Publicado em 21 de agosto de 2010
Crítica: "Almas à Venda" (Sophie Barthes, 2009).

Se é comum personagens da ficção venderem a alma, Paul Giamatti — interpretado por Paul Giamatti, — resolveu doá-la. Angustiado nos preparativos para atuar numa peça hardcore de Tchekhov, o ator contrata uma empresa que oferece o serviço de extração de almas. Afinal, o corpo desalmado estressa menos, aliviado que fica das dores da existência. A extirpação é realizada numa clínica futurista, profissional e asséptica, aos cuidados de um atencioso especialista, o Dr. Flinstein (David Strathairn).  
Aplicada em Giamatti, a parafernália que lembra um aparelho de tomografia extrai… um grão-de-bico. Parece practical joke, mas é normal! têm almas que se parecem com ameixas ou uvas, e a do protagonista materializou-se como grão-de-bico. De todo jeito, conseguiu se desanuviar das neuras, ansiedades e e insatisfações. Ficou leve.
Mas, como dizia o poeta, bons sentimentos não geram boa literatura, e o ator se vê despojado de sua arte. Com a alma, foram-se também a sensibilidade, a afetividade, a criatividade. Ele não consegue mais se relacionar com a esposa, e dá vexame ao interpretar o seu personagem nos ensaios da peça. Por isso, embora reconheça que as angústias se foram, Giamatti decide resgatar a alma. 
Porém descobre que, a essa altura, fora despachada clandestinamente para a Rússia por uma “mula”. Nina (Dina Korzun) encarna e desencarna almas para atravessar a fronteira dos EUA. Então o enredo envereda por uma trama insólita de máfia russa e tráfico de almas, e a ação se transfere para as noites brancas de São Petersburgo.
Tudo bastante criativo e consistente, embora o filme não se decida entre o drama e a comédia. Ora trabalha o (indefectível) humor de autocomiseração de Giamatti, ora aborda questões menos prosaicas, tais como a exploração dos pobres no terceiro mundo, o conteúdo do que é mais íntimo a cada um, e mesmo a discussão metafísica sobre a essência do ser humano. Trabalhar dois gêneros tão díspares demanda uma capacidade fina de composição. Em especial nas transições entre eles, quando qualquer rotação em falso pode arruinar um e outro. Aí reside a deficiência de Almas à Venda: a alternância brusca entre momentos para rir e momentos tocantes e/ou de profundidade metafísica.
Apesar da disarmonia, como primeiro longa, Sophie Barthes apresenta qualidade em várias seqüencias e é imensamente favorecida pela atuação de Giamatti e Strathairn
O recurso de desfocagem, por exemplo, funcionou bem para expressar o descentramento de personalidade da “mula”, que acumula progressivamente os resíduos das almas carregadas, numa das primeiras seqüências. Mas também no corte que faz a ação retornar de São Petersburgo para Nova Iorque: a câmera enquadra as ruas da primeira metrópole, desfoca, incide o áudio de aeronave, e a imagem corta para os EUA. Dinâmica elogiável. Ou então, na cena final, quando a desfocagem produz a fusão de mar, pôr-do-sol e personagens, isto é, o “mar de fogo — reflexos da luz do sol sobre a massa de água, cuja beleza cintilante é também alcançada por Jean-Luc Godard em Je Vous Salue Marie.” (Paulo Ricardo de Almeida).
Por tudo isso, o filme está longe de simplesmente imitar Quero Ser John Malkovich e outros de temática similar. Almas à Venda não só dele difere na trama, como possui estilo próprio de direção.

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  • Cria

    Um filme interessante, com toda a certeza. Parabéns pelas abordagens, querido Bruno. Beijo, bom domingo pra ti.