Publicado em 21 de março de 2011
Agora, a revolução árabe é morro acima

Publicado originalmente no Amálgama (clique para ler), em 20 de março de 2011.

Obama estava distante e cansado. Pronunciava as falas maquinalmente. Parecia cumprir a agenda em Brasília como um burocrata aborrecido, vagamente interessado pelos assuntos em pauta. Nem Lula compareceu para conferir maior vibração à visita do presidente americano. Num certo momento, um assessor lhe confidenciou algo ao pé-do-ouvido, e Barack respondeu: “proceed“.
A cabeça de Obama estava longe. Daqui, ordenou a Operação Alvorada da Odisséia. Os EUA estão à frente da intervenção militar na Líbia. Articularam seus aliados no Conselho de Segurança da ONU, Reino Unido e França, para aprovar a Resolução 1.973. Muito mais do que estabelecer uma zona restrita de voo sobre o território líbio (que por si só já infringe a soberania e é casus belli no direito internacional), como vem sendo noticiado, a medida autoriza amplamente a “adotar todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e populações civis sob a ameaça de ataques na Líbia, inclusive Benghazi, porém excluindo a ocupação militar de território.”
Obama está acuado. Enfrenta crescente descontentamento nas bases mais tradicionais do Partido Democrata, bem como no movimento jovem que, turbinado pelas redes sociais, o elegeu. Entrementes, a oposição unificada ao redor da pauta ultraconservadora do Tea Party se fortalece a cada dia. Neocons e fundamentalistas cristãos pressionam Barack pela direita, ao mesmo tempo que irrompeu nas ocupações de Madison (Wisconsin) uma nova esquerda, insatisfeita com as hesitações e retrocessos do governo Obama.
O senador democrata John Kerry (membro do comitê de relações exteriores do senado) apoiou a ação militar. Usou argumentos humanitários, como nas intervenções do governo Clinton nos anos 1990, em Kosovo e Somália. Parte da esquerda mundial segue na mesma linha dos direitos humanos.
Por sua vez, os neocons republicanos igualmente clamaram pela intervenção, mas tomaram como exemplo as ações militares do governo Bush, no Iraque e no Afeganistão. Em síntese, é preciso reafirmar a liderança norte-americana na propagação dos valores ocidentais, e garantir a segurança de seu território diante do terrorismo.
Se o argumento republicano é simplesmente nefasto e fanático, o dos democratas e parte da esquerda mundial deve ser acolhido com um grão de sal. Achar que uma intervenção ocidental, por si só, possa resolver a guerra civil e promover a democracia na Líbia ignora a recente experiência no Iraque. Que, por sinal, não serve de exemplo para ninguém e, por isso mesmo, não vem sendo citado por nenhum dos movimentos rebeldes pelo mundo árabe. Ademais, de que democracia se está falando? A pacificação significa exatamente que tipo de poder soberano para disciplinar os árabes?
Acuado pela incapacidade de compor politicamente uma saída para a governamentalidade em crise, o presidente americano foi empurrado a um dilema amargo. Viu-se compelido a incorrer no mau hábito americano de intervir militarmente num país estrangeiro. E agir como um senhor da guerra, precisamente o que ele prometera não fazer. Na noite do dia 19, os Estados Unidos comunicaram oficialmente que estão à frente das forças intervencionistas.
Ou seja, Obama aderiu ao discurso de guerra & democracia, que é espinha dorsal da ordem imperial a que ele mesmo, desde o dia um da campanha, se propunha a construir uma alternativa. Some a manutenção do campo de concentração de Guantánamo e os fracassos no Iraque e Afeganistão, que a Líbia tem tudo para ser a pá de cal de seu projeto político. Esse governo frustrado completa o ciclo e retorna à estaca zero.
– Fogos por toda a Líbia de Gaddafi –
 
Apesar de não agir à moda John Wayne, como o antecessor, e ter conseguido negociar as abstenções de Rússia e China ante a Resolução 1.973, o presidente deu o proceed para uma aventura militar de larga escala. As repercussões de curto e longo prazo não reúnem nenhum consenso entre analistas. Na iminência de o ditador reconquistar Benghazi, num triunfo que seria a glória do regime, Barack sabia que a ação militar ganharia contornos bem mais largos do que uma mera ajuda ao estropiado exército popular do leste.
Não à toa, no dia 19, as primeiras missões não tenham se realizado com o patrulhamento dos céus líbios. Logo de início, a força aérea francesa tratou de atacar veículos terrestres, enquanto a marinha americana disparou 110 Tomahawks em direção à costa africana. Esses mísseis de cruzeiro atingem alvos a até 2.500 km, com 450 kg de carga explosiva plástica, capaz de pulverizar edificações inteiras. Na noite do dia 19 para 20, aviões bombardeiros furtivos B-2 investiram por toda a região sob controle das tropas de Gaddafi. Foram alvejados estações de radar, bases aeronáuticas, pistas de pouso, baterias antiaéreas, palácios, estradas e pontes.
É curioso como, durante as últimas semanas, tanto se debateu sobre a aplicação de uma zona restrita de voo, mas o único objeto voador abatido até agora tenha sido o solitário caça Mig-23 em poder dos revolucionários. A rede Al Jazeera informou que o piloto não sobreviveu à ejeção, realizada à altura baixa demais. A aeronave foi derrubada sobre Benghazi, coincidentemente no dia dos raids da aviação francesa e em circunstâncias que não serão aclaradas tão cedo.
Além desse aviador rebelde, a TV estatal Líbia, duvidosa quanto boa parte da imprensa ocidental, noticiou cerca de 50 mortos na conta dos bombardeios ocidentais dos dias 19 e 20. Como resultado, o primeiro esboço de oposição, por parte da China, Rússia e Liga Árabe, que declararam em termos similares que a intervenção foi longe demais.
Com o novo cenário, a batalha por Benghazi encerrou inconclusa. As tropas de Gaddafi se refugiaram nas áreas próximas. Os rebeldes fortificados na capital da insurgência comemoraram os bombardeios, mas não deixaram de reclamar que veio tarde demais. As derrotas dos últimos dias enfraqueceram-nos demasiado. No dia seguinte, em Misurata, outra cidade ocupada pelos insurgentes, mais a oeste, o exército governista acirrou o assédio com tanques e blindados.
– Gaddafi perde e ganha com a intervenção –
 
Para a contra-insurgência liderada por Muammar Gaddafi, a intervenção estrangeira parece ter unificado de vez as regiões sob seu domínio. Não se constatam mais apenas esquadrões mercenários e alguns poucos grupos leais agitando a bandeira verde vigente. As imagens mostram também milhares de líbios entusiasmados pró-Gaddafi, num número até então inédito.
Esses defensores do ditador se propõem inclusive a atuar como escudo humano, junto a potenciais alvos. No quartel-general em Trípoli, por exemplo, o New York Times relata um cinturão humano com “centenas de simpatizantes, inclusive mulheres e crianças”. Isto indica que Gaddafi conta com respaldo popular além do previsto originalmente pelo ocidente, e certamente mais do que mercenários e o núcleo duro do regime.
Resta saber como o ataque estrangeiro polarizará a população. Aqueles refratários à ideia de um protetorado ocidental, aos moldes do Iraque pós-Saddam, tendem a alinhar-se à ditadura de Gaddafi. Esse efeito pode intensificar em função da destruição causada pelos bombardeios e das baixas civis (os eufêmicos “danos colaterais”). Se a participação de mercenários em suas fileiras vinha depondo contra o nacionalismo proclamado pelo clã Gaddafi, agora, com os rebeldes abertamente aliados à ordem imperial, o ditador tem tudo para se firmar como o guardião de uma Líbia livre diante da “dominação imperialista”.
Afinal, a rede Telesur não estava tão enganada quando alertava que os pés do colosso não eram tão de barro assim. De subestimado ditador-chanchada, Gaddafi passou a estrategista respeitável, que não deve mais ser subestimado. Hugo Chávez, o único chefe de estado a apoiar abertamente o ditador, brincou: “Que loucura?…. a loucura é imperial!”
Os revolucionários líbios, de fato, pediram a intervenção. Estavam sendo cabalmente derrotados depois que o ditador reorganizou suas forças. Mais por lei da sobrevivência do que programa político, pois até então nenhum impulso revolucionário seguia nessa direção ocidentalizante. Caso Gaddafi tivesse reconquistado Benghazi e o restante do território, como acreditavam os analistas viria a fazer inexoravelmente, realizaria uma caça às bruxas, “casa por casa” nas palavras dele. A revolução teria de reorganizar-se como guerrilha, em árdua jornada, porém autônoma.
Não se pode esquecer da Al-Qaeda. O fundamentalismo islâmico da Al-Qaeda há tempos faz tabelinha com o fundamentalismo cristão dos neocons, um se alimentando politicamente do outro. Ausente no discurso e nas lutas da revolução árabe, que já cobrem 19 países da região, a intervenção ocidental pode pavimentar o caminho para a sua penetração no país. No Afeganistão, uma década de ocupação americana não foi capaz de debelar a rede de militantes radicais, que segue enraizada pelo país. Pode ser mais uma pasquinada, mas Gaddafi prometeu estender o tapete a qualquer um interessado em organizar atentados no ocidente, e citou nominalmente a Al-Qaeda.
– Império enquadra a revolução –
 
A intervenção embaralhou as cartas da revolução árabe. Quebrou o seu encanto. Passou o momento romântico e febricitante, que na Praça Tahrir condensava seu devir revolucionário. Enganou-se quem avaliava que a atmosfera geopolítica dos anos 2000 e seu discurso guerra & democracia estava superada com a eleição de Obama e a falência do neoliberalismo.
Se, na Líbia, o império assumiu a missão de derrubar Gaddafi, não hesitou em sustentar o ditador egípcio Hosni Mubarak até onde pôde, e se engaja por uma “transição ordeira” que, na prática, significa neutralizar a revolução.
Simultaneamente, mantém o fluxo de apoio político, armas e recursos às monarquias tirânicas e aliadas na Arábia e no Bahrein, onde a revolução é recebida à bala e poucos têm falado em “desastre humanitário”. Neste último protetorado imperial, a Praça Pérola foi demolida, para não servir como símbolo tal qual Tahrir.
Enquanto isso, no miserável e semiagrário (e sem petróleo) Iêmen, onde 50 pessoas foram assassinadas nos protestos de rua da última semana, limita-se a declarações esparsas de condenação moral, sequer cogitando de ação concreta contra o ditador sanguinário.
Cinicamente, vestida de humanidade e altos princípios, a ordem imperial continua operando no capitalismo mais perverso, o que depende da guerra. Os senhores da contrarrevolução não mais hesitarão em rugir seus canhões: o mais barulhento dos argumentos. Daqui por diante, a revolução é morro acima.
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Outros textos recomendados:
A revolução não cede aos Tomahawks, por Antônio Martins, no Outras Palavras (excepcional artigo usando fontes de blogues árabes ou sobre o Oriente Médio)
O teatro de Kadafi e um pensamento sobre o Conselho de Segurança e o Brasil, por Daniel Lopes, no Amálgama (opinião divergente, mas bem embasada)
Obrigado, Obama!, por Danilo Marques, no Inferno de Dândi
Quando estamos sós, por Hugo Albuquerque, no Descurvo
Posts relacionados ao assunto
  • Rafael A. F. Zanatta
  • Guilherme Scalzilli

    Mais sangue por petróleo

    Basta lembrar o histórico recente de ações e omissões da ONU para desconfiar das análises que defendem os bombardeios à Líbia. As forças de segurança agem, agora como antes, de acordo com os anseios geopolíticos das potências econômicas mundiais. A preocupação humanitária não foi capaz de mobilizá-las contra o genocídio em Ruanda, por exemplo. As dezenas de ditaduras “aliadas” jamais provocaram os valores democráticos da polícia mundial. As populações de países pobres em riquezas minerais continuam abandonadas à própria sorte, não importando a virulência de seus governos.

    A abstenção brasileira na sessão que aprovou o ataque foi correta porque demonstrou que nossa diplomacia está ciente dessas contradições, negando-se a endossar discursos hipócritas e uma investida temerária de resultados incertos para o Brasil, para o povo líbio ou mesmo para o avanço dos Direitos Humanos no planeta. Depois das farsas criadas para invadir o Iraque ou o Afeganistão qualquer postura diferente seria submissa ou irresponsável.

    Alguém de fato imagina que mísseis lançados a quilômetros de distância sobre áreas urbanas populosas conseguirão poupar inocentes? As conseqüências de uma guerra civil (massacres, destruição, êxodos) justificam a derrubada eventual de tiranos com fortunas protegidas em contas bancárias na Europa? Todos os apoiadores de Gaddafi (nacionalistas, por exemplo) devem ser dizimados? E se as forças rebeldes começarem a torturar e fuzilar idosos, mulheres e crianças? Serão bombardeadas também?

    Essas indagações espinhosas surgirão daqui a pouco, assim que as coisas saírem do controle. Os comentaristas alinhados a Washington podem ir preparando algumas respostas para evitar o vexame de outras ocasiões trágicas em que lhes faltaram prudência e verdadeiro espírito solidário.

    http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

  • Bruno Cava

    Tem razão, Guilherme, estados-nação não ajudam revolução alguma, como mostra toda a história do século 20.

    Mas mais do que articulação dos BRIC ou dos IBAC, uma governança global depende mais das redes transnacionais e das lutas mundiais.

    Seu comentário preciso, que não se trata de uma questão moral (no máximo, um moralismo interessado), remete à intervenção em Kosovo, onde as forças kosovares não eram flor que se cheirasse.

    Vale a dica do artigo no The Guardian de hoje:
    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/mar/21/kosovo-template-for-disaster-libya

    Gostei muito do seu blogue, te sigo e incluo no blogroll.

    Abraços.

  • DanDi

    Salve, mestre Bruno.

    Excelente artigo, do qual concordo de modo pleno. É com grande pesar que vejo a Obama responder às pressões da crise em seu quintal com mais um guerra sanguinolenta. Para mim há complicações éticas que não poderam mais ser revistas: a Guerra sempre é um erro, por democracia ou direitos humanos – seja qualquer for a palavra realçadora. Um prêmio Nobel da paz jogar tudo por completo no lixo em nome da soberania de seu modelo imperialista, que muita lembra o colonialismo e neocolonialismo na idade moderna e contemporânea… aliás, quando é que deixamos de utilizar esta prática em algum momento da História? Eu chamo isso de Terrorismo. E falando neste tema, você comentou sobre o cinismo para com parte de outras localidades da revolta árabe, mas também podemos falar no drama que vive a Palestina. Quem intervirá por eles?

    Eu não sou um profundo analista político, nada sei. Mas ninguém precisa ser para ao menos comentar que este Conselho de Segurança está mais pró-business que pró-humanidade. É mesmo uma política pro capital que a ONU aplica, dando voz sempre aos membros mais influentes e mais militarizados. Depois do caso Iraque então, a ONU é só uma fachada declarada. Não podemos nos pautar por este tipo de órgão, pois nem ele freia aos interesses dos imperialistas no mundo. E não só os americanos, pois há casos na China e Espanha também.

    Sobre o tema da esquerda mundial, muito me impressiona ver como ela se divide. Assim como em outros momentos, uma defesa tímida dos interesses americanos mascarada de defesa do progresso. Alguns passam até a elencar as possibilidades de fazer uma democracia de fato no mundo árabe, sendo que pra isso estão pouco se lixando para os conceitos de auto-determinação ou para a lógica de que a organização ordeira é uma sistêmica contra-revolução.

    Abraços!

  • Rê Sakai

    Sempre que posso indico o blog , junto com o aviso : Altamente viciante!

    Sucesso mais.

    Fã do QdL.