Publicado em 18 de fevereiro de 2012
Occupy e os repolhos da esquerda

Só posso acreditar num Lênin que saiba dançar

A erva existe exclusivamente entre grandes espaços cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre, e no meio das outras coisas. A flor é bela, o repolho útil, a papoula enlouquece. Mas a erva é transbordamento, ela é uma lição de moral.
— Henry Miller, Hamlet.

 

O velho mundo morre enquanto o novo tarda a aparecer. No claro-escuro perfilam os monstros. A citação é de Gramsci e se aplica bem ao momento que vivemos. Quando um futuro já presente, tão alegre, se debate para existir; um presente já passado teima seus últimos golpes sem direção, em triste agonia. Nesse jogo de sombras, os monstros abrem os olhos. Despertam, caminham e logo se perguntam: quem somos? Não sabemos. Mas não deixamos de reconhecer a força, a natureza disfome, a imprevisibilidade, e os seus perigos e é bom que assustem e inspirem receios e desconfianças. Em todo processo transformador, o medo tem que mudar de lado. E se existem monstros do bem e monstros do mal, de qualquer modo, é só frequentar o cinema para saber que os monstros desejam a mesma coisa: amar e serem amados. Este grande amor, monstruoso e nada sentimental, não pode faltar em todas as lutas generosas e produtivas mobilizações por um outro mundo.

Enquanto isso, os jornalistas de esquerda não conseguem captar, buscam pautas cristalinas e líderes visíveis e acontecimentos inequívocos. Vamos dar um desconto: eles são jornalistas. Pedem fatos jornalísticos. Estamos fazendo outra coisa. Menos sintetizar do que multiplicar: produzir o máximo existencial, não se separar do turbilhão.

O movimento já mudou o léxico da política, resgatou palavras e conceitos fora de uso geral, desestabilizou o que se apresentava como dogma e senso comum. Alastrou um desejo de mudança que chacoalha o dito “campo das esquerdas”. Apesar do dissenso a respeito, penso eu que, em meio a tantas palavras e conceitos em estado de fluidez, seja importante às Ocupas articularem um discurso do ponto de vista da esquerda.

Mas não esquerda como os partidos se entendem por esquerda. Porque o Occupy não se filiou a eles, não lhe interessa a máquina da representação. Os partidos de esquerda sondam no Occupy algum ponto de acoplamento para a agenda e os mandatos, alguma maneira de enquadrá-lo nas campanhas eleitorais. Como se os movimentos devessem parar de sonhar monstros e se esforçar para funcionar conforme o modelo representativo existente, nesse subcosmo de estado e mercado, público e privado. Os partidos de esquerda são os repolhos de Henry Miller. Nem tampouco esquerda como os sindicatos e as centrais sindicais se entendem por esquerda. Não é isso. Porque esses cobrem apenas uma mínima fração da classe trabalhadora: formal ou informal, reconhecida ou não, isso quando não se prestam a organizar uma gestão mais horizontal da exploração do trabalho, cooptados. Os partidos e os sindicatos de esquerda se esforçam por disputar o estado e a fábrica, quando o estado e a fábrica são parte fundamental do problema.

Nesse sentido de esquerda, realmente não dá. Essa esquerda que joga com a direita por melhores negócios, por melhores condições para fazer negócios e gerir os lucros e investimentos. Têm pessoas de esquerda que não nasceram na família certa ou não conhecem as pessoas certas, a fim de vir a gerenciar uma grande empresa ou banco, então resolveram ser empresários e banqueiros através do estado. Além disso, do outro lado, toda grande empresa ou banco faz negócios, direta ou indiretamente, por dentro do estado; ou simplesmente não é viável. Esse agenciamento de uns e outros coloca o estado como o balcão onde se viabilizam e realizam negócios, onde são mediadas as demandas e os conflitos, sempre em nome de melhores negócios. É onde as políticas públicas cada vez mais não passam de novos modelos de gestão e negócio, cada vez mais eficientes e transparentes e sustentáveis. É o estado-empresa, sem política, isto é, sem antagonismo, que mistifica as causas sistêmicas e estruturais por meio de causas morais e acessórias.

Isto não significa aderir à pauta ultraliberal da sociedade civil contra o estado, como se não fossem dois lados da mesma moeda. Nesta, o estado impediria a liberdade individual e a livre circulação dos produtos, ou seja, o mercado livre. É o discurso que clama por uma unificação ao redor do combate à corrupção e aos impostos, e contra a especulação financeira dos yuppies de Wall Street, como se a “economia real” não fosse ela mesma o problema. Esse populismo que se diz acima da divisão entre esquerda e direita, todavia francamente direitoso, aparece no movimento Cansei e numa famosa capa da Veja com o símbolo do Anonymous; mas também no Tea Party, nos libertarians e no guru da cultura livre, Lawrence Lessig, que muito eloquentemente declarou seria interessante uma aliança entre o TP e o movimento Occupy.

Nesse outro sentido pós-esquerda, também não dá. Se o movimento Occupy é monstruoso, é porque resgata o sentido político do conflito, por afirmar com todas as letras que a luta é dos 99% contra o 1%. Aí se resgata o sentido de esquerda que importa, colocar-se na perspectiva dos pobres. E não dos modelos de negócios (certas “políticas públicas”) ou da ideologia (apelo à “gestão sustentável e eficiente”). Na perspectiva dos pobres, de esquerda!, trata-se de confrontar a desigualdade social em todas as suas expressões paralelas de opressão: classe, sexualidade, gênero, raça, imigração. É combater para sabotar as estruturas e discursos que produzem e conservam a desigualdade em primeiro lugar. E reapropriar-se da riqueza social, de baixo pra cima, apesar dos especialistas gestores, dos representantes partidários e sindicais, e também da opinião pública e seus fatos, isto é, dos jornalistas e da miséria do jornalismo.

Nas Ocupas do Brasil, o problema foi colocado além de qualquer abstração quando foram inundadas de pobres, com seu sentido pleno de vitalidade e liberdade. Uma quermesse de monstros metropolitanos. Pode não ter achado as soluções, mas achou os problemas e vem colhendo falas e contribuições em lugares e pessoas desprezados pela esquerda institucional. Quando se levantaram e tomaram a palavra, as pessoas em situação de rua, os que lutam por moradia e terras, pelo direito de produzir direitos, os resistentes terapeutizados pelo choque de ordem, o racismo de sempre e o urbanismo dos megaeventos, quando esse rio subterrâneo e lamacento por debaixo do Brasil oficial irrompeu em toda a sua feiúra, em seus dentes estragados e cabelos desgrenhados, em sua potência constituinte. Das Ocupas, incipientemente, se produziu esse não-lugar onde as vozes outras puderam articular a cultura de resistência que já corre pelo subsolo, pelos esgotos da classe média de esquerda, pelos fluxos da cidade, centros e periferias. Sem teto, sem renda, sem estudo, sem consideração, enfim, essa violência da miséria, plena de sentidos e pulsante de vida, comunicada abertamente. Que é violenta mesmo e por isso nos reeduca, nós os mal educados pelo estudo formal, porque a única forma de comunicar a miséria é pela violência, alegórica ou física — de toda sorte, política. Já não era outro o ensinamento da estética da fome, nos filmes de Gláuber Rocha. O câncer não está no movimento social, mas na Sociedade (1% e seus representantes) que o fratura de injustiça, exclusão e porrada.

O Occupy pode ser a nova esquerda. Não significa que deva refundá-la do zero, mas reorganizá-la, inclusive por dentro de forças transformadoras através de partidos e sindicatos. Sem desprezar instituições, mas as atravessando. Já está fazendo isso. A esquerda tradicional tem mais a aprender com o ciclo de lutas de que 2011 foi tão marcante, enriquecendo o seu patoá magro, do que o inverso. O movimento Occupy não tem que pedir permissão para fazer política e bagunçar o quintal da esquerda. O Occupy é erva daninha, monstruosa, e não adianta insistir que quem está nele não vai querer plantar mais um repolho.

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  • http://twitter.com/Waldezurbe waldez

     vou deixar meus parabéns não pelo texto, mas por essa frase: “a única forma de comunicar a miséria é pela violência”. certíssimo!!! comunicá-la de outro modo é deixar de comunicá-la.

    • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

      erradíssimo, e basta ler Jean Genet para saber disso. Mas para isso é preciso sair daquilo que o narrador genetiano (no sentido de narrador proustiano) chama “o mundo de vocês” (vocês aí equivale a modos burgueses, mesmo se de esquerda – já que o vocês objetivo da pseudobiografia proustista dele é Sartre & Simone…).

      A beleza extrema, o elevar o sujo ao divino, o pênios sujo ao solene, roçar um cago no sublime (como diz Manoel de Barros), é boa forma de comunicar (e exprimir, o que não são sinônimos, sabemos desde a conferência de João Cabral em 1952) a miséria.

      A miséria neurótica é que requer de violência. A miséria não-idiota sabe sublimar-se, como fez o Santo-Ator.

      • Bruno Cava

         A miséria neurótica comunica-se com uma violência neurótica: é o estado policial, o poder do crime e o crime do poder juntos. Existe, no entanto, essa outra violência que, longe de sublimar-se em si mesma (o que seria estetizá-la ao modo kantiano), move a transformação em seu duplo rendimento como destruição e criação. Ainda que seja alegórica, porém real. João Cabral de Melo, Gláuber Rocha, o RAP de um Emicida et al.

      • http://twitter.com/Waldezurbe waldez

         cara, nunca li Jean Genet, então me pouparei de cmentar o primeiro parágrafo.
        quanto aos demais; “elevar o sujo ao divno”, se bem entendo sua idéia, é tratar o sujo de um modo que possa ser aceito pelos critérios e o juízes que um dia o consideraram sujo, daí se submeter a ordem mesma que instalou a míseria, que a pôs em seus lugares. a sublimação – se estamos falando da freudiana aqui (até pq é o único autor de psicanálise que li) – serve justo para isso, adequar o desejo na ordem das coisas.
        a violência, nesse caso, é uma forma de desafio direto a ordem das coisas – aos seus juízes e seus critérios -, e linkando com o texto do Bruno, é isso que esses Occupy fazem, desafiam a idéia mais cara a nosso tempo: democracia. (pelo menos uma forma de democracia).
        em suma: a miséria sublimada é a miséria conformada. qualquer outra miséria será vista com violenta, mesmo que não seja a agressão física.

        • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

          Se você desconsiderar o que falo de Genet, todo o resto deixa de ter sentido. Sinto muito. 

        • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

          a miséria conformada é a do “mundo de vocês” (na acepção de Genet). Genet quer eleva-la a algo muito além “do mundo de vocês”.

          Repito: se você pular o primeiro parágrafo, todos os outros não farão sentido. 

  • http://www.descurvo.blogspot.com/ Hugo Albuquerque

    Ou seja, é um pouco do que a Flavia Piovesan e você coincidiram nas falas lá na PUC. Ainda que a ciência econômica aponte para diferenças entre a crise de 29 e a de hoje, elas possuem um efeito em comum que é, precisamente, o esgotamento da forma de governança posta por um abalo no eixo existente entre a teologia-econômica e a teologia-política constante. As certezas saíram do lugar abrindo espaço para saídas libertárias ao passo que o sistema tenta se reorganizar de duas formas possíveis, uma mais dura e outra mais inteligente. Se nos anos 30, tínhamos o New Deal e o Fascismo como saídas do sistema, hoje temos o Capitalismo 2.0 e o…Fascismo de novo (seja descarado ou na forma de socialismo de mercado) – que parece ser um golem que o capitalismo guarda no porão. Se o New Deal foi peça fundamental para o surgimento da sociedade de controle, o que será que o Capitalismo 2.0 pode criar caso seja levado a cabo? Cá no Brasil, isso já está posto para 2014 apesar da crise ter tido outros efeitos por aqui.

  • http://profiles.google.com/1.dan.jung Dan Jung

    Adoro as suas colagens, Bruno. Gosto quando você parte delas para falar. O movimento occupy inaugura, a meu ver, este pressuposto; ele emerge subterrâneo (visceral e logo após gutural) e cria vida no coletivo. 

    Entendi… em tempos ‘homogeneizantes’ uma articulação do ponto de vista da ‘antiga’ esquerda (no palco, especificamente na dança, é representada pela diagonal, para além do eixo/balance, ou o lugar onde os movimentos se ‘possuem’, se vigoram, fora da barra ou do centro) é o que mais se encaixa aos ocupas, não só no campo dos discursos, mas também da ação/movimento.

    Texto bommm, Bruno. Bom pra caramba! Necessário.

    abraço

    • Bruno Cava

       Não poderia ter me resenhado com percepção mais fina que a sua, Dan. Valeu!

  • Danilo Marques

    Os movimentos Occupy são a única substância emergindo que pode nutrir e encorpar o raciocínio da esquerda mundial. Sua geração espontânea é do compartilhamento da ideia de 1% tomou força demais do resto do mundo e de seus jardins não haverá jamais divisão de frutos. Peguei alguns que nem sabiam o que é político falando como se tivessem lendo livros vermelhos ultimamente, já é parte deste revigoramento. Já estamos vivenciando o que será a nova etapa de vida em sociedade. O que precisamos é entender como fazer isso ser o melhor o possível para o 99% sem cair em nenhuma armadilha.

    Excelente texto e análise certeira, mestre Bruno.

    • Bruno Cava

      Mestre Danilo, acredito que o Occupy no Brasil sirva mais como um desbloqueio qualitativo, como uma demolição de muros e travas, para que o intensivo e generalizado movimento social de empoderamento e subjetivação possa ganhar consistência, articular as redes de produção de direitos e, finalmente, adquirir massa crítica/clinamen para instaurar esse futuro presente. Nesse sentido, não é um coletivo nem um movimento orgânico, não articula instâncias de dentro e fora, e tampouco se acopla às dinâmicas partidárias, sindicais, jornalísticas ou de outra maneira representativas. É uma des-proletarização na acepção profunda: constituir-se uma classe, produzir subjetividade, STAND UP. É cheio de arapucas e ciladas, mas também de recursos e movimentos inesperados. Abraço, mestre Danilo.

  • Kaos

    …”as pessoas em situação de rua, os que lutam por moradia e terras, pelo direito de produzir direitos,”Faltou dizer dos deveres desta pessoas, ou seja, estudar e trabalhar. A maioria NÃO quer, assim como muitos que já tem moradia e terras. E é destes dois grupos que sobrevivem os partidos de esquerda.
    Mas no geral, gostei do seu texto, BEM melhor do que aquele dos dois adolescentes se beijando na boca … será que depois do beijo vai rolar sexo entre os dois? Fica ainda mais nojento !

    • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

      e quanto mais nojento, mais tesudo! (sabemos isso desde Sade, não é?) 

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  • constantino.

    Olá Bruno…ótimo artigo…estou realmente encantado, vc conseguiu desenvolver alguns aspectos que eu vinha sentidno em relação á potência política deste movimento..ótíma visão do espectro político atual e ótima elaboração de uma proposta para quem é de esquerda e nao está afimd e ser mais um burocrata aparelhador e vanguardista. Uma questão: qual é este texto do Miller? Sou fã dele e acho que nunca li este texto.

    forte abraço e saudações,

    Constantino.