Crítica: "Eu, o Vinil e o Resto do Mundo" (Karina Ades e Lila Rodrigues, 2008).
Documentário filmado em ritmo dinâmico de videoclipe, com edição impecável e criativa similar a (boas) reportagens da MTV. Tem por argumento a odisséia cultural de DJs das periferias paulistanas para vencer o campeonato brasileiro de mixagem com discos de vinil, conquistar espaço no estrangeiro e assim se conectar ao movimento hip-hop global, onde atuam os seus ídolos maiores. A partir daí, “Eu, o Vinil e o Resto do Mundo” expõe uma favela bem diferente daquela retratada em filmes como “Cidade de Deus” (Meirelles, 2002) ou “Tropa de Elite” (Padilha, 2007). O longa de estréia das duas diretoras até chega a citar o primeiro, na alegórica seqüência da perseguição da galinha para a degola, mas as semelhanças param por aí.

Ao invés da favela-inferno cinematográfica (tão bem teorizada por Ivana Bentes), o documentário apresenta o espaço produtivo e artístico do hip-hop como manifestação autêntica das periferias. Bem distinto de um “cartão postal às avessas”, para exportação, tem-se nesse filme a cultura urbana em seu colorido, beleza e movimento: na dança dos Bboys (breakdancers), no grafite, no basquete, no urbanismo pulsante das comunidades pobres de São Paulo. Longe do cinema “uma câmera na mão e uma arma na cabeça”, em “Eu, o Vinil…” narra-se a vida de agentes culturais, os DJs, na sua labuta cotidiana para sobreviver, realizar os sonhos e se expressar na precariedade da favela. Não está em tela, simplesmente, a batalha individual do artista na autoafirmação de seu virtuosismo, como sucede em algum programa televisivo, mas a empreitada conjunta e colaborativa do movimento dos DJs, em que todos, como estratégia de sobrevivência, se ajudam e se complementam.

É sempre um dilema o cineasta branco de classe-média entrar na favela para fazer um filme sobre pretos, pobres e suburbanos (mesmo alguns brancos, mas “quase pretos de tão pobres”). De um lado, o aludido risco de reduzir as comunidades a fábricas de morte e atrocidade, numa viagem aterrorizante ao inferno, na qual obra e espectador conectam-se via pulsão de morte. De outro, o risco da captura da periferia como “museu da humanidade” (Bentes), isto é, forjar nela uma espécie de grife, de exoticidade multicultural, o que no limite transforma a favela em atração turística “primitivista” para os ricos.
Nem um, nem outro. O discurso de “Eu, o Vinil…” não se pauta pela glamourização romântica dos personagens ou por um sentimentalismo raso de cima para baixo, — embora a direção cometa um ou outro pecadillo em certos zooms-in. Com efeito, o filme soube contornar os perigos inerentes à temática, numa mise-en-scène que conseguiu repercutir o otimismo e a vitalidade das redes de arte e criação dos DJs paulistanos.
Como resultado, o documentário ganha relevo político. Ao promover uma produção de resistência que ainda corre por fora do establishment de verbas e grande imprensa, ele sinaliza pela necessidade de aprofundar as recentes políticas públicas de incentivo aos produtores independentes (Programa Cultura Viva/Pontos de Cultura, por exemplo) e presta um serviço à democracia cultural.