jul 2016 25

Earth

Em 1985, a DC Comics lançou a série Crise nas infinitas Terras. Ao completar 50 anos, a gigante dos quadrinhos resolveu unificar as múltiplas linhas do tempo, conflitantes ou paralelas, abrigadas em suas publicações. Décadas de intensa publicação produziram uma mixórdia de enredos, mitos de origem, contradições e realidades alternativas. Até então, a editora vinha lidando com a situação por meio do conceito de multiverso: coexistiam várias Terras com vida autônoma, como a Terra-1, Terra-2, Terra-X, Terra-S… Além disso, os super-heróis existiam em múltiplas versões em função da Terra em que tinham existência. No quinquagésimo aniversário, a solução encontrada pela DC foi forçar a unificação dos mundos lançando a mão do artifício de um cataclismo. Nas doze edições da Crise nas infinitas Terras, as múltiplas versões eram achatadas numa linha única, descartando no processo alguns super-heróis que não sobreviveriam na realidade unificada (como a SuperGirl e o Flash, mais tarde ressuscitado). No desfecho da trama, para arredondar o agora universo DC, os super-heróis remanescentes tinham as suas memórias apagadas. A elaboração do trauma cósmico resultante da perda da multiplicidade ficava para os leitores.

No Brasil hoje, a sensação que se tem também é de uma crise em muitas dimensões. O fim do ciclo progressista na América do Sul, o desmoronamento do mundo petista, a recessão econômica, o desenlace do impeachment, bem como os desdobramentos da operação Lava Jato e o levante de junho de 2013, todos são episódios que fraturaram a normalidade das narrativas sobre o país. Nessa fratura, proliferam diagnósticos. O que, de fato, fracassou? O progressismo populista, o desenvolvimentismo, a esquerda reformista ou como um todo, o lulismo, o pemedebismo, o pós-neoliberalismo, o processo-PT? A redemocratização chegou ao fim? O marco institucional da Constituinte de 1988 se esgotou? Recorre-se a índices temporais para explicar a resultante do momento: retrocesso, onda reacionária, restauração. Mas para onde? Voltamos à década de 90, ao neoliberalismo? À de 80, da “normalização do caos“? Ao ano de 1964? De 1937 e o verde-amarelo integralista? Ou mais além, teríamos regredido aos baronatos do café da República Velha?

As tentativas de explicação linear, no vaivém entre progresso e retrocesso, no entanto, não resistem à cartografia dinâmica de reconfigurações e reposicionamentos que uma crise tão multiescalar determina. Para dar alguns exemplos, a exposição propiciada pela Lava Jato do mecanismo persistente de saque bilionário dos fundos públicos pela casta política, a permanente agitação de redes e mobilização social decorrente de junho de 2013, ou o desmonte de um desenvolvimentismo sublimador de exploração, corrupção e desastre ambiental, nada disso pode ser relegado a segundo plano a fim de se nivelarem as tendências atuantes na conjuntura segundo um vetor de retrocesso geral. Haveria que se analisar também até que ponto algumas reformas do governo interino são obra do diabo, ou se merecem ser ponderadas à luz da experiência dos últimos 13 anos. Não fazer isso seria um desserviço ao espírito de nuance, primeiro requisito para uma eventual recomposição de terrenos de resposta, na ação e no pensamento, aos desafios complexos do presente. Ajuda pouco recauchutar dicotomias quase automáticas que, diante da precipitação do desconcerto suscitada pela crise, se tornaram ideias fora do lugar, o que não impede que elas tenham outras funções, do cinismo lucrativo à utopia impotente. E não é que as ideias outrora estivessem erradas, os fatos é que mudaram.

De todas as narrativas, a com maior ímpeto unificador foi a do golpe. Desde o mensalão, as forças governistas ao redor do PT adotaram a lógica da “guerra de narrativas”, como resposta ao que seria uma hegemonia conservadora da grande mídia corporativa. A guerra de narrativas embute uma narrativa de guerra. Aqueles não entrincheirados na contra-hegemonia discursiva ou fazem parte das elites golpistas, ou estão submetidos a um sobrenatural poder manipulador da imprensa que as representa. Dessa contraposição amigo x inimigo, nomeia-se o “PIG” (Partido da Imprensa Golpista), que seria um dos principais entraves para a efetivação de um projeto popular no país. É a partir dessa gramática hegemonista que as críticas viram “guerra psicológica”; a perda das bases políticas, “tentativas de desestabilização”; e o fiasco do ensaio desenvolvimentista, “sabotagem imperialista”. A narrativa do golpe de estado para qualificar o impeachment foi o ápice dessa falsificação, tentativa extrema de tocar o corno da guerra para chamar uma unidade desesperada, quando o edifício já balouçava além do centro de gravidade. Uma saída fácil e redentora, “saída à esquerda”. Em 2015, a gestão das expectativas do campo governista (a guinada à esquerda) já havia cedido lugar à gestão das frustrações, como num purgatório terapêutico que repõe sem cessar subterfúgios para adiar o óbvio.

Junho de 2013 foi um terremoto que abalou o sistema político, todos os partidos, irreversivelmente. Mas seus dirigentes optaram por encastelar-se no gabinete e no marketing. A eleição de 2014 injetou ânimo na guerra de narrativas, quando por um momento se acreditou que seria possível escapar dos tremores mediante bunkers. Deles, se comandariam as campanhas generosamente financiadas pelos propinodutos. O otimismo durou pouco. Na tormenta perfeita que se abateu no ano seguinte, a guerra das narrativas deu com os burros n´água quando ficou claro que, antes do que narrativa sobre as coisas, era preciso disputar as coisas mesmas. O máximo que pôde conquistar foi ter irritado boa parte da população, que, apesar da justa indignação, se viu rotulada de manipulada, reaça ou coxinha nas redes sociais. Em meio às revelações da Lava Jato, ao fracasso da nova matriz econômica e ao estelionato eleitoral, a perda de um programa de ação levou as narrativas a girar sobre o vazio, numa espiral de tautologias finalmente recodificada como movimento identitário. Ser de esquerda contra a direita (do grupo X contra Y) se converte num bem em si, consolidando a moral cerrada do lugar de fala e da renúncia de privilégio.

Uma virtude de junho de 2013 foi não ter funcionado na lógica da hegemonia, a serviço de uma alternativa de poder ou da sua conservação, e menos ainda de uma guerra de narrativas, que só depois se lhe impuseram. Nesse aspecto, junho ainda é um enigma cuja incompreensão custa caro. Aquela também foi a virtude do ciclo global de lutas disparado com as primaveras árabes em 2011 e a Praça Tahrir, que hoje encontra ressonâncias seja no NuitDebout francês, nas extraordinárias ocupas das escolas brasileiras, ou nas plataformas municipalistas da Espanha. A grande restauração à vista consiste na estratégia de soterrar essas aberturas com o peso das unidades necessárias, à direita ou à esquerda. Diante de desafios que mal mapeamos, agarrar o presente pelos chifres passa, primeiro, pelo gesto despressurizador de recusar essas saídas, aliás, a própria ideia que haja uma saída. Uma constatação desopilante. Há um quê de momento tropicalista em metabolizar os impasses que nos cercam, como um impulso doloroso e criativo. Talvez seja preciso, em vez disso, entrar, abraçar a crise das infinitas terras. Colocar-se à altura de seu multiverso contra a imposição de uma história. Essa crise, afinal, é o que coloca em contato mundos até então separados, numa interferência ao mesmo tempo produtiva e disruptiva.

 

 

 

 

jul 2016 05

Em Hélio Oiticica além dos mitos, Rio de Janeiro, 4/7/16.

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série das Cosmococas, Hélio Oiticica e Neville d’Almeida, 1973.

Nos Estados Unidos, o espírito do tempo dos anos 1960 foi Hendrix de jaqueta de couro branca com franjas azuis em Woodstock, quando tocou uma versão do hino americano em protesto contra a guerra do Vietnã. No Brasil, a imagem que ficou foi Caetano provocando a plateia enfurecida em um dos festivais da TV: “São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem? Vocês não estão entendendo nada!” Não que fosse fácil. No documentário Uma noite em 67, Magro do MPB4 relata que, durante uma apresentação de Caetano, topou com Erasmo Carlos no banheiro. Perguntado sobre o que estava achando da performance, Erasmo lamentou: “bicho, não tô entendendo nada”. Chacrinha, o tropicalista avant la lettre, já dizia que não vinha pra explicar, mas pra confundir.

A multiplicação de lugares comuns e episódios anedóticos por vezes tem o papel de encobrir os acontecimentos, furtando-nos a possibilidade de sentir o tempo, sentir a força do tempo. A folclorização reserva o autor a livros sofisticados de capa dura que nunca podemos comprar, ou à decoração das exposições, nacionais e internacionais, e reduz o poder transformador à cultura – palavra ante o que Hélio torcia o nariz, sobretudo quando escrita com maiúsculas, como em Cultura Brasileira. Para ir além dos mitos, é preciso distanciar-se das hagiografias e restituir ao pensamento o campo problemático, indispensável se o que se quer é transformar as coisas. O pensamento que presta tem um quê de doloroso, atenta contra o sentimento pessoal que nossas certezas cristalizam. Sem essa dimensão (auto) desestabilizadora, convém perguntar se, em vez de pensamento, o caso não seja de propaganda ou, no melhor dos casos, agitprop. É justo recusar ao autor o valor de culto, valorizando-o enquanto matéria viva de usos e reusos. Recusar que seja morto duas vezes, uma por morte morrida, a outra pelos bacharéis e especialistas.

Por isso, se posso aqui invocar um Hélio entre os muitos, invocaria o Hélio de meados da década de 70. Nem o Hélio do alto modernismo de vanguarda dos anos 1950 nem o Hélio vulcânico da Mangueira dos anos 60, mas o Hélio dark, aquele que, inconformado e sem certezas, migrou para Nova Iorque – Babylon como ele gostava de chamar. Um Hélio irrecuperável para campanhas de #maisamor em tempos de catástrofe, pouco simpático às ilações que adoram um tropicalismo para colorir, pensador marginal enfim ao próprio processo histórico.

Já em 68, o inventor da Tropicália antecipava os laivos de conformismo da geração tropical que, depois back to Bahia, assumiria gradualmente maiores compromissos, — do que Hélio se distancia. A alegria pode ser a prova dos nove, mas a alegria nunca é simplesmente uma escolha. Só uma psicanálise idealista ou um cinismo a toda prova poderia equiparar a ética dos afetos a uma escolha entre afetos positivos e paixões tristes, como se toda uma materialidade não definisse as condições por meio do que se é levado a sentir amor ou ódio, alegria ou tristeza, a vacilarmos na tensão entre deus e o diabo — duas potências.

Sem qualquer insinuação de processo linear, o primeiro Hélio, por assim dizer, atualiza o gesto inaugural da arte moderna. Isto é, consiste em empurrar a experiência até os limites do possível e, ali, no limiar em que o real acaba, no umbral da dissolução, aprender a residir nele até abrir o ponto da metamorfose. Arte moderna, ou seja, antiburguesa, tradição da traição, conluio com as potências da vida, feitiçaria superior diante das manhas da mercadoria.

O segundo Hélio, por sua vez, chega a tocar o olhar antropológico e a mística da pobreza, mas lhes escapa pela via do projeto afirmativo da antiarte, uma arte povoada. Não se trata de exaltar a marginalidade, mas habitá-la, estacionar na tensão existencial que ela suscita, um know how corporal e experimental, uma estética — um “programa” diria Hélio. Nem arte popular que elogia o substrato barroco do povo na mesma operação em que convoca vanguardas conscientizadoras para dar-lhe formas, ao gosto do cepecismo, nem pop art voltada a transfigurar o abjeto da cultura de massa em novo impulso restaurador do estranhamento do mundo.

Quero invocar todavia um terceiro Hélio, menos dócil aos enquadramentos por seus pósteros como intérprete da brasilidade. O Hélio da “vida subterrânea”, cercado de impasses e inquietado por privações, tristíssima figura, o de sua existência newyorkaise que terminou por tragá-lo no que seria a fase mais dolorosamente criativa. Se Oswald de Andrade descobriu o Brasil num café em Paris, Hélio o fez na clandestinidade privada das Cosmococas, com Neville d´Almeida. Dar a volta na Babylon: contra o nacionalismo cultural e seus subprodutos regionalistas, consumir o consumo, alienar a alienação, globalizar a globalização.

Em 71, Nixon decretou a guerra às drogas, o que conduziu a um realinhamento geopolítico de longa duração, com profundos impactos sobre a América do Sul. Em alguns anos, Cara de Cavalo e o Bandido da Luz Vermelha parecerão debutantes diante dos Zé Pequenos que a economia de ilegalidades das drogas, para falar com Foucault, vai fabricar pelo subcontinente. A década se abre com Hendrix empapado no próprio vômito e uma sequência de overdoses de heroína. Dois anos depois é a vez de Torquato Neto, suicidado. Médici é presidente do Brasil, Allende cairá em 73 com a chegada de Pinochet, Videla na Argentina em 76. No romance Vício inerente, Thomas Pynchon oferece um panorama eloquente dessa década de restaurações, perseguições, noias e complotismo. Era preciso matar a geração de 68 pela segunda vez, matar a sua inocência. 1968 não aconteceu, jamais poderia ter acontecido.

Pode-se pensar que, diante das intervenções públicas dos anos 60, o programa que desagua nas Cosmococas significaria um passo atrás, uma involução formal. Na realidade, foram passos para baixo, all way down,  seguindo as pegadas de Zé do Caixão na direção do inferno delirante em technicolor. Renegado do tropicalismo e crítico da clonagem do underground no multiculturalismo, Hélio se reinventa no subterrâneo da paisagem noir da época. Num cenário de modernização autoritária comandado pela ditadura, que realizava tendências já presentes no nacional desenvolvimentismo, ele confere conotação positiva ao sub e, em dupla afirmação, sinaliza a via da descida antropofágica do sub-sub: sair do subdesenvolvimento pelos meios do próprio subdesenvolvimento.  Mário Pedrosa sentenciava-o: pós-moderno. Mas Hélio já estava noutro lugar, crítico da crítica pelos meios materiais, indo diretamente à matéria animada, à matriz produtiva do mundo e seus plasmas criadores. Nas Cosmococas, no autofichamento obsessivo, peças de seu joyciano programa in progress, HO metaboliza as aporias, insuficiências e capturas na matéria-movimento, o que ele chamava “o suprassensorial”, para repor a tensão criativa que, de todos os lados, as forças da restauração buscam lhe aliviar como um purgante. Mesmo no texto, o Hélio escritor não cessa de ocupar-se do grafismo, em chave neoconcreta.

Nixon fez chover napalm no sudeste asiático e Reagan levou a guerra nuclear às estrelas, mas na era Trump – ou em sua versão good cop, Hillary – prenuncia-se a normalização da máquina exterminadora definitiva. O drone, fleet in being do novo milênio. Sua lógica é Clausewitz depois de ler Mil Platôs, o aplainamento do espaço-tempo em espaço liso: de qualquer ponto em qualquer ponto em qualquer tempo. Mas nao só. Existe fenômeno mais terrivelmente pós-moderno do que o ISIS, o super-midiatizado Estado Islâmico, curto-circuito irreversível da geopolítica ocidental em todas as suas variantes?

Nos anos 70, a terra foi varrida pela virada do neoliberalismo. Nos anos 2010, a terra foi arrasada por governos progressistas apoiados por desfiles de bandeiras vermelhas. O intolerável no noticiário não poupa representantes à direita e à esquerda. Nos 70s, uma geração calada à força dramatizou a dissipação do horizonte utópico em cristais de inconformismo, numa contínua experimentação, num esforço titânico para escapar da impotência. Hoje a inteligência é moída diariamente pela guerra de narrativas, pela opiniologia desenfreada e pelo depoimentismo diarreico das redes sociais. O savoir faire do intelectual se converteu no pastiche do pastiche, em campanhas comandadas desde bunkers que cobram a subordinação a “campos políticos”. Por não convir ficar mal e atrapalhar o networking, a adesão vem a baixo custo, no estranho casamento entre ilhas de radicalidade e a radical subserviência aos “campos políticos” e seus discursos sob medida. A invocação da micropolítica da subversão servindo bem à macropolítica do umbigo. Na Argentina dos Kirchner, tinha sido instituído o cargo de “Coordenador Estratégico do Pensamento” e hoje, com Macri, a moda intelectual é o coaching ontológico. Entre dirigismo estadocêntrico e metafísica motivacional. Não é pra achar graça. Porque aqui temos Emir Sader e manuais filosóficos sobre como falar com fascistas.

O Hélio que quero invocar ele bagunça o templo. Um dos maiores filmes religiosos de todos os tempos nasceu da câmera de um cineasta ateu, comunista e libertino. Somente nesse sentido é que se pode falar em obra artística emergida do círculo de fogo daquela marginália, que ainda nos atravessa. “Seja marginal seja herói” não perdeu a atualidade e segue mobilizando paixões, choques e o pensamento.

Como se sabe, uma erupção vulcânica é provocada pelo movimento subterrâneo das placas tectônicas. Mas quando os estratos geológicos param de se mexer, a atividade cessa, o magma enrijece numa crosta, e a boca do vulcão dormente pode até virar ponto turístico. Hélio se esforçou o quanto pôde, em vida, para não virar mais um avatar da cultura made in Brazil. Só isso explica o autofichamento compulsivo que nos legou tantos manuscritos, tapes e fragmentos. Não que ele escrevesse para se explicar aos póstumos, como Nietzsche aos espíritos livres. Não, o caso é diferente. Era acima de tudo esforço de fuga. Hélio escrevia para fugir de nós, para se esquivar antecipadamente de nossas redes de captura, nossas instituições miseráveis, nossa ânsia em enquadrá-lo.

Então é bom que não o encerremos no nível do entendimento pleno. Devires revolucionários afinal não podem ser entendidos, como aliás nenhuma revolução, nelas o regime de funcionamento do tempo é outro. Arrastam antes pela sensibilidade que nelas se exprime do que pelo entendimento. É possível sentir esse tempo, sentir a força do tempo. Supera o entender. Quem está entendendo tudo perdeu o essencial.

para Nicolás F. Muriano

maio 2016 21

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A queda de Dilma parece demandar uma leitura óbvia. Novamente na história da América Latina, um governo de matiz nacional-popular teria sido derrubado pelas elites neocoloniais. Mais uma vez, a tentativa geopolítica de constituir um eixo alternativo ao imperialismo sediado em Washington, desta vez por meio dos BRICs, terminaria esmagada pela restauração conservadora. Reencenou-se a história dos golpes de estado no subcontinente, ecoando os de 1964 (Brasil), 1973 (Chile) ou 1976 (Argentina), a quartelada contra Chávez na Venezuela (2002), ou então os ditos “golpes brandos”, contra Zelaya em Honduras (2009) ou Lugo no Paraguai (2012). Desta vez, a vítima teria sido o maior partido de massas das Américas, maior peça do dominó que, agora, ameaça o inteiro ciclo de governos progressistas. Símbolos para afiançar essa leitura não faltam. Em favor dela, comparecem as estrelas e bandeiras vermelhas, lá estão Lula, o MST, o panteão de intelectuais de esquerda a elucidar os mecanismos imediatos do golpe e denunciá-lo.

O dilaceramento do ciclo do Partido dos Trabalhadores no comando do governo federal, de 2003 a 2016, tornou aguda a vivência do presente daqueles que se sentem diretamente implicados no projeto. O que quer que “projeto” signifique para cada um, a admissão de seu colapso é vivida como fim de uma visão de mundo. Por mais truncada e repleta de contradições, quando o pano cai sobre a peça petista a sensação manifestada tem sido um misto de melancolia e raiva. Tamanha é a tutela pressuposta ao redor do PT, o momento é sentido como o ocaso de uma era, quando naufragariam também as esquerdas, os progressismos, os horizontes das lutas como um todo. Futuro, presente e passado se agregam num tempo em que tudo parece ganhar espessura e ser colocado em questão. Estariam em jogo não só a ocupação do governo, como também as conquistas sociais das últimas duas décadas, o legado institucional da constituição de 1988, a memória das lutas contra a ditadura.

Durante a votação do impeachment no Congresso, os parlamentares repetidamente invocaram valores sagrados e instituições patrióticas, em meio a discursos túrgidos e jogos de cena de um lado e de outro. Um deputado elogiou um coronel torturador do regime de 1964, outro proclamou o fim da “ditadura lulopetista” fiada no bolsa família, outro ainda sintetizou: é contra a “vagabundização remunerada”. E a compressão temporal também levou deputados contrários a invocar mártires da resistência, do líder insurgente dos escravos Zumbi à Olga Benário, comunista deportada na ditadura Vargas ao III Reich e gaseada. As múltiplas escalas do tempo dramatizadas no tableau vivant da representação parlamentar brasileira soam como sucessivos golpes de teatro, pulando inusitadamente em cena.

Deveria provocar ao menos a curiosidade, naqueles menos suscetíveis a efeitos melodramáticos e histrionismos, chamar de golpe de estado o procedimento conforme a constituição presidencialista do país, previsto exatamente para a remoção de um presidente eleito, quando esse procedimento é seguido a rigor, sob a supervisão de uma suprema corte cuja composição tem 8 de 11 ministros indicados pelos governos do PT. Ou quando vai assumir, caso o impeachment se confirme em outubro, o  vice-presidente eleito conjuntamente com Dilma, em 2014 e 2010, com direito a foto na tela da urna e tudo o mais. Mais de 2/3 dos parlamentares votaram pela instauração do processo em ambas as casas do Legislativo brasileiro, com um intervalo de quase um mês entre uma e outra deliberação, período em que as forças governistas têm exercido uma abrangente defesa em fóruns, mídias e nas próprias instâncias previstas, em que vêm interpondo recurso atrás de recurso numa microscópica discussão do rito.

Alega-se que não existe fundamento material para o impeachment, mas entre considerar uma decisão injusta ao sabor das conveniências políticas e acusá-la de ser um golpe que rasga a constituição vai uma saudável distância. Embora o grau de tramoia envolvido no alijamento de Dilma não permita nivelá-lo aos impeachments consumados de Collor no Brasil (1992) ou Fujimori no Peru (2000), por outro lado, difere em muito na forma e no conteúdo dos casos recentes em Honduras, onde o presidente foi metido num helicóptero na calada da noite e deportado pelas forças armadas, ou no Paraguai, onde Lugo sofreu um “impeachment-relâmpago” que durou menos de 48 horas.

Os defensores do governo diriam: não importa. Golpe brando, parlamentar, judicial-midiático ou pós-moderno, o que importa é traduzir a torrente de fatos do noticiário e os encadeamentos vertiginosos de uma conjuntura num enunciado simples e direto. Um que possa, como escreveu Luiz Eduardo Soares, “definir a presidente como vítima” ou “remeter mensagens facilmente decodificáveis para o público internacional, constrangendo os operadores internos do processo” [1]. De fato, está em curso a conjugação de esquemas didáticos e estruturas obsessivas ao redor da narrativa do golpe cuja lógica cerrada não permite hesitação. Não é hora de compor charadas ou abstrair a gravidade da indecência que vivenciamos. É hora de resistir ao golpe. Todo o resto será tratado como ponderação bizantina para atrasar a marcha dos paladinos contra o golpe. Num clima de pânico moral com cães de guarda postados à beira do escândalo, que não deixa de lembrar aquele do avanço moralista e conservador que estaria por trás do golpe em primeiro lugar.

O maior problema dessa cobrança rebarbativa está no absoluto descompasso entre expectativas e realidade. Como é possível invocar a força moral de um governo em favor dos mais pobres quando estes não comparecem à altura que o momento, segundo esse relato épico, exigiria. O músico e intelectual das periferias, Mano Brown, lamenta que a favela faz silêncio, se ilude com a televisão e termina por dar as costas à Dilma [2]. Faz dois anos, depois do levante de junho de 2013, o secretário de Dilma chegou a falar em ingratidão: “fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós” [3]. Paira realmente um sentimento difuso entre os resistentes ao golpe que a situação não vem mobilizando o povo como seria de se esperar. Existe uma defasagem de representação política também à esquerda, pois os sujeitos pressupostos do discurso parecem recusar-se a ser enquadrados nos esquemas do nacional-popular. E quando aparecem nas narrativas e muxoxos, são reduzidos a um caldo desorganizado, pré-político, à deriva das pulsões midiáticas.

Outro descompasso impossível de engolir consiste no fato que, durante 13 anos, o governo reivindicou o pragmatismo como razão de ser. O limite máximo da correlação de forças, no dizer de seus intelectuais, serviu de álibi para uma verdadeira “paixão pelo possível” que levou ao Compromisso Histórico na base do lulismo. Durante mais de uma década, inclusive durante a mais extraordinária mobilização popular e democrática em 2013, as forças governistas opuseram um férreo realismo político ao idealismo naif e irresponsável. Como podem os governistas, agora, quererem atualizar sagas de outros tempos numa elaboração shakespereana, quando vão fazer política no mais desencantado pragmatismo?

Não foi Gleisi Hoffmann, ex-ministra-chefe de Dilma, atualmente uma das protagonistas da saga da resistência contra o golpe, quem disse que “o governo não pode e não vai concordar com minorias com projetos ideológicos irreais”? [4]. Com qual legitimidade pode a presidenta afastada assomar agora como figuração heroica de uma mitologia de esquerda, quando ela mesma, quando tinha a caneta na mão e sólidas condições, vinha chamando as lutas de nosso tempo, dos indígenas e ambientalistas diante da usina de Belo Monte, de “fantasia”?

A obsessão simplificadora e pedagógica, voltada a cultivar uma mística, não vai penetrar no complexo de fatos de que é feita a conjuntura brasileira. Desse modo, os afetos tendem a alucinar em círculos, um grito tanto mais estridente quanto impotente. Governa-se munido de pranchetas, cálculos de governabilidade e da razão desenvolvimentista, mas uma vez fora do governo recorre-se ao carisma como uma manobra tática, à idolatria das imagens. Não se vai longe assim. “Infeliz a nação que precisa de heróis”. A mesmerização do discurso do golpe se limita, no máximo, a reforçar uma matriz comunitária, de sentimento de pertença, cuja salvação depende de um ritual de coesão e algum líder carismático.

Que o impeachment seja tramoia, — vá lá um “golpe palaciano”, — mas não há paladinos nessa história. Não vale o provérbio cria cuervos e después te sacarán los ojos, porque não há palomas nessa história. São todos corvos, como revelou a operação Lava Jato, isto é, um bloco ecumênico de partidos, políticos e parceiros contra o que protesta boa parte dos milhões de indignados em ruas e redes nos últimos anos. Temer foi um velho aliado. O delator Delcídio autointitulado “profeta do caos” foi o líder do governo no senado. O PMDB, um irmão siamês da coalizão lulista. Henrique Meirelles, o homem forte da economia durante os 8 anos do governo Lula. O ajuste fiscal e a reforma do estado, tendências que já estavam postas pelo menos desde a guinada à direita de Dilma, na contramão de sua própria campanha de 2014. Se há descontinuidades entre Dilma e Temer, há também diversas e incontornáveis continuidades. O desentranhamento do PT da coalizão governista não se deu especialmente por suas qualidades.

Num país que viveu duas ditaduras e escravidão, em que o golpismo parece estar situado em sua quintessência [6], com tantos linchamentos diários, violência policial nas metrópoles, encarceramento de pobres em massa, racismo de estado e extermínio indígena, soa de um egocentrismo atroz hoje, depois de 13 anos no poder, colocar-se no centro da peça como vítimas heroicas de um golpe de estado [7]. As únicas tropas nas ruas que vimos nos últimos anos foram as que os governos colocaram na favela, nos megaeventos, nas grandes obras das empresas “campeãs nacionais”, para garantir a lei e a ordem, para exercer a violência legítima contra os não pacificados, os “criminosos”, os selvagens, contra os manifestantes, para fazer reinar a paz…

Não dá pra passar pelos problemas hoje como gato sobre brasa. É preciso introduzir dados novos no desenho, recapitular episódios, argumentar passo a passo, cartografar minuciosamente as relações de força, os impasses, os paradoxos e vaivéns que nos trouxeram até este ponto [8]. O calor da hora não pode subtrair-nos o direito a reflexões necessárias e dolorosas.

 

[1] – http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/04/1763751-respiracao-artificial-sobre-o-impeachment-e-suas-implicacoes.shtml

[2] – http://www.revistaforum.com.br/2016/04/22/mano-brown-eu-vi-a-populacao-virar-as-costas-pra-dilma-enquanto-a-favela-faz-silencio-a-midia-manipula/

[3] – http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527623-houve-quase-ingratidao-em-protestos-diz-ministro

[4] – http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-ministra-dos-caras-palidas/

[5] – http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/04/dilma-diz-que-nao-ha-espaco-para-discutir-fantasia-na-rio20.html. E também: http://www.quadradodosloucos.com.br/?p=2928

[6] – Sobre o golpismo como um gradiente, um limiar pervasivo e latente do Brasil, ver o excelente ensaio de Diego Viana: https://vianadiego.wordpress.com/2016/03/31/golpes-e-desejos/ Guardo uma pequena diferença com relação a seu posicionamento conjuntural na última seção, pois a meu ver o esgotamento do ciclo, mesmo por meio do atual desenlace, abriga potenciais diversos que estão em aberto.

[7] – Renan Porto já argumentou assim, em: http://uninomade.net/tenda/o-golpe-da-falacia/

[8] – Dois textos que apontam processos emergentes e que contribuem para abrir o pensamento e a prática a um horizonte transformador: http://uninomade.net/tenda/vertigens-de-junho/ (Alexandre Mendes e Clarissa Naback) e https://medium.com/@moysespintoneto/contra-o-estado-e-o-mercado-a-sociedade-c5cf63b93cdd (Moyses Pinto Neto)

 

 

 

jan 2016 09

Por Bruno Cava[1]

el atloEl Alto, Bolívia. fonte: TelesurTV

South of the border[2], de Oliver Stone, es la quintaesencia de la narrativa del ciclo progresista en América del Sur. El documental de 2009 narra la llegada al poder de Chávez en Venezuela, el primero de una nueva cosecha de gobernantes rojos (o rosados), despegándose del neoliberalismo monocromático del mundo post-URSS. Envueltos por el apoyo de los pobres y de la izquierda nacionalista, Chávez, Evo Morales (Bolivia), Rafael Correa (Ecuador), la pareja Kirchner (Argentina) y Lula (Brasil) enfrentan a las elites, la prensa tendenciosa, el golpismo de la derecha y rompen con los gobiernos neoliberales que habían intensificado la explotación de la pobreza en la década de los 90’s. La panorámica del filme es la inversa de una road movie: en vez de sumergir en los territorios y procesos multitudinarios, Stone pasea por los palacios y adhiere al discurso casi épico de los jefes de estado. South of the border llega a citar la caída del Muro de Berlín, señalando que el nuevo ciclo sudamericano irrumpió a contracorriente del triunfalismo post-histórico del Consenso de Washington. Esta narrativa made for export del ciclo progresista en el Sur no podría ser más adecuada para una izquierda global nostálgica de la Guerra Fría y ansiosa por identificar un “afuera” al capitalismo hegemónico.

2015 fue el annus horribilis para el ciclo progresista de América del Sur. Fue el año en que los gobiernos fueron derrotados en sus propios términos, esto es, en tanto apoyo electoral mayoritario, apoyo de los pobres. El kirchnerismo presentó un candidato a presidente oriundo del menemismo y fue derrotado[3]. La oposición venezolana marco 16% de ventaja en las elecciones a la Asamblea Nacional[4]. Una joven opositora a Evo, Soledad Chapetón le arrebató la prefectura de El Alto, segunda ciudad de Bolivia, ciudad plebeya habitada por amerindios que fue el corazón de la guerra del gas en 2003[5]. Después de las sublevaciones multifacéticas de junio de 2015 y de la intensificación de la crisis política[6], Rafael Correa anunció que no será candidato a la reelección, en 2017. Y Dilma Rousseff, sucesora de Lula en la presidencia desde 2011, enfrentó protestas en casa de un millón de manifestantes y un rechazo masivo en todos los segmentos sociales, con un índice de popularidad inferior a la tasa anual de inflación, de 10,5%[7]. Dilma había ganado la elección presidencial de octubre de 2014 por un pequeño margen (3%), en una campaña en la que aseguró dos cosas, las que semanas después, se mostrarían falsas: 1) que el país no estaba al borde una grave crisis, 2) que no adoptaría las políticas neoliberales de “ajuste fiscal” que, de hecho, adoptó integralmente en 2015[8].

Es en este contexto que comienza a sedimentarse el discurso del agotamiento del ciclo[9]. Un diagnóstico por sí mismo insuficiente y repleto de trampas, en la medida en que el fin del ciclo se entiende como una derrota, como una triste revulsión en relacion a la era dorada del ascenso progresista. Sus gobiernos habrían sido doblegados por los mercados financieros, la derecha golpista, las elites mancomunadas con el imperialismo yankee, – en todo caso, algún “afuera” mistificado, una razón exógena, un Gran Otro que eventualmente determinó la derrota ante la que ahora deberíamos gemir. La autocrítica ahora se resume en resentirse del hecho que los mayores beneficiados de las políticas sociales, alienados por la ideología del consumo a la que adherirán en el proceso de inclusión, pasaran a votar a la oposición (en la mejor tradición populista donde el pueblo está siempre en lo correcto hasta que contra nosotros); ahora a prescribir el atajo autoritario de que no habríamos sido lo suficientemente socialistas, cogitando en un “golpe de izquierda” en Venezuela; o en una venezuelización, en Brasil.

Pero ante el presagio del final del ciclo, cuyo resultado oscila entre un amargo final (Argentina) y una amargura sin fin (Brasil), es preciso de una vez por todas alejar la narrativa épica que cuenta nuestra historia reciente oponiendo imperialismo y anti-imperialismo, progresismo y neoliberalismo, izquierda y derecha, categorías que tal vez serian validas en este subcontinente en los años 70 o, con demasiada licencia analítica, en los 90. No más mistificar el debate con grandes narrativas en lugar de afrontarlo, en la problematicidad necesaria para la apertura a la acción y al pensamiento. Como escribí con Alexandre Mendes[10], los gobiernos progresistas vencieron. Y vencieron reprimiendo sistemáticamente las alternativas constituyentes que se presentaban, sofocando toda imaginación política, todos los movimientos que no se engranaban en los motores ideológicos de su proyecto de gobierno, desarrollo y ciudad. Que ahora no sean tan llorosos, al percibir que prepararon la cama a su propia destitución, después de la victoria.

En los últimos 10-15 años, el proyecto político-económico se inspiró en una persistente matriz teórica sobre la producción en las condiciones del subdesarrollo que remite a antiguos teoremas cepalinos[11] (Raúl Prebisch, Celso Furtado), aunque aplicados con cierto sincretismo. Tratase, a grosso modo, de una aplicación de Keynes en el longue durée: por un lado, se supone que la inversión determina la demanda efectiva (no se produce para distribuir, sino que al revés); por otro, que en las condiciones periféricas es preciso también liderar el avance industrial y tecnológico. De esto se desprende un imperativo básico: acumular capitales para ser invertidos en la industrialización. Esos capitales invertidos en el sector industrial amplían la capacidad productiva, alteran la composición de las importaciones y diversifican la economía. Pero como la relacion entre centro y periferia del capitalismo es estructurante, no resta a los gobiernos del Sur sino hacer uso de los excedentes acumulados en función de su posicionamiento inicial. De ahí surge el tan mentado “Consenso de los Commodities”: sus exportaciones se tornan elemento estratégico de acumulación de capital, punto de partida para la modernización del parque productivo. En teoría, este proyecto desarrollista debería fortalecer el mercado nacional en relacion a las fluctuaciones de la demanda externa, promover una transformación profunda de la economía patria y, en consecuencia, romper el círculo vicioso de la dependencia estructural. En otras palabras, la industrialización es la vía de superación de la pobreza y el estado debe planificarla.

Ante el fin del ciclo, las críticas a la izquierda de ese proyecto efectivamente ejecutado se concentran en dos grandes bloques. El primero, señala que los gobiernos no fueron lo suficientemente desarrollistas, que no fueron capaces de romper con las trabas neoliberales, que fueron cómplices, además, con el capital improductivo, no se hicieron acompañar de reformas estructurales y/o un proyecto efectivo de emancipación. Esto lleva a criticar, por ejemplo, la indulgencia del gobierno venezolano en no forzar, aunque fuese mediante manu militare, la diversificación de su economía, rígidamente dependiente de la petro-industria. O, en el caso brasileño, la crítica que se orienta contra lo que sería una “reprimarización” de la economía, aunque el agrobusiness, por ejemplo, sea el mismo una industria de gran escala y mecanizada, totalmente entretejida a las cadenas terciarias de la bio ingeniería, arquitectura financiera, brand management y comercialización. El segundo bloque, a su vez, se limita a criticar los excesos extractivistas, como si el proyecto desarrollista estuviese, en esencia, bien orientado, faltando apenas rectificar las profundas violaciones a las poblaciones afectadas y el medio ambiente en general[12], segun una ponderación racional de intereses. Las críticas industrialistas (1º bloque) y social-liberales (2º bloque) pierden de vista una limitación interna fundamental al progresismo desarrollista (esto lo desarrollare más adelante).

Los gobiernos progresistas emergieron de movilizaciones democráticas en todos los casos. La Revolución Bolivariana de Chávez de las sublevaciones populares a raíz del Caracazo (1989); la Revolución Ciudadana del Ecuador a partir de las revueltas urbanas de 1997, 2000 y 2001, hasta la rebelión de los forajidos en 2005; la Revolución Democrática y Cultural de Bolivia, resultado del ciclo insurgente de 2000-2005, con énfasis en las guerras del agua (2000) y del gas (2003)[13]. En los casos de Brasil y Argentina, la crisis asiática de 1997 precipito el desmoronamiento de la relativa estabilidad construida por los gobiernos neoliberales, culminando en la ingobernabilidad argentina de 2001-02, – cuando exploto el tumulto de los piqueteros y cacerolazos, a lo que siguió el kirchnerismo, – y en la ascensión electoral de Lula, que habia sido derrotado en las tres elecciones anteriores (1989, 94 y 98). Vale apuntar, sin embargo, la convergencia de esas revueltas con las luchas del ciclo alter globalización de Seattle y Génova, reunidas en el vector anti neoliberal y bajo la influencia de Chiapas como referente, lo que llevo a un mestizaje de la generación autonomista de los años 90’s con la izquierda sud-americana más tradicional de extracción setentera. Por ejemplo, en la realización de los Foros Sociales Mundiales (FSM) con sede en el estado brasileño de Rio Grande do Sul, con gobierno local del PT.

Las movilizaciones democráticas transmitirán el impulso multitudinario en la composición de los gobiernos, con un inmediato reposicionamiento del estado que, con la lógica desarrollista, paso a invertir directamente en lo social. El redireccionamiento del presupuesto público determino un inédito desbloqueo de la productividad del trabajo vivo, en una de las regiones más socialmente escindidas del mundo, reinventando la economía “desde abajo” y promoviendo un período consistente de crecimiento económico y reducción de las desigualdades sociales y regionales. Todos los indicadores socioeconómicos demostraran el éxito de las políticas sociales que, sin pesadas mediaciones del Estado y del mercado, transferirán renta, elevaran el salario real y ampliaran el crédito popular. El efecto de esta transformación se desplegó en múltiples escalas y dimensiones, determinando un cambio profundo y perdurable en las sociedades sud-americanas.

Existe una interpretación generalizada del éxito del ciclo progresista que apunta hacia las exportaciones relacionadas con la aceleración de la economía china y el boom de los commodities, – que gozaban de altos precios, con el petróleo a más de 100 dólares el barril, – como el principal factor del blindaje de la región en la crisis de 2008-09, y de la capacidad de distribución de renta e inclusión social. Seria, no obstante, una onda efímera, coyuntural, que pasaría tan apenas el superciclo de los commodities finalizase. Parece escapar enteramente al campo de análisis la posibilidad de que el fortalecimiento del mercado interno se debió, sobretodo, al cambio cualitativo de la composición productiva social, a la formación de circuitos económicos virtuosos, independientes del éxito de la industrialización, y en la tendencia de autonomización en relación a las exportaciones.

Las tesis desarrollistas adoptadas por los gobiernos progresistas fueron formuladas antes del desplazamiento del fordismo-keynesianismo en los años 70’s, luego, antes de la globalización financiarizada. Por tanto, vislumbraban en la industrialización el camino para la emancipación, ya sea por la formación de un proletariado con conciencia de clase, sea por la vía de las “reformas de base” (Celso Furtado), segun un análisis diacrónico. De esta manera, también el éxito desarrollista de la dictadura brasileña (1964-85), con el 2º Plan Nacional de Desarrollo (PND), concluyó el ciclo del acero en el mismo instante en que el mundo productivo se abría a la revolución del silicio, iniciado en California. Hoy, tres décadas después, en pleno siglo 21, el sector productivo no coincide con el sector industrial, de modo que los proyectos desarrollistas siguen indexados en una métrica del valor que no funciona más del mismo modo, ya que esta sobredeterminada por el “comunismo del capital” operado por la financiarización[14]. El intento de inducir a una sociedad de pleno empleo por medio de las inversiones se volvió un espejismo, causando una acumulación paralela de capitales en manos de los mismos grupos oligopolistas y propietarios que, por lo menos en discurso, deberían ser combatidos en primer lugar.

De cualquier modo, es preciso destacar la singularidad de los procesos constituyentes boliviano y ecuatoriano, que emplacaran tendencias de movilización productiva por fuera de los tópicos desarrollistas, por ejemplo, la construcción evista de la sociedad plurinacional basada en el Buen Vivir[15], o el tecnopopulismo correísta volcado a la economía del conocimiento, – cuyo modelo tal vez no sea Cuba, sino que Corea del Sur[16]. A pesar de eso, en uno y otro caso, los episodios del TIPNIS y del Yasuní-ITT marcaran una resolución de tensiones y contradicciones en el interior de los ricos procesos andinos, determinando la primacía del proyecto desarrollista del país y dramatizando, de ahí en adelante, la brecha entre gobiernos y movimientos. Las complejas prácticas biopolíticas de autonomía y común sufren así una reducción al horizonte social-progresista, como ha sido subrayado por autores como Salvador Schavelzon o Alberto Acosta[17]. Ninguno expresa con más énfasis la necesidad de esa primacía que el propio Rafael Correa y el vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, que repiten incesantemente que ese proyecto es imprescindible para que el Estado luche contra la pobreza[18].

En el discurso del marxista Linera[19], el más elocuente representante intelectual del ciclo como un todo, aparece claramente el límite interno del proyecto de la izquierda desarrollista (como también en Emir Sader[20]). Se habla mucho de desigualdad, pero no de explotación[21]. El capital no es entendido como una relacion social que, desde su trama molecular, organiza a la propia sociedad y el estado. El Capital aparece, en vez de eso, como un principio organizador desde afuera y de lo alto, escrito con mayúscula y contra el que se levantaría el Estado, en una tension molar por la lucha por la división de la riqueza social. No en vano, las recientes movilizaciones de gran escala son inmediatamente clasificadas como una tentativa de desestabilizar el Estado, al servicio de la restauración neoliberal y del imperialismo. Esto aconteció, por ejemplo, en el levantamiento del Brasil de 2013 (un eco lejano del que se vayan todos! de 2001[22], y cercano al ciclo global desencadenado con las revoluciones árabes de 2010-11[23]), en Venezuela del comienzo de 2014, en las sublevaciones de junio 2015 en Ecuador[24], entre otras. Todos son casos de una movilización por afuera de los aparejos progresistas que no solamente fueron descalificadas por las izquierdas, sino que reprimidas como vandalismo (Brasil), golpismo (Venezuela) o terrorismo (Ecuador). El discurso del Estado, además, provoco la atrofia de las instituciones elaboradas apuntando a la democratización radical de Venezuela, en una anémica matriz “nacional-estatista”[25], comprometiendo su dinamismo y capacidad de renovación, – tendencia también ya prácticamente realizada con los movimientos sociales ligados a los gobiernismos de cada país.

Tratase de una izquierda que hace una ensalada rusa de marxismo y hegelianismo, donde el Estado aparece como momento sintético privilegiado de una dialéctica que tiende a justificar todo por la “correlación de fuerzas”, apenas otro nombre para la ecuación hegeliana por excelencia, real = racional. Esto también vale en el plano internacional, segun una nueva dialéctica de la economía-mundo en que los BRICs ejercerían el papel de contrapoder a la América imperialista. Una versión mitigada de esta dicotomía funciona al modo de Montesquieu, apenas a título de checks and balances[26]. La simpatía por el modelo chino no consiste solo en una nostalgia de la Guerra Fría, como se viviésemos una macro polaridad recauchada entre la doctrina Truman y Deng Xiaoping, sino que en la elaboración de nuevas matrices económicas para el desarrollismo. La restauración del Consenso de Washington, tendría una alternativa, el Consenso de Beijing[27]. La contradicción aparente esconde la complicidad de flujos y reflujos y un mismo principio unificador, como el propio Deng cierta vez afirmo en 1976: “planificación y fuerzas de mercado son dos formas de controlar la actividad económica.”[28] Pero la dialéctica acepta todo, al punto de que el gobierno brasileño levanta banderas rojas y obtiene el apoyo de la oposición socialista, aunque gobierne con las oligarquías y el gran empresariado más conservador. Como dice Idelber Avelar, you can’t have your cake and eat it too. No se puede gobernar con Kátia Abreu, la reina del agrobusiness, y defenderte como si fueses Rosa Luxemburgo – a menos que seas un hegeliano.

La diferencia entre hablar de desigualdad y hablar de explotación está en que, en el último caso, se resalta la relacion que constituye la explotación, lo que significa también resaltar su carácter antagonista, la existencia intrínseca del polo opuesto[29]. Hablar de desigualdad en vez de explotación lleva a pensar, de otra manera, en términos de castas sociales, – un primarismo sociológico, – y no en el antagonismo implícito en la relacion del capital, i.e., en clase. Porque la mudanza de la composición social corresponde a una diseminación de esa polarización de la composición social, de aquí en adelante molecularizada. No hay nada que lamentar, por tanto, con la no formación de una quimérica clase obrera en los moldes europeos del fordismo de la gran industria. La proletarización en las condiciones del Sur ya implica una proletarización en las condiciones post-fordistas. Como ha expresado Giuseppe Cocco, una proletarización sui generis en la que los pobres son incluidos en cuanto pobres[30]. Combatir la pobreza, por lo tanto, tiene una dimensión ambigua en el discurso oficialista, pasando a significar también pacificarla, bloquearle su capacidad de antagonizar y organizar el antagonismo. Si la inclusión social del ciclo progresista es la inclusión del pobre en una relacion de explotación (y no solo en términos cuantitativos como reducción de desigualdad), entonces existe una dimensión resistente de la pobreza, una dimensión creativa y productiva que no cabe en la narrativa “Estado x Capital”.

Los críticos de la proletarización en el Sur concentrados en el parámetro moral del “modelo de consumo”[31], o bien en la formación de un subproletariado amorfo y desorganizado[32], acaban sacando del esquema esa transformación de la composición de clase. Esto se ha expresado no solo en un nuevo ciclo de luchas que van más allá del progresismo, sino que también electoralmente contra sus gobiernos, incluso si eso significa votar más a la derecha. Fue en este sentido, para captar la repolarización “desde abajo” subyacente a la crisis del Sur y a la explosión de un nuevo ciclo de protestas, que yo y Giuseppe hablamos de un lulismo salvaje[33], un crisol potente de singularidades, como la fase de la movilización productiva de los pobres[34], – como se vio después, tan indeseada (y reprimida) por los gobiernos. Entretanto, en vez de producto de las movilizaciones, luchas e impulsos constituyentes, las conquistas del ciclo son sistemáticamente milagrosas, como efectos del Estado reposicionado y ocupado por la izquierda, que en la crisis se convierte en el paranoico detentador de un patrimonio simbólico que no puede dejar escapar.

Por lo tanto, no basta lamentar, ni siquiera constatar el fin del ciclo progresista. Y tampoco apuntar a la llegada de las “nuevas derechas”, paraguas ideológicamente sesgado para un momento complejo de reorientaciones, emergencias y positividades. Son insuficientes las críticas que reclaman que los gobiernos no fueron lo suficiente socialistas, desarrollistas o voluntaristas, que no hicieron las reformas de base ni organizaron a las masas, y que, por lo tanto, entrego el poder a las oposiciones liberales (Macri, Capriles, Rodas, Aécio…). Es preciso reconocer, antes de cualquier cosa, que los gobiernos progresistas vencieron y que, alrededor de ese grado significativo de éxito, se desprendieron consecuencias ambivalentes y antagonistas. Las dinámicas de movilización cambiaran y los proyectos desarrollistas y sus intelectuales de izquierda no explican más: ellos son los que ahora tiene que ser explicados. Liberarse de las narrativas dicotómicas, épicas y dialécticas es el primer paso para reabrir la imaginación a la nueva composición social, política y económica del subcontinente, como cierta vez el zapatismo hizo. Que la izquierda mundial haga su propio luto de la segunda caída del Muro de Berlín – aunque sea una pandereta. Que se libere de ese “pseudo-heroísmo retórico tramado de impotencia”[35]. Que caigan todos los muros. Una visión prospectiva, una nueva experiencia de acción y pensamiento. No existe alternativa. Viva la alternativa!

 

 

Traducción: Santiago de Arcos

 

NOTAS

[1] Bruno Cava es bloguero e investigador asociado a la Universidade Nômade (uninomade.net), autor de La multitud se fue al desierto (2016 [2013], ed. Quadrata).

[2] https://www.youtube.com/watch?v=tvjIwVjJsXc

 

[3] “El agotamiento kirchnerista”, Salvador Schavelzon, http://www.la-razon.com/suplementos/animal_politico/agotamiento-kirchnerista_0_2389561076.html.

[4] “Venezuela: el ocaso de los ídolos”, Pablo Stefanoni, http://lalineadefuego.info/2015/12/08/venezuela-el-ocaso-de-los-idolos-por-pablo-stefanoni/

[5] “La nueva derecha andina”, Pablo Stefanoni, http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/

[6] “Junho no Equador e o correísmo”, Bruno N. Dias, http://uninomade.net/tenda/junho-no-equador-e-o-correismo/

 

[7] Sobre la mayor manifestación en Brasil, en 2015, entrevista de Giuseppe Cocco en IHU: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/541110-as-manifestacoes-de-marco-de-2015-sao-o-avesso-de-junho-de-2013-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco

 

[8] “The coup in Brazil has already happened”, Bruno Cava, https://www.opendemocracy.net/democraciaabierta/bruno-cava/coup-in-brazil-has-already-happened

[9] Por ejemplo, “Nada volverá a ser igual en América Latina “, Raúl Zibechi: http://www.aporrea.org/actualidad/a220180.html; “Notas sobre el agotamiento del ciclo progresista latinoamericano “, Gerardo Muñoz: https://infrapolitica.wordpress.com/2015/10/29/notas-sobre-el-agotamiento-del-ciclo-progresista-latinoamericano-gerardo-munoz/; “El fin del relato progresista en America Latina”, Salvador Schavelzon: https://www.diagonalperiodico.net/global/27148-fin-del-relato-progresista-america-latina.html

 

[10] “A esquerda venceu”, Bruno Cava e Alexandre F. Mendes, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/

 

[11] Antonio Negri e Giuseppe Cocco, “Globa(AL), biopoder y luchas en una América Latina globalizada”, Paidós: 2006. http://www.academia.edu/3335377/Global_Biopoder_y_luchas_en_una_America_Latina_globalizada._Antonio_Negri_y_Giuseppe_Cocco

 

[12] La crítica liberal basada en el modelo jurídico, sobre los límites de lo que se puede o no, a ser ponderados, es apenas la primera crítica “débil” al desarrollismo. Una segunda crítica “débil” seria substituir el limite jurídico por un límite cuantitativo extensivo, una especie de rescate del principio antrópico de la catástrofe malthusiana y sus modelos matemáticos de progresión geométrica y curvas exponenciales. Algunos teóricos del proceso capitalista (ej.: D. Harvey, “El enigma del capital”) suelen decir que el capital no tiene límites, se expande virtualmente hasta el infinito. Para Marx, sin embargo, el límite del capital es la clase, el poder de clase. La sección “Fragmento sobre las máquinas” incluido en el “Grundrisse”, el texto más catastrofista de Marx, tiene el mérito de trasladar el concepto del límite de lo extensivo a lo intensivo, mediante el viraje maquínica de lo social. Esta sería una tercera crítica, “fuerte”, vinculada a la producción de subjetividad. La catástrofe así se puede disputar como catástrofe del propio capitalismo en el momento de máximo antagonismo cualitativo. Diseñado desde el Sur, esta vertiente del análisis inmanente del desarrollismo se entrelaza con materiales de matriz alter desarrollista, como las que vienen siendo sistematizadas, por ejemplo, por Alberto Acosta o Salvador Schavelzon (ver notas 15 y 17 infra). Por lo tanto, en lugar de impuesto por el afuera, por una generalmente mistificada voluntad trascendente al proceso capitalista, en una especie de concepción negativa del Poder, la resistencia es transformación de la subjetividad, devenir. En este sentido, para darle la voltereta al desarrollismo, un desarrollismo devenir-indio del desarrollismo (conforme a mi “Devir-índio, devir-pobre”, http://www.quadradodosloucos.com.br/3138/devir-pobre-devir-indio/). A su manera, Deleuze y Guattari, en el “Anti-Édipo”, utilizaran el concepto de Cuerpo sin Órganos (CsO) como figura de la catástrofe.

 

[13] “O Podemos e os enigmas que vêm do sul”, Alexandre Mendes e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1870

 

[14] Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, “La gran crisis de la economia global” (org.), Traficantes de Sueños: 2011. Ver também “KorpoBraz”, Giuseppe Cocco (2014) y su entrevista seminal con IHU online: “O capital que neutraliza e a necessidade de outra esquerda”, http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6019&secao=468

 

[15] Una aprehensión comprensiva del Buen Vivir en Bolivia y Ecuador, trazando su problemática, por Salvador Schavelzon, “Plurinacionalidad y Vivir Bien/Buen Vivir; dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador post-constituyentes”, CLACSO, 2015.

[16] “La utopía coreana en los Andes”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=171279 y “El tecnopopulismo de Rafael Correa: ¿Es compatible el carisma con la tecnocracia?”. Carlos de la Torre, https://muse.jhu.edu/login?auth=0&type=summary&url=/journals/latin_american_research_review/v048/48.1.de-la-torre.html

[17] “O Buen Vivir, uma oportunidade de imaginar outro Mundo”, Alberto Acosta, br.boell.org/sites/default/files/downloads/alberto_acosta.pdf

 

[18] “Empate catastrófico y punto de bifurcación”, Álvaro García Linera, http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/CyE/cye2S1a.pdf

 

[19] “O socialismo é a radicalização da democracia”, entrevista com Álvaro García Linera, http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/alvaro-Garcia-Linera-O-socialismo-e-a-radicalizacao-da-democracia-/4/34666 (2015)

[20] “A desigualdade no Brasil e no mundo”, Emir Sader, http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/A-desigualdade-no-Brasil-e-no-mundo/2/27098

 

[21] Sigo aquí el insight de Giuseppe Cocco en la entrevista supra citada, en el IHU.

 

[22] “Imagens e anacronismos; a questão do demos entre o 2001 argentino e o 2013 brasileiro”, Ariel Pennisi, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/.

 

[23] Buena síntesis en “Ocupações estudantis: novas assembleias constituintes diante da crise?”, Alexandre Mendes, http://uninomade.net/tenda/ocupacoes-estudantis-novas-assembleias-constituintes-diante-da-crise-2/

 

[24] “¿Por qué protestan en Ecuador? “, Pablo Ospinta Peralta, http://nuso.org/articulo/por-que-protestan-en-ecuador/

 

[25] “Chavismo, Guerra Fría y visiones ‘campistas’”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=165376

 

[26] Podríamos citar como ejemplo en que las contradicciones son funcionales a la expansión del régimen de acumulación de capitales y la sobrevivencia del capitalismo, el estudio del caso de la concatenación entre la territorialización de la República de Venecia y la desterritorialización de la burguesía genovesa, durante el renacimiento, conforme a Giovanni Arrighi, “Il lungo XX secolo; denaro, potere e le origini del nostro tempo”, 1996.

 

[27] También sigo aquí la observación sobre China y los BRICs de Giuseppe Cocco, en la entrevista supra. La “nueva matriz económica” esbozada por el nuevo ministro brasileño de economia, Nelson Barbosa, es tributaria del modelo chino post-76. Un caso anecdótico, ma non troppo, de la simpatía fue el comentario en Facebook del editor gobiernista de Carta Maior (Brasil), Breno Altman, que los manifestantes anticorrupción que llenaron las calles de Brasil en 2015 deberían ser tratados como los opositores de la Plaza de la Paz Celestial, en 1989.

 

[28] Deng Xiaoping apud “The Changing Face of China”, Oxford: 2005.

[29] Véase tambíen Antonio Negri, Marx más allá de Marxnueve lecciones sobre los Grundrisse[1979].

 

[30] Este es el núcleo de la aplicación de las herramientas operaistas de las composición de clase en el análisis que Cocco hace de la movilización productiva de los pobres en los últimos 15 años en Brasil, en sus libros “MundoBraz” (2009) y “KorpoBraz” (2014).

 

[31] Por ejemplo, Emir Sader, para quien lo principal es la “batalla de las ideas” contra la ideología neoliberal: “Vencer a batalha das ideias”, http://cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Vencer-a-batalha-das-ideias/2/33405

 

[32] Vocalizando a parte de la izquierda del PT, André Singer, la principal tesis sobre el llamado “subproletariado”, formado durante los años Lula, en “Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador” (2012).

 

[33] “Vogliamo tutto! Le giornate di giugno in Brasile: la costituzione selvaggia della moltitudine del lavoro metropolitano”, Giuseppe Cocco e Bruno Cava, http://www.euronomade.info/?p=173

 

[34] Amarildo fue el rostro en el levantamiento de Brasil de 2013, la expresión de la posibilidad de los pobres a organizarse y luchar, a pesar del biopoder racista que modula la violencia de clase, lo que afecta principalmente a los negros y los indios, y el servicio de megaproyectos de “pacificación” de la ciudad y el desarrollo nacional. De acuerdo con “A luta pela paz”, Giuseppe Cocco, Eduardo Baker e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1569

 

[35] “El país banal”, Lobo Suelto! (editorial), http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/11/o-pais-banal.html

 

jan 2016 02

Por Bruno Cava[1]

Joaquinimagem: Joaquín Torres-García

 

South of the border[2], de Oliver Stone, é a quintessência da narrativa do ciclo progressista na América do Sul. O documentário de 2009 narra a chegada ao poder de Chávez na Venezuela, primeiro de uma nova safra de governantes vermelhos (ou rosés) destoando do neoliberalismo monocromático do mundo pós-URSS. Embalados pelo apoio dos pobres e da esquerda nacionalista, Chávez, Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), o casal Kirchner (Argentina) e Lula (Brasil) enfrentam as elites, a imprensa tendenciosa, o golpismo da direita e rompem com os governos neoliberais que haviam intensificado a exploração da pobreza na década de 90. A panorâmica do filme é o inverso de um road movie: em vez de imergir nos territórios e processos multitudinários, Stone passeia pelos palácios e adere às falas quase épicas dos chefes de estado. South of the border chega a citar a queda do muro de Berlim, assinalando que o novo ciclo sul-americano irrompeu na contracorrente do triunfalismo pós-histórico do Consenso de Washington. Essa narrativa made for export do ciclo progressista no Sul não poderia ser mais adequada para uma esquerda global nostálgica da Guerra Fria e ansiosa por identificar um “fora” ao capitalismo hegemônico.

 

2015 foi o annus horribilis para o ciclo progressista da América do Sul. Foi o ano em que os governos foram derrotados em seus próprios termos, isto é, quanto ao apoio eleitoral da maioria, apoio dos pobres. O kirchnerismo apresentou um candidato a presidente oriundo do menemismo e foi derrotado[3]. A oposição venezuelana marcou 16% de vantagem nas eleições à assembleia nacional[4]. Jovem opositora a Evo, Soledad Chapetón arrebatou a prefeitura de El Alto, segunda cidade da Bolívia, cidade plebeia habitada por ameríndios que foi o coração da guerra do gás de 2003[5]. Depois dos levantes multifacetados de junho de 2015 e da intensificação da crise política[6], Rafael Correa anunciou que não vai se candidatar à reeleição, em 2017. E Dilma Rousseff, sucessora de Lula na presidência desde 2011, enfrentou protestos na casa do milhão de manifestantes e uma rejeição massiva em todos os segmentos sociais, com um índice de popularidade inferior à taxa anual de inflação, de 10,5%[7]. Dilma vencera a eleição presidencial de outubro de 2014 por uma pequena margem (3%), numa campanha em que asseverou duas coisas que, semanas depois da apuração, se mostraram falsas: 1) que o país não estava à beira de uma grave crise, 2) que não adotaria as políticas neoliberais de “ajuste fiscal” que, de fato, adotou integralmente em 2015[8].

 

É nesse contexto que começa a sedimentar-se o discurso do esgotamento de ciclo[9]. Um diagnóstico por si mesmo insuficiente e repleto de armadilhas, na medida em que o fim do ciclo for entendido como uma derrota, como uma triste reviravolta em relação à era dourada da ascensão progressista. Seus governos teriam sido dobrados pelos mercados financeiros, a direita golpista, as elites mancomunadas com o imperialismo ianque, – em todo caso, algum “fora” mistificado, uma razão exógena, um Grande Outro que eventualmente determinou a derrota diante do que agora deveríamos verter jeremíadas. A autocrítica ora se resume a ressentir-se do fato que os maiores beneficiados das políticas sociais, alienados pela ideologia do consumo a que aderiram no processo de inclusão, passaram a votar na oposição (na melhor tradição populista onde o povo está sempre certo até que vote contra nós); ora a prescrever o atalho autoritário de que não teríamos sido socialistas o suficiente, cogitando de um “golpe de esquerda” na Venezuela; ou uma venezuelização, no Brasil.

 

Mas diante do prenúncio do fim do ciclo, cujo desfecho oscila entre um fim amargo (Argentina) e uma amargura sem fim (Brasil), é preciso de uma vez por todas afastar a narrativa épica que conta a nossa história recente opondo imperialismo e anti-imperialismo, progressismo e neoliberalismo, esquerda e direita, categorias que talvez fossem válidas neste subcontinente nos anos 70 ou, com demasiada licenciosidade analítica, nos 90. Chega de mistificar o debate com grandes narrativas em vez de enfrentá-lo, na problematicidade necessária para a abertura da ação e do pensamento. Como escrevi com Alexandre Mendes[10], os governos progressistas venceram. E venceram reprimindo sistematicamente as alternativas constituintes que se colocaram, sufocando toda a imaginação política, todos os movimentos que não se engrenaram nos motores ideológicos de seu projeto de governo, desenvolvimento e cidade. Que agora não fiquem tão lamurientos, ao perceber que abriram alas a sua própria destituição, depois de vencerem.

 

Nos últimos 10-15 anos, o projeto político-econômico se inspirou numa persistente matriz teórica sobre a produção nas condições do subdesenvolvimento, que ecoa antigos teoremas cepalinos[11] (Raúl Prebisch, Celso Furtado), ainda que aplicados com certo sincretismo. Trata-se, grosso modo, de uma aplicação de Keynes na longue durée: por um lado, admite-se que o investimento determina a demanda efetiva (não se produz para distribuir, mas o inverso); por outro, que nas condições periféricas é preciso também comandar o avanço industrial e tecnológico. Disso decorre um imperativo basilar: acumular capitais para ser invertidos na industrialização. Esses capitais invertidos no setor industrial, a seguir, ampliam a capacidade produtiva, alteram a composição das importações e diversificam a economia. Mas como a relação entre centro e periferia do capitalismo é estruturante, não resta aos governos do sul senão fazer uso dos excedentes acumulados em função de seu posicionamento inicial. Daí surge o tão falado “Consenso das Commodities”: suas exportações se tornam elemento estratégico de acumulação de capital, ponto de partida para a modernização do parque produtivo. Em tese, esse projeto desenvolvimentista deveria fortalecer o mercado nacional em relação às flutuações da procura externa, promover uma transformação profunda da economia pátria e, em consequência, romper o círculo vicioso da dependência estrutural. Noutras palavras, a industrialização é a via de superação da pobreza e o estado deve planejá-la.

 

Diante do fim do ciclo, as críticas à esquerda desse projeto efetivamente executado se concentram em dois grandes blocos. O primeiro bloco assinala que os governos não foram desenvolvimentistas o suficiente, que não foram capazes de romper com os entraves neoliberais, que foram cúmplices demais com o capital improdutivo e/ou financeiro, não se fizeram acompanhar por reformas estruturais e/ou um projeto efetivo de emancipação. Isto leva a criticar, por exemplo, a leniência do governo venezuelano em não forçar, mesmo que fosse manu militare, a diversificação de sua economia, rigidamente dependente da petro-indústria. Ou, no caso brasileiro, a crítica que se orienta contra o que seria uma “reprimarização” da economia, mesmo que o agrobusiness, por exemplo, seja ele próprio uma indústria de grande escala e mecanizada, totalmente emaranhada às cadeias terciárias da bioengenharia, arquitetura financeira, brand management e comercialização. O segundo bloco, a seu passo, se limita a criticar os excessos extrativistas, como se o projeto desenvolvimentista estivesse, em essência, bem norteado, faltando apenas retificar as profundas violações às populações atingidas e ao meio ambiente em geral[12], segundo uma ponderação racional de interesses. As críticas industrialistas (1º bloco) e sociais-liberais (2º bloco) perdem de vista uma limitação interna fundamental ao progressismo desenvolvimentista (tratarei mais adiante).

 

Os governos progressistas emergiram de mobilizações democráticas em todos os casos. A Revolução Bolivariana de Chávez das sublevações populares na esteira do Caracazo (1989); a Revolução Cidadã do Equador a partir das revoltas urbanas de 1997, 2000 e 2001, até a rebelión de los forajidos em 2005; a Revolução Democrática e Cultural da Bolívia, resultado do ciclo insurgente de 2000-2005, com destaque às guerras da água (2000) e do gás (2003)[13]. Nos casos de Brasil e Argentina, a crise asiática de 1997 precipitou o desmoronamento da relativa estabilidade construída pelos governos neoliberais, culminando na ingovernabilidade argentina de 2001-02, – quando explodiu o tumulto dos piqueteros e cacerolazos, ao que se seguiu o kirchnerismo, – e na ascensão eleitoral de Lula, que havia sido derrotado nos três pleitos anteriores (1989, 94 e 98). Vale apontar, ainda, a convergência dessas revoltas com as lutas do ciclo alterglobalização de Seattle e Gênova, reunidas no vetor antineoliberalismo e sob a referência de Chiapas, o que levou a uma miscigenação da geração autonomista dos anos 1990 com a esquerda sul-americana mais tradicional de extração setentista. Por exemplo, na realização dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) sediados no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, com governo local do PT.

 

As mobilizações democráticas transmitiram o impulso multitudinário na composição dos governos, com um imediato reposicionamento do estado que, com a lógica desenvolvimentista, passou a investir diretamente no social. O redirecionamento do orçamento público determinou um inédito desbloqueio da produtividade do trabalho vivo, numa das regiões mais socialmente cindidas do mundo, reinventando a economia “desde baixo” e promovendo um período consistente de crescimento econômico e redução das desigualdades sociais e regionais. Todos os indicadores socioeconômicos demonstraram o sucesso das políticas sociais que, sem pesadas mediações do estado ou mercado, transferiram renda, elevaram o salário real e ampliaram o crédito popular. O efeito desta transformação se desdobrou em múltiplas escalas e dimensões, determinando uma mudança profunda e duradoura das sociedades sul-americanas.

 

Existe uma interpretação generalizada do sucesso do ciclo progressista que aponta para as exportações relacionadas à aceleração da economia chinesa e ao boom das commodities, – que gozavam de altas cotações, com o petróleo a mais de 100 dólares o barril, – como o principal fator da blindagem da região na crise de 2008-09, e da capacidade de distribuição de renda e inclusão social. Seria, no entanto, uma onda efêmera, conjuntural, que passaria assim que o superciclo das commodities findasse. Parece escapar inteiramente ao campo de análise a possibilidade de que o fortalecimento do mercado interno se deveu, sobretudo, à mudança qualitativa da composição produtiva social, à formação de circuitos econômicos virtuosos, independentes do sucesso ou não da industrialização, e em tendência de autonomização em relação às exportações.

 

As teses desenvolvimentistas adotadas pelos governos progressistas foram formuladas antes do deslocamento do fordismo-keynesianismo nos anos 1970, logo, antes da globalização financeirizada. Portanto, enxergavam na industrialização o caminho para a emancipação, seja pela formação de um operariado com consciência de classe, seja pela via das “reformas de base” (Celso Furtado), segundo uma análise diacrônica. Nesse propósito, o também sucesso desenvolvimentista da ditadura brasileira (1964-85), com o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), concluiu o ciclo do aço no mesmo instante em que o mundo produtivo já abria a revolução do silício, começando pela Califórnia. Hoje, três décadas depois, em pleno século 21, o setor produtivo não coincide com o setor industrial, de modo que os projetos desenvolvimentistas seguem indexados numa métrica do valor que não mais funciona do mesmo jeito, além de ser sobredeterminada pelo “comunismo do capital” operado pelas finanças[14]. A tentativa de induzir uma sociedade de pleno emprego por meio das inversões se tornou assim uma miragem, causando um paralelo acúmulo de capitais nas mãos dos mesmos grupos oligopolistas e proprietários que, pelo menos no discurso, deveriam ser combatidos em primeiro lugar.

 

De qualquer modo, é preciso destacar a singularidade dos processos constituintes boliviano e equatoriano, que emplacaram tendências de mobilização produtiva por fora dos topoi desenvolvimentistas, por exemplo, a construção evista da sociedade plurinacional baseada no bem viver[15], ou o tecnopopulismo correísta voltado à economia do conhecimento, – cujo modelo talvez não seja Cuba, mas a Coreia do Sul[16]. Apesar disso, num e outro caso, os episódios de TIPNIS e de Yasuní-ITT marcaram uma resolução de tensões e contradições no interior dos ricos processos andinos, determinando a primazia do projeto desenvolvimentista de país e dramatizando, daí por diante, o racha entre governos e movimentos. As complexas práticas biopolíticas de autonomia e comum [commune] sofrem assim uma reductio ao horizonte social-progressista, como sublinhado por autores como Salvador Schavelzon ou Alberto Acosta[17]. Ninguém exprime com tanta ênfase a necessidade dessa primazia do que o próprio Rafael Correa e o vice-presidente boliviano, Álvaro G. Linera, que repisam incessantemente que esse projeto é imprescindível para o Estado lutar contra a pobreza[18].

 

No discurso do marxista Linera[19], o mais eloquente representante intelectual do ciclo como um todo, aparece claramente o limite interno do projeto da esquerda desenvolvimentista (como também em Emir Sader[20]). Fala-se muito em desigualdade, mas não em exploração[21]. O capital não é entendido como uma relação social que, desde a sua trama molecular, organiza a própria sociedade e o estado. O Capital aparece, em vez disso, como um princípio organizador de fora e do alto, a escrever-se com maiúscula e contra o que se elevaria o Estado, numa tensão molar de luta pela divisão da riqueza social. Não à toa, recentes mobilizações de grande escala sejam imediatamente classificadas como uma tentativa de desestabilizar o Estado, a serviço da restauração neoliberal e do imperialismo. Isto aconteceu, por exemplo, no levante no Brasil de 2013 (em ressonância distante com o que se vayan todos! em 2001[22], e próxima com o ciclo global deflagrado com as revoluções árabes de 2010-11[23]), na Venezuela do começo de 2014, nas sublevações de junho de 2015 no Equador[24], entre outras. Todos são casos de uma mobilização por fora dos aparelhos progressistas que não somente foi desqualificada pelas esquerdas, como reprimida como vandalismo (Brasil), golpismo (Venezuela) ou terrorismo (Equador). O discurso do Estado, ademais, provocou a atrofia das instituições elaboradas visando à democratização radical da Venezuela, numa anêmica matriz “nacional-estatista”[25], comprometendo seu dinamismo e capacidade de renovação, – tendência também já praticamente realizada com movimentos sociais ligados aos governismos de cada país.

 

Trata-se de uma esquerda que faz uma salada russa de marxismo e hegelianismo, onde o Estado aparece como momento sintético privilegiado de uma dialética que tende a tudo justificar pela “correlação de forças”, apenas outro nome para a equação hegeliana por excelência, real = racional. Isto também vale no plano internacional, segundo uma nova dialética da economia-mundo em que os BRICs exerceriam o papel de contrapoder à América imperialista. Uma versão mitigada desta dicotomia funciona ao modo de Montesquieu, apenas a título de checks and balances[26]. A simpatia pelo modelo chinês não consiste apenas numa nostalgia da Guerra Fria, como se vivêssemos uma macropolaridade recauchutada entre a doutrina Trumman e Deng Xiaoping, mas na elaboração de novas matrizes econômicas para o desenvolvimentismo. À restauração do Consenso de Washington, haveria uma alternativa, o Consenso de Beijing[27]. A contradição aparente esconde a cumplicidade de fluxos e refluxos e um mesmo princípio unificador, como o próprio Deng certa vez afirmou em 1976: “planificação e forças de mercado são duas formas de controlar a atividade econômica.”[28] Mas a dialética aceita tudo, a ponto de o governo brasileiro levantar bandeiras vermelhas e obter o apoio da oposição socialista, embora governe com as oligarquias e empresariados mais proprietários e conservadores. Como disse Idelber Avelar, you can’t have your cake and eat it too. Não se pode governar com Kátia Abreu, a rainha do agrobusiness, e defender-se como se fosse Rosa Luxemburgo – a menos que você seja um hegeliano.

 

A diferença entre falar desigualdade e falar exploração está em que, no último caso, ressalta-se a relação que constitui a exploração, o que significa também ressaltar o seu caráter antagonista, a existência intrínseca do polo oposto. Falar em desigualdade em vez de exploração leva a pensar, diversamente, em termos de castas sociais, – um primarismo sociológico, – e não no antagonismo implícito na relação do capital, i.e., em classe. Porque a mudança da composição social corresponde a uma disseminação dessa polarização doravante molecularizada. Não há nada que lamentar, portanto, com a não-formação de uma quimérica classe operária nos moldes europeus do fordismo de grande indústria. A proletarização nas condições do Sul já implica uma proletarização nas condições pós-fordistas. Como escreveu Giuseppe Cocco, uma proletarização sui generis em que os pobres são incluídos enquanto pobres[29]. Combater a pobreza, portanto, tem uma dimensão ambígua no discurso oficialista, passando a significar também pacificá-la, bloquear-lhe a capacidade de antagonizar e organizar o antagonismo. Se a inclusão social do ciclo progressista é a inclusão do pobre numa relação de exploração (e não apenas em termos quantitativos como redução de desigualdade), então existe uma dimensão resistente da pobreza, uma dimensão criativa e produtiva que não cabe na narrativa “Estado x Capital”.

 

Os críticos da proletarização no Sul concentrados no parâmetro moral do “modelo de consumo”[30], ou então na formação de um subproletariado amorfo e desorganizado[31], acabam apagando do quadro essa transformação da composição de classe. Esta vem se expressando não só num novo ciclo de lutas para além do progressismo, como também eleitoralmente contra seus governos, mesmo que isto signifique votar mais à direita. Foi nesse sentido, para captar a repolarização “desde baixo” subjacente à crise do sul e à explosão de um novo ciclo de protestos, que eu e Giuseppe falamos em lulismo selvagem[32], um caldeamento potente de singularidades, como a face da mobilização produtiva dos pobres[33], – como se viu, tanto indesejada (e reprimida) pelos governos. Entretanto, em vez de produto de mobilizações, lutas e impulsos constituintes, as conquistas do ciclo são sistematicamente miraculadas como efeitos do Estado reposicionado e ocupado à esquerda, que na crise se converte no paranoico detentor de um patrimônio simbólico que não pode deixar escapar.

 

Portanto, não basta lamentar, nem apenas constatar o fim do ciclo progressista. E tampouco apontar a chegada das “novas direitas”, guarda-chuva ideologicamente enviesado para um momento complexo de reorientações, emergências e positividades. São insuficientes as críticas que reclamam que os governos não foram socialistas, desenvolvimentistas ou voluntaristas o suficiente, que não fizeram as reformas de base nem organizaram a massa, e que, portanto, entregaram o poder às oposições liberais (Macri, Capriles, Rodas, Aécio…). É preciso reconhecer, antes de qualquer coisa, que os governos progressistas venceram e, ao redor desse grau significativo de sucesso, se desdobraram consequências ambivalentes e antagonistas. As dinâmicas de mobilização mudaram e os projetos desenvolvimentistas e seus intelectuais de esquerda não explicam mais: eles é que agora têm de ser explicados. Libertar-se das narrativas dicotômicas, épicas e dialéticas é o primeiro passo para reabrir a imaginação à nova composição social, política e econômica do subcontinente, como certa vez o zapatismo fez. Que a esquerda mundial faça seu próprio luto da segunda queda do muro de Berlim – ainda que seja uma mureta. Que se liberte desse “pseudo-heroísmo retórico tramado de impotência”[34]. Que caiam todos os muros. Uma visão prospectiva, uma nova experiência de ação e pensamento. Não há alternativa. Viva a alternativa!

 

 

NOTAS

 

[1] Bruno Cava é blogueiro e pesquisador associado à Universidade Nômade, autor de A multidão foi ao deserto (2013).

[2] https://www.youtube.com/watch?v=tvjIwVjJsXc

 

[3] “El agotamiento kirchnerista”, Salvador Schavelzon, http://www.la-razon.com/suplementos/animal_politico/agotamiento-kirchnerista_0_2389561076.html. Português: http://uninomade.net/tenda/o-esgotamento-kirchnerista/

 

[4] “Venezuela: el ocaso de los ídolos”, Pablo Stefanoni, http://lalineadefuego.info/2015/12/08/venezuela-el-ocaso-de-los-idolos-por-pablo-stefanoni/

 

[5] “La nueva derecha andina”, Pablo Stefanoni, http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/

 

[6] “Junho no Equador e o correísmo”, Bruno N. Dias, http://uninomade.net/tenda/junho-no-equador-e-o-correismo/

 

[7] Sobre a maior manifestação no Brasil, em 2015, entrevista de Giuseppe Cocco ao IHU: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/541110-as-manifestacoes-de-marco-de-2015-sao-o-avesso-de-junho-de-2013-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco

 

[8] “The coup in Brazil has already happened”, Bruno Cava, https://www.opendemocracy.net/democraciaabierta/bruno-cava/coup-in-brazil-has-already-happened

 

[9] Por exemplo, “Nada volverá a ser igual en América Latina “, Raúl Zibechi: http://www.aporrea.org/actualidad/a220180.html; “Notas sobre el agotamiento del ciclo progresista latinoamericano “, Gerardo Muñoz: https://infrapolitica.wordpress.com/2015/10/29/notas-sobre-el-agotamiento-del-ciclo-progresista-latinoamericano-gerardo-munoz/; “El fin del relato progresista en America Latina”, Salvador Schavelzon: https://www.diagonalperiodico.net/global/27148-fin-del-relato-progresista-america-latina.html

 

[10] “A esquerda venceu”, Bruno Cava e Alexandre F. Mendes, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/

 

[11] “Globa(AL), biopoder e lutas em uma América Latina globalizada”, Antonio Negri e Giuseppe Cocco, Record, 2005.

 

[12] A crítica liberal baseada no modelo jurídico, sobre os limites do que pode ou não, a ser ponderados, é apenas a primeira crítica “fraca” ao desenvolvimentismo. Uma segunda crítica “fraca” seria substituir o limite jurídico por um limite quantitativo extensivo, uma espécie de resgate do princípio antrópico da catástrofe malthusiana e seus modelos matemáticos de progressão geométrica e curvas exponenciais. Alguns teóricos do processo capitalista (ex.: D. Harvey, “O enigma do capital”) costumam dizer que o capital não tem limites, que ele se expande virtualmente ao infinito. Para Marx, no entanto, o limite do capital é a classe, o poder de classe. O “Fragmento sobre as máquinas, trecho incluído nos “Grundrisse”, o texto mais catastrofista de Marx, tem o mérito de deslocar o conceito de limite do extensivo ao intensivo, mediante a virada maquínica do social. Esta seria uma terceira crítica, “forte”, atrelada à produção de subjetividade. A catástrofe assim pode ser disputada como catástrofe do próprio capitalismo, no momento de máximo antagonismo qualitativo. Pensada desde o Sul, essa vertente de análise imanente do desenvolvimento se entrelaça com matrizes materiais de alterdesenvolvimento, como vem sendo sistematizado, por exemplo, por Alberto Acosta ou Salvador Schavelzon (ver nota 15, abaixo). Dessa maneira, em vez de imposto de fora, por uma geralmente mistificada vontade transcendente ao processo capitalista, numa espécie de concepção negativa do Poder, a resistência é transformação da subjetividade, devir. Nesse sentido, para virar de ponta-cabeça o desenvolvimentismo, um devir-índio do desenvolvimento (conforme o meu “Devir-índio, devir-pobre”, http://www.quadradodosloucos.com.br/3138/devir-pobre-devir-indio/). À sua maneira, Deleuze e Guattari, no “Anti-Édipo”, utilizaram o conceito de Corpo sem Órgãos (CsO) para figura da catástrofe.

 

[13] “O Podemos e os enigmas que vêm do sul”, Alexandre Mendes e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1870

 

[14] “A crise da economia global”, Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, Record, 2011. Ver também “KorpoBraz”, Giuseppe Cocco (2013) e sua entrevista seminal ao IHU online: “O capital que neutraliza e a necessidade de outra esquerda”, http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6019&secao=468

 

[15] Uma apreensão compreensiva do bem viver na Bolívia e Equador, trazendo sua problematicidade, por Salvador Schavelzon, “Plurinacionalidade e Vivir Bien/Buon Vivir; dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador post-constituyentes”, CLACSO, 2015.

 

[16] “La utopia coreana en los Andes”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=171279 e “El tecnopopulismo de Rafael Correa: ¿Es compatible el carisma con la tecnocracia?”. Carlos de la Torre, https://muse.jhu.edu/login?auth=0&type=summary&url=/journals/latin_american_research_review/v048/48.1.de-la-torre.html

 

[17] “O Buen Vivir, uma oportunidade de imaginar outro mundo”, Alberto Acosta, br.boell.org/sites/default/files/downloads/alberto_acosta.pdf

 

[18] “Empate catastrófico y punto de bifurcación”, Álvaro García Linera, http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/CyE/cye2S1a.pdf

 

[19] “O socialismo é a radicalização da democracia”, entrevista com Álvaro García Linera, http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/alvaro-Garcia-Linera-O-socialismo-e-a-radicalizacao-da-democracia-/4/34666 (2015).

 

[20] “A desigualdade no Brasil e no mundo”, Emir Sader, http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/A-desigualdade-no-Brasil-e-no-mundo/2/27098

 

[21] Sigo aqui o insight de Giuseppe Cocco na entrevista supracitada, ao IHU.

 

[22] “Imagens e anacronismos; a questão do demos entre o 2001 argentino e o 2013 brasileiro”, Ariel Pennisi, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/.

 

[23] Boa síntese em “Ocupações estudantis: novas assembleias constituintes diante da crise?”, Alexandre Mendes, http://uninomade.net/tenda/ocupacoes-estudantis-novas-assembleias-constituintes-diante-da-crise-2/

 

[24] “¿Por qué protestan en Ecuador? “, Pablo Ospinta Peralta, http://nuso.org/articulo/por-que-protestan-en-ecuador/

 

[25] “Chavismo, Guerra Fría y visiones ‘campistas’”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=165376

 

[26] Poderíamos citar como exemplo em que as contradições são funcionais para a expansão do regime de acumulação de capitais e a sobrevivência do capitalismo, o estudo de caso da concatenação entre a territorialização da República de Veneza e a desterritorialização da burguesia genovesa, durante o renascimento, conforme Giovanni Arrighi, “Il lungo XX secolo; denaro, potere e le origini del nostro tempo”, 1996.

 

[27] Também sigo aqui a observação sobre China e BRICs de Giuseppe Cocco, na entrevista supra. A “nova matriz econômica” esposada pelo novo ministro da economia, Nelson Barbosa, é tributária do modelo chinês pós-76. Um caso anedótico, ma non troppo, da simpatia mandarim foi o comentário no Facebook do editor governista da Carta Maior, Breno Altman, que os manifestantes anticorrupção que encheram as ruas brasileiras em 2015 deveriam ser tratados como os opositores da Praça da Paz Celestial, em 1989.

 

[28] Deng Xiaoping apud “The Changing Face of China”, Oxford, 2005.

 

[29] Este é o cerne da aplicação do ferramental operaísta da composição de classe na análise que Cocco faz da mobilização produtiva dos pobres nos últimos 15 anos no Brasil, em seus livros “MundoBraz” (2009) e “KorpoBraz” (2013).

 

[30] Por exemplo, Emir Sader, para quem o principal é a “batalha das ideias” contra a ideologia neoliberal: “Vencer a batalha das ideias”, http://cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Vencer-a-batalha-das-ideias/2/33405

 

[31] Vocalizando parte da esquerda do PT, André Singer, principal tese sobre o dito “subproletariado”, formado durante os anos Lula, em “Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador” (2012).

 

[32] “Vogliamo tutto! Le giornate di giugno in Brasile: la costituzione selvaggia della moltitudine del lavoro metropolitano”, Giuseppe Cocco e Bruno Cava, http://www.euronomade.info/?p=173

 

[33] Rosto que foi Amarildo no levante brasileiro de 2013, expressão da possibilidade dos pobres se organizarem e lutarem, apesar do biopoder racista que modula a violência de classe, atingindo principalmente negros e indígenas, e a serviço dos megaprojetos de “pacificação” da cidade e desenvolvimento nacional. Conforme “A luta pela paz”, Giuseppe Cocco, Eduardo Baker e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1569

[34] “O país banal”, Lobo Suelto! (editorial), http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/11/o-pais-banal.html