Publicado em 22 de fevereiro de 2012
Como reapropriar uma dívida infinita?

As finanças do grão-duque, 1924, filme de F. W. Murnau

 

Os judeus deviam tudo a seu Deus. Os cristãos já nasciam imbuídos do débito original. Os protestantes aprofundaram e secularizaram a dívida. Nasceu o espírito do capitalismo, quando os estados integraram as dívidas e chamaram a responsabilidade fiadora para si. O que antes eram blocos e pedaços de dívidas, se generalizou como dívida perpétua e irremissível. Não pode mais ser quitada. Não foi feita pra isso. O processo do senhor K jamais chegará a termo e o agrimensor nunca conseguirá ingressar no castelo.

Hoje, a dívida é infinita. A criatura vem ao mundo coberta de deveres. Deve preparar-se para o mercado e a ele servir. Deve projetar a carreira e nela ascender. Deve constituir o próprio patrimônio. Deve cumprir os deveres de indivíduo proprietário. É responsável por seu sucesso e culpado por seus fracassos, empresário da própria salvação. A dívida infinita interioriza-se como vazio existencial, a ser diuturnamente preenchido, num futuro aberto ao nada. Na jaula com a onça, o ser humano se exaspera, se deprime, busca consolos, autoengana-se, e acaba investindo na própria servidão. Acossado de todos os lados por uma cobrança interminável, vive em estado de permanente culpa. Na obsessão de ser bem sucedido, coloca-se cativo de deveres cada vez mais inalcançáveis. Eis o conceito de vida sob o capital.

Em tempos de crise global, a resistência às finanças avança o estado da dívida ao campo do visível. O volume dos débitos supera exponencialmente os créditos. A prometida sociedade de empreendedores desfalece utópica. Os slogans “todos acionistas!” e “todos proprietários!” revelam a premissa e a conclusão: “todos endividados”. Ou pelo menos 99% de todos. Por meio do endividamento direto de famílias e indivíduos, ou de maneira diluída pelas dívidas públicas, o sistema financeiro governa os governos. E os governos discursam que o fracasso é seu, você, que precisa ser mais austero, mais responsável e mais consciente ao consumir, trabalhar e planejar-se. O vazio existencial levado à grande escala conforma a economia política do capitalismo, que produz, reproduz, organiza e distribui a falta.

Que é a máquina representativa senão a institucionalização dessa falta, a presença da ausência? As instâncias da representação estão ocupadas pelos bancos, públicos ou privados, e pelas instituições e grandes grupos financeiros.  Se a dívida é infinita, no fundo todo o dinheiro pertence aos bancos. Eles são os únicos verdadeiramente solváveis. Não admira sejam os únicos com um direito infinito de insolvência. São os primeiros a ser socorridos e salvos, isto é, a se socorrerem uns aos outros, a fim de salvaguardar o todo. A salvação do Banco, afinal, não tem preço.

Mas não nos apressemos em confundir o sintoma pela doença. A crise permanente, um outro nome para a  nossa economia global, não se origina nas finanças. Quem critica as finanças e poupa a  mitológica “economia real” não entendeu a pintura completa. Como se a economia real, ainda que pudesse existir sozinha, não fosse ela mesma causa de problemas sociais, ambientais, trabalhistas, políticos. Essa miopia tanto isenta o bom capitalista produtivo, que seriam melhores do que os banqueiros, quanto pode flertar com o antissemitismo, ao equiparar a dívida infinita do capitalismo com a dívida infinita do judaísmo.

Parte considerável das esquerdas sucumbe ao argumento do capital produtivo. Crê num capitalismo benevolente que promete levar as benesses da modernidade a todos, mediante o desenvolvimento das forças produtivas e a distribuição equitativa dos bens produzidos. Uma UDN vermelha e progressista, que não aprendeu com as lutas generosas do passado. Ela converge no discurso do desenvolvimentismo com o que de mais conservador existe no Brasil.

O sistema financeiro é órgão, não o metabolismo inteiro. As finanças operam no poder do dinheiro, nessa potência liquefeita capaz de coordenar a exploração da riqueza social e controlar a sociedade. Quem tem o capital financeiro decide como, onde e quando investir. E investirá onde tiver garantias e puder prever o retorno dos investimentos. Investirá onde houver formas de governança capazes de mobilizar o trabalho e parasitar os circuitos produtivos a fim de produzir lucro, que retorna na forma de juros. Investirá onde os governantes e gestores demonstrarem reunir as qualidades de mando, eficiência e esperteza para colocar os outros 99% a trabalhar para eles. Investirá onde houver comando, reforçando-o com o poder desigual que o dinheiro invoca. Os mercados querem garantias para abrir os fluxos de dinheiro-poder.

Que é, em grande escala, a operação de investimento senão uma organização global do controle sobre o trabalho para a extração de lucro aos rentistas? Que são as finanças senão o alto comando da produção capitalista pelo globo?

De um lado da equação, o patrimônio do 1% da classe credora, propriedade existente sobre as coisas, que colateraliza e securitiza as operações financeiras. Do outro lado, a produtividade das populações, as suas capacidades de gerar e afetar e comunicar e cooperar e imaginar, que as finanças precisam governar para o lucro. A soma não dá zero. Não existe equilíbrio a restaurar. As trocas desiguais entre uns e outros acabam mistificadas pela dívida infinita, que o sistema financeiro pressupõe e o dinheiro materializa. Essa mediação coloca em contato a propriedade e o trabalho e realiza a crucial travessia da propriedade sobre os produtos à propriedade sobre os processos sociais: a mercantilização da vida. O sistema financeiro fecha o circuito entre moeda, propriedade e trabalho, num conjunto de relações sociais de produção, isto é, a economia real que só consegue funcionar financeirizada.

Isto não nos deve levar a demonizar o dinheiro e as finanças em si mesmas, mas em seu funcionamento vampiresco.  Se a vida é plena e a riqueza superabundante, o estado da dívida forja a escassez e esvazia a vida. Então é preciso opor a cupidez infinita por outro mundo à dívida infinita deste, contrapor a renda da vida à cobrança generalizada sobre ela. Como em Fausto, é corporificar um monstro que está possuído por amor. Em vez de um sistema baseado na valorização do capital, baseá-lo na valorização direta das dimensões produtivas da vida. É desocupar o mundo abstrato que capitaliza o futuro, para redimensioná-lo e reorganizá-lo menos como expectativa de lucro do que desejo de excesso para todos. A reapropriação da riqueza social passa pela retomada do sistema financeiro, bancário e pelo dinheiro mesmo, esse poder demiúrgico dissolvente que representa a dívida infinita.

Todo um horizonte de resistência, que enseja e está ensejando o trabalho da multidão, se descortina no presente ciclo de lutas, que 2011 exprimiu tão bem; da reinvenção do sistema financeiro de baixo a cima, e das cooperativas alternativas de crédito, até à extensão do direito à insolvência a todos os cidadãos (e não só aos bancos), quiçá da iniciativa por um jubileu popular e irrestrito, que remita aqui e agora todas as dívidas e pecados, doravante zerados, livres.

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  • @mujimbo

    Magistral reflexão, que me fez lembrar, nas suas propostas conclusivas, o “Clube da Luta”, de David Fincher. Entretanto, como os desdobramentos da crise grega têm mostrado, não se nota qualquer tipo de abertura, por parte da banca, para discutir o direito à insolvência. Não estamos, assim, sendo inelutavelmente encaminhados para a destruição física do sistema credor como única via histórica para a quitação universal?

    • Bruno Cava

       Mestre, @mijumbo, depende de que destruição estamos falando. Penso que tomar o poder do estado hoje é pouco, senão prosaico, já que o capitalismo hoje opera mais fluido e disperso do que isso. Além disso, se a crise culminar na guerra, é tudo o que o sistema financeiro precisa para recapitalizar-se de confiança, porque os dois lados precisarão dele, como a história mostra. Em que sentido, destruição física do sistema credor?

      • @mujimbo

        Prezado Bruno, o seu texto instigou-me a pensar tanto nas formas de destruição / “contraposição” / “desocupação” do sistema da dívida infinita, quanto na natureza do que deve ser destruído. Na profética alegoria que Finchey encenou, a destruição resulta de um gesto de terror, de um ato extremo de sabotagem que pretende aniquilar o hardware do sistema, poupando entretanto seus operadores. Talvez hoje, ou em algum tempo futuro, na chamada vida real, resultado semelhante pudesse ser conseguido dirigindo o fogo para o software, curtocircuitando a rede de comunicações e de significações que o mercado global agencia, como parecem almejar vários tipos de guerrilha e resistência internéticas. Poderíamos dizer que se tratam de figurações e estratégias para um apocalispse redentor, que atinge antes as estruturas endividantes do mundo do que os sujeitos endividados e endividadores, e assim tende a salvar/quitar a (quase) todos. Projeto que não se reduz a um pacifismo ingênuo, muito se amparando na consciência crítica acerca das custosas faturas que a violência sempre cobra das mudanças históricas. Mas, também, projeto que pode subestimar a relevância das rupturas na invenção da vida sem dívida, limitando-se a dilatar prazos e prestações enquanto aguarda-se uma ordeira autodissolução dos alicerces da ordem, isto é, dos efeitos de sentido que conferem realidade à ficção da dívida.

        Quando me refiro a “destruição física” do sistema da dívida, procuro justamente equacionar esse valor da ruptura, um valor que, idealizado, tanto deve superar o rearranjo inercial do sistema quanto a sua reestruturação traumática. Contudo, predominam as incógnitas no equacionamento cotidiano que consigo fazer deste mundo que cada vez mais me parece o reflexo num espelho numa cena do “Sursis”, de Sartre, quando computo as contradições que nele se acumulam e se tensionam, submergindo-nos num suspense insolúvel. Abraço. 

  • http://www.descurvo.blogspot.com/ Hugo Albuquerque

    Belíssimo, post, Bruno. Nem preciso dizer que a minha análise converge nessa direção também – e isso começa a ficar mais claro a cada dia que passa, uma vez que o Estado, seja diretamente ou por meio dos instrumentos que reproduzem uma função-Estado, se aprofunda e se espraia ao mesmo tempo. 

    O que é o Estado senão a máquina teológico-política definitiva – e o que é isso senão a organização que se volta à monopolização da linguagem e se afirma pela chantagem permanente da dívida, tornando o todo incompleto para lhe completar na forma de dependência. Felizes foram os germânicos ao cunharem numa única palavra, schuld, que resolve a presente questão: culpa e dívida, se podemos argumentar que andam de mãos dadas na nossa língua portuguesa, em alemão elas já estão compreendidas num único termo.

    O casamento judaico-helênico que resulta no que chamamos de Ocidente gira em torno disso: se, por um lado, foram os judeus que inventaram o Padre e a relação de dívida, isso só adquire o status atual no momento em que acontece o seu encontro com as instâncias da mediação trazidas pela própria filosofia platônica, uma sistematização da própria experiência política ateniense – não colocaria a política como uma filosofia primeira, mas como locus de conflito do qual verteu a filosofia.

    A própria dimensão histórica do Problema como a moção submetida pelos cidadãos ao conselho da cidade, o que leva à conotação atual do termo e também conduz Platão a elaborar a teoria da ideia-modelo, na qual busca sistematizar a relação de mediação por meio de uma axiomática. O Conselho, detentor do acesso à ideia-modelo da cidade como monopolizador das autorizações para os projetos e planos públicos, via seleção e hierarquização daqueles (o que é aceito declarado como cópia fiel e o resto relegado ao plano dos simulacros). O filósofo, não por coincidência, ocupa a mesma posição em relação ao conhecimento.

    A axiomática helênica conjugada com a dívida produz a governança moderna. A maneira de realização do valor, propositalmente assimétrica, é tanto menos um erro e muito mais uma forma de nos encabrestar, designando como e o quê produzir, como e o quê consumir e por aí em diante – embora a potencialização que a capilarização desses fluxos produza acabe, por sua vez, construindo armas que podem ser usadas para a destruição do regime, uma vez que a dívida é ficcional, mas a posse dos bens e a autorização para usufruir de certos serviços – dentre eles a própria educação – é bastante concreta.

    Como resolver isso? Não é fácil, mas um bom palpite é conquistar o poder para se desfazer dele. Subir ao palco da democracia representativa – escolhidos pela plateia ou fazendo um happening – para denunciar a farsa e implodi-lo depois – coisa que já está clara há tempos, mas que foi desvirtuado por uma esquerda sem virtù, que terminou sequestrada por uma dos seus maiores ironizadores, Schumpeter mas cujo projeto – tão parecido com o de Mussolini [sem ironias] – terminou por ser o seu – ou o que é isso que vemos agora, no governo Dilma, no qual são os fundos de pensão a administrar os bens estatais?

    abraço

    • http://www.descurvo.blogspot.com/ Hugo Albuquerque

      Aliás, sobre a dívida, não custa lembrar, como eu já disse por aqui, como o New Deal está para a história do capitalismo como a Boa Nova cristã está para a história  da teologia.

  • Rosana

    Belo texto. Fez eco em questões que me ficaram após assistir o filme iraniano “A Separação”: a miopia e a falência de instituições financeiras, jurídicas, sociais produzem um (curto)circuito que despotencializa o sujeito e o enreda numa espiral inútil e sem fim de culpa e reparação.

  • Ken Seter

    Parabéns Bruno por mais essa antítese de um problema antigo e tão silenciosamente enraizado ao nosso psiquismo. 

    Alguns contemporâneos, em meados do século passado já anteviam e se questionavam sobre a real finalidade da fundação de organismos como a UE, dos fundos de controle, de outros organismos desterritorializados, e da fluidez com que se apresentavam nos noticiários. Aquelas discussões aparecem de forma adoravelmente sintética sob a batuta de seu teclado, entretanto acredito que no mínimo como exercício de fraternidade política, devemos além de expor, propor mesmo que de forma filosófica ou utópica, os movimentos para uma possível resistência, assim como preciosamente tens feito. 

    Se me permito alucinar contigo, acredito que ainda verei o dia da “queda”, mas meu tempo já não é tão grande e o meu proselitismo carece de pragmatismo. A partir de um certo distanciamento histórico que os anos nos permitem, não acredito mais em jubileus ou reconstrução de qualquer coisa de baixo para cima nesse país. A monopolização do simbólico pelo aparelho financeiro-ideológico destituiu minha geração da posição de seres pensantes e nos contabilizou aos marginais. Infelizmente é desse lugar que obtusamente maquinamos as possibilidades de uma transformação e lendo seu texto me pergunto se não está na hora de saber quem é a “organização global”? Quem são os “rentistas” de quem você fala. São pessoas? Quem é “o alto comando da produção capitalista”? Será que tem nome ou vamos ficar aqui, aprisionados ao “terror do sem nome”?

    Movimentos como o da Islândia, do 15M ou da possível Praça Global aliviam a desesperança, mas mudamos esse país no passado lutando contra inimigos bem concretos não contra organismos internacionais despatriados sob a insígnia de S.A´s. Talvez esteja na hora de voltar a dar nomes aos bois, para que as futuras gerações não lutem contra um fantasma virtual.

    Forte abraço

    • Bruno Cava

       Mestre Ken,

      Houve tempo que esse inimigo distante era traduzido por imperialismo, quando no fundo somos colonizados pelas elites locais, que por sua vez pertencem às elites globais. Os pobres e resistentes sempre souberam chamar os colonizadores pelo próprio nome. Alto comando capitalista: as reuniões de Davos, o G-8, o G-20, o FMI, o BCE, a OMC, as feiras internacionais de finanças e altos negócios, tudo isso que o movimento anticapitalista dos 1990 diagnosticou corretamente. No Brasil, siga o dinheiro. Mas é claro que as lutas sociais vão pelas bordas, pelos elos da corrente, sem perder de vista todavia o caráter sistêmico, ao mesmo tempo longíquo e cotidiano do processo de financeirização da vida.

      Abraço.

  • http://profiles.google.com/1.dan.jung Dan Jung

    Bruno, os seus textos estão cada vez mais saborosos.

    Há uma pergunta que eu faço (quase) todos os dias: se a dívida simbólica é (foi?) desvelada, o mal-estar passa a ser ‘outro’?! 

    Será este o motivo de certa proliferação das técnicas psicoterapêuticas de autoajuda e de reconexão (associadas ao aqui/agora)?

    A “dívida perpétua e irremissível”, a meu ver, está inexoravelmente acorrentada (ritualisticamente) a certo ‘ideal’ de autonomia, certo questionamento da autoridade e um esvaecimento da alteridade (fundante no laço social), herdados do individualismo. 

    Tudo isso meio que me lembrou os tempos hipermodernos de lipovetsky/charles: ‘empuxo’ à responsabilidade pelas escolhas e o desregramento; a ‘regra’ deixa de ser o que governa as escolhas – passagem do ‘princípio’ racional para um ‘campo’ administrativo (gestão/consenso).

  • http://profiles.google.com/1.dan.jung Dan Jung

    Bruno, os seus textos estão cada vez melhores.

    Há uma pergunta que eu faço (quase) todos os dias: se a dívida simbólica é (foi?) desvelada, o mal-estar passa a ser ‘outro’?! 

    Será este o motivo de certa proliferação das técnicas psicoterapêuticas de autoajuda e de reconexão (associadas ao aqui/agora)?

    A “dívida perpétua e irremissível”, a meu ver, está inexoravelmente acorrentada (ritualisticamente) a certo ‘ideal’ de autonomia, certo questionamento da autoridade e um esvaecimento da alteridade (fundante no laço social), herdados do individualismo. 

    Tudo isso meio que me lembrou os tempos hipermodernos de lipovetsky/charles: ‘empuxo’ à responsabilidade pelas escolhas e o desregramento / a ‘regra’ deixa de ser o que governa as escolhas – passagem do ‘princípio’ racional para um ‘campo’ administrativo (gestão/consenso).

    • Bruno Cava

      Mestre Dan, esse mundo do trabalho cognitivo, talvez, confine com a proliferação de ciclotimias, depressões, angústias, e um uso farmacológico cada vez mais voltado a agenciamentos maquínicos anti-esquizo e anti-desejo, nivelando tudo à axiomática vazia da dívida. Do transcendente ao imanente, também acredito que essa passagem da dívidas finitas/disciplinas à dívida infinita/continuidade modulada se dê por aí. A analisar, grande comentário. Abraço!

  • Geneuronios

    Está sendo aberto para visitação pública o MUSEU  DO  HOLOCAUSTO  em Curitiba – PR. O objetivo é manter na lembrança  e  ensinar  as crianças sobre os preconceitos raciais. O investimento é todo do dono do Boticário.