abr 2010 06

Final de 2001, a duplinha geek de Detroit, “The White Stripes“, de Meg White (74- ) e Jack White (75- ), começa a bombar com o terceiro álbum, “White Blood Cells“, bem recepcionada pela crítica (recordo-me ainda hoje da resenha na Stones). Eu como todo mundo achava que eles eram irmãos. Coisa nenhuma: eram casados (separaram-se recentemente, mas a banda ficou). Punk rock com blues, num rock faça-você-mesmo de garagem, aliás, parece mesmo que eles passaram um tempão tocando na garagem antes de ir pros estúdios e subir nos palcos. Então nos meus vinte e dois anos quando descobri a banda, às vésperas da formatura, depois de um laudêmio vivendo em repúblicas ao som frenético de tudo que era rock (o napster universalizara o acesso), meu palato musical parecia ter estagnado num punhado de vinte ou quarenta grupos. O último grupo cuja vibração e mensagem haviam me conquistado a sério era o “Oasis“.
Me atraíram o domínio da atmosfera, a brutalidade da guitarra (“I’m Finding It Harder to Be a Gentleman“), a melodia suja, a escatologia evocativa (“Dead Leaves and the Dirty Ground“), o estilo fora do lugar-comum, o intencional despeito pela forma refinada (“Offend in Every Way“), um certo desprendimento misturado com talento que resulta brilhantismo — sobretudo em “Fell in love with a Girl“, que iria explodir supernova no álbum seguinte, “Elephant“, devastador e aclamado por muitos (eu dentro) como o melhor álbum de rock da década passada.
A seguir, três momentos significativos do terceiro álbum deles, “White Blood Cells” (2001):
Amor bárbaro, energia e punk rock recordam Sex Pistols em “Fell in Love with a Girl“.
The Union Forever“: melodia sinistra e hipnótica, atmosfera noir, uma homenagem declarada a “Cidadão Kane” (Orson Welles). A letra foi construída com falas do longa.
This Protector“. Faixa de encerramento do álbum de dezesseis, uma espécie de composição à “Coldplay“, mas sem babaquices e letargias bobas. Vigorosa a seu jeito.

jul 2011 05

Servidão moderna (De la servitude moderne), Jean-François Brient, França – Colômbia, 2009, 52min.

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“Nenhum homem se machuca senão por si mesmo.” Diógenes de Sinope


“Gostaria muito de entender como pode acontecer que tantos homens, tantas cidades, tantos países sofrem sob o jugo de um único tirano que não possui outro poder que não aquele concedido pelos próprios homens.” Etienne de la Boétie


“O sábio deve ter o dinheiro na cabeça, nunca no coração.” Jonathan Swift


“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.” William Shakespeare


“A vida é breve, a alma é vasta, ter é tardar.” Fernando Pessoa


“Os jovens em todo mundo tiveram de escolher entre o amor e a lata de lixo. Em todo mundo eles escolheram a lata de lixo.” Guy Debord


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais,  / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção. / À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze / ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes, que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre os mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito. / A literatura estragou as tuas melhores horas de amor. / Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.” Carlos Drummond de Andrade

 

nov 2011 11

O cattivo maestro chegou à tardinha. Sem pompas, de fininho, como que brotou na praça da Cinelândia. Simpaticíssimo, passeou pela ocupação, trocou abraços e afagos, conversou com acampados, assistiu à assembléia, escutou, sorriu, aplaudiu. Não quis protagonizar, não se apresentou como representante de ninguém, não foi ao centro para ler manifestos ou conscientizar as massas. O maior respeito que poderia demonstrar era esse mesmo: circular na imanência dos encontros e desencontros, naquele fim de tarde arejado. Certo momento, um morador de rua também acampado, negro, apareceu do nada e abordou o filósofo autonomista: “— Vereador! precisamos de um monte de coisas“. Algumas pessoas ao redor se preocuparam. Negri, com doçura imensa, colocou a mão no ombro do homem e respondeu: “Scusa signore, non parlo bene il portoghese.” Cumprimentaram-se, e ele foi embora. No final da visita de cerca de duas horas, deu uma palhinha ao GT Comunicações (abaixo). Precisamos de mais intelectuais assim, intelectuais da praça.


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