set 2016 21

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Crítica de Aquarius (Kléber Mendonça Filho, Brasil/França 2016, 145 min.)

O filme ficou famoso em maio em virtude da manifestação no tapete vermelho de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro. Com cartazes “Aconteceu um golpe de estado no Brasil” e “Governo ilegítimo”, o elenco fez coro com o mote #NãoVaiTerGolpe dos protestos nas ruas, logo depois da abertura do processo de impeachment contra a presidenta eleita. À época, além dos aparelhos sindicais e de movimento ligados ao PT, a mobilização a favor do governo tinha sido bem sucedida em penetrar em frações significativas do meio universitário, cultural e artístico. Com estreia nacional em 1º de setembro, no dia seguinte ao desfecho condenatório no Senado, o filme serviu de gancho para que o movimento se repetisse nas salas de cinema brasileiras. Ao final de cada exibição, são ouvidos gritos “Fora Temer”.

O eixo de Aquarius se desenvolve ao redor da personagem Clara, uma senhora na casa dos sessenta, mulher realizada, forte, autônoma, que enfrentou um câncer. Interpretada por Sonia Braga, a protagonista mora há décadas num prédio de frente para a praia, forrado de vinis e referências vintage, num bairro nobre da cidade. Foi ali que Clara viveu dias felizes com o marido morto, ali onde amou e criou os filhos. Todo esse patrimônio material, moral e simbólico é ameaçado quando uma construtora começa a comprar os apartamentos para pôr o prédio abaixo e construir no lugar um novo empreendimento de luxo. Todos os moradores aceitam a barganha menos Clara, que solitariamente resiste às pretensões da expansão imobiliária.

Com essa premissa, o fio condutor do drama se desenrola tensionado entre o indivíduo legítimo em seu direito e o assédio de uma corporação sedenta por lucros. Decidido a desalojá-la, o empreiteirozinho arrogante recorre a expedientes imorais e ilegais, perturbações, ameaças, chantagens. Ao longo do filme, identificando-se com Clara, se podem ouvir reações de parte da plateia, a mesma que ao final gritará “Fora Temer”, de aprovação ou reprovação diante da saga da mulher que resiste. É assim que se pode ouvir um riso cúmplice no momento que o empreiteiro se gaba por possuir MBA em business nos Estados Unidos, o que lembra uma cena do longa anterior do diretor (O Som ao Redor), quando o playboy Dinho alerta aos milicianos, escandindo as sílabas, que “aqui não é favela”. É assim também, com um sorriso encantado, que a plateia pontua a participação na economia emocional organizada pela trilha sonora, quando por exemplo uma canção precipita a troca de olhares entre Clara e a namorada do sobrinho, denunciando a cumplicidade de bom gosto.

Mas somente uma leitura apressada poderia reduzir o filme à luta entre Davi e Golias, da pequena gigante moral contra um Poder maior. Como em O Som ao Redor, as imagens são mais escorregadias. Um campo subrepresentativo imprime ao ambiente presenças espectrais na forma de sombras, pesadelos, alucinações, reminiscências. É como se uma violência difusa estivesse prestes a abater-se, num suspense a seguir invariavelmente frustrado, como um complexo subterrâneo de fatos que jamais ganha o primeiro plano. Em O Som ao Redor, eram fantasmas de escravos que perambulavam pela casa do patrão, um enigmático menino negro que subia em árvores, ou então sons sinistros; em Aquarius é o pesadelo de uma empregada que roubava joias, é uma reminiscência de violência sexual, um carro bloqueando a saída de casa, uma porta destrancada na madrugada. A estratégia consiste em provocar o estranhamento em meio a coisas e relações do cotidiano. Essa estratégia está ligada ao caráter de classe que a instância fílmica assume e tem a sua razão de ser, pois esse caráter é materialmente elusivo e, portanto, só pode ser acessado de maneira oblíqua. Uma abordagem direta não daria conta. Porque o espectador é levado ao desassossego em função de seu posicionamento social, de maneira indireta: teme os manos com cordão de ouro e boné de marca que vêm se juntar à terapia de grupo ao ar livre, assusta-se com a cabeça do negro que subitamente aparece na cozinha, ou espera o pior quando dois peões de obra seguem à distância e então abordam Clara na porta de casa. Mas logo vem o anticlímax, pois o real não é tão simplista.

Em ensaio sociológico, tanto O Som ao Redor quanto Aquarius jogam com a tese da cordialidade brasileira, isto é, o fundamento paternalista, a intimidade necessária que acompanha o exercício ordinário de autoridade e ascendência social. Naquele filme era João, neste é Clara, que faz questão de conhecer todos os subalternos pelo nome e, logo nas primeiras cenas, solicita uma “verdurinha” à empregada que prepara o almoço, enquanto vai tomar banho de mar (com a atenção especial dos salva-vidas). A mesma empregada cujo filho tragicamente morto a protagonista vai à festa de aniversário na favela. O homem cordial está tomando banho, contudo, num mar de tubarões. Em O Som ao Redor, a dialética entre segurança e insegurança se resolvia num curto-circuito imediato: comprar proteção se revela uma armadilha. Já em Aquarius, a relação dinâmica entre uma e outra passa por um labirinto de mediações. Clara resiste ao assédio da construtora acionando a sua própria rede de proteção: um bombeiro militar, uma advogada particular, um contato pessoal da família Cavalcanti, conexões na imprensa, tudo isso que, no fundo, sustenta também a modernização de que a construtora é um vetor.

A concepção inicial do Poder como um todo unitário que esmaga o indivíduo em seu direito logo dá lugar à microfísica de poderes, de cuja integração deriva a eficácia ordenadora do todo onde os personagens se inserem. O poder é relacional e circula, de modo que a distância entre o poder mobilizado por Clara e pela construtora não pode ser medida por uma moral. Ambos os contendores que medem as forças identificam na propriedade a exteriorização da própria personalidade como um direito titulado seja pela pessoa física, no primeiro caso, seja pela jurídica, no segundo. Mas é o mesmo jogo e o mesmo poder que, de um lado ou de outro, é mobilizado. De qualquer modo, trata-se de uma luta interna corporis às elites locais. O homem cordial — burguês — mobiliza uma série de recursos jurídicos, políticos e moleculares que não aparecem para ele como um artifício de poder, como se os detivesse a título de direito natural. O filme acompanha o movimento objetivo aparente dessas diversas mediações de classe, pela sinuosidade própria da realidade brasileira, levando a crítica ao plano do inconsciente fílmico que se maquina nos silêncios, nas expectativas, nas hesitações, nas obliquidades, nos medos, nas aparições espectrais, como força real.

Essa força irrompe no filme anterior, O Som ao Redor, no atentado organizado e premeditado que atualiza, na penúltima cena, a violência difusa de classe que percorre a narrativa. Os milicianos estavam, de fato, vingando-se do senhor de engenho modernizado como empresário imobiliário. Haveria uma diferença entre esse desfecho e o longo arco de revides e pequenas sabotagens que os personagens manejavam contra os patrões ao longo do filme? Sim, o próprio fato que foi organizado e premeditado. O ressentimento vai coalhando ao longo de O Som ao Redor até saltar, qualitativamente, na ação violenta de classe. Ela não é redentora nem satisfaria um posicionamento consequente em maior prazo, e muito menos o filme dela se compraz, porém essa violência programada tem o condão de lançar retrospectivamente uma nova visada sobre toda a história de O som ao redor. Por sua vez, em Aquarius, a nuvem de violências jamais se realiza senão através das presenças espectrais, que coadjuvam a luta principal entre as elites. Os personagens pobres aparecem chapados na paisagem e lá ficam, sem formular ponto de vista, enquanto no filme anterior eles eventualmente se levantam. Em Aquarius, as elites lutam sobre o pedestal formado pela figuração puramente passiva de pobres e empregados.

É justamente nesse ponto que o novo filme de Kleber Mendonça Filho toca magistralmente a conjuntura nacional, quer os autores queiram ou não, e pelo visto querem. Porque o impeachment também não passou da reacomodação de elites políticas, cuja gerência teve de ser trocada por incompetência. Primeiro, incompetência para realizar as reformas neoliberais e o ajuste fiscal, como Dilma pretendeu, segundo, em barrar a Lava Jato, missão assumida por Lula. Nesse sentido rigoroso, o impeachment não passou de uma luta intestina entre grupos de poder, ambos invocando uma força popular a seu lado que, todavia, não compareceu na cena. Clara representa, precisamente, um dos lados dessa disputa “politicamente” elitizada.

Ela não está cercada apenas pela construtora e pela violência amniótica que espreita as relações de classe mediadas pela cordialidade. Como boa parte daqueles que aplaudem o filme pelas razões erradas, ou em exercício arbitrário das próprias, sente-se cercada também pela avalanche de evangélicos que sobem as escadas, pelo excesso de carros comprados a crédito que engarrafam o estacionamento, ou pela proliferação de MP3 e filmes para tubes pornôs do mundo de hoje. Os cupins já estão no andar de cima, pois a dita “nova classe média”, cujas principais referências não são Maria Bethânia nem Chico Buarque, ascende junto com o Brasil-business. A construtora não tem nenhum problema em agenciar-se taticamente à nova classe, o que para Clara duplica a sensação de isolamento. Duplica, também, a identificação de certo público: é toda uma civilização que se encontra ameaçada pelo “golpe”.

Pouco importa se as intenções dos realizadores não coadunam com o que foi dito até aqui, ou o fato que Aquarius foi filmado bem antes. Uma intervenção se torna prenhe de vida quando intercepta a complexidade histórica em que se emaranham processos de longa duração ou iminentes, onde os acontecimentos se espessam debaixo das representações morais e objetivas. Por isso, não são acessórias à compreensão do filme a performance do elenco em maio na première na França, a coincidência das datas em relação à destituição da presidenta, ou as declarações do diretor de que o filme sofreu retaliações por parte do novo governo. A existência material é determinada por apropriações e reapropriações que recriam continuamente os significados políticos e estéticos, à revelia das intenções autorais. O cinema, mais que ferramenta de acesso ao real, é o próprio real em seu devir, então cabe, sim, interrogar sobre a atualidade em que gera efeitos, em que é.

Embora não fosse um filme sobre o levante de 2013, O Som ao Redor provavelmente foi o melhor filme do junho maldito, o que melhor o decifrou. Ainda que tenha sido produzido um ano antes das jornadas. Entre condomínios fechados, grades, paredes, muros, numa ortogonalidade talhada em concreto armado, aquele filme de 2012 traça o cenário de fragmentação, estratificação e confinamento do processo urbano brasileiro, que desloca os conflitos para a vida privada, fetichiza os bens da casa e pulveriza a identidade de classe. Em Som ao Redor, o fundamento da propriedade é patriarcal e as relações igualmente são cordiais. Ao cotejar engenho e metrópole, expõe como o processo de modernização, em vez de levar ao Brasil do futuro como se prometia nos slogans do governo, transpõe o arcaico no novo, que passam a coexistir na unidade orgânica do desenvolvimento. Nisso reside o paradoxo de o levante ter irrompido em meio à retórica grandiloquente do Brasil Maior. O filme como um todo prenunciou junho de 2013, cujo acontecimento imprevisível fez explodir as tensões sublimadas e as violências difusas do processo urbano e fez irromper, como na fatídica cena final, um revide direto aos símbolos da propriedade, à rede de poderes que sustenta a dominação. A palavra é levante.

Aquarius está funcionando como o duplo farsante, o lado débil do díptico. Depois da revolução francesa, para recalcar o conteúdo de levante popular, a burguesia inventou para si uma narrativa heroica onde aparecia como mocinha da história, transfigurando e se alucinando na tradição culta da Ilustração. Fazia isso enquanto exaltava os valores universais pelo que dissimulava seu caráter estreito e sua vergonha, de modo que mesmo as derrotas sobre o pedestal eram sempre erigidas à qualidade de tragédia histórica. Tal universalidade intrínseca a sua luta servia-lhe de signo de autenticidade que, como a Clara de temperamento mercurial, dota a indignação de sinceridade, “muito correta” como é elogiada pela empregada. Deve-se então julgar os lados pelo grau dessa sinceridade de não ter nada por trás, diferentemente da construtora e seu empreiterozinho arrogante, sedentos por lucro. É essa a chave de entendimento para a lacração com que Clara redime a si e aos espectadores, talvez numa vaga citação a Tarantino, na sequência final de Aquarius, quando as tábuas com cupins são por ela atiradas sobre a mesa da sala de reuniões da empresa. Os modos lembram o talking bitterly, de uma já longa tradição que remonta aos campos de reeducação maoísta, passando pela segunda onda feminista norte-americana, até chegar bastante caricaturizado nas guerras culturais entre petralhas e coxinhas.

O gesto em Cannes, portanto, faz muito sentido. Talvez ainda seja Clara, a coração valente que, de cima do tapete vermelho, proteste em nome da democracia. Ainda que seja uma democracia de belas almas cuja principal reivindicação foi exigir o seu ministério de volta. Já os espectadores que ao final gritarão “Fora Temer” acompanham a saga de Clara pelos 145 minutos, para participar de ainda outro ritual de pertencimento e assim mais uma vez inscrever-se na linha justa de que o filme, supostamente, seria representante. Uma vez consumado o impeachment, vivido com um genuíno trauma civilizacional de certa elite, resta o mecanismo compensatório: elaborar uma idade dourada onde possamos pendurar o nosso vazio. De novo, o filme é certeiro, quando estende o varal da nostalgia até a virada dos anos 1980. Só sobrou isso.

set 2016 07

As três gavetas

Publicado em Ensaios

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Em 2011, eu estava acampado na OcupaRio, envolvido até o pescoço na comunicação e ações de organização, quando fui abordado por um membro do Fora do Eixo, que à época buscava colar nas marchas da liberdade e nas ocupas do ciclo 15-M. Lembro que, nesse período, a rede de que participo não havia rompido em definitivo com eles, e estávamos numa campanha comum chamada “Mobiliza cultura” para contestar a guinada à direita que o governo Dilma tinha acabado de aplicar no MinC, com a gestão Ana de Holanda. O tal agente do FdE se sentou num bar comigo e resolvi recontar-lhe um boato que tinha ouvido. Fiz isso sem nenhuma intenção de provocação, como bem de conversa mesmo. Eu tinha ouvido que o FdE tinha três gavetas com os nomes de potenciais parcerias e recrutamentos. As gavetas eram organizadas pelo que eles avaliavam ser o desejo principal do alvo, “Dinheiro”, “Festa” e “Ego”. Para minha surpresa, o interlocutor não somente confirmou essa tática de cooptação como disse que o meu nome estava na gaveta “Ego”. Imaginem o quanto não fiquei ofendido, e disse-lhe que deveriam imediatamente remanejar-me para a gaveta “Dinheiro”. Se não fosse possível, pelo menos me colocassem no esquema da “Festa”.

Em 2014, a campanha de Dilma assumiu abertamente a “guerra de narrativas” para uma candidata e uma campanha que não tinham nada de bom na real para mostrar. Pelo contrário, a realidade era uma crise multidimensional que levava o país à beira do abismo. Era preciso, então, investir tudo na “guerra de narrativas”. E não bastava mais contar apenas com os intelectuais orgânicos, com a lendária militância petista ou com os blogueiros anti-PIG arregimentados a soldo desde o episódio do mensalão. A situação era tão crítica para a reeleição que era preciso capilarizar a guerra discursiva. Foi aí que, mais ou menos conscientemente, o comitê eleitoral e a cúpula do PT encontraram a enorme rede da elite universitária, acadêmica e cultural. Uma rede alimentada por anos com leite A que, agora, estava no lugar e hora certos e com as capacidades certas. Para todos esses produtores do discurso, o governismo ofereceu as três gavetas de uma só vez: 1) do “Dinheiro” pela via indireta dos congressos, colóquios, projetos de pesquisa, 2) do “Ego”, pela importância inédita conferida aos intelectuais numa campanha política por uma causa justa, 3) da “Festa”, pelo fortalecimento dos laços identitários e de uma zona de conforto que envolve socialidade e boa consciência (e sabemos que a maior inimiga da festa é a culpa).

Passada a eleição, contudo, toda a guerra de narrativas desabou porque baseada em duas mentiras: 1) que não havia uma crise dramática, 2) que Dilma não faria o que os adversários fariam. Havia a crise e Dilma fez o que havia imputado aos adversários. Segue-se um niilismo comunicativo impressionante, ao mesmo tempo que duas das três gavetas perdem o poder de convencimento. A do dinheiro, que começou a escassear. E a da festa, já que a gestão de expectativas deu lugar à gestão de frustrações e a boa consciência virou má. Sobrou a do ego. Tudo isso junto, não admira a completa neurose que sobrou aos intelectuais governistas, mezzo-governistas e criptogovernistas: apegar-se ao próprio ego em meio à má consciência e à perda do dinheiro.

Eu já participei de eleições no passado e sei bem como consome uma grande fatia do seu tempo por semanas a fio. É preciso participar de reuniões entediantes, aprender a panfletar, descer à praça e ter uma paciência de Jó com os eleitores. Em 2014, com a “guerra das narrativas”, bastava fazer postagens em redes sociais e assinar manifestos burocráticos como aquele suboficial de repartição pública vagamente interessado no caso dos requerentes. Para a “guerra de narrativas”, isso bastou. Mas o deserto do real se impôs nos anos seguintes e as declarações beligerantes, os repúdios aos inimigos, as festas das batalhas vencidas, os relatos de heroísmo, tudo isso se tornou postiço, não convence mais ninguém, nem os próprios governistas. O sabor que fica não é amargo, ele é azedo.

Tenho visto algumas pessoas falando em luto, que levará muito tempo para superarmos o clima de niilismo pós-PT. Eu já sou mais desencantado. Acredito que nunca vai acontecer luto nenhum. Que essa geração está definitivamente perdida e que ficar esperando uma mudança a esta altura do campeonato é uma torcida inútil. O esforço necessário para sair dessa situação é infinitamente maior do que o esforço que nos trouxe a ela, que foi um esforço mínimo da parte da maioria dos governistas, um esforço “narrativo”. A zona de desconforto para a superação dos impasses excede de trabalho e esquecimento ativo o que havia sido necessário para construir a zona de conveniência em primeiro lugar. Então vai vir de outro lugar, de outros mundos e outros arranjos. Não adianta esperar ninguém acordar porque a insônia é uma inconveniência.

set 2016 02

Glasnost

Engana-se redondamente quem encontra a chave de excepcionalidade para a queda de Dilma numa conspiração das elites, num golpe imperialista ou numa tramoia parlamentar como voto de desconfiança. Memória curta, curtíssima. Temos uma tremenda crise econômica causada por erros econômicos do governo. Uma tremenda crise política causada por erros políticos. E uma tremenda crise social, pelo descolamento do governo e sua coalizão em relação às forças sociais. Todas essas dimensões da crise, — que se interpenetram e cuja intensidade conjugada atingiu níveis insuportáveis, — já estavam dadas em junho de 2013. Tudo isso foi indicado e com razoável precisão, enquanto o jet set intelectual petista se limitava a apontar o ovo da serpente.

Não bastasse, a operação Lava Jato realizou pela via transversa parte do que queríamos nos protestos de 2013: a abertura da caixa preta dos megaeventos, de Belo Monte, das campanhas bilionárias da casta, dos investimentos via BNDES do Brasil Maior, enfim, os cantos escuros de negociata, conchavo de gabinete, violações, desvios e propaganda enganosa por baixo do Brasil Potência, do Futuro afinal conquistado. Nessas caixas pretas estava o PMDB, o PP, Cunha, Aécio, Renan, mas também o PT, Lula, Odebrecht, e boa parte do mandarinato governista. Isto não é invenção da mídia golpista. Infelizmente, mesmo porque os demais meios foram bloqueados e reprimidos, a Lava Jato está realizando-se por meios que são indisputáveis, mas seus efeitos, ao contrário, o são.

Como fazer isso? Não sei, mas há de ser possível. É preciso reapropriar-se desses efeitos, tomar a iniciativa e ir em frente. Qualquer governismo residual, retorno ao voto crítico ou autorreferencialidade “vermelha” não passam de peso morto, usado para cobrar-nos moralmente que o arrastemos. Não há nada a defender. Mesmo as reformas de Temer é caso de contestá-las sem defender modelos falidos que já são reconhecidos como falidos, numa defesa de quermesse. Vivemos a Glasnost brasileira e isto significa abertura de novos campos, outras perspectivas. É uma oportunidade de recomeço, de sair da autossabotagem.

Mas sem primeiro ficar leve e largar mão desse entulho narrativo que não cansa em dar voltas sobre seu próprio eixo, nada acontecerá.

jul 2016 25

Earth

Em 1985, a DC Comics lançou a série Crise nas infinitas Terras. Ao completar 50 anos, a gigante dos quadrinhos resolveu unificar as múltiplas linhas do tempo, conflitantes ou paralelas, abrigadas em suas publicações. Décadas de intensa publicação produziram uma mixórdia de enredos, mitos de origem, contradições e realidades alternativas. Até então, a editora vinha lidando com a situação por meio do conceito de multiverso: coexistiam várias Terras com vida autônoma, como a Terra-1, Terra-2, Terra-X, Terra-S… Além disso, os super-heróis existiam em múltiplas versões em função da Terra em que tinham existência. No quinquagésimo aniversário, a solução encontrada pela DC foi forçar a unificação dos mundos lançando a mão do artifício de um cataclismo. Nas doze edições da Crise nas infinitas Terras, as múltiplas versões eram achatadas numa linha única, descartando no processo alguns super-heróis que não sobreviveriam na realidade unificada (como a SuperGirl e o Flash, mais tarde ressuscitado). No desfecho da trama, para arredondar o agora universo DC, os super-heróis remanescentes tinham as suas memórias apagadas. A elaboração do trauma cósmico resultante da perda da multiplicidade ficava para os leitores.

No Brasil hoje, a sensação que se tem também é de uma crise em muitas dimensões. O fim do ciclo progressista na América do Sul, o desmoronamento do mundo petista, a recessão econômica, o desenlace do impeachment, bem como os desdobramentos da operação Lava Jato e o levante de junho de 2013, todos são episódios que fraturaram a normalidade das narrativas sobre o país. Nessa fratura, proliferam diagnósticos. O que, de fato, fracassou? O progressismo populista, o desenvolvimentismo, a esquerda reformista ou como um todo, o lulismo, o pemedebismo, o pós-neoliberalismo, o processo-PT? A redemocratização chegou ao fim? O marco institucional da Constituinte de 1988 se esgotou? Recorre-se a índices temporais para explicar a resultante do momento: retrocesso, onda reacionária, restauração. Mas para onde? Voltamos à década de 90, ao neoliberalismo? À de 80, da “normalização do caos“? Ao ano de 1964? De 1937 e o verde-amarelo integralista? Ou mais além, teríamos regredido aos baronatos do café da República Velha?

As tentativas de explicação linear, no vaivém entre progresso e retrocesso, no entanto, não resistem à cartografia dinâmica de reconfigurações e reposicionamentos que uma crise tão multiescalar determina. Para dar alguns exemplos, a exposição propiciada pela Lava Jato do mecanismo persistente de saque bilionário dos fundos públicos pela casta política, a permanente agitação de redes e mobilização social decorrente de junho de 2013, ou o desmonte de um desenvolvimentismo sublimador de exploração, corrupção e desastre ambiental, nada disso pode ser relegado a segundo plano a fim de se nivelarem as tendências atuantes na conjuntura segundo um vetor de retrocesso geral. Haveria que se analisar também até que ponto algumas reformas do governo interino são obra do diabo, ou se merecem ser ponderadas à luz da experiência dos últimos 13 anos. Não fazer isso seria um desserviço ao espírito de nuance, primeiro requisito para uma eventual recomposição de terrenos de resposta, na ação e no pensamento, aos desafios complexos do presente. Ajuda pouco recauchutar dicotomias quase automáticas que, diante da precipitação do desconcerto suscitada pela crise, se tornaram ideias fora do lugar, o que não impede que elas tenham outras funções, do cinismo lucrativo à utopia impotente. E não é que as ideias outrora estivessem erradas, os fatos é que mudaram.

De todas as narrativas, a com maior ímpeto unificador foi a do golpe. Desde o mensalão, as forças governistas ao redor do PT adotaram a lógica da “guerra de narrativas”, como resposta ao que seria uma hegemonia conservadora da grande mídia corporativa. A guerra de narrativas embute uma narrativa de guerra. Aqueles não entrincheirados na contra-hegemonia discursiva ou fazem parte das elites golpistas, ou estão submetidos a um sobrenatural poder manipulador da imprensa que as representa. Dessa contraposição amigo x inimigo, nomeia-se o “PIG” (Partido da Imprensa Golpista), que seria um dos principais entraves para a efetivação de um projeto popular no país. É a partir dessa gramática hegemonista que as críticas viram “guerra psicológica”; a perda das bases políticas, “tentativas de desestabilização”; e o fiasco do ensaio desenvolvimentista, “sabotagem imperialista”. A narrativa do golpe de estado para qualificar o impeachment foi o ápice dessa falsificação, tentativa extrema de tocar o corno da guerra para chamar uma unidade desesperada, quando o edifício já balouçava além do centro de gravidade. Uma saída fácil e redentora, “saída à esquerda”. Em 2015, a gestão das expectativas do campo governista (a guinada à esquerda) já havia cedido lugar à gestão das frustrações, como num purgatório terapêutico que repõe sem cessar subterfúgios para adiar o óbvio.

Junho de 2013 foi um terremoto que abalou o sistema político, todos os partidos, irreversivelmente. Mas seus dirigentes optaram por encastelar-se no gabinete e no marketing. A eleição de 2014 injetou ânimo na guerra de narrativas, quando por um momento se acreditou que seria possível escapar dos tremores mediante bunkers. Deles, se comandariam as campanhas generosamente financiadas pelos propinodutos. O otimismo durou pouco. Na tormenta perfeita que se abateu no ano seguinte, a guerra das narrativas deu com os burros n´água quando ficou claro que, antes do que narrativa sobre as coisas, era preciso disputar as coisas mesmas. O máximo que pôde conquistar foi ter irritado boa parte da população, que, apesar da justa indignação, se viu rotulada de manipulada, reaça ou coxinha nas redes sociais. Em meio às revelações da Lava Jato, ao fracasso da nova matriz econômica e ao estelionato eleitoral, a perda de um programa de ação levou as narrativas a girar sobre o vazio, numa espiral de tautologias finalmente recodificada como movimento identitário. Ser de esquerda contra a direita (do grupo X contra Y) se converte num bem em si, consolidando a moral cerrada do lugar de fala e da renúncia de privilégio.

Uma virtude de junho de 2013 foi não ter funcionado na lógica da hegemonia, a serviço de uma alternativa de poder ou da sua conservação, e menos ainda de uma guerra de narrativas, que só depois se lhe impuseram. Nesse aspecto, junho ainda é um enigma cuja incompreensão custa caro. Aquela também foi a virtude do ciclo global de lutas disparado com as primaveras árabes em 2011 e a Praça Tahrir, que hoje encontra ressonâncias seja no NuitDebout francês, nas extraordinárias ocupas das escolas brasileiras, ou nas plataformas municipalistas da Espanha. A grande restauração à vista consiste na estratégia de soterrar essas aberturas com o peso das unidades necessárias, à direita ou à esquerda. Diante de desafios que mal mapeamos, agarrar o presente pelos chifres passa, primeiro, pelo gesto despressurizador de recusar essas saídas, aliás, a própria ideia que haja uma saída. Uma constatação desopilante. Há um quê de momento tropicalista em metabolizar os impasses que nos cercam, como um impulso doloroso e criativo. Talvez seja preciso, em vez disso, entrar, abraçar a crise das infinitas terras. Colocar-se à altura de seu multiverso contra a imposição de uma história. Essa crise, afinal, é o que coloca em contato mundos até então separados, numa interferência ao mesmo tempo produtiva e disruptiva.

 

 

 

 

jul 2016 05

Em Hélio Oiticica além dos mitos, Rio de Janeiro, 4/7/16.

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série das Cosmococas, Hélio Oiticica e Neville d’Almeida, 1973.

Nos Estados Unidos, o espírito do tempo dos anos 1960 foi Hendrix de jaqueta de couro branca com franjas azuis em Woodstock, quando tocou uma versão do hino americano em protesto contra a guerra do Vietnã. No Brasil, a imagem que ficou foi Caetano provocando a plateia enfurecida em um dos festivais da TV: “São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem? Vocês não estão entendendo nada!” Não que fosse fácil. No documentário Uma noite em 67, Magro do MPB4 relata que, durante uma apresentação de Caetano, topou com Erasmo Carlos no banheiro. Perguntado sobre o que estava achando da performance, Erasmo lamentou: “bicho, não tô entendendo nada”. Chacrinha, o tropicalista avant la lettre, já dizia que não vinha pra explicar, mas pra confundir.

A multiplicação de lugares comuns e episódios anedóticos por vezes tem o papel de encobrir os acontecimentos, furtando-nos a possibilidade de sentir o tempo, sentir a força do tempo. A folclorização reserva o autor a livros sofisticados de capa dura que nunca podemos comprar, ou à decoração das exposições, nacionais e internacionais, e reduz o poder transformador à cultura – palavra ante o que Hélio torcia o nariz, sobretudo quando escrita com maiúsculas, como em Cultura Brasileira. Para ir além dos mitos, é preciso distanciar-se das hagiografias e restituir ao pensamento o campo problemático, indispensável se o que se quer é transformar as coisas. O pensamento que presta tem um quê de doloroso, atenta contra o sentimento pessoal que nossas certezas cristalizam. Sem essa dimensão (auto) desestabilizadora, convém perguntar se, em vez de pensamento, o caso não seja de propaganda ou, no melhor dos casos, agitprop. É justo recusar ao autor o valor de culto, valorizando-o enquanto matéria viva de usos e reusos. Recusar que seja morto duas vezes, uma por morte morrida, a outra pelos bacharéis e especialistas.

Por isso, se posso aqui invocar um Hélio entre os muitos, invocaria o Hélio de meados da década de 70. Nem o Hélio do alto modernismo de vanguarda dos anos 1950 nem o Hélio vulcânico da Mangueira dos anos 60, mas o Hélio dark, aquele que, inconformado e sem certezas, migrou para Nova Iorque – Babylon como ele gostava de chamar. Um Hélio irrecuperável para campanhas de #maisamor em tempos de catástrofe, pouco simpático às ilações que adoram um tropicalismo para colorir, pensador marginal enfim ao próprio processo histórico.

Já em 68, o inventor da Tropicália antecipava os laivos de conformismo da geração tropical que, depois back to Bahia, assumiria gradualmente maiores compromissos, — do que Hélio se distancia. A alegria pode ser a prova dos nove, mas a alegria nunca é simplesmente uma escolha. Só uma psicanálise idealista ou um cinismo a toda prova poderia equiparar a ética dos afetos a uma escolha entre afetos positivos e paixões tristes, como se toda uma materialidade não definisse as condições por meio do que se é levado a sentir amor ou ódio, alegria ou tristeza, a vacilarmos na tensão entre deus e o diabo — duas potências.

Sem qualquer insinuação de processo linear, o primeiro Hélio, por assim dizer, atualiza o gesto inaugural da arte moderna. Isto é, consiste em empurrar a experiência até os limites do possível e, ali, no limiar em que o real acaba, no umbral da dissolução, aprender a residir nele até abrir o ponto da metamorfose. Arte moderna, ou seja, antiburguesa, tradição da traição, conluio com as potências da vida, feitiçaria superior diante das manhas da mercadoria.

O segundo Hélio, por sua vez, chega a tocar o olhar antropológico e a mística da pobreza, mas lhes escapa pela via do projeto afirmativo da antiarte, uma arte povoada. Não se trata de exaltar a marginalidade, mas habitá-la, estacionar na tensão existencial que ela suscita, um know how corporal e experimental, uma estética — um “programa” diria Hélio. Nem arte popular que elogia o substrato barroco do povo na mesma operação em que convoca vanguardas conscientizadoras para dar-lhe formas, ao gosto do cepecismo, nem pop art voltada a transfigurar o abjeto da cultura de massa em novo impulso restaurador do estranhamento do mundo.

Quero invocar todavia um terceiro Hélio, menos dócil aos enquadramentos por seus pósteros como intérprete da brasilidade. O Hélio da “vida subterrânea”, cercado de impasses e inquietado por privações, tristíssima figura, o de sua existência newyorkaise que terminou por tragá-lo no que seria a fase mais dolorosamente criativa. Se Oswald de Andrade descobriu o Brasil num café em Paris, Hélio o fez na clandestinidade privada das Cosmococas, com Neville d´Almeida. Dar a volta na Babylon: contra o nacionalismo cultural e seus subprodutos regionalistas, consumir o consumo, alienar a alienação, globalizar a globalização.

Em 71, Nixon decretou a guerra às drogas, o que conduziu a um realinhamento geopolítico de longa duração, com profundos impactos sobre a América do Sul. Em alguns anos, Cara de Cavalo e o Bandido da Luz Vermelha parecerão debutantes diante dos Zé Pequenos que a economia de ilegalidades das drogas, para falar com Foucault, vai fabricar pelo subcontinente. A década se abre com Hendrix empapado no próprio vômito e uma sequência de overdoses de heroína. Dois anos depois é a vez de Torquato Neto, suicidado. Médici é presidente do Brasil, Allende cairá em 73 com a chegada de Pinochet, Videla na Argentina em 76. No romance Vício inerente, Thomas Pynchon oferece um panorama eloquente dessa década de restaurações, perseguições, noias e complotismo. Era preciso matar a geração de 68 pela segunda vez, matar a sua inocência. 1968 não aconteceu, jamais poderia ter acontecido.

Pode-se pensar que, diante das intervenções públicas dos anos 60, o programa que desagua nas Cosmococas significaria um passo atrás, uma involução formal. Na realidade, foram passos para baixo, all way down,  seguindo as pegadas de Zé do Caixão na direção do inferno delirante em technicolor. Renegado do tropicalismo e crítico da clonagem do underground no multiculturalismo, Hélio se reinventa no subterrâneo da paisagem noir da época. Num cenário de modernização autoritária comandado pela ditadura, que realizava tendências já presentes no nacional desenvolvimentismo, ele confere conotação positiva ao sub e, em dupla afirmação, sinaliza a via da descida antropofágica do sub-sub: sair do subdesenvolvimento pelos meios do próprio subdesenvolvimento.  Mário Pedrosa sentenciava-o: pós-moderno. Mas Hélio já estava noutro lugar, crítico da crítica pelos meios materiais, indo diretamente à matéria animada, à matriz produtiva do mundo e seus plasmas criadores. Nas Cosmococas, no autofichamento obsessivo, peças de seu joyciano programa in progress, HO metaboliza as aporias, insuficiências e capturas na matéria-movimento, o que ele chamava “o suprassensorial”, para repor a tensão criativa que, de todos os lados, as forças da restauração buscam lhe aliviar como um purgante. Mesmo no texto, o Hélio escritor não cessa de ocupar-se do grafismo, em chave neoconcreta.

Nixon fez chover napalm no sudeste asiático e Reagan levou a guerra nuclear às estrelas, mas na era Trump – ou em sua versão good cop, Hillary – prenuncia-se a normalização da máquina exterminadora definitiva. O drone, fleet in being do novo milênio. Sua lógica é Clausewitz depois de ler Mil Platôs, o aplainamento do espaço-tempo em espaço liso: de qualquer ponto em qualquer ponto em qualquer tempo. Mas nao só. Existe fenômeno mais terrivelmente pós-moderno do que o ISIS, o super-midiatizado Estado Islâmico, curto-circuito irreversível da geopolítica ocidental em todas as suas variantes?

Nos anos 70, a terra foi varrida pela virada do neoliberalismo. Nos anos 2010, a terra foi arrasada por governos progressistas apoiados por desfiles de bandeiras vermelhas. O intolerável no noticiário não poupa representantes à direita e à esquerda. Nos 70s, uma geração calada à força dramatizou a dissipação do horizonte utópico em cristais de inconformismo, numa contínua experimentação, num esforço titânico para escapar da impotência. Hoje a inteligência é moída diariamente pela guerra de narrativas, pela opiniologia desenfreada e pelo depoimentismo diarreico das redes sociais. O savoir faire do intelectual se converteu no pastiche do pastiche, em campanhas comandadas desde bunkers que cobram a subordinação a “campos políticos”. Por não convir ficar mal e atrapalhar o networking, a adesão vem a baixo custo, no estranho casamento entre ilhas de radicalidade e a radical subserviência aos “campos políticos” e seus discursos sob medida. A invocação da micropolítica da subversão servindo bem à macropolítica do umbigo. Na Argentina dos Kirchner, tinha sido instituído o cargo de “Coordenador Estratégico do Pensamento” e hoje, com Macri, a moda intelectual é o coaching ontológico. Entre dirigismo estadocêntrico e metafísica motivacional. Não é pra achar graça. Porque aqui temos Emir Sader e manuais filosóficos sobre como falar com fascistas.

O Hélio que quero invocar ele bagunça o templo. Um dos maiores filmes religiosos de todos os tempos nasceu da câmera de um cineasta ateu, comunista e libertino. Somente nesse sentido é que se pode falar em obra artística emergida do círculo de fogo daquela marginália, que ainda nos atravessa. “Seja marginal seja herói” não perdeu a atualidade e segue mobilizando paixões, choques e o pensamento.

Como se sabe, uma erupção vulcânica é provocada pelo movimento subterrâneo das placas tectônicas. Mas quando os estratos geológicos param de se mexer, a atividade cessa, o magma enrijece numa crosta, e a boca do vulcão dormente pode até virar ponto turístico. Hélio se esforçou o quanto pôde, em vida, para não virar mais um avatar da cultura made in Brazil. Só isso explica o autofichamento compulsivo que nos legou tantos manuscritos, tapes e fragmentos. Não que ele escrevesse para se explicar aos póstumos, como Nietzsche aos espíritos livres. Não, o caso é diferente. Era acima de tudo esforço de fuga. Hélio escrevia para fugir de nós, para se esquivar antecipadamente de nossas redes de captura, nossas instituições miseráveis, nossa ânsia em enquadrá-lo.

Então é bom que não o encerremos no nível do entendimento pleno. Devires revolucionários afinal não podem ser entendidos, como aliás nenhuma revolução, nelas o regime de funcionamento do tempo é outro. Arrastam antes pela sensibilidade que nelas se exprime do que pelo entendimento. É possível sentir esse tempo, sentir a força do tempo. Supera o entender. Quem está entendendo tudo perdeu o essencial.

para Nicolás F. Muriano