Publicado em 14 de fevereiro de 2012
Porque não devemos criminalizar a homofobia

A homofobia é deplorável. No Brasil, o preconceito e a violência, física ou simbólica, baseada no preconceito são generalizados. Concordar com essas afirmações não implica concordar com a criminalização da homofobia. Trata-se, sim, de um problema social gravíssimo, que deve ser encarado sem meias-verdades ou subterfúgios pela sociedade. Precisamente por esse motivo, a aposta da criminalização não presta.

Muitas pessoas de esquerda acreditam que é possível encampar suas pautas através do direito penal. Pior, ingenuamente se colocam na linha de frente de projetos de criminalização, como se perfizessem uma agenda emancipadora. Por todos, sugiro muitíssimo o artigo seminal da juíza Maria Lúcia Karam, intitulado muito pertinentemente A Esquerda Punitiva, publicado em 1996, na revista de criminologia Discursos Sediciosos.

É que o direito penal não ajuda a resolver problemas sociais. Não foi feito pra isso. Não existe aplicação do direito penal que possa ser misturada com a defesa dos direitos humanos e a proteção da dignidade. Direito penal e direitos humanos são como água e óleo. A única  aplicação plausível dos direitos humanos diante do direito penal consiste no esforço teórico e prático de mitigar o último, desconstruí-lo, contradizê-lo e deslegitimá-lo.

No fundo, os setores criminalizantes da esquerda incorrem numa grosseira abstração. O sistema penal é composto por três sub-sistemas. A polícia, a justiça criminal, as prisões (e outras formas de penalização). No Brasil, nenhum dos três sub-sistemas chega perto de lidar com problemas sociais de um modo eficaz ou emancipador. Os três, aliás, costumam agravá-lo, e mesmo criar novos problemas eles mesmos. O poder punitivo brasileiro é extremamente seletivo. Ele sabe distinguir com implacável ciência o branco do negro, o rico do pobre, o imigrante, o “vagabundo” e a “vagabunda”. Quem já impetrou habeas corpus nos tribunais de justiça para preso pobre ou acompanhou tribunal de júri com réu negro sabe do que estou falando. Trata-se mesmo de uma máquina eficiente quando tritura pobres e negros, mas que confere uma gama jurídica e extrajurídica de atalhos, facilitações, atenuações, salvaguardas, garantias e proteções aos brancos ricos.

A criminalização da conduta 1) não protege a pessoa, 2) não previne a violência, 3) não ressocializa o infrator.

1) Não protege porque, por definição, o direito punitivo se aplica a posteriori, depois do ato tentado ou consumado. O direito penal não desfaz o crime cometido, nem restaura o status quo ante, ao retribuir a violência na forma de castigo. O direito penal não serve a sentimentos privados de vingança, não pode se prestar a aliviar comoções com tochas na mão ou choradeiras televisivas. Do contrário não seria direito, e estaríamos de volta ao século 18, à vingança do rei e aos suplícios públicos.

2) Não previne porque não existe relação de causalidade entre a intensificação da punição e a ocorrência estatística da conduta tipificada. Instituir a pena de morte não significa reduzir os homicídios, mas, simplesmente, que mais jovens pobres e negros serão mortos, agora também fria e ritualisticamente. Do mesmo modo que criminalizar o aborto ou o comércio de produtos ilícitos: apenas desvia a perspectiva do problema real, cria novos problemas no processo, e novamente mais pobres e negros pagam o pato.

3) Sobretudo no Brasil, a teoria da ressocialização não faz o menor sentido. A justiça criminal está longe de ter uma visão humanista e libertária, capaz de inspirar a humanização da sociedade em nome dos altos valores que supostamente promove. A polícia, por sua vez, muito distante de ser educativa. E acho ninguém discordaria que as prisões brasileiras não têm sido bem-sucedidas em sua função pedagógica.

O poder punitivo, ou seja, os três sub-sistemas juntos não têm feito mais do que multiplicar a violência física e simbólica, inscrevendo-a como trauma e neurose nos corpos pobres e negros que são sua principal matéria de trabalho. E quem só aprende a linguagem da violência, só se comunica pela violência, o que, a seu passo, só pode agravar os problemas sociais.

Então o que fazer?

Em primeiro lugar, parar com essa essa aberração punitivista, essa crença ingênua em que precisamos escrever mais um ou dois artigos no código penal, que já tem mais de duzentas tipificações. Não precisamos. O discurso da impunidade é de direita, assim como o clamor punitivista que a grande mídia promove ao redor de casos famosos. A direita, nada ingênua, pragmática e esperta, sabe muito bem que o direito penal exerce um papel para reproduzir e perpetuar os problemas sociais: a desigualdade, a injusta distribuição, a opressão de classe/gênero/raça/sexualidade, as muitas assimetrias e hierarquizações que historicamente atravessam o corpo social. E por isso o defende como pauta número um: combate ao crime, fim da impunidade, faxina ética etc.

O primeiro passo para acabar com a homofobia só pode ser parar de educar as crianças e adolescentes para serem heterossexuais. No século 21, já se tem conhecimento suficiente para se concluir por A + B que outras formas de sexualidade não são anormais, anti-naturais, erradas ou vergonhosas. Isto significa, pela mesma razão, que o heterossexual não é normal, natural, certo ou elogiável, pelo fato de ser heterossexual. Não tem certo e errado na sexualidade, nem norma válida por razões universais ou naturais. O adolescente beijar na boca outro adolescente do mesmo sexo é tão bonito e legal quanto qualquer outro ato de amor.

Hoje, o exame de ultrassom nos propicia não só dar nome aos fetos, mas inundá-los de expectativas e cobranças antes mesmo de nascerem. Não à toa a instituição da família seja tão diretamente responsável pelo conservadorismo e reacionarismo do Brasil. Já nos vemos colocando-os em escolinhas de futebol ou então em quartos rosas com bonecas e outras coisas fru-fru. Que casal “saudável” já prevê na educação de casa a possibilidade de o menino vir a ser gay, a menina lésbica, ou então que ele resolva ser ela ou vice-versa? A heteronormatividade aparece antes mesmo do parto.

Nada fazer contra o senso comum significa conservar essa percepção desigual em relação às múltiplas sexualidades humanas. Homofobia por omissão. A recusa e má vontade do estado em aceitar o casamento ou a adoção por pessoas do mesmo sexo, e em adotar uma educação escolar abertamente pró-gay/lésbica/queer/trans (e não só anti-homofóbica) são fatores que acabam sustentando a homofobia.

É preciso que as forças de esquerda se organizem para lutar contra a norma heterossexual que está na base da homofobia, como célula de um problema social muito mais complexo. Isto pode se dar a) seja saindo do armário, para afirmar o desvio e despedaçar a heteronorma com a paródia e o ridículo, b) seja intensificando marchas, movimentos sociais, mídias e redes sociais para destruir o consenso conservador, predominante na família, no estado e na escola brasileiras.

E os skin-heads da Paulista, e os comandos de caça aos desviantes? É preciso que nos organizemos para nos defendermos deles. Violentamente, se preciso. Por que não mirar no exemplo do Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa, que deu novo impulso e vitalidade ao movimento negro americano? O direito acolhe a legítima defesa, individual ou coletiva, numa democracia. Mas a polícia é homofóbica… Claro que é, como todo órgão de controle social, e nenhuma lei vai mudar isso. Então que batalhemos para que mais policiais se afirmem como participantes do movimento, que se declarem gays, lésbicas, queers, trans. Porque muitos já são mesmo, não se iludam.

E que se coloquem os mandatários à parede. Que não sejam aceitas desculpas fundamentadas na lógica da estratégia, na tal correlação de forças. Muitos mandatários se recusam até a colocar o problema, a admitir que ele existe. Isto ocorre porque, em parte, estão comprometidos com forças reacionárias ou conservadoras, com a direita, com fundo moral, religioso ou simplesmente classista. Para esses mandatários de esquerda, nada mais cômodo do que contornar toda a problemática, e se restringir a simploriamente propor uma nova lei penal, um novo castigo. Isso é esquerda, outro artigo no código penal?

Esquerda punitiva é outro nome para direita enrustida.

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  • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

    ‘O poder punitivo brasileiro é extremamente seletivo. Ele sabe
    distinguir com implacável ciência o branco do negro, o rico do pobre, o
    imigrante, o “vagabundo” e a “vagabunda”.’

    e o viado rico da bicha pobre. No que o Mix Brasil e todos os GLBTTWZ-KY de Sampa e Rio erram, mas o GGB (Grupo Gay da Bahia) acerta no alvo: viadagem é ainda uma prerrogativa de classe. Cabe então proteger os viados proletário e sub-, e universalizar o direito de dar o cu sem sofrer.

  • http://twitter.com/Cesaurio Cesário Simões

    É.

  • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

    “direito punitivo não previne o ato”.

    não previne digitalmente. Mas previne analogicamente, por gradações: se se passa a punir o xingamento (“sai dai sua bicha!”) a chance da agressão física existir se torna menor. Deu certo com o racismo, não é mesmo Afonso Arinos (eu sei, eu sei, PFL, blablabla – tô nem aí!)

    E aí, meu caro, não é uma questão de Direito mas das Ciências Experimentasi e Clínicas do Comportamento. Para ser mais preciso, uma questão de Teoria Sistêmica e de Pragmática da Comunicação. É mais Gregory Bateson que Beccara. 

    • Bruno Cava

      O racismo no Brasil diminuiu em termos, se tornou mais sutil e cívico, e mesmo este processo não tem relação determinante com a penalização da conduta (você sabe quantas pessoas foram condenadas por racismo no Brasil?), mas graças ao próprio movimento negro (orgânico ou difuso), à ocupação de espaços até pouco tempo bloqueados, para a enunciação, empoderamento, cultura de resistência, para a voz do negro. Os movimentos conquistaram o espaço, por meio da autodefesa e autovalorização das minorias políticas.

      • Anacarlasky

        Então o autor desse texto
        contra a criminalização da homofobia deve ser contrário à tipificação do
        racismo e à Lei Maria da Penha, segundo a mesma lógica que desenvolve.
        Deve ser também ‘coisa de direitista disfarçado de esquerda’.’ É preciso
        ter cuidado com esse tipo de argumentação aparentemente pertinente.
        Estranho depois ele defender ‘o direito à legítima defesa’ como
        justificativa para o contra-ataque a atos violentos contra os
        homossexuais. Isso sim me parece uma ideia perigosa, pois concede aos
        indivíduos a chance de fazer ‘justiça’ com as próprias mãos. O que
        devemos reivindicar é o amparo maior do Estado nessas e em outras
        questões, tanto por meio de políticas públicas (incluindo-se aí uma
        mudança no modo de educação nas escolas a respeito dessa questão) quanto
        de uma efetiva punição dos agressores de LGBTTT´s.

  • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

    Cava, a comparação com a pena de morte foi de todo inapropriada e falaciosa, admita.

    quando se fala de pena de morte, é aumentar a punição sem necessariamente aumentar a punibilidade; quando se fala de criminalizar comportamentos agressivos (racismo, homofobia, sexismo, etc.) trata-se justamente de aumentar mais a punibilidade que a punição.

    #FAIL, dotô

    • Bruno Cava

      A pena de morte não pode faltar na construção do argumento porque há vasto campo amostral de pesquisas e estatísticas (o que é funcional em debates presenciais você ter à mão, confie em mim que já me engalfinhei bastante nessa questão da esquerda punitiva). Gostaria de usar muito um estudo criminológico sobre criminalização de condutas preconceituosas, e agradeço se puder me indicar algum. A lei Maria da Penha tem que ramificar o debate que é um caso mais complexo e merece contextualização, mas estou esperando alguém levantar a objeção (o texto não se pretendeu exaustivo, mas tático).

  • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

    de toda sorte, concordo: a esquerda brasileira, que não cessa de não conseguir deixar de ser positivista (assim mesmo, tripla negativa carpada, Lacan no melhor estilo Diane dos Santos), é ingenua em seu positivismo.

    Mas isso não te garante a prerrogativa de ser simplório, e eventualmente falacioso, no seu anti-punitivismo.

    Entre criminalizar homofobia e garantir “casamento gay”, eu estou na primeira contra a segunda. Embora o melhor fose nenhuma (até porque eu mesmo xingo viado de viado, e isso nada tem de homófobo – como no Ilê Ayê a preferência é ser chamado de negão). 

    • Hamletvictrix

      Respondo à Voltaire: eu posso não concordar com o “casamento gay”, com a rendição dos desviantes a uma instituição normalizadora, porém, serei a favor do direito de o queer escolher, dele ter a opção de ser careta. Embora seja contra a caretice. E quanto às prerrogativas, você me exige demais :-)

      • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

        a questão é que o casamento gay não cobre a mim, nem a uma pá de gente, gay ou hetero, que quer adquirir família por amizade, cohabitação, e outros laços afetivos que não sejam os sexuais, a manuteção da prole e a proliferação do capital acumulativo. 

        (quando mais eu rodo, mais engeliano eu fico. Eu e Luchino Visconti, o Duque de Palermo). 

        • Bruno Cava

          O casamento ajuda na guarda dos filhos, ou a receber alguma pensão, ou sei lá, tem mil e um motivos pragmáticos que alguém preferiria poder casar, mesmo discordando da instituição Casamento.

          • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

            Casamento é o Estado querendo se apropriar dos afetos.

            Um Pacto Social Civil, modelo Miterrand, daria conta de tudo isso sem cooptar afetos pelo Estado.

            E de toda sorte: e os que querem ter outras configurações familiares, baseadas em outros laços, como ficam?

            Haver um casamento gay diminui meus direitos mais ainda (no sentido de mais-valia) do que haver casamento convencional. 

            Eu luto é pelo fim do modelo casamento, e o advento de um modelo mais plástico e maleável e menos intrusivo. Algo como Miterrand fez na França. 

  • Victor Rodrigues

    vamos descriminalizar o homicidio então. 1) não protege a pessoa, 2) não previne a violência, 3) não ressocializa o infrator.

    • Bruno Cava

       O problema do argumento hiperbólico é que você pode torcê-lo ao outro extremo. Então vamos criminalizar tudo.

  • Rodrigo

    Melhor uma esquerda punitiva do que autista e delirante.
    1) “O primeiro passo para acabar com a homofobia só pode ser parar de educar as crianças e adolescentes para serem heterossexuais…”
    “O primeiro passo para acabar com X é parar de educar as crianças para serem contra X.” Então, pra que lei Maria da Penha? Todo mundo sabe que o primeiro passo para acabar com o ódio às mulheres é parar de educar as crianças para … O “primeiro passo”! Se enquanto isto pessoas realmente existentes forem tomando PORRADA, paciência – na sua cabeça, a esquerda não tem nada a ver com ISTO.
    2) “É preciso que as forças de esquerda se organizem para lutar contra a norma heterossexual … a) seja saindo do armário, para afirmar o desvio e despedaçar a heteronorma com a paródia e o ridículo, b) seja intensificando marchas, movimentos sociais, mídias e redes sociais …”
    Você realmente acha que as “forças de esquerda” devem “se organizar” para sair do armário? Você acha que isto faz sentido? Se sim, quando passar o efeito da sua medicação, pode explicar melhor?

    • Bruno Cava

       Este blogue se chama Quadrado dos Loucos, Rodrigo, o que você esperava?

      • Rodrigo

        Quadrados, armários, prisões… Um pouco mais de otimismo? Com as forças de esquerda organizadas, tudo é possível.
        Como diria o Pedro Bial, sai deste quadrado, e vem despedaçar a heteronomia! Te esperamos de braços abertos.

  • http://tsavkko.blogspot.com Raphael Tsavkko

    Como coloquei no Twitter para o Idelber, com cópia pra vc, Cava: Artigo do @BrunoCava é mt semelhante aos que são contra a prisão, contra políticas carcerárias.. Em tese é lindo, na prática… Pode ñ evitar o crime, mas ajuda a dificultar, pois cria uma pena para o ato. Questão de ressocialização é OUTRO debate. Pode prevenir violência no sentido d criar algo q pode fazer agressor casual temer (prisão) e pq tira mts de circulação. Só punição obviamente ñ funciona, é preciso punir, educar, ressocializar, impro programas nas escolas e campanhas 

  • Rafael Costa

    mal passei da (grandeloquentemente-chato-narcisista-auto)descrição do autor

  • Convidado

    Muito legal ver um artigo por aqui que não suscitou apenas elogios de um lado e simples condenações de outro (aliás, muito bom antever descontentes de esquerda e direita!). E o mais interessante é remar contra uma maré bastante forte, que é a da overlegislation da esquerda em diversas matérias, inclusive na prescrição de certas biopolíticas que um Fucô  da vida ficaria admirado.

    Agora, uma pergunta: a legislação vigente, com suas ordenanças possíveis, instituições disponíveis e afins, já não protegeria em tese qualquer vítima de discriminação? Como outro colega sugeriu acima, certamente tipificar condutas – quase no nível de interdições no limite entre o jurídico e o moral – afeta mais as próprias condutas do que não tipificar. Mas seria esse avanço tipificador necessário para a emancipação das pessoas?

    Muita gente até há pouco denunciava a normatização generalizada de nossa sociedade, tentando estourar as normas em vista de novos espaços de liberdade. É curioso que hoje em dia a discussão sobre esses novos espaços ainda resida por exemplo em debates que não tocam a forma, mas só o conteúdo das normas. Daí a pergunta: discriminação já não era crime antes?

    • Bruno Cava

       Sim, como crime contra a pessoa ou contra a honra. Essa legislação vai na linha da exacerbação e intensificação dos tipos penais e qualificadores e agravantes, tal como a lei dos crimes hediondos.

  • Vitor Félix

    As pessoas começam seus textos defendendo um argumento e depois já abrem suas mentes e se mostram não menos iguais daquilo que combatiam. “E os skin-heads da Paulista, e os comandos de caça aos desviantes? É preciso que nos organizemos para nos defendermos deles. Violentamente, se preciso. ” No começo do seu artigo, o autor comenta que com violência e sistema punitivo não se resolve nada, mas depois ele admite que para derrubar esses movimentos que se afirmam por uma identidade que não deixa de ser homicida, apática, nazista, heteronormativa, e que busca ceifar homossexuais em massa, é preciso de um aparato repressor e que se mostra onipotente diante dessa mesma célula social. Mas por que então começar o discurso alfinentando o direito penal? Não é ele em si e sua tipificação positivista que se faz eficiente no combate da violência, mas sim a sua aplicação! Criminalizar não é punir, porque isso não define esse verbo sui generis. Criminalizar é educar, é por os eixos no lugar, é mostrar ao cidadão mesquinho que condena o outro por condutas homossexuais, que o respeito à dignidade humana é obrigatório, e caso contrário não cumprido, linha dura. Direita, esquerda, essas definições não mudam muito o fulcro do dilema social. Quando a causa é bela ou justa, somos todos a favor dela, independente de opinião política ou orientação sexual. Todos a favor do direito ao amor, seja com quem for, à paz, e não propriamente lutar contra a guerra ou contra a homofobia. Esse sim seria um argumento pertinente, ao meu ver.

    • Bruno Cava

      As pessoas não precisam esperar a bondade do estado para se defender, ainda mais quando órgãos e agentes do estado são coniventes ou participam da agressão.

      Canta o negro: “A minha alma tá armada e apontada. Para cara do sossego! Pois paz sem voz, paz sem voz. Não é paz, é medo!”

  • Danilo Marques

    O cartunista Laerte, após o escândalo do banheiro, disse haver uma medida para que seja criado um terceiro banheiro para o público freak, ou seja, uma normativação institucionalizada de um gueto, um aparthaeid em prol da família branca de classe média. E ainda afirmou que estes banheiros não tratam então de uma questão de higiene pública, mas um modo ideológico de trabalhar a questão de gênero no cotidiano. Trago o exemplo para ilustrar a sintonia com o que você afirma sobre o Partido dos Panteras Negras e a educação pró-hetero que há não só nos espaços formais como a escola, mas inundado em todo os contextos na criação de gerações sucessivamente. Só mesmo um confronto ideológico pode alterar algo dessa magnitude, não uma lei punitiva. É uma questão cultural e a esfera penal não identifica isso. Os gays não podem querer apenas o respeito da inclusão, mas também não podem cair nos labirintos de um grito minoritário que se divide e divide e divide. É um movimento complexo.

    • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

      “os gays” não existem. Também isso é uma ficção. 

    • Bruno Cava

      Pois é, Dândi, perfeito. Os Panteras Negras não eram só um grupo de auto-defesa e auto-organização do movimento negro pelos direitos da minoria. Eles eram um acontecimento midiático, com suas jaquetas de couro, óculos escuros e atitude despojada. Por isso inspiraram toda uma geração e foram muito além da questão da identidade, do gueto, vitalizando toda uma luta potente, conflitiva, criativa.

  • Jorgeeduardo

    Com todo respeito..cara vc não sabe o que escreve…tem filhos? É casado!   Não tenho nada  contra a opção de ser gay…mas não aceito meus filhos sendo “induzidos” por filmes.
    Vai se informar!! Toda sua dita cultura humanista te segou! Não concordo com a violência que são alvo os gays. Mas dai concordar com este mundo..pelo amor de DEUS…”Deixar de educar meus filhos para serem heteros”..rsrrsr me fala uma coisa vc usa dorga?? Pq só assim pra escrever tanta besteira!

    • Bruno Cava

      Me empresta a revista Veja que estou indo me informar.

  • Marcio LM

    O modo de vida de primado heterossexual se apóia historicamente em uma série de prescrições legais, ordenanças diversas e práticas das mais variadas, da educação (como menciona Cava) até o chão de fábrica (não se dizia algumas décadas atrás que a pauta da sexualidade não dizia respeito ao trabalhador, e mesmo lugar de mulher era em casa?)

    Diante desse modo de vida, muitos criticaram nossa sociedade e o caráter normatizador de suas leis, ordenanças, instituições e práticas. Contra os modos de subjetivação normatizantes e codificadores da mais mínima conduta, tentamos criar espaços de ação e liberdade “isentos” de qualquer Regula (“um pouco de possível, senão sufoco”)

    E eis que vivemos novamente numa sociedade em mudança (já faz tempo), e creio que não seja preciso dizer que as alterações inclusive do mundo produtivo e do trabalho condicionaram novas formas de vida e novas instaurações de valor, portanto novos modos de subjetivação e outras Regula possíveis (não à toa ocorrem os movimentos do Egito a NY contra o agravamento dessas novas regras).

    Nesse sentido, é curioso: no seio dessas mudanças – as quais ainda não entendemos bem o que é ativo e o que é reativo, autonomia se fazendo ou capitalismo se reestruturando -, os esquerdistas sugerem mudanças legais que tipifiquem a homofobia, mesmo havendo leis prévias contra a discriminação; e Cava propõe mudanças institucionais na educação, inserindo uma pauta explicitamente não-heterossexual contra a anterior, heterossexual implícita (quando não explícita mesmo).

    Essa “nova escola”, essa medida institucional sugerida por Cava, certamente é uma crítica ao antigo sistema, bem como outras medidas também o são. Mas há uma pergunta que praticamente nunca se coloca: diante de um mundo em plenas mudanças, que mudança articulada a todas as outras mudanças essa “nova escola”, bem como outras medidas da “esquerda”, suscitará? Criamos seres mais autônomos, ou não olhamos bem como essas mudanças em curso se articulam com plenas mudanças em diversas outras esferas? Pergunta de esquerda à qual a própria esquerda precisa de direções de resposta.

    Para dar um exemplo, basta ver as revistas Life dos anos 50 dentro da pauta “emancipação da mulher”: inúmeros informes e discursos de padres e até de alguns profissionais da norma reprovavam o trabalho da mulher e chegavam a denunciar que ele levaria ao fim da família e até de nossa sociedade; e ao mesmo tempo, é muito curioso notar, nas mesmas revistas, uma profusão de propagandas de eletrodomésticos com suas mulheres sorridentes. De um lado os ditos setores conservadores preservavam certos modos de subjetivação, contra outros em curso articulados com movimentos emancipatórios de um lado, mas com uma reestruturação significativa do “capitalismo” de outro. Enfim, os anúncios mesmos da revista – os eletrodomésticos – imporam o tom do futuro, e nem as famílias e nem a sociedade se desfez.

    Mas “as famílias” certamente não são as mesmas, do mesmo modo que a sociedade. E se a mulher se emancipou de algum modo, de inúmeros outros modos criamos uma sociedade outra, mas não propriamente mais autônoma para todos. Uma emancipação pontual não realizou o projeto de início, que indicava que a emancipação pontual resultaria numa maior autonomia “global”. Não soubemos olhar em que sentido as reestruturações e reformas (“a sociedade em eterna reforma”, acusava Deleuze seu caráter reativo no texto sobre as Sociedades de Controle) ocorreram, não demos ouvidos aos devires. Então a  questão que se coloca é: com essas novas prescrições normativas, estamos dando ouvidos com propriedade agora?

    • Bruno Cava

      Na realidade, Marcio, eu não colocaria a questão sequer sob o paradigma da emancipação, como faz os setor criminalizante da esquerda, pra quem uma lei penal afirma moral e simbolicamente o errado e isso emancipa. Penso que, inclusive, o capitalismo já aprendeu a conviver bem com a mulher e o gay emancipados, segmentando o mercado de trabalho e o mercado de consumo. Meu ponto é atacar diretamente a heteronorma, implodir essas identidades capturadas no sentido das múltiplas potências do desejo. E isso não passa pelo estado, não tem como passar, porque o estado é quem coagula e sustenta as divisões sociais: machistas, racistas, homofóbicas etc. Abraços.

      • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

        Na verdade, os viados interessam ao Capitalismo Cognitivo tanto quanto o familismo burguês interessava ao Capitalismo Industrial: a família heterossexual é capaz de produzir prole (exército de reserva), acumular capitais, gerar dívida, contrair moradia; os viados tendem a naturalmente não terem herdeiros e podem consumir tudo o que ganham.

        Donde a insistência no “casamento gay” é mais subversivo do que supõem seus defensores, mas por outros motivos: empurra pra dentro do capitalismo de hoje o que o capitalismo de ontem queria, mas que o capitalismo de hoje já não quer. Ou seja: “casamento gay” é tão reacionário que vira revolucionário.

        • Marcio LM

          Esse é mais ou menos o ponto, não se pode criticar o capitalismo industrial sem olhar como o cognitivo tem se “segmentado” (como disse Cava)… Ou de outro jeito: as críticas baseadas na negatividade da tal “hipótese repressiva” não dão atenção apropriada aos modos “positivos” nos quais nossa cultura tem feito suas decisões nas últimas décadas. Igual a outros casos, como o da mulher, arriscamos o que à primeira vista parece uma conquista pontual, mas sob novos modos de subjetivação que não acarretarão “globalmente” a autonomia visada.

          O que abre duas questões: 1) a da crítica e seu papel “tático” em – como disse o post – abrir efetivamente nosso mundo ao fato de que outros modos de viver seu corpo são totalmente legítimos etc., 2) e a das prescrições institucionais (Cava citou a escola), jurídicas  (os esquerdistas citam a criminalização) etc. sobre QUAIS condutas adotar ou não. O primeiro caminho parece limpo, mas o recurso às instituições, expertise, leis etc. dados parece mais perigoso…

          • Bruno Cava

            Marcio, a teoria desconstruiu bem a heteronorma, e o funcionamento do capitalismo hoje no interior mesmo de sua crise (de valores, métricas, axiomáticas), no interior de suas contradições tensionadas. Por exemplo, Butler ou Deleuze. Qual o limite dessa tensão? Qual o limite absoluto que leva a crise à sua radicalidade inominável, gerando outra coisa? E como a prática, os movimentos, podem realizar esse movimento, já que as contradições não são ideais, mas implicadas na realidade mesma?

        • Bruno Cava

           No fundo penso que o capitalismo nunca deixou de ser industrial, e que cognitivo (e não pós-industrial) é o nome do capitalismo industrial levado às suas últimas consequências: a crise da teoria do valor, a dissolução de todos os códigos e emperramentos. Capitalismo é capitalismo tout court, o modo de organizar a falta e a miséria para produzir vida e a vida produzir a partir da apropriação do desejo e da acumulação de riqueza.

      • Rafael Gomes

        Middlebrow puro. Vc faz bem melhor q isso, Bruno. “Segmentando”? Homossexuais ocupam cargos de chefia desde a antiguidade. E o aumento do contingente policial diminui a criminalidade, sim. Vc mesmo seria capaz de citar exemplos importantes, mas parece q resolveu aderir ao politicamente correto. terrorismo de estado é uma coisa, segurança pública é outra. Max Weber rules!rsrs.
        Abraço

  • Bernardo

    É impressionante como você consegue defender bons fins com argumentos totalmente contraditórios, e até certo ponto, risíveis.

    Eu não concordo com o homossexualismo, mas defendo o direito do casal homossexual de casar e adotar. Isto pelo simples fato que ambos possuem soberania individual sobre sua vida e devem fazer dela o que ela quiser. E devem arcar com as consequências desses atos com a repulsa social voluntária de quem não concorda com essa conduta.

    Eu não concordo com a homofobia, mas defendo o direito do homofóbico de sê-lo. Isto pelo simples fato de que ele possui soberania individual sobre sua vida e não pode ser compelido a aceitar no seu círculo profissional ou de amizades pessoas homossexuais. E deve arcar com as consequências desses atos com a repulsa social voluntária de quem não concorda com essa conduta.

    Isso é viver numa sociedade pacífica. Enquanto homossexuais e homofóbicos quiserem impor a sua conduta e visão de mundo para terceiros através do poder do estado, a sociedade nunca será pacificada.

    A sua postura de reprimir casais que queiram ensinar heterossexualismo para os filhos é tão nociva e propensa a criar conflitos sociais quanto a homofobia.

    Não se trata, no final das contas, de estimular ou reprimir condutas, seja do ponto de vista civil ou penal, trata-se de garantir que cada um tome a conduta que bem quiser na sua vida e na sua propriedade desde que não prejudique a vida e a propriedade do outro.

    • Bruno Cava

      Não existe direito do homofóbico. A paz sem voz é a paz do medo. Ensinar a norma social hetero na escola e na família está na base da homofobia. Esse é o front mais importante para mudar o status quo.

    • http://www.tudoecritica.com.br/ Pedro Henrique Gomes

      “Eu não concordo com a homofobia, mas defendo o direito do homofóbico de sê-lo.”

      Como assim, Bernardo?

      Vou aplicar teu argumento de outra forma, mudando algumas coisas. Veja como fica:

      Eu não concordo com o nazismo, mas defendo o direito do nazista de sê-lo.
      Eu não concordo com o assassinato, mas defendo o direito do assassino de sê-lo.

      Você não conseguirá sustentar qualquer argumento baseado nessa premissa.

      Bruno, ótimo texto, como sempre. Li também o artigo indicado no texto e gostei muito. Por hora não sei se consigo concordar inteiramente (embora a questão referente ao direito penal não ser uma ferramente de correção dos problemas sociais seja indiscutível). Preciso afinar mais o pensamento, mas estou assumindo que entendo o grito que o teu texto quis dar e estou inclinado a fazer coro a ele.

      Abraço!

  • Sonoraletrante

    Esse texto da juíza está desatualizado. Vide lei Maria da Penha. Criminalizar dá base pra punições. Não sou juiz, trabalho na área da saúde, mas sou gay. Sofro na pele por terem pessoas com comentários de ficção como este e outros que estou habituado em ouvir/ler já que não são eles que sentem na pele. É tipo negar o racismo no Brasil – por um branco, é claro – ou ser radicalmente contra o aborto, principalmente se homem. Mas fazer o quê? Ao menos tento fazer enxergar que há outros umbigos além dos nossos.

    • Bruno Cava

       Você articulou bem criminalizar com punições, mas faltou articular punições com afirmação de outro mundo onde não há violência sistemática contra comportamentos fora da norma social.

      • Luis Carlos de Alencar

        E a Lei Maria da Penha não preza pela penalização somente. Este é apenas um dos seus aspectos, infelizmente ressaltado pela mídia e pelos Movimentos Sociais. 

  • Alison Barbosa

    Muito interessante a abordagem feita pelo artigo, destacando o olhar de pessimismo sobre o sistema vigente. Fantástica a constatação da hipocrisia equivocada que se baseia na resolução de problemas sociais através de uma legislação em vigor.

    • Bruno Cava

       Como ser otimista diante de nossos sistema penal? A legislação em vigor tem muitos e muitos sentidos, depende do uso que é conferido. Mesmo por dentro da sistemática jurídica positivada há caminhos, ambiguidades e oportunidades para os movimentos de transformação.

  • Rodrigo Cazes

    Como fica a questão da criminalização do racismo em meio à argumentação?

    • Bruno Cava

       O que tem ela, poderia por gentileza desenvolver o argumento?

  • http://www.facebook.com/people/Clécio-Lemos/100001625996213 Clécio Lemos

    Brunão, estamos de acordo, mais uma vez. Eu gosto sempre de frisar o ponto de que é impensável preservar a ideia de ressocialização, mesmo que nossos presídios fossem hotéis de luxo,

    É preciso ultrapassar o discurso de que nosso sistema não dá certo porque o executivo não fornece bons presídios. Não se pode querer incentivar comportamentos socialmente positivos com a restrição de liberdade.

    Aliás, também temos que quebrar na raiz a ideia de “ressocialização”, que me parece mais uma tentativa de justiça de classe do que qualquer coisa. Se ser socializado significa não cometer crimes, então somos todos antisociais, já que 100% da população é criminosa.

    Abração!

  • José

    Nossa, quanta falácia.
    Contra esse argumento pífio está o FATO de que as manfestações de racismo diminuíram  drasticamente após sua criminalização.
    Pronto.

    • Bruno Cava

       Quem disse que foi a criminalização?

  • Andre Mendonça

    Tá ótimo o texto e a premissa me parece precisa: a heteronormatividade é a base da homofobia, amplamente produzida pela instituição familiar e pelas instituições educacionais.
    Só discordo de um ponto, que você passou de passagem, ao tentar diferenciar direito penal e direitos humanos, como se não se misturassem. Pois se misturam. Os ditos direitos humanos estão intimamente coadunados às mesmas ciências humanas que, como você bem disse, diagnosticam e organizam a norma, diferenciando negros e brancos, ricos e pobres, homens e mulheres, homos e heteros, esquerda e direita, etc etc etc. 
    Aplico a mesma crítica que vc aplicou à esquerda punitiva a essa esquerda humanista ou, para dizer melhor, à “esquerda dos direitos” (não sei se existe essa expressão, acabei de inventar, ficou e é pra ser carregada mesmo). 
    Não que as lei não sejam linguagem, discurso, portanto área de ação política, aberta a subversões. Mas cabe também demolir nossa ilusão de justiça, essa idéia de que os “direitos” engendram emancipação, pois muito pelo contrário, a tendência da lei e dos direitos é, inexoravelmente, veicular normas, conservar, organizar. “Direito” acaba virando desculpa esfarrapada para um desejo meia-boca, meia-bomba, meio broxa, quase um anti-desejo…

    • Bruno Cava

       Andre,

      Por um lado, sim. Existe uma imbricação entre poder e saber, entre polícia e ciências humanas, o que Foucault chama biopolítica e reorganiza os espaços e tempos da antiga sociedade disciplinar. O humanismo tem uma face objetivadora do homem como assujeitado, permitindo uma invasão em esferas cada vez mais recônditas (da confissão ao inquérito, da psiquiatria ao manicômio, à biogenética etc). Embora todo rendimento de poder também implique uma produção, uma resistência, e isso atua em duplo sentido. Não é tão pessimista, como alguns agambenianos mais sinistros vivem a coisa.

      Outra crítica também vai na linha que os direitos humanos são o discurso do fim da história. Crítica da ideologia que direitos humanos constituem peça do sistema, impedindo um questionamento mais sistêmico e radical, das normas sociais. Linha do Zizek e do Costas Douzinas, prof. de filosofia do direito em Birkbeck.

      Mas também existe uma concepção materialista de direitos humanos, como práxis, como colocar em marcha processos de empoderamento e subjetivação. Uma linha heterodoxa de teoria crítica dos direitos humanos. Como o prof. de direito Joaquin Herrera Flores, recentemente falecido. Esquerda nem tanto humanitária, mas humanista no sentido renascentista, virtuoso, maquiaveliano e spinozano.

      Abraços!

      • Andre Mendonça

        Não consigo concordar com esse negócio de “antiga sociedade disciplinar”, me parece muito pós-moderno demais, aliás esse negócio de “pós-moderno” pra mim já é um tanto esquisito. Ao meu ver, estamos adentrando cada vez mais na sociedade disciplinar, vigilante, obsessiva, que não abre mão (pelo contrário!!!) das antigas instituições (escolas, presídios, hospitais, conventos, fábricas, estado, aparelho judiciário, tráfico de drogas, mercado de capitais) e ainda incessantemente produz novas técnicas e tecnologias de controle e assujeitamento online. Só se está ensaiando abrir mão dos hospícios pq as intervenções medicamentosas são cada vez mais pesadas e eficazes no sentido do enclausuramento subjetivo (nesse sentido, o comemorado Basaglia pode ser visto ultrareacionário).

        Direitos humanos, queiramos ou não, é uma noção fortemente associada às revoluções burguesas européias e aos pactos internacionais do pós-guerra (herdeiros diretos dessas revoluções do século anterior). Implica, necessariamente, em judicialização (“direito”) e em discurso humanista/humanitário (sinceramente, não vejo grande diferença entre uma coisa e outra). Fico sempre com uma pulga atrás da orelha diante de defesas muito exaltadas de “direitos”, quanto mais “direitos humanos”, discurso bastante antigo e no entanto me parece bastante ineficaz naquilo que se propõe…

        • Bruno Cava

          Não sei o que você quis dizer com pós-moderno. Mas a sociedade disciplinar, menos que terminada, se reorganizou e se ressignificou numa matriz bem mais complexa, a sociedade de controle, o capitalismo cognitivo, esse mundo globalizado formatado por empresas, brands, subjetividades flexíveis e modulares, onde um facebook da vida oferece serviço “grátis” e capitaliza bilhões na bolsa. A sociedade disciplinar continua existindo, mas adaptada noutra matriz mais sofisticada. Essa capacidade de reinvenção do capitalismo é acompanhada, ou precedida, pela inovação inestancável das lutas sociais, da memória de resistência, longa ou curta.

          Direitos humanos é só uma expressão, pode ser associada ao que se quiser, e por isso mesmo pode ser reapropriada e reconstruída numa perspectiva de transformação. Não é outro o ensinamento de alguns movimentos sociais potentes que usam a gramática de direitos humanos. Exemplo: a luta pela moradia no Rio de Janeiro. O direito, mesmo a legalidade, é uma arma como outra qualquer, que pode ser retomada em sentidos inesperados.

          • Andre Mendonça

            Não vejo distinção entre sociedade disciplinar e sociedade de controle. Não vejo nenhuma grande novidade, por enquanto, nas inovações técnicas e tecnológicas de vigilância e disciplina, a não ser em termos de aprofundamento. Discordo de que há uma “ressignificação numa matriz mais complexa”, pois o processo de aprofundamento e da sofisticação do controle (de pessoas, de capitais, de mais-valia, de impulsos) é uma direção do capitalismo desde os seus primórdios. O mundo mudou muito do início do século XX para cá, mas me parece muito precipitado e com uma forte pitada de marketing acadêmico dizer que passamos de uma “sociedade tal” para uma sociedade “qual” que seria mais complexa.

            Também acho esse termo “capitalismo cognitivo” muito equivocado. Primeiramente, pq cognição é uma noção psicológica, e como toda psicologia, totalmente atada a uma ciência humana ultraburguesa e conservadora. Além do que, “capitalismo cognitivo” me dá a entender que “agora” é que o capitalismo está tomando as rédeas do conhecimento, da psicologia, da subjetividade, quando na verdade isso sempre lhe foi primordial.

            E isso leva à outra questão, que é nossa quase sempre vã tentativa (consciente e voluntariosa) de libertar significantes de seus valores históricos. Lembro-me de uma discussão com um amigo muito prascóvio, que insistia que a noção de “inconsciente coletivo” era de muita valia apesar do Jung. E eu dizia pra ele que só o fato de citarmos Jung já desvalorizava completamente a noção, tendo em vista o caminho deplorável que seguiu, chegando a defender a superioridade da raça ariana… 

            Nesse ponto, nossa liberdade de manejar essas noções é muito restrita, e acho que não adianta voluntarismo, e sim tentar escolher palavras melhores. “Direitos humanos” é uma noção que ainda vai demorar muito pra ser torcida (isso se puder ser, o que depende de um processo histórico amplo), e me parece muito longe disso (são dois termos fracassados).

            Acho que as lutas locais, como a que você citou, sobre moradia no Rio de Janeiro, podem ser colocadas em outros termos, mais políticos e menos “científicos” e judiciais. “Direito humano” nesse caso me soa um pouco como apelação, o que talvez possa ter até serventia em situações de alta tensão, imediatas, mas tomando o cuidado de assumir, minimamente que seja, o cinismo diogeníaco de seu uso. 

            Enfim: não existe expressão que seja “só” uma expressão, e nem toda arma pode ser usada em sentidos inesperados, dado o poder simbólico que muitas delas carregam. Essa é minha crítica principal ao “pós-modernismo”.

  • Kaos

    “O adolescente beijar na boca outro adolescente do mesmo sexo é tão bonito e legal quanto qualquer outro ato de amor.”
    Ah não, essa não, isto aí é a APOLOGIA do homossexualismo. Uma coisa é respeitar, outra coisa é forçar este tipo de relacionamento. Ridícula   a frase !!!

    • http://twitter.com/ultimobaile Lucas Jerzy Portela

      mas se vivemos os últimos 300 anos (e não antes) uma “apologia ao heterossexualismo” (sob a idéia equivocada de que ele seria “natural” – um darwinismo vulgar que qualquer zoólogo primatologista desconstroi num tapa) – e digo do heterossexualismo e não da heterossexualidade, do heterossexualismo como doença ou pior como sintoma de uma fobia totalmente imaginária que só interessa ao capital – como mesmo você quer que se reaja se não é fazendo propaganda das outras todas formas de sexualidade?!

      Até porque a homossexualidade é mais vantajosa que a heterossexualidade: economicamente mais barata, energeticamente menos dispendiosa, e segundo consta (“não existe ex-viado” – quem experimenta parece que não volta atrás, já dos heteros não se pode dizer o mesmo…) bem mais prazerosa.

      Dizer isso da heterossexualidade é como dizer que carros, ao pretexto de locomover, engarrafam, poluem, matam e custam caro. 

      Fazer apologia da viadagem sim, pelos mesmos motivos que se faz da bicicleta como meio de transporte: equidade energética! 

  • Kaos

    “Um adolescente enfiando seu pênis no anus de outro adolescente (também com pênis) é tão bonito como qualquer outro ato de amor”.
    Esta frase é melhor que a sua, Bruno Cava !

  • Tiago Mesquita

    Também tendo a ver a criminalização como um engano, mas não a responsabilização penal. Acho que isso serve como medida cautelar e mesmo como agravante no caso de infrações.

    Não conheço nenhum estudo sobre o impacto da Maria da Penha, mas as feministas são bastante convincentes em afirmar que ela, ao menos, facilitou o divórcio. Muitas mulheres que viviam quase em cárcere privado e rotineira agressão moral, conseguiram se livrar dos agressores pela lei. 

    É melhor parar com as dedução, queria saber se existe um estudo do resultado dessas leis de proteção das minorias (Afonso Arinos, Maria da Penha etc.)

  • Rafael Gomes

    Curioso. De uma “expectativa heterossexual” depende apenas uma coisinha irrisória como a continuidade da espécie humana. Que um menino use seu piu-piu para procriar no futuro é realmente aberrante…quaqua.
    O autor diz que o processo começa por parar com a educação voltada para a heterossexualidade. Pensei: “Ok, ele defende a liberdade de escolha”. Mas adiante, no texto, vem com a queixa de que o estado se recusa adotar uma agenda educacional abertamante homossexual! Dois pesos, duas medidas, a velha história da esquerda. 

    • Rafael Gomes

      Ou melhor, um peso, duas medidas. 

  • Rafael Gomes

    Curioso. De uma “expectativa heterossexual” depende apenas uma coisinha irrisória como a continuidade da espécie humana. Que um menino use seu piu-piu para procriar no futuro é realmente aberrante…quaqua.
    O autor diz que o processo começa por parar com a educação voltada para a heterossexualidade. Pensei: “Ok, ele defende a liberdade de escolha”. Mas adiante, no texto, vem com a queixa de que o estado se recusa adotar uma agenda educacional abertamante homossexual! Um peso, duas medidas, a velha história da esquerda.