia, que perscrutam sem parar, porém no fundo no fundo compreendem: é a busca mesma, e a falta de esperança implicada na busca, e a ficção desesperada que a acompanha, que verdadeiramente importam.  para quem a noite destrói os projetos e recombina a vida em conto inédito. as mil e uma crônicas noctívagas. o caminho da noite se faz a cada passo.

Estou novamente no banco de trás. é Augusto quem dirige. tresloucado. chameja de um fogo selvagem. a horda assedia uma igreja ortodoxa na fronteira das estepes. se refugiaram nela após o assalto da cidadela eslava. os tártaros de uniforme escolar põem a porta abaixo e agridem e estupram e matam os crentes. Augusto lidera a chacina de seu alazão preto peludo. isso no século doze. mas agora é noite funda no centro da cidade. na rua das borboletas. calçadas de fel mijadas, vomitadas, esporradas, ensagüentadas dos séculos. estabelecimentos sob luzes violetas e seus leões de chácara.  mil e uma crônicas de devassidão. vai.

Paulo, tua vez. vai moleque, vai, nenhuma instância divina poderia me refrear agora. pego o extintor. meu rosto deformado de punk rock. vai! o carro faz a curva rosnando de insídia. me penduro na janela. um dos jovens tártaros bate na lataria. rebuliço na calçada, o carro chega antes da fuga delas. vai!! não hesito um segundo sequer. o jato de espuma atinge as borboletas na calçada. revoada e palavrões. gritam. atiram pedras. tarde demais. já vamos longe. mas deveriam ter acertado. bem na cabeça. mas não acertaram e é isso que no final vale. coração à boca. exultação. colho a aprovação em risos e caras, recebo tapinhas carinhosos no rosto como num filme americano de máfia. me lambuzo da covardia sentimentos confusos mas no geral estou bem. o menino triunfa. seu pai ficaria orgulhoso. como um anônimo recalcado na massa feliz, ao queimar a bruxa. como o estupro de uma eslava por um delinqüente viquingue. como o anônimo ao ver o carrasco supliciar os mamilos da vítima com fórceps, ao enfiar tições em brasa em sua vagina. me reviro repleto de asco. sei que não é suficiente.
Estou na mesa do bar e Alberto começa a narrar a famosa reportagem. a premiada.  Armando Souza Santos, desempregado, morava com a nega e a filharada num casebre qualquer da periferia. até o mês anterior trabalhava na construção civil. despedido ao se apresentar entupido de cana. transpirava álcool nesse dia. um perigo ao empreendimento, palavras do engenheiro. é rua caboclo, é rua! mal sabe ele que nenhuma causa é justa quando se acossa a dignidade de um homem. Armando Souza Santos perseguiu o dotô. com uma chave inglesa. o engenheiro escapou graças ao bíceps de quarenta centímetros do fiel encarregado migrante do Piauí.

Depois disso, Armando Souza Santos passava o dia em casa. à toa, entretido por televisão e cerveja. até à tardinha quando se confraternizava com os compadres no bar. sua mulher fazia faxina na casa de madame. e reclamava no ouvido do marido. marmanjo vagabundo bêbado sustento com o suor do dia. Armando Souza Santos nunca reagiu. nunca batera em mulher. ficava em casa e agüentava quieto, a criançada na escola, menos Uélinton, o caçula. dez meses de vida. criança feia e ainda por cima um chorão. chorava de manhã, de tarde e de noite. chorava quando tinha fome, quando pedia colo e quando queria cagar. bebês não fazem cocô, eles cagam. todo dia a patroa saía às seis da matina e Armando Souza Santos ficava solitário, ele e a choradeira, entre quatro paredes. horas intermináveis de choro. o peão se limitava a mirar de esguelha a bola de carne que só fazia chorar e excretar. olhava sem ternura nem desprezo. circunspecto.

Nunca reclamara de nada com ninguém até aquela tarde. Armando Souza Santos colocou água para ferver, segurou Uélinton pelos pézinhos e, de cabeça pra baixo, mergulhou a cabeça macilenta num inferno borbulhante. mas o bebê não chorou enquanto cozinhava. eita bichinho forte. deu só uma tremidinha e depois inércia. Armando Souza Santos devolveu o corpo ao berço. e voltou a assistir à tevê. depois pegou outra cerveja e coçou o saco.

A mãe chegou horas mais tarde e Armando Souza Santos cochilava no sofá. foi o ó, né gente. a vizinhança toda um pandemônio. veio rápido a polícia. tentativa de linchamento. nos dias seguintes comoção em toda a região. saiu até no programa do Datena. os dotes literários de Alberto garantiram um brilho ímpar às notícias de seu jornal. Alberto foi promovido e tudo.

Armando Souza Santos confessou, perguntado o porquê, declarou que estava de saco cheio de tudo, que tinha resolvido apertar o botão do foda-se. Alberto romanceou a declaração, e escreveu: “Não agüentava mais esperar o despertador tocar para ser engolido pela Grande Máquina. Terminou por escorrer pelo ralo do sem-sentido”. citou até Nietzsche.
Armando Souza Santos apanhou, levou choques, foi currado por trinta detentos, desceu a níveis sórdidos, inimagináveis, do subsolo humano. mas ele não encontrou Jesus. não se converteu. no fundo da noite não achou uma luz. não se tornou um presidiário exemplar do complexo e não foi elogiado pelo diretor. osso duro de roer, enfrentou o suplício de cabeça erguida, sem titubear diante das piores crueldades. um dia contudo, após a sova que seria a última, abandonado por seus algozes na escuridão e no silêncio da madrugada, agonizante na lama de sangue e excremento, Armando Souza Santos finalmente naufragou num sentimento inédito. se prostrou, lamentou, ganiu, levantou as mãos aos céus e implorou perdão. a alguém. a qualquer um. a algo. foi quando sentiu uma presença. estendeu a mão para um canto escuro, onde, ele achava, um espectro o observava. à beira do colapso, Armando Souza Santos ainda conseguiu tirar algumas palavras gemidas do corpo lacerado: me per…do…a? me perdo…a? me perdoa?!? o vulto saltou à luz e lhe gritou: NÃO! foi aí que percebi a verdade terrível do sonho. essa sombra era eu.  

Para ler desde o início: Parte 1, Parte 2, Parte 3.