Publicado em 23 de julho de 2011
Meia noite em Paris, Woody Allen

Crítica: Meia noite em Paris (Midnight in Paris), Woody Allen, 2011, EUA/Espanha, 100 min.


Woody Allen é um pessimista, quase um fatalista. Mas o pessimismo dele não renuncia à visão romântica da vida. Seus filmes estão imbuídos de uma condescendência, quiçá encantamento, diante da banalidade atroz que nos cerca e anula por todos os lados o tempo todo. Mordaz especialmente com os ricos, os deslumbrados e os autoindulgentes, Allen chega a ser obsessivo em sua temática de reencantar a existência, de encontrar a beleza nas pequenas sutilezas do cotidiano. Embora ele mesmo não acredite muito nisso. É como se ele não conseguisse engajar-se totalmente no que acontece. Guarda certa distância, certo grau inafastável de descrença e ironia.

Em Meia noite em Paris, Allen chega às raias do escárnio ao retratar turistas americanos em viagem à Paris. A noiva Inez a reduz a uma cidade de compras e museus, e passa o filme ignorando sistematicamente os desejos do noivo e protagonista, Gil Pender. Os pais dela, Helen e  John, ricos e convencionais, só se interessam por quanto as coisas custam, quanto as pessoas ganham, e o que vão comer no jantar. O amigo, Paul, passeia por pontos turísticos pavoneando-se com uma típica “erudição de catálogo”, incapaz de sair dos lugares comuns — um típico e ególatra intelectual, atrás de belas mulheres e reconhecimento fácil. A câmera colhe a banalidade geral no nível dos gestos e expressões.

Somente Gil, alter ego de Allen, exprime sensibilidade para tentar desviar desse mundo achatado e previsível.  Como bom fatalismo, não deixa de comparecer a autoironia. O personagem trabalha em Hollywood escrevendo roteiros de cinemão, uma atividade lucrativa que ele quer abandonar. No meio do caminho da vida, ambiciona um mundo além da parede de mau gosto e aburguesamento. Romântico, sabe saborear uma caminhada na chuva e um disco antigo de Cole Porter. E flana por praças iluminadas, ruas tortuosas e formosos bulevares, atrás de uma inspiração que não vem.

No entanto, seu cotidiano banal o prende, está amarrado às relações vazias com a noiva e a profissão, falta-lhe um empurrão. Que acontece graças à fantasia cinematográfica, como em A rosa púrpura do Cairo. Gil descobre casualmente uma máquina do tempo e é arremessado a seu sonho de idade de ouro. Participa de festas da boemia ilustrada, frequenta a casa de intelectuais de Gertrud Stein, conversa com Scott Fitzgerald, Hemingway, Picasso. Apaixona-se por uma musa, vive um romance lírico. No melhor espírito modernista antiburguês, Gil parece ter encontrado o seu habitat e os seus iguais.

Mas aí a autoironia dá um novo passo. O sonho dourado se revela uma mistificação. Os personagens literários não vão além de caricaturas, vulgatas e citações. Afinal, o passado por si só não tem como reencantar o mundo, senão como nostalgia que nega o presente. A paixão, apenas mais uma ilusão. O romantismo se desencanta. Só então, ao resgatar uma honestidade vital plena, Gil está pronto para mudar de vida e tornar-se, sem ilusões, o que deseja para si. Agora, no seu mundo, como tem de ser. Conclui-se a inteligente parábola.

Curioso o modo como Meia noite em Paris tem sido incensado pela maioria da crítica e Allen, depois de 41 filmes, plantado num pedestal. Talvez, atrás da rotina patética de premières, festivais e holofotes, atrás das cortinas, ele esteja esboçando um sorriso maroto. Como diria o honestíssimo Hemingway, “se você obtém sucesso, é sempre pelas razões erradas; se você se torna popular, é sempre pelos piores aspectos de seu trabalho”.

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  • Felipe

    Acho que o público de uma forma geral já vai assistir o filme do diretor sem capacidade de criticar. Segunda vez que vou assistir o filme dele e presencio risadas descontroladas e aplausos que chegam a beirar o ridiculo e saio da sala com aquela sensação de vergonha alheia. Este último e aquele “Tudo pode dar certo” me passou a sensação que o grande poder do Wood Allen está na sua habilidade de hipnotizar uma classe média pseudo culta que fica perdida e perplexa com a sua “sagacidade” (principalmente nos diálogos). E nos dois filmes me distanciei desse estado hipnótico, e por um lado achei que estava num programa besterol de domingo com um bando de gente idiota rindo e admirando uma palhaçada e seu palhaço e na saída retomavam suas posturas embevecidos por um filme “genial”, levando o diretor às alturas sem nem saber explicar o porque daquela babação de ovo toda. Cansei do estilo do diretor!

  • Bruno Cava

    Felipe, em certo sentido, concordo com a sua percepção. Mas, analisando as obras dele, acredito que o diretor está inteiramente consciente desse efeito, e usa isso a seu favor. Ele atrai a platéia para criticá-la através de seus próprios defeitos.

  • geo abreu

    sei não, bruno. o filme é bacana e tal, mas acho que allen perdeu o fôlego. depois dessa onda de aceitar ‘vender’ cidades em seus filmes (vide o vicky cristina barcelona e a promessa de que ele filmaria no rio), o enquandramento que ele deu às cidades por onde passou recentemente (paris, londres, barcelona) mostrou o quanto vivia preso ao seu apê e ao seu bairro em nova iorque: tudo que ele consegue extrair de paris são os clichês mais desgastados… po, eu também queria entrar numa carruagem e parar num bar onde pudesse conversar com o buñuel. esse é literalmente o sonho de consumo mais tosco de uma intelectual de meia tigela (como eu).

    beijo.

    • Bruno Cava

      Mestra Geo,

      Sim, entendo esse ponto de vista. Woody coloca algumas referências superficiais, alguns clichês intelectuais, quase turísticos, e aí a pessoa faz questão de rir na sala de cinema para frisar que conhece, que é culta. O mesmo fenômeno quando algum gringo conta uma piada em inglês e a platéia ri mesmo quando a piada não tem graça, justamente para deixar claro menos que entendeu a piada, do que entende inglês. Por outro lado, o diretor gosta de sacanear escritores com grandes pretensões, e passou a obra desconstruindo essa visão solene de que há uma alta cultura, uma erudição romancista, por detrás da superficialidade da classe-média ligeiramente ilustrada. Penso nos tantos escritores e aspirantes a romancista que ele satiriza. Aqui você tem o Gil Pender que escreve roteiros de cinema, mas aspira a ser escritor “de verdade”, o mesmo caso do personagem feito por Keneth Brannagh em “Celebridades” (1998); ou então o jovem escritor interpretado por Jason Biggs em “Igual a tudo na vida” (2003); ou outro que também tenta emplacar a carreira de Escritor em “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (2009, pelo Josh Brolin). Se formos mais longe, vamos ver como ele critica essas pretensões grandiloquentes numa de suas primeiras comédias, “A Última Noite de Boris Grushenko” (Love and Death, 1975), uma farsa com personagens sisudos da literatura russa.Beijos.