Publicado em 3 de junho de 2011
E agora, 15M

Temos que retomar o prazer pelas ruas, seja em um passeio, seja em um ensaio de revolta. A velha lição do flâneur, do que vaga ou do que atira pedras simbólicas.” – Xico Sá, conclamando para a marcha da liberdade, na Avenida Paulista, 28/05/2011.

Nas últimas duas semanas, a revolução árabe atravessou o Mediterrâneo e uma nova praça Tahrir irrompeu nas cidades da Espanha. Em processo de tahrirzação, as praças imantaram a juventude, e ela exprimiu uma sonora recusa generacional, no que ficou conhecido como 15-M. Entenda-se por juventude não um conceito biológico; mas político, que contempla gente de todas as idades.

Nos últimos dias, as ocupações foram voluntariamente desmontadas. O movimento entrou por assim dizer num segundo estágio. Todo o trançamento de redes, reformulação discursiva e proliferação de afetos ficaram gravados no tecido social. Das ruas e praças, o movimento permeou capilarmente a sociedade.Tem tudo para vitalizar o âmbito político, artístico, militante e intelectual das esquerdas.

Alguns disseram que o 15-M nada significou de substantivo. Entrou por uma rua e saiu por outra, sem deixar legado. Efêmero e romântico, não apresentou projeto de poder, nem ofereceu alternativas ao capitalismo. Desorganizado, ingênuo, despolitizado. Para as vivandeiras, não bastaria evidenciar o desejo, a criatividade, a astúcia e a firmeza, a coragem de recusar o que está dado, de querer viver o máximo existencial, tudo aquilo que podemos e desejamos. Tampouco bastaria assinalar o fracasso completo do capitalismo nas últimas décadas, cuja crise permanente culminou na recessão global de 2008-09 e suas perdas socializadas. Nem, com efeito, bastaria engendrar uma tábua de demandas mínimas, ou rechaçar o socialismo esvaziado de Zapatero/ PSOE, e contestar a Lei Sinde e o controle das redes. Nada disso serviria. Exigem farisaicamente uma alternativa sistemática, exaustiva, peremptória.

Em primeiro lugar, há tempos não se discutia e vivia a política como nas ocupações do 15-M e Tahrir. E política no sentido forte: organização do trabalho e autoprodução de conceitos, métodos e ética. Em geral, essa crítica vem daqueles mais ligados aos partidos e instituições. Como se na instância partidária e nos órgãos de governo, formulação política fosse o assunto principal, — quando amiúde é o com que menos estão preocupados. Talvez quem melhor tenha respondido seja Antoni Domenech, em texto agudo. Em vez de respondê-la, ele voltou a questão contra os remetentes. Ora, não se deve perguntar qual a alternativa que o 15-M propõe ao capitalismo. Mas sim qual a alternativa você propõe ao 15-M. Tahrir e 15-M são o que de mais fecundo a jovem geração produziu. Ou isso, ou é preciso acatar que o único caminho reside na conversão em mercadoria das empresas e do estado?

15-M e Tahrir trazem uma lufada à esquerda encarquilhada e seus delírios de tomada do poder. Abriu-se uma porta e o ar fresco invadiu a sala abafada e empoeirada, repleta de fantasmas. O new-new deal que tanto se faz necessário não virá do estado, mas dos movimentos. O uso intensivo do espaço público transforma-o em espaço comum. A cultura proprietária e individualista dá lugar ao compartilhamento. Ressignifica a cidade e subverte os sentidos dados pelo capitalismo, — para quem as ruas não passam de lugares de passagem entre a casa e o trabalho, a casa e o shopping. Nesse sentido, as ocupações urbanas são superpolíticas. Isso tudo rasga um novo ciclo de lutas, ou seja, novas agregações políticas que se espraiam, como vírus, pelas redes concretas.

Como li numa sensacional crônica de enxameados no 15-M: “é preciso construir uma democracia à altura de tanta inteligência urbana, uma democracia 2.0″.

Quem sabe chegou a hora de concretizar o sonho de Spinoza por uma democracia absoluta.

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  • Thiago Quintella de Mattos

    Como de praxe, excelente artigo! Destaco esta frase Brunão “O new-new deal que tanto se faz necessário não virá do estado, mas dos movimentos.”

  • http://profiles.google.com/1.dan.jung Dan Jung

    Bruno, que texto bonito, sensato compromissado  e “autor” (desejante).

    Xico Sá, flâneur e as pedras simbólicas atiradas demarcam bem a impressionabilidade dos 15-M. Adorei a citação do desejo e coragem das vivandeiras e o máximo vivencial, o êxtase, seus devires possíveis.

    Os “delírios de tomada de poder da esquerda”… também acho que o frescor advindo do 15-M tenha se instalado no territorio existencial da esquerda. O lugar comum ultrapassou a noção da rua e os seus hiatos, subvertendo/transformando sua identidade no contorno (campo de ação) onde “há” ainda subjetividade nos sujeitados, acampados no sol, ao relento axiomático, da rua mãe, própria e prazerosa, do itinerante.

    Gostei muito do texto do Domenech…

    …do “new new deal”, este acordo que emergirá do movimento na contramão da reforma, da recuperação (do velho keynesiano), da reprodutividade. Desmontando, “trançando as redes”, “reformulando discursos” e, principalmente “proliferando afetos”. Adorei, cara!

    abs